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Na tentativa de tecer um balanço das eleições de 2014 para o Legislativo nacional, o jornal Folha de São Paulo assegurou:

Congressistas que defendem agendas conservadoras ganharam força na Câmara nas eleições. Estimativas apontam aumento dos integrantes das bancadas evangélica, ruralista e 'policial'. A configuração deve dificultar o debate de leis liberalizantes, como a legalização do aborto e das drogas, e da pauta ambiental e indígena (FOLHA DE SÃO PAULO, 2014).

Com efeito, representantes da defesa de valores cristãos, da preservação do status quo do campo e do incremento da repressão à criminalidade passaram a ocupar mais assentos no parlamento brasileiro, ao passo que as bancadas simpáticas ao progressismo – e às esquerdas de um modo geral – amargaram sensível enfraquecimento. Subsidiado por tais dados, o presidente do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP)

198 afiançou, um dia após a eleição de 2014, que "o novo Congresso é o mais conservador desde 1964" (QUEIROZ, 2014).

A constatação repercutiu na imprensa brasileira, e grupos de esquerda, como o Levante Popular da Juventude e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), conclamaram suas respectivas militâncias para reverter o quadro:

As eleições de 2014 estão sendo um marco do avanço do conservadorismo em nosso país. Foi eleito o Congresso mais conservador desde a ditadura militar. Além disso, a bancada fundamentalista, ruralista, da indústria armamentista tiveram (sic) um crescimento significativo. Figuras repugnantes como Bolsonaro, Heinze, Feliciano que propagam o ódio aos gays, indígenas, quilombolas, aos direitos das mulheres, às ações afirmativas, aos sem-terra estiveram entre os mais votados. [...] Não podemos ser apenas espectadores do avanço desse sentimento de ódio que toma as ruas, as praças e as certezas do povo. Vamos todos ocupar o Largo Glênio Peres contra o conservadorismo!219

Ademais, Guilherme Boulos, membro da coordenação nacional do MST, considera que as eleições de 2014 trouxeram à tona "a ascensão de uma onda conservadora":

O último domingo revelou eleitoralmente um fenômeno que já se observava ao menos desde 2013 na política brasileira: a ascensão de uma onda conservadora. Conservadora não no sentido de manter o que está aí, mas no pior viés do conservadorismo político, econômico e moral. Uma virada à direita (BOULOS, 2014).

Ainda que seja prudente ressalvar que o exato perfil ideológico das bancadas que agora atuam no Congresso Nacional só poderá ser mensurado com plenitude à medida que a legislatura se aproximar do fim, importa-nos averiguar a dinâmica do processo que criou as condições para que afirmações dessa natureza sejam ventiladas.

Em paralelo, cabe-nos verificar em que grau se poderia relacionar os posicionamentos de tais parlamentares com o conservadorismo à brasileira. Se em 2014 a sociedade brasileira supostamente teria eleito o Congresso Nacional de perfil mais conservador desde aquele que sucedeu a grave crise que colapsou o sistema político cinquenta anos antes, é bastante plausível que o fenômeno tenha sido impulsionado, ao menos em parte, pelo êxito na divulgação de ideias inerentes aos movimentos analisados anteriormente (ideias que julgamos povoar o imaginário de expressivas fatias da população brasileira).

219O Largo Glênio Peres é um local tradicional de manifestação política na cidade de Porto Alegre/RS.

Disponível em: <https://rsurgente.wordpress.com/2014/10/22/porto-alegre-promove-ato-de-virada-contra-o- conservadorismo/>. Acesso: 20 abr. 2015.

199 Nesse sentido, a sentença do cientista político Leonardo Sakamoto, transcendendo meros juízos de valor, em linhas gerais corresponde aos argumentos que expusemos até aqui, ao mesmo tempo em que estimula as reflexões que conduzirão o restante do presente capítulo:

Os movimentos sociais e organizações da sociedade civil de caráter mais progressista sempre empurraram o Congresso Nacional para que ele fosse menos conservador do que a população do país. Em outras palavras, a força da mobilização e da organização desses grupos na política nacional conseguia fazer com que esse descompasso acontecesse. [...] Mas esse descompasso entre o 'Brasil real' e o 'Brasil no parlamento' parece ter se reduzido nesta eleição [...]. O Congresso é o reflexo da população no que diz respeito à visão de mundo e ação diante desse mundo. Talvez não daquilo que ela gostaria de ser, mas daquilo que ela efetivamente é. Enfim, com o resultado dessas eleições, não é que o Congresso ficou pior. Ele apenas está mais parecido com o Brasil (SAKAMOTO, 2014).

Sob esta ótica, a assimetria representativa que já sugerimos estaria sendo suavizada sob o emblema de um novo Congresso Nacional, de modo que os interesses dos grupos progressistas – mais intensamente militantes desde a redemocratização – sofreriam paulatina erosão justamente porque os valores conservadores presentes em boa parte da sociedade ganharam proeminência. Vindo à luz de modo mais ostensivo (e, portanto, menos petrino), as direitas galgam espaços crescentes de representação, tornando o Congresso "mais parecido com o Brasil", para empregarmos as palavras de Sakamoto. É a guerra política que se instala.

Há que se antepor, entretanto, a possibilidade de que a conjuntura política atual estaria a pôr em risco determinadas bandeiras conservadoras, o que despertaria a reação de elites políticas com elas identificadas. Com efeito, iniciativas de relativização da ordem moral vigente passam a figurar com mais frequência na pauta do Congresso Nacional e chegam mesmo a obter a chancela de tribunais superiores, como é o caso da aceitação da união estável entre pessoas do mesmo sexo e da utilização de células-tronco para pesquisas científicas por parte do Supremo Tribunal Federal (STF).

De forma inédita no Brasil, o conservadorismo, como "uma resistência articulada, sistemática e teórica à mudança" (HUNTINGTON, 1957, p. 461, tradução nossa), recorreria então aos parlamentares de bancadas como a religiosa para reagir ao movimento dos progressistas, porque inédita é a introdução sistemática de semelhantes temas na sociedade brasileira. Nesta lógica, os conservadores estariam sendo "forçados" à mobilização para a defesa de valores que até então não eram fortemente questionados.

200 De igual modo, sentenças de natureza similar àquelas proferidas pelo presidente do DIAP e apelos que excitam a indignação de movimentos de esquerda possivelmente estejam embriagados pelo afoitamento ou por paixões naturalmente emanadas de uma eleição recém- finda, uma vez que é pouco provável que o parlamento eleito em 1982, por exemplo, tenha sido mais progressista do que o atual220.

A despeito disso, as assertivas que sugerem o advento de uma crescente predominância do conservadorismo no Congresso encerram validade para a presente tese mais porque instigam o debate do que devido ao rigor analítico que poderiam conter. Logo, instaura-se a necessidade de examinarmos mais detidamente a lógica que ordena determinados grupos do Congresso Nacional, e mais especificamente da Câmara dos Deputados. Comecemos pela chamada "bancada evangélica".

4.3.1 Os religiosos militantes no Congresso: conservadorismo e "cristocracia"

Os diagnósticos que apontam para uma ascensão conservadora no Congresso Nacional eleito em 2014 obviamente só poderiam encontrar algum lastro à medida que houvesse um movimento mais amplo, forjado com o passar dos anos, que aos poucos tenha angariado espaços de representação no parlamento. Conforme constatou Pierucci em relação à persistência do voto à direita em São Paulo durante os anos 1980, os eleitores conservadores

[...] seus comportamentos políticos, suas percepções do mundo político, seus juízos políticos, enfim, se contaminam de rigorismo moral, conservadorismo comportamental e autoritarismo doméstico. Dito de outro modo: a posição 'marginal' desse tipo de eleitor, politicamente desprovido e cognitivamente desapetrechado, não apenas o lança na órbita dos políticos personalistas (como notaram Lamounier e Muszynski), mas também o torna mais propenso a não pensar politicamente a política, vale dizer, a apreender o mundo político pelo viés das categorias morais, dentro dos marcos de percepção e apreciação próprios da esfera da moral privada (PIERUCCI, 1988).

A cooptação deste eleitor por parte da chamada "bancada evangélica" é sobremaneira ilustrativa. Se, para retomarmos os argumentos do segundo capítulo, 89% dos brasileiros concordariam que "a religião é importante" para suas vidas (GALLUP WORLD POLL, 2010), é mesmo natural que valores religiosos extrapolem a esfera privada e de algum modo interfiram na política. Fruto de uma formação intensamente marcada pelo catolicismo, o

220Conforme evidencia o trabalho de Madeira (2006), era imenso o poder dos parlamentares oriundos da Arena

("ex-arenistas") no Congresso Nacional eleito em 1982. Logo, não se tratava de um Legislativo tendente ao progressismo.