A ideia de guerra cultural deita suas raízes mais profundas nos desdobramentos da KulturKampf, episódio que alvoroçou o Segundo Reich germânico nos fins do século XIX. Com efeito, naquele contexto emergiu a campanha sistemática empreendida por Bismarck contra o influxo católico na Alemanha recém-unificada, a qual visou, em última análise, modernizar a sociedade pela via da secularização, consolidar o nacionalismo e ceifar a capacidade de interferência papal nos assuntos do país. Tratava-se, por conseguinte, de uma disputa de cosmovisões, de um embate cultural e político que tinha na conquista simbólico- psicológica da sociedade seu mais valioso troféu (GROSS, 1997).
Contudo, foi no ambiente norte-americano do século XX que o termo, já apropriado pela língua inglesa, agregou sentidos contemporâneos e ganhou definitiva notoriedade:
O termo 'culture war' tornou-se bastante visível nos anos recentes para designar os conflitos que dividem a contemporânea sociedade americana. Ele foi usado em uma variedade de formas, às vezes para referir discórdias exclusivamente culturais na sua origem [...], às vezes para designar a revolta gerada por questões não
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relacionadas à cultura, como a batalha em torno do direito de aborto (DEJEAN, 1989, p. 3, tradução nossa).
Em grande medida, é seguro asseverar que coube a Patrick Buchanan a responsabilidade pela popularização do conceito nos Estados Unidos. De fato, Buchanan, em plena convenção republicana na qual pretendia sagrar-se candidato presidencial pelo Partido Republicano no pleito de 1992, conclamou seus compatriotas conservadores à "guerra cultural pela alma americana", em um momento que "foi o ápice e o nadir de uma campanha presidencial que se realizou como uma cruzada moral, galvanizando tanto os militantes apaixonados quanto as atenções da mídia" (WILLIAMS, 1997, p. 2, tradução nossa). Com o apelo, Buchanan pretendeu alertar para um conflito entre distintas visões de mundo que oporia com intensidade crescente conservadores/religiosos a liberais/seculares no seio da sociedade estadunidense. De um lado da trincheira repousaria a "América profunda", crente, comunitarista, tradicional e conservadora. De outro, a sociedade cosmopolita impregnada pela secularização, pelo individualismo e pelo relativismo moral alegadamente estimulado por determinadas esquerdas170.
A semente lançada no debate político germinou também na academia norte- americana, e o trabalho de Robert George, The Clash of Orthodoxies, bem traduz essa realidade. Na obra, o professor da Princeton University argumenta que estaria em curso nos Estados Unidos (e em várias outras regiões do planeta) um encarniçado conflito entre
[...] a moralidade cristã (e judaica e, em sentido amplo, islâmica) e a ortodoxia secularista. As questões imediatamente postas em jogo têm haver sobretudo, mas não exclusivamente, com a sexualidade, a geração e interrupção da vida humana e o lugar da religião e da moral informada pela religiosidade na vida pública (GEORGE, 2013, p. 4, tradução nossa).
Na ótica do autor, portanto, as duas "ortodoxias" estariam empreendendo uma guerra cultural e política sem tréguas a fim de fazer assentar suas assertivas nas convicções das pessoas e, posteriormente, no arcabouço legal das democracias. Protagonizariam o debate questões como a aceitação (ou não) do homossexualismo e de condutas sexuais liberalizantes, métodos contraceptivos e aborto, novas formas de família, constrangimentos à exposição de símbolos religiosos em espaços públicos e liberdade de professar a fé (e de aplicá-la na vida social) ainda que sua consequência seja a franca indisposição com Estados laicos.
170Conforme assinalamos no segundo capítulo, a guerra cultural ecoou também na apologéitca de
neoconservadores como Irving Kristol, que tratou de preservá-la nos debates ideológicos da atualidade. De igual modo, a escola conservadora impulsionada por Leo Strauss também nutre concepção similar.
166 Sob esta ótica, o clássico estudo de Samuel Huntington, The Clash of Civilizations (1996)171, adquiriria novos significados. Grosso modo, a feitura da ordem mundial traçada por Huntington derivaria, doravante, das identidades e pretensões das grandes civilizações por ele identificadas: a ocidental, a ortodoxa, a islâmica, a africana, a japonesa, a sínica, a hindu, a budista e a latino-americana. Assim, "no mundo pós-Guerra Fria, as distinções mais importantes entre os povos não são ideológicas, políticas ou econômicas. Elas são culturais" (HUNTINGTON, 1996, p. 21, tradução nossa).
A guerra cultural em nível global que fora insinuada por Huntington é reinterpretada por James Kurt no artigo The Real Clash, publicado na revista conservadora National Interest. Na sua perspectiva, o mais relevante choque não se daria entre as grandes civilizações do globo, mas no seio das próprias sociedades ocidentais, opondo "a cosmovisão judaico-cristã" ao "secularismo" e aos "ismos" contemporâneos: feminismo, multiculturalismo, "gay liberationism" e "liberalismo no estilo de vida" (KURT, 1994, tradução nossa). Ademais, conforme salienta Goldberg (2009), a segunda ortodoxia, a secular, manifestar-se-ia no âmbito político através de uma guerra cultural levada a cabo por forças instrumentalizadas pelas esquerdas, as quais, obstaculizando o debate de ideias, almejariam criminalizar os valores conservadores largamente abraçados pelas populações e assentar os princípios "liberais"172 na ordem social.
Sob prismas distintos – e vindo à luz antes das abordagens acima citadas –, as teorias do comunista italiano Antonio Gramsci parecem convergir para um rumo pelo menos análogo. Em Cadernos do Cárcere, Gramsci desenvolve, entre outras, a noção de "guerra de posição", a qual, mediante articulação com a "guerra de movimento", é instrumento propedêutico para a consolidação da "hegemonia" cultural e ideológica sobre a sociedade. De acordo com Gramsci, a conquista de organizações sociais ("trincheiras" e "casamatas") capazes de influenciar o modus vivendi da população torna-se crucial para o sucesso da empresa daqueles que visam a dominação – no caso, os comunistas (GRAMSCI, 2000).
Em suma, para além do uso da violência, o "Moderno Príncipe" (o partido comunista) deve buscar adquirir o poder através da forja lenta e orquestrada de novas mentalidades que pouco a pouco se tornam hegemônicas, de modo que os "intelectuais orgânicos", os militantes e os inocentes úteis ocupam espaços sociais importantes
171Os argumentos do livro surgiram inicialmente em 1993, em um artigo publicado na revista Foreign Affairs. 172No sentido em que o termo é compreendido nos Estados Unidos, onde "liberalismo" equivale a
167 (judiciário, imprensa, movimentos sociais, etc.) com o intuito de levar à derrocada os princípios morais e culturais pré-existentes, substituindo-os por aqueles que condizem com a ideologia comunista. A partir de então, o poder político e o Estado que suporta a ordem burguesa sucumbem para dar forma a um duradouro socialismo, que passa a gozar de virtual consenso social. A estratégia é claríssima:
O moderno Príncipe, desenvolvendo-se, subverte todo o sistema de relações intelectuais e morais, uma vez que seu desenvolvimento significa de fato que todo ato é concebido como útil ou prejudicial, como virtuoso ou criminoso, somente na medida em que tem como ponto de referência o próprio moderno Príncipe e serve ou para aumentar seu poder ou para opor-se a ele. O Príncipe toma o lugar, nas consciências, da divindade ou do imperativo categórico, torna-se a base de um laicismo moderno e de uma completa laicização de toda a vida e de todas as relações de costume (GRAMSCI, 2000, p. 19).
Às avessas, grupos da atual sociedade civil brasileira parecem ter apropriado, por vezes conscientemente, certas orientações de Gramsci de modo a fazê-las servir aos seus próprios fins. Sua imersão na arena política (a "guerra de posição" gramsciana) e na arena cultural (o "choque de ortodoxias" aventado por George) será analisada no tópico a seguir.