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Paralelamente à discussão da identificação de uma cor local em seus textos aparece também, salpicada entre os tecidos de recepção dos quatro autores, a sugestão de contato com escritores e propostas estéticas europeias. Entre as referências mais recorrentes, e sugeridas em relação aos quatro escritores, aparecem os nomes de Kafka,

Proust e Joyce, bem como as estéticas “psicologizantes” de certos romances europeus.

A partir dessas relações, cuja legitimidade é ponto de conflito na recepção crítica, é possível sinalizar elementos internos às obras dos quatro que permitem sua aproximação tanto no que diz respeito a certas características estéticas, quanto naquilo que os aparta de seu contexto imediato de escrita.

As associações às quais suas obras se oferecem a partir desse mesmo corpus crítico formam quadros superpostos que indicam características que desfiam seus romances do tecido geral e, ao mesmo tempo, sugerem e possibilitam uma amarração entre eles.319 Nesse sentido, se a alusão a Kafka pode ser relacionada a um caráter introspectivo dessas obras e talvez também ao fato de que sejam romances “sem saída”, a referência a Proust pode sinalizar o trabalho que estabelecem com o tempo e que se

319 Outras referências também aparecem nas leituras críticas, sobretudo em relação aos textos sobre Macedonio Fernández e Juan Emar. No entanto, os nomes de Kafka, Proust e Joyce, bem como a

relação com os “romances psicológicos” são elementos que aparecem igualmente na crítica sobre os

realiza por fora da noção de linearidade contínua. Do mesmo modo, o nome de Joyce aponta para o encaminhamento da narrativa que contesta os alicerces de sua obviedade,

e a associação aos romances “psicológicos” ressalta um trabalho com os personagens

que escapa à dimensão descritiva para desembocar em posturas reflexivas e analíticas que colaboram para a estrutura descontínua dos romances. É evidente que essas são apenas sugestões de relações superficiais entre os escritores. O que se pretende aqui é, mais que analisá-las, apontar para sua recorrência na crítica aos quatro autores e para a possibilidade de conceber tal recorrência tanto como sinal de características comuns às obras, quanto como outro instrumento de apropriação pela crítica.

Para citar um exemplo dessa relação na recepção de Macedonio, um artigo de Luisa Sofovich, então viúva de Ramón Gómez de la Serna, apresenta alguns textos de

Macedonio como “parangonable a los más kafkianos de Kafka”.320

No caso de Felisberto, o artigo de Alberto Zum Felde parte da perspectiva de conferir uma localização à sua produção literária:

Claro está que la modalidad de Hernández no es un fenómeno de generación espontánea; se relaciona con todo el vasto movimiento estético y científico más característico de nuestra época: el surrealismo y la psicoanálisis. Estos cuentos son, en cierto modo, – más exactamente, a su modo – superrealistas y psicoanalíticos. Pero sería un grave error y una grave injusticia, suponer que parten de un preconcepto teórico, didáctico, y que tratan de aplicar al relato ideas librescas. Tampoco sería exacto admitir que esa modalidad es reflejo y sugestión de literaturas foráneas.

[...]

Ciertamente no se descarta alguna influencia intelectual por afinidad, de escritores contemporáneos con Kafka, que es con quien nuestro escritor tiene mayores puntos de contacto.321

Da mesma forma, o repertório europeu é evocado como “familiar” à obra de Felisberto, como cenário de afinidades. Com isso, o escritor uruguaio é incluído em um movimento mais amplo do campo literário, não como reflexo, mas como participante de uma mesma atmosfera intelectual.

Em um gesto diferente, vale citar outra passagem do prólogo de Neruda ao livro

de Juan Emar, na qual se lê: “Ahora que los corrillos se gargarizan con Kafka, aquí

tenéis nuestro Kafka, dirigente de subterráneos, interesado en el laberinto, continuador de un túnel inagotable cavado en su propia inexistencia no por sencilla menos

320 SOFOVICH. Macedonio: espiral nueva de humorismo con estilo porteño, paradoja, burla e inocencia.

321

ZUM FELDE. Recorte do jornal La Mañana, 20 mar. 1949, consultado no “Fondo Felisberto

misteriosa”.322

Nesse caso, o nome de Kafka é evocado para conferir a importância similar a Juan Emar no meio literário chileno.

O mesmo parece ocorrer no artigo de Raúl Pérez Torres sobre Pablo Palacio,

quando afirma que “Macedonio y Kafka serían sus únicos parientes literarios”.323

Formulada na década de 1980, essa colocação parte de outro contexto de significação e aponta também para outro elemento: o estabelecimento de referências entre os escritores que anteriormente eram percebidos isoladamente. Assim, na medida em que esses escritores excêntricos – que eram considerados como “ilhas” no início do século – são revisitados a partir dos anos 1960 e 1970, passam a assumir outros lugares simbólicos do campo literário e a ser convidados para se iluminarem entre si.

No que concerne às políticas de apropriação e significação dos autores e obras no campo literário, a evocação do arsenal de escritores externos aparece como outra maneira de classificá-los no campo literário. Essas associações são estabelecidas pela recepção no movimento de valorizar os escritores que, não encontrando par na América Latina, se mostrariam próximos às tendências europeias e a autores cuja legitimidade parece ser inquestionável e cujas inovações literárias são reconhecidas como movimentos definitivos na dinâmica histórica da literatura. Assim, esses autores singulares são localizados em uma extensão mais ampla do campo literário, para além dos nacionais ou latino-americanos. O patrimônio desse campo literário mais extenso é mobilizado pela crítica para conferir legitimidade aos quatro.

Paralelamente a esse movimento de legitimação e localização dos excêntricos latino-americanos em movimentos literários consagrados, essa vinculação é também evocada pela crítica desfavorável aos autores e obras em questão. Nessa perspectiva, o repertório europeu é também mobilizado para contrastar sua grandeza com a pequenez do escritor latino-americano, no caso de Felisberto Hernández. Em artigo de 1961, Emir

Rodríguez Monegal considera que falte a Felisberto “estatura y profundidad” para que se pareça aos “ilustres modelos que se invocan”, como Kafka e Proust.324

Em relação a Felisberto, tanto quanto a Palacio e Emar, esse repertório é evocado para indicar alguma carência de autenticidade ou ausência de sentido identitário ou patriótico em seus escritos. Nesse sentido, o desvio da recepção crítica de Macedonio em relação aos três escritores é evidente. A identificação de um tom criollo em seus textos atravessou toda

322 NERUDA. Prólogo a Diez. 323

PÉREZ TORRES. Respuesta a una encuesta, p. 113. 324 RODRÍGUEZ MONEGAL. Felisberto Hernández.

sua recepção e parece tê-la salvado das críticas dessa natureza. A vinculação com escritores europeus aparece sempre como acréscimo a sua legitimação e não como contraste a uma identidade nacional.

No conjunto da crítica legada aos quatro escritores, o vínculo com o contexto europeu surge como um núcleo de tensão que parece, ao mesmo tempo, recusar e fomentar a consolidação da imagem de isolamento de suas obras. Recusar, na medida em que parte do intuito de identificá-los pelo estabelecimento de afinidades, e fomentar, pois reforçam a ideia de que sejam singulares no contexto latino-americano. Sendo assim, outro gesto envolvido na questão da ausência ou presença de influências e afinidades estrangeiras – e que aparece de modo similar em relação à recepção dos quatro autores – é o de negação das influências, a fim de valorizar a autenticidade desses escritores.

Ainda no interior desse mesmo núcleo de discussão, o aspecto singular, atípico

ou “raro” desses escritores é valorizado como signo de autenticidade. Recusar essas

proximidades literárias consiste, então, em movimento necessário para essa valorização. Nesse sentido, em resenha a Las Hortensias, Ángel Rama escreve que Felisberto

Hernández significou “una modificación sustancial en nuestra narrativa” e que “adjudicarle parientes postizos, Kafka, Proust y Joyce”, seria menosprezar sua

originalidade.325

Luis Alberto Sánchez, em Proceso y contenido de la novela hispanoamericana,

de 1953, diz que “sería injusto olvidar al ecuatoriano Pablo Palacio, quien, sin conexiones imitativas, desarrolló un ingenio y un estilo fantástico”.326

No mesmo sentido, César Miró escreve a respeito de Juan Emar:

Me parece que no hablaría de Proust, no de Joyce, ni del marxismo, ni del sicoanálisis, elementos bien cómodos para localizar, sin más trabajo, cualquiera actividad intelectual de nuestro tiempo. No agregaría el nombre zarandeado de Zola acusado con exceso de naturalismo y sabría olvidarme de Dostoiewsky y André Gide. Porque el caso no se presta para plantear semejanzas, ni andarse aventurando por las ramas de supuestos árboles genealógicos literarios. Ese atrevido Juan Emar no se parece a nadie, no viene de nadie, no se trae manuales, ni catecismos debajo del ágil brazo y su tono es orgulloso, de originalidad. Juan Emar es hijo de Juan Emar y padre de sí mismo.327

325

Texto de Ángel Rama publicado na Sección Literaria do semanário uruguaio Marcha, consultado no

“Fondo Felisberto Hernández” do CRLA – Archivos. O texto figura como recorte, sem referência de

data. 326

ANDERSON IMBERT. Historia de la literatura hispanoamericana, p. 265. 327 MIRÓ. Miltín, antinovela y sátira social.

Nessa colocação de César Miró outro fator que fica patente, além da recusa de possíveis influências ou semelhanças que localizem Emar no campo intelectual, é a observação da recorrência desse movimento pela crítica. A evocação do repertório europeu figura como uma comodidade usual da qual a crítica literária latino-americana lançaria mão frequentemente para a legitimação ou a localização de novas propostas literárias.

Um terceiro gesto, curioso, associa alguns desses escritores às tendências europeias a partir da imagem de precursores indiretos. Isso ocorre tanto com Macedonio

Fernández quanto com Juan Emar, que em um artigo chega a ser nomeado “un precursor chileno de la nueva novela francesa”:

cierta vertiente suya podría señalarse como precursora del “nouveau roman” francés, siendo, en su aspecto general, una producción inclasificable dentro de cualquier género literario, pues la narración – si es que de narración novelesca se trata – se encuentra interrumpida a cada paso por otros relatos, cuando no por reflexiones que rompen, hasta el infinito, la unidad del texto.328