Em entrevista concedida em 2008, o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos asseverou:
Eu acho que está faltando um bom partido conservador no Brasil, que seja mais criativo, mais inventivo, porque o conservadorismo existe em toda sociedade e está mal representado no Brasil, meio perdido em vários partidos. Certamente, o DEM é um partido conservador, mas que não é aceito pelos conservadores, que não se espelham no DEM. Por isso ele está em um período difícil, de decadência eleitoral. Precisamos de um partido conservador aceito pelos conservadores, para dar um pouco de equilíbrio. Os conservadores estão reativos, e isso não é bom porque acomoda os liberais progressistas, acomoda a esquerda. Qualquer migalhinha é suficiente. Não pode ser assim. Aí, o país vai muito devagar. Precisa haver uma contraparte no mesmo nível, que desafie e seja competitiva, que obrigue a esquerda a melhorar também. Para o político que está no poder, está ótimo, mas não é bom para o país, política e economicamente (SANTOS, 2008).
Além de chancelar o juízo de que não existe um partido autenticamente conservador no Brasil que seja reconhecido pelos próprios conservadores, a insuspeita conclusão de Santos denuncia um problema mais vasto: a eventual lacuna da representação política do conservadorismo, que, segundo o cientista político, "existe em toda a sociedade", macula o
142 próprio princípio democrático da representação e imobiliza a discussão política, em detrimento dos anseios do conjunto da população.
Com efeito, já foi demonstrado que apelos de orientação conservadora não estão confinados à minoria do eleitorado brasileiro, e se a representação política das minorias é essencial para a justeza da democracia, a transposição das demandas de camadas expressivas à pauta das instituições é ainda mais imperativa para a manutenção da sua legitimidade. Ainda que o problema da "tirania das maiorias" mereça ressalvas veementes desde que Tocqueville publicou A Democracia na América, a sadia operação da democracia parlamentar também depende de que haja o maior grau possível de accountability entre a maior parte possível dos representantes e representados, conforme nos adverte a clássica argumentação de Dahl (1956). Se ideias conservadoras estão presentes na mentalidade da população e não existem partidos políticos fortes (e não apenas parlamentares) capazes anunciá-las sistemática e convictamente, a responsividade é perigosamente posta em xeque.
Paralelamente, a ausência de grandes partidos conservadores no sistema político brasileiro suscitaria, na visão de Santos, não apenas algum esvaziamento ideológico, mas o próprio esmorecimento/imobilismo da competição política e do debate entre alternativas fundamentalmente divergentes, afetando a qualidade e o aperfeiçoamento das políticas públicas. Ademais, esta configuração conduziria ao comprometimento de outro elemento capital: o da alternância de poder. Se apenas famílias políticas mais ou menos similares disputam e obtém os postos centrais de poder, o câmbio real não ocorre de fato e a linha mestra das administrações sofre reduzidas reavaliações (o que ensejaria uma curiosa labuta pela preservação da ordem entre as esquerdas).
Portanto, à luz das palavras de Wanderley Guilherme dos Santos, procurar-se-á pôr em exame a hipótese de que o sistema político brasileiro contemporâneo estaria produzindo um vácuo representativo na esfera mais alta da representação política, o que se perenizaria a partir do virtual consenso de esquerda instalado em seu aparelho partidário. Para tanto, importa avaliarmos o histórico das eleições presidenciais ocorridas no Brasil desde 1994143 e o comportamento dos eleitores perante tais eventos.
143Adotamos como marco inicial as eleições de 1994, uma vez que o pleito anterior, ocorrido em 1989, refletia
um sistema político ainda em fase de implantação. Além de apresentar nada menos que vinte e dois candidatos à presidência da república, aquela eleição continha vários partidos hoje inexistentes (inclusive o PRN, sigla do vitorioso Fernando Collor) e alianças circunstancias que atualmente seriam impensáveis (é o caso do apoio do
143 Em 1994, lançaram-se à disputa oito candidatos: Fernando Henrique Cardoso (PSDB/PFL/PTB), Luiz Inácio Lula da Silva (PT/PSB/PCdoB/PSTU/PCB/PPS/PV), Enéas Ferreira Carneiro (PRONA), Orestes Quércia (PMDB), Leonel de Moura Brizola (PDT), Espiridião Amin (PPR), Carlos Gomes (PRN) e Brigadeiro Hernani Fortuna (PSC). Naquele contexto, o Brasil ainda cicatrizava as feridas geradas pelo impeachment do presidente Fernando Collor e pelo trauma da escalada inflacionária da década de 1980. Propondo estabilidade política e econômica, Fernando Henrique Cardoso vale-se de seu papel no sucesso do Plano Real como argumento principal de campanha e vence as eleições ainda em primeiro turno, com uma ampla margem de votos (34.364.961 votos, ou 54,27% dos votos válidos144).
A eleição de 1994 foi a última em que a classe política brasileira exibiu um candidato potencialmente conservador, o que só se repetiria vinte anos depois, com o candidato Pastor Everaldo (PSC). Trata-se Esperidião Amin, que construiu sua carreira política no Estado de Santa Catarina, onde colaborou com o regime militar e foi nomeado prefeito da capital e governador145. Contudo, o candidato concorreu pelo PPR (Partido Progressista Renovador, atual PP), sigla que ostentou no batismo o sentimento da "direita envergonhada", e, conforme já assinalado, jamais adotou um discurso francamente conservador nos manifestos que publicou. Acompanhando essa tendência, Amim "não se definiu ideologicamente" (PORTO e GUAZINA, 1999, p. 25) durante a campanha.
Com efeito, a análise dos programas do candidato veiculados no Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE) revela que seus temas de campanha, conquanto majoritariamente focados em propostas genéricas, por vezes inclinaram-se mesmo para uma retórica comumente empregada pelas esquerdas: "Amin [...] afirmou ainda que iria criar incentivos aos microempresários, incluir os excluídos, dar uma atenção especial aos ‘pequenos’" e "realizar uma verdadeira reforma agrária", procurando simultaneamente descolar-se do regime militar ao declarar-se como "o primeiro governador a apoiar o movimento" das Diretas Já (idem, p. 25). Nesse sentido, é possível que tais opções tenham ofertado sua contribuição para que Amim amargasse a antepenúltima posição nos resultados
PSDB ao candidato no PT no segundo turno). É claro que antes de 1989, em virtude do regime militar, não tivemos eleições diretas para a presidência da república.
144Os dados referentes a todas as eleições analisadas no presente capítulo foram retirados do repositório de
dados do site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
145As capitais dos Estados eram classificadas como "zonas de segurança nacional” pelo regime, que sob esse
144 eleitorais, com apenas 2,75% dos votos válidos. Não obstante, para além da notória indiferenciação ideológica,
O candidato do PPR não conseguiu se apresentar como a encarnação mais conseqüente dos projetos da direita no Brasil, uma vez que os setores que se sentiriam representados preferiram apoiar a coligação PSDB-PFL-PTB, mais interessados em eficácia do que em coerência. No próprio partido de Amim, as dissenções foram crescendo ao longo da campanha (MIGUEL, 1997, p. 134).
À parte do candidato do atual PP, algumas direitas que porventura estivessem mais interessadas em "coerência" do que em "eficácia" poderiam ter sido representadas por Enéas Carneiro. Constituindo um fenômeno ainda insuficientemente estudado pela Ciência Política no Brasil, Carneiro e seu PRONA mereceram a terceira posição na disputa (4.671.457 de sufrágios – 7,38% dos votos válidos), superando políticos históricos como Leonel Brizola e Orestes Quércia, além do próprio Esperidião Amim. Carneiro, um típico outsider, surgiu abrupta e meteoricamente no panorama político durante a eleição de 1989, celebrizando-se um tanto caricaturalmente através da divulgação viral de sua figura excêntrica146 e do discurso acelerado imposto pelos insultuosos quinze segundos dos quais dispunha no HGPE. Contudo, elementos que se nutrem de ingredientes alheios ao mero folclore político não demoram a se revelar:
Em 1994, os óculos, a barba e o bordão continuavam os mesmos. Mas Enéas articulava um discurso fortemente direitista, que combinava nacionalismo exarcebado, defesa da ‘ordem’ e exaltação da figura do líder (ele próprio). Alguns podem ter votado na memória do Enéas folclórico da eleição anterior. Mas sua votação surpreendente é indício de que esse discurso cativou uma parcela significativa do eleitorado (MIGUEL, 1997, p. 137).
A retórica fascistizante, com efeito, é um primeiro e isolado sinal de que a direita brasileira, em sua corrente antidemocrática e ultranacionalista, inicia sua libertação da "vulgata marxista" imperante. A ousadia possivelmente tenha adicionado algum volume à votação de Carneiro, que funcionaria como representante do antissistemismo inerente a uma direta desprovida de qualquer representação política no Brasil147. Assim, se o efetivo influxo do carisma de Enéas Carneiro se torna um componente complicador, não é de todo anômalo especular que uma parte dos 4,6 milhões de votos obtidos pelo PRONA em 1994 signifique
146Envergando óculos de elevado grau e barba longa, Enéas finalizava suas breves e enfáticas intervenções com
a sentença "Meu nome é Enéas!”, bradada em alto som. Essa imagem tornou-se rapidamente objeto de atenção popular.
147Os esforços do PRONA para cooptar grupos de extrema-direita brasileiros marginalizados pelo sistema
político é tema que igualmente merece maior investigação. Contudo, Neto (2011) aponta indícios de contatos entre membros do partido e grupos neointegralistas, bem como relações entre Enéas e as chamadas
145 que uma corrente da direita minoritária finalmente encontrara seu canal de expressão política148.
Mas à opinião pública brasileira eventualmente conservadora não foi apresentado nenhum representante declaradamente simpático às suas bandeiras na eleição presidencial de 1994. À medida que Amim e o PPR abdicaram de empunhar os valores conservadores e que Enéas e o PRONA incorporariam tão somente as aspirações da direita autoritária, antissistêmica e exacerbadamente nacionalista, o conservadorismo à brasileira ficou praticamente órfão nas eleições presidenciais149. Logo, se os setores conservadores que se "sentiriam representados preferiram apoiar a coligação PSDB-PFL-PTB" (MIGUEL, 1997, p. 134), essa escolha se deu mais por necessidade do que por abundância de opções, de modo que caso a aliança entre sociais-democratas, liberais e trabalhistas tenha de fato conseguido arrastar consigo parte da opinião pública conservadora, o fez em decorrência do peso do argumento central da campanha de Fernando Henrique Cardoso (o Plano Real), da exploração da rejeição eleitoral ao candidato petista (o que, aliás, igualmente contribuíra para a eleição de Fernando Collor em 1989) e da própria ausência de candidaturas políticas ostensivamente afeitas ao conservadorismo.
Em 1998, o quadro mostra-se ainda menos promissor para os conservadores. Como sinal de que o consenso de esquerda consolidava-se gradualmente, o atual PP – que na eleição anterior havia lançado candidato próprio em uma "chapa pura" que por si só evidencia o isolamento crescente das elites políticas possivelmente conservadoras – soma-se à aliança forjada entre PSDB, PTB e PFL (à qual ingressa também o PMDB), e defende a reeleição de Cardoso. Cooptado desde cedo para a base governista, o PP celeremente renuncia à oposição ideológica ao presidente, e o apoio incondicional estendido ao pleito de
148Por outro lado, o fato de que o PRONA jamais tenha conseguido eleger representantes em qualquer nível da
administração pública até que seu líder desistisse de concorrer à presidência e se lançasse candidato a deputado federal indicaria que a adesão eleitoral obtida pelo partido conteria mais ingredientes de personalismo exitoso do que identificações ideológicas determinantes. Finalmente, conforme veremos a seguir, há que se considerar que a votação de Enéas na eleição de 1998 foi sensivelmente reduzida, passando de 4.671.457 votos para 1.447.090 votos. Assim como se torna difícil mensurar exatamente quais percentuais dessa votação seriam originários de eleitores ideologicamente de direita, explicar o decréscimo na votação obtida pelo PRONA em 1998 é temerário e não encontraria lastro em qualquer pesquisa a qual tenhamos tido acesso.
149Pode-se argumentar que seria desejável discutir a candidatura de Hernani Fortuna. Militar da reserva e
comandante da Escola Superior de Guerra precisamente no momento em que a instituição abdica de guiar-se pela Doutrina de Segurança Nacional, Fortuna claramente não possuía a mais modesta infraestrutura de campanha e seu leque de apoios era mínimo. Nos seus curtos programas do HGPE – praticamente a única instância visível da campanha – não se percebeu a completa inexistência da apologia do extinto regime militar. Porém, ao acrescentar propostas radicalmente liberais no terreno econômico, Fortuna igualmente se distanciou do conservadorismo à brasileira, que, como vimos, esposa inclinações profundamente estatistas. Trata-se, enfim, de uma candidatura sem grande relevância e que combinou elementos de difícil penetração nas massas.
146 1998 reitera a dramática e aparentemente irreversível perda de influência do partido na cena política brasileira150. Do isolamento ao esmorecimento.
Blindada pelo poderoso bloco político que a amparava, a candidatura Cardoso novamente vence no primeiro turno, conquistando 53,06% dos votos válidos. Os demais candidatos, de acordo com ordem final dos resultados, eram Luiz Inácio Lula da Silva (PT/PDT/PSB/PC do B), Ciro Gomes (PPS/PL/PAN), Enéas Carneiro (PRONA), bem como os "nanicos" Ivan Frota (PMN)151, Alfredo Sirkis (PV), José Maria (PSTU), João de Deus (PT do B), Eymael (PSDC), Teresa Ruiz (PTN), Sérgio Bueno (PSC) e Vasco Neto (PSN).
A orfandade do conservadorismo uma vez mais se consuma no âmbito dos pleitos presidenciais. Estando todos os partidos alheios à esfera de influência da esquerda (e nem por isso conservadores) embutidos na coligação que pretendia reconduzir o social-democrata Fernando Henrique Cardoso ao governo, a opinião pública brasileira de disposição conservadora fica com poucas hipóteses de se fazer representar. Entre candidatos de centro e candidatos à esquerda, apenas Enéas Carneiro, com sua proposta de revigorado radicalismo autoritário, emerge como isolada e temerária alternativa às direitas.
No entanto, poder-se-ia contrapor que a praxis política de Fernando Henrique e do PSDB à frente do governo permitiria associá-los ao neoliberalismo, e, portanto, ao campo da direita. Medidas como a adoção da ortodoxia econômica, a genuflexão diante do Consenso de Washington e a privatização de empresas públicas sugeririam, para analistas como Frances Hagopian (2011), que
150Em um dos raríssimos depoimentos não envergonhados no interior do PP, Celso Bernardi, então presidente
na sigla no Rio Grande do Sul, observa que "Já fomos, um dia, o maior partido do Ocidente. Esquecidos de como chegamos a ser um gigante, entramos em um roteiro de equívocos que nos levou a ser, hoje, um partido médio, com risco de ficar pequeno. Nos últimos dez anos fizemos fusões improvisadas, mudamos de siglas, abdicamos de candidaturas e navegamos ao sabor dos ventos e das ondas eleitorais, sem, no entanto, saber com clareza a que porto queremos chegar. [...] Ficamos, sem unidade e identidade, meio tontos, ziguezagueando em um cenário repleto de contradições, com líderes apoiando socialistas, e outros, enrustidos, pedindo voto para nossos adversários ideológicos, a despeito da clara postura doutrinária que sempre tivemos. O resultado, como não poderia deixar de ser, foi a perda ainda maior da identidade partidária, a diminuição de tempo de rádio e
televisão na próxima eleição e a ausência do PPB no debate político nacional” (BERNARDI, 2003, p. 50-51).
151A exemplo do ocorrido em 1994, com Hernani Fortuna, o quadro eleitoral de 1998 contou com outro militar
da reserva, Ivan Frota (PMN) como candidato. Frota centrou seu discurso no nacionalismo e nas denúncias de que a política econômica adotada pelo então presidente estava minando a soberania brasileira. Trata-se de uma retórica típica dos militares "linha-dura” que atuaram nos anos 1970, de modo que a candidatura parece ter se dirigido sobretudo aos colegas de farda descontentes com a redemocratização, e não às massas. Ademais, o PMN, que abrigou a tentativa de Frota, mostrou-se um partido bastante confuso ideologicamente, jamais superando a instabilidade que caracteriza os "nanicos”: integrou a coligação que elegeu Lula em 2002 e quatro anos depois buscou uma fusão com o PPS, que não se concretizou. Finalmente, em 2010, apoiaria José Serra, candidato do PSDB, o mesmo ocorrendo em 2014 no segundo turno, como Aécio Neves. Frota, por sua vez, desaparece da vida política.
147
[...] o PSDB deu essa guinada para a centro-direita. Pois agora devia assumir o que fez, valorizar metas como os investimentos na infraestrutura, sanear o sistema fiscal. Acredito que eles podem destacar-se nesse espaço, de centro-direita, se tiverem coragem para fazer isso.
O juízo de que o PSDB, a partir da gestão capitaneada por Cardoso, desenhou uma inflexão à direita é corrente no Brasil e alimenta o teor de boa parte dos discursos de partidos e de mentores da esquerda152 que pretendem prorrogar o consenso de esquerda e a marginalização cultural da direita. Porém, quando questionado sobre o tema, o próprio Cardoso afirma: "concordo com a Hagopian quando diz que o PSDB tem de se diferenciar, assumir o que fez. Mas falar em centro-direita não tem nada a ver com o PSDB nem com outros partidos. Não é por aí" (CARDOSO, 2011). Na mesma entrevista, Cardoso é submetido à seguinte pergunta: "O que o senhor diz da direita?". Eis sua resposta:
Quem defende a direita no Brasil? Ninguém. Mas na prática ela existe – mas a nossa direita é muito mais o atraso, o clientelismo, fisiologismo, esse tipo de questão, do que a defesa dos valores intrínsecos da propriedade, da hierarquia. Não tem muito essa defesa (idem).
Como corolário, Cardoso taxativamente afirma que "Hoje, se disser que sou de esquerda, as pessoas não vão acreditar. Embora seja verdade. É verdade!" (FOLHA DE SÃO PAULO, 2014). É um fato que o PSDB afastou-se de uma acepção kautskyana da social-democracia embebida de marxismo. Da mesma forma, o partido acolhe o liberalismo econômico e tornou-se o principal adversário eleitoral do PT em nível nacional, configurando uma nova clivagem, uma "simplificação do quadro partidário", já que "a oferta de candidaturas viáveis pelos partidos se reduz a dois tanto no âmbito nacional como no estadual" (LIMONGI e CORTEZ, 2010, p. 37). Como resultado, "o sistema partidário brasileiro se consolidou em ‘o PT versus o resto’" (LUCAS e SAMUELS, 2011, p. 84)153.
No entanto, moderação ideológica, apoio à liberdade econômica e oposição eleitoral ao PT não denotam necessariamente crenças de direita, e associar a práxis política dos tucanos (ou a de seu maior líder, Fernando Henrique Cardoso) ao conservadorismo é mais um sinal de que este conservadorismo e as direitas não liberais estão virtualmente ausentes no atual sistema partidário brasileiro.
Na eleição presidencial de 2002 o consenso de esquerda se solidifica consideravelmente e atinge, talvez, seu ápice. Uma vez que Enéas Carneiro declina da
152Emir Sader, notório apologeta da esquerda brasileira, recentemente argumentou que a militância de partidos
radicais como PSOL e PSTU "precisaria ter clareza dos inimigos fundamentais, que compõem o campo da direita – EUA, PSDB e seus aliados, a mídia oligárquica, o sistema bancário. Para impedir qualquer risco de se confundir com a direita contra o governo” comandado pelo PT (SADER, 2013).
148 disputa e dá fim às pretensões pouco viáveis da direita radical brasileira em conquistar a presidência da república, apenas candidatos posicionados do centro para a esquerda do espectro político concorrem à presidência do Brasil: Luiz Inácio Lula da Silva (PT/PC do B/PL/PMN/PCB), José Serra (PSDB/PMDB), Anthony Garotinho (PSB/PGT/PTC), Ciro Gomes (PPS/PDT/PTB), José Maria (PSTU) e Rui Pimenta (PCO). O resultado do pleito deu a vitória ao Partido dos Trabalhadores: Serra não se mostrou à altura para contornar o desgaste proveniente da agenda negativa que se abateu sobre o segundo mandato de seu correligionário Fernando Henrique Cardoso, de sorte que Silva atinge 46,44% dos votos válidos (34,23% do total de eleitores) no primeiro turno e 61,27% no segundo. A fim de pôr- se à parte da desconfiança/rejeição que o grosso do eleitorado demonstrara em relação à sua figura nas eleições anteriores, o petista precisou suavizar dramaticamente seu discurso e apresentar como candidato à vice-presidência o empresário José Alencar, de perfil ideologicamente bastante moderado154.
Note-se que os partidos consistentes e, a priori, desvinculados das esquerdas (DEM e PP) não apresentam candidatos e sequer compõem alianças formais, afastando-se voluntariamente da corrida eleitoral. Para o mais, o candidato do PSDB, José Serra, a julgar pela trajetória política que construiu, claramente posicionava-se à esquerda do próprio partido, ao passo que Ciro Gomes, José Maria e Rui Pimenta estão cimentados em forças políticas historicamente esquerdistas. Antony Garotinho, embora tenha introduzido, tímida e marginalmente, alguns dos temas morais caros à atual "bancada religiosa", concorre pelo Partido Socialista, e, ainda mais enfaticamente do que Fernando Henrique Cardoso, declarou à época: "Tenho uma posição à esquerda de tudo isso que está aí, mas acho que a esquerda brasileira precisa mudar, ser mais propositiva, convincente. Não basta criticar, é preciso propor" (GAROTINHO, 1999). O discurso e a plataforma política do candidato, sublinhe-se, apenas marginalmente se valeram de recursos discursivos capazes de representar o conservadorismo ou mesmo o eleitorado evangélico: "Garotinho afirmava constantemente que seria o presidente de todos os brasileiros e que não aceitaria a restritiva pecha de