2.3 Atıksu Arıtımında Kullanılan Biyolojik Proseslerin Temelleri
2.3.4 Biyolojik Fosfor Giderimi
Entre as promessas e anúncios que constituem o Museo desde antes do início de sua redação, passando pelo subtítulo de primera novela buena, até os inúmeros prólogos que a constituem, algumas dizem respeito ao leitor:
Novela cuya existencia fue novelesca por tanto anuncio y desistimiento de ella, y será novelesco un lector que la entienda. Tal lector se hará célebre, con la calificación de lector fantástico. Será muy leído, por todos los públicos de lectores, ese lector mío.185
Como parte do projeto literário do Museo, portanto, está a inclusão do leitor nas teias fictícias do romance. Não como agente externo, que aciona a mobilização dos
personagens e o funcionamento do texto, mas, nos termos “leitor novelesco”, “leitor fantástico”, “célebre leitor”, definido como aquele que se caracteriza pelo romance que
lê. Nesse sentido, é ensaiada uma dedicatória que aponta a preocupação de caracterizá- lo:
Ensayo el siguiente prólogo. Y también una palabra alemana nueva en
español que he consultado con Xul Solar en su taller: “Idiomas en
compostura”. Es un adjetivo compuesto, pero nuevo, como los botines compuestos.
Al “por-todos-nosotros-artistas-servido-de-ensueño” Lector.
Al “tan-soñado” Lector; Al “que-el-autor-sueña-que-lee-sus-sueños” Lector. Al “que-el-arte-escritor-quiere-real-mas-sólo-real-lector-de-sueños” Lector. A “lo-único-real-que-el-arte-quiere”, el lector de sueños.
A “lo-menos-real, el que sueña sueños de otro, y más fuerte en realidad, pues
no la pierde aunque no lo dejan soñar, sólo re-soñar”.
Creo haber individualizado a quien me dirijo: al lector, y haberle conseguido la adjetivación total de su ser, después de tanta fragmentaria, y algunas falsas.
“Querido” lector no adjetiva a éste sino al autor, etcétera.186
Nesse mesmo “Prólogo a lo nunca visto”, o leitor é descrito na possibilidade de
ler o romance antes mesmo que seja escrito: “Si tienes una pena igual a la mía, tú que
me has leído antes que escribiera”.187
Desse modo, o leitor participa da criação da obra e a integra antes de sua materialização. Na dimensão impossível do romance, seus lugares e funções são intercambiáveis e escorregam entre si. Personagens determinam a estrutura do texto, como ocorre na exigência do Presidente de que o romance seja
185 FERNÁNDEZ. Museo de la Novela de la Eterna. Ed. Crítica/Colección Archivos, p. 14. 186
FERNÁNDEZ. Museo de la Novela de la Eterna. Ed. Crítica/Colección Archivos, p. 45-46. 187 FERNÁNDEZ. Museo de la Novela de la Eterna. Ed. Crítica/Colección Archivos, p. 46.
incongruente e descontínuo, ou na solicitação do “personaje antes de estrenarse” de que não contenha “final hermético”. Autor e leitores tornam-se personagens por absurdo, e o
leitor figura na obra no momento ainda de sua concepção. Essa maleabilidade, por sua vez, abre-se como possibilidade de sedução do leitor. Nesse sentido, o romance – agora ele mesmo como personagem – reflete sobre sua condição e oferece mais uma definição
do leitor: “vivo mi día delante del lector. El lector es, por definición, un simpatizante y
yo puedo serle interesante en lo que muestro de mi dudar y variar”.188
Se o objetivo último da “prosa de personagens”, reconhecido como a “genuína”
função da literatura, é funcionar como armadilha para o leitor e fazer com que este escorregue para o texto sentindo-se personagem, questionando o caráter de sua existência, é necessária, como sua condição de possibilidade, a presença de leitores. Assim, em busca de público, o autor gostaria que seu romance começasse com um choque ou com uma freada brusca:
Convendría a una novela que quiera público – la mía se aburre conmigo, quisiera que lleguen visitantes, o salir a conversar, le gustaría ser leída – empezar su narrativa por un choque o frenada. El público se junta al punto en tal número que ya quisieran algunos libros tener el de una frenada común.189
De alguma maneira, esta é a estratégia usada em Papeles de Recienvenido y
Continuación de la Nada, que se inicia com o “Accidente de Recienvenido”. Caído na
rua, o Recienvenido, atordoado por haver levado uma pancada forte na cabeça, desperta,
cercado por um “cinturón zoológico suburbano” formado por curiosos transeuntes que,
minutos antes, se encontravam apressados e ocupadíssimos com seus afazeres. No
Museo, por sua vez, o autor confessa que, desde que começou a escrever, inveja o
público dos acidentes e batidas, e comenta: “A veces sueño que la novela tuvo en ciertos
pasajes tal agolpamiento de lectores que obstruían la marcha de la trama con riesgo de que los trances y catástrofes del interior del libro aparecieran en la delantera de él, entre
los atropellados”.190
Entre as diversas tipologias de leitores previstos e desejados pelo Museo, apenas
um é descartado: “de Personajes descartados puede hacerse una lista; de Lectores sólo
un género descarto: el lector de desenlaces; con el procedimiento de dar sustanciado todo el relato y final anticipadamente ya no se le verá más por aquí.”191 Por isso, o
188 FERNÁNDEZ. Museo de la Novela de la Eterna. Ed. Crítica/Colección Archivos, p. 52. 189 FERNÁNDEZ. Museo de la Novela de la Eterna. Ed. Crítica/Colección Archivos, p. 31. 190
FERNÁNDEZ. Museo de la Novela de la Eterna. Ed. Crítica/Colección Archivos, p. 31. 191 FERNÁNDEZ. Museo de la Novela de la Eterna. Ed. Crítica/Colección Archivos, p. 62.
enredo é antecipado em um dos prólogos, pois se o valor artístico do romance reside no processo de sua elaboração e tal processo, no caso do Museo, se desenvolve em uma estrutura fragmentária, excessiva, de fluxo e refluxo, o leitor de desenlaces é uma categoria de leitor que jamais poderia se satisfazer com o romance. Mais ainda: é uma categoria de leitor que jamais poderia satisfazer o romance. Assim, o autor do Museo dirige-se a ele dizendo que “si efetivamente andas por mi libro, yo ya sé que no tengo
nada que esperar”, “no tengo esperanza”.192
O leitor de desenlaces, também chamado de
“leitor seguido”, constitui-se como ameaça de fracasso para o romance e sua proposta
teórica. O plano de conquistar o leitor, “mareado” e distraído, não abarca essa modalidade que se interessa apenas no desenvolvimento teleológico da narrativa, sem se distrair e, com isso, sem escorregar para dentro do texto e duvidar de sua existência.193 Assim, o leitor de desenlaces trai a condição mesma de eternidade do romance ao resistir na lucidez de um suposto desenvolvimento da trama, sem se animar a caminhar pelos vai e vens do labirinto, sem se deixar atordoar e confundir-se com um personagem.
À parte esse tipo de leitor, todos os demais são bem-vindos. Nesse sentido, um
prólogo saúda o “leitor de vitrines” como quem pode desfrutar dos acontecimentos que
prontamente se iniciariam na capa.194 Ao menos o título alcançaria a fugacidade dessa
modalidade “leitor de vitrines”. Contudo, ainda que muitas categorias de leitores sejam
aceitas e inclusive desejadas pelo romance, existe a formulação de um tipo ideal de
leitor: o “leitor salteado”. A este leitor a obra se dedica.195
Para transitar entre os fragmentos do Museo, para circular na desordem de seus excessivos prólogos e lidar
com os personagens “apenas entrevistos”, é convidado esse tipo especial de leitor.
Habituado a saltear em suas leituras, de modo descontínuo e lendo nas entrelinhas, o leitor salteado seria o mais propenso a fazer funcionar o romance em seu ponto ótimo, ideal.
192Em seguida a tais comentários, é registrada “68 bajas de lectores” (FERNÁNDEZ. Museo de la Novela
de la Eterna. Ed. Crítica/Colección Archivos, p. 121).
193Em “Para una teoría de la novela”, Macedonio refere-se a sua proposta teórica como uma “teoría
contra los desenlaces”. Em seguida, descreve a sensação que tal teoria se propõe a gerar no leitor: “hecho vuestro espíritu por mil páginas de lectura a creer lo fantástico, tendréis el escalofrío de si no
seréis vosotros, que os creéis al contrario vivientes, un ‘personaje’ sin realidad” (FERNÁNDEZ. Teorías, p. 257-258).
194 A partir do extenso título proposto: Museo de la Novela de la Eterna y la Niña de Dolor, la Dulce
Persona de un amor que no fue sabido (primera novela buena).
195
Conforme registrado nas primeiras linhas do romance: “Dedicado al Lector Salteado por Macedonio
O leitor salteado é concebido como antagônico do leitor seguido ou de desenlaces. Se este quer buscar um fio linear em suas leituras e alcançar o desenlace da história contada como objetivo final de sua atividade leitora, àquele interessa mais folhear, de maneira mais ou menos desordenada, montando um livro próprio em seu
saltear. Contudo, ao se deparar com a “literatura inseguida” do Museo, esse habitual
leitor salteado terminaria por ler seguido, pela primeira vez, em seu saltear. Assim, o
autor afirma: “Al lector salteado me acojo”, e explica por que seria este seu tipo ideal de
leitor:
Quise distraerte, no quise corregirte, porque al contrario eres lector sabio, pues practicas el entreleer que es lo que más fuerte impresión labra, conforme a mi teoría de que los personajes y los sucesos sólo insinuados, hábilmente truncos, son los que más quedan en la emoción y en la memoria.
Te dedico mi novela, Lector Salteado; me agradecerás una sensación nueva: el leer seguido. Al contrario, el lector seguido tendrá la sensación de una nueva manera de saltear; pero trato de no pensar en que me ocurrirá el inverosímil lector seguido.196
Com isso, é apresentado o vínculo entre a concepção de personagens – entrevistos – e a de leitor – que pratica a “entreleitura” –, planejadas para se articularem no procedimento de significação da obra. É apresentada ainda a consequência da leitura seguida que resulta da combinação entre o leitor salteado e a estrutura, também
“inseguida”, do romance. O leitor salteado é, pois, aquele que completa o sentido da
obra ao estar apto a lidar com sua estrutura estilhaçada e sua concepção de personagens. Paradoxalmente, é também o leitor salteado aquele que se imagina que leia seguida e continuamente uma obra tão fragmentária:
Se observa que los lectores salteados son, lo mismo, lectores completos. Y también, que cuando se inaugura como aquí sucede la literatura salteada, deben leer corrido si son cautos y desean continuarse como lectores salteados. Al par, el autor descubre sorprendido que aunque literato salteado, le gusta tanto como a los otros que lo lean seguido, y para persuadir de ello al lector ha encontrado ese buen argumento de que aquéllos leen todo al fin y es ocioso saltear y desencuadernar.197
O caráter interrompido do romance coloca, assim, o leitor salteado em situação
de desconcerto, pois, para manter “desunida” e salteada a leitura, deve ler seguidamente
o livro que salta por si mesmo, na profusão de prólogos e interrupções. Em relação a isso, o autor desculpa-se:
196
FERNÁNDEZ. Museo de la Novela de la Eterna. Ed. Crítica/Colección Archivos, p. 119. 197 FERNÁNDEZ. Museo de la Novela de la Eterna. Ed. Crítica/Colección Archivos, p. 25.
Disculpa por presentarte un libro inseguido que como tal es una interrupción para ti que te interrumpes sólo y tan incómodo estás con el trastorno traídote por mis prólogos que el autor salteado te hacía figurarte y soñar sobresaltado que eras lector continuo hasta dudar de la inveterada identidad del yo salteado.198
O romance inseguido apresenta-se, então, como uma dimensão da cilada proposta pelo Museo. Se, por um lado, seu objetivo é conquistar o leitor e fazer com que se torne personagem do romance, por outro, ao convocar o leitor salteado para ler um
romance com o mesmo ritmo “salteante”, termina por atracá-lo em uma leitura mais bem “encadernada”: “Te he hecho lector seguido gracias a una obra de prefacios y
títulos tan sueltos que has sido por fin encuadernado en la continuidad inesperada de tu
leer”.199
Nesse procedimento, a obra apresenta, na sua própria constituição textual, o saltear da leitura. Apresenta também um lugar de descanso para o leitor, ao colocar
páginas em branco para que possa caminhar, como a página 126 (“esta página es para que en ella se ande el lector de antes de leer en su muy digna indecisión y gravedad”).
Como esses, são vários os momentos nos quais o autor se dirige ao leitor, expondo sua teoria, explicando o funcionamento esperado do Museo, pedindo opiniões e sugerindo ritmos de leitura. Algumas vezes, os personagens também se reportam diretamente ao leitor, como no Capítulo V, quando Dulce Persona pede ao leitor que se
aproxime: “Lector, necesito tu calidez, tu aliento sobre esta página de desaliento. Inclínate más”.200
Em outra passagem do mesmo capítulo, o autor explicita sua proposta, e alguns leitores se apresentam simpáticos ao objetivo do Museo:
Autor: No debo decirle al lector: ‘Éntrese a mi novela’, sino indirectamente
salvarlo de la vida. Yo busco que cada lector entre y se pierda a sí mismo en mi novela; ésta irá asilando, encantando lectores, vaciándolos. El primer lector que se desterró de sí mismo y cayó al aire delgado de mi novela (esto ocurrió en la lectura de la página 14) era un estudiante de veintitrés años que volvía suavemente las hojas, trabajando fuertemente su pensamiento en seguirme e identificarse. Leía fumando y a veces caía a mis páginas la ceniza calentada que me inquietaba: en cierto momento cayó él, tibio también, aliviado, en lánguido olvidar. Quería mucho a una señorita de molesta coquetería y vaivenes, pero cariñosa. Estaba cansado.
Lector: ¿No soy yo?
198 FERNÁNDEZ. Museo de la Novela de la Eterna. Ed. Crítica/Colección Archivos, p. 26. 199
FERNÁNDEZ. Museo de la Novela de la Eterna. Ed. Crítica/Colección Archivos, p. 26. 200 FERNÁNDEZ. Museo de la Novela de la Eterna. Ed. Crítica/Colección Archivos, p. 169.
Autor: Tal vez. Siento pasos leves y una traviesa sombra en esta página.
También tú estás, Bienvenido.
Simple: Habilitaremos en ‘La Novela’ un pabellón de los lectores ganados a
su encantamiento.
Nuevo lector: Yo espero nerviosamente mi turno de descender a páginas de
la novela. ¿No lo estoy ya?
Quizagenio: ¿De veras, lector, eres quien lee, o ahora eres leído por el autor,
puesto que te dirige la palabra, habla a la representación de ti que tiene y te sabe como se sabe a un personaje?
Lector: Nada me interesa quién sea; me basta este delicioso mareo que me
entra en los ámbitos sutiles de la novela.201
Assim, o leitor encerra um dos ciclos do romance. Figurando como personagem, integra-se ao Museo ao aceitar o jogo vertiginoso das identidades e dos papéis. A elaboração de personagens que se sabem personagens e estão conscientes de seu trabalho funciona como catalisador dessa confusão de identidades. O questionamento de Quizagenio serve, pois, como um dos exemplos dessa função catalisadora e, como ele, outros se apresentam ao longo do livro. O leitor, por sua vez, ao ser convidado para entrar no texto, é convidado também a exercer um papel criativo na estruturação da
obra. Sem se organizar a partir de um desenvolvimento linear, destituída de um “final hermético” e abrindo-se em “cortes horizontais”, a obra constitui espaços de intervenção
criativa para seu leitor ideal – que é “sábio” e se dispõe a ler nas entrelinhas.
Na função literária de conquistar o leitor há, portanto, uma aposta na disposição deste leitor em lidar com a nova proposta do gênero. Ao mesmo tempo, com isso se formula certa pedagogia da leitura, informada para lidar com as novas proposições estéticas encarnadas no Museo. Juntamente com os elementos que o romance se propõe a inaugurar, apresenta-se também o convite a uma modalidade de leitor condizente com
a arquitetura labiríntica e “inseguida” do texto. O leitor almejado pelo Museo é
orientado, pois, a lidar com as incongruências da narrativa, a ler nas entrelinhas e a circular entre os personagens entrevistos, deixando-se caracterizar pelo romance que lê.