"Se os termos 'verdade' e 'falsidade' usados por você forem tomados em acepções que sejam definíveis em termos de dúvida e crença e de curso da experiência (tal como, por exemplo, eles o seriam se você definisse 'verdade' como uma crença para a qual a crença tenderia se tendesse indefinidamente para uma fixidez absoluta) muito bem; nesse caso, você só estaria falando de dúvida e crença. Contudo, se por verdade e crença você entender algo que não seja de modo algum definível em termos de dúvida e crença, neste caso estará falando de entidades de cuja existência você nada pode saber, e que a navalha de Ocam eliminaria de imediato. Os problemas seriam muito simplificados se, em vez de dizer que deseja conhecer a’verdade’, você dissesse simplesmente que deseja alcançar um estado de crença inatacável pela dúvida". (Peirce, CP 5.411).
O anti-cartesianismo de Peirce foi discutido principalmente em um conjunto de ensaios que fazem parte de uma série conhecida como “cognition series”, e foram publicados entre 1868 e 1869 pelo The Journal of Speculative Philosophy:
1. “Questões Referentes a Certas Faculdades Reivindicadas pelo Homem” (CP 5.213-63), 2. “Algumas Conseqüências das Quatro Incapacidades” (CP 5.264-317) 91 e,
3. “Fundamentos para a Validade das Leis da Lógica: Outras Conseqüências das Quatro Incapacidades”. (CP 5.318-57)
Os títulos destes artigos lembram as querelas medievais e na verdade os artigos foram escritos na forma de querelas, abrindo com a lista das questões em disputa, procedendo com os argumentos pró e contra, e finalizando com as conclusões do autor para cada questão. Houser 92 inclui entre os textos da série cognitiva a resenha do livro de Fraser "As obras de George Berkeley" e "On a new class of Observations suggested by the principles of
Logic"(Ms1104).
90B. Serson, (1997) “On Peirce‟s Pure Grammar as a general theory of Cognition: From the thought sign of 1868 to the
semeiotic theory of assertion”, Semiotica, 113-1/2. P.107-157, C. Hookway, (1992), op.cit. p.41-77, Delaney (1993) "The Critique of Cartesian Epistemology" The relevance of Charles Peirce, p. 85-129, e H.B. Garewicz, (1994), "Peirce and Descartes", Living Doubt, p.151-155.
91 Segundo Murphey, a teoria das categorias seria parte da teoria da cognição. Segundo ele, os textos “Questões Referentes a
Certas Faculdades Reivindicadas pelo Homem” (CP.5.213-63), “Algumas Conseqüências das Quatro Incapacidades” (CP.5.264-317) “Fundamentos para a Validade das Leis da Lógica: Outras Conseqüências das Quatro Incapacidades”. (CP.5.318-57), conhecidos como a série da cognição, na verdade, seriam destinados a um trabalho maior da qual o texto "New List of Cathegories" seria apenas um dos capítulos.
92N. Houser, (1992) The Essential Peirce-Selected Philosophical Writings, Bloomington and Indianapolis: Indiana
A crítica de Peirce não é dirigida somente a Descartes mas ao cartesianismo. Esta rejeição é conseqüência de uma busca de uma fundação epistêmica a que as ciências já estavam apontando na segunda metade do século passado. Peirce inclui nesta controvérsia os empiristas ingleses, cujas doutrinas tendiam para o nominalismo. Há alguns trechos que podem ser lidos como respostas a Hume, já que para Peirce o "espírito do cartesianismo" significava o "espírito do nominalismo". (CP 5.264, 5.310).
De forma simplificada, a fonte do cartesianismo está na intuição e seu alvo sendo o conhecimento certo e seguro. Dada qualquer proposição se ela for original, imediata e não determinada (não necessitando de demonstração) é possível se chegar a partir dela à certeza do conhecimento. É interessante observar que a existência da intuição, para Peirce, envolve a existência de um objeto transcendental, o que seria uma falácia levando ao nominalismo. Esta negação peirciana também pode ser vista como um ataque ao empirismo inglês, para quem a existência da intuição era um axioma.
Para Peirce nada mais inadequado do que fundar o conhecimento na intuição, o que significaria depositar na consciência individual a certeza do conhecimento. Peirce acredita na transcendência dos interesses individuais.
A filosofia de Descartes começa com a dúvida que é algo que Peirce não aceita, para quem a filosofia deve começar com as crenças, porque só conseguimos nos livrar das crenças pela experiência. As crenças nos foram impressas no espírito pela experiência, não nos livramos delas por um ato de arbítrio, não podemos acreditar em coisas falsas.
Como a filosofia de Peirce é evolucionista, ele acredita que a verdade é atingível num processo a longo prazo, a "verdade é alguma coisa que resiste a ser durante muito tempo ignorada". À medida que se reconhece a natureza evolutiva da realidade, se reconhece a incompletude do conhecimento. O espírito da ciência anima aqueles que dão suporte à teoria do falibilismo, segundo a qual nosso conhecimento nunca é absoluto, mas navega num “continuum” de incerteza e indeterminação. (CP1.135, 1.170-75).
A verdade, para Peirce, consiste na existência de um fato real correspondente a uma proposição verdadeira, verdade esta que é perseguida tanto pelos indivíduos como pelas
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comunidades. A comunidade pode ser tanto presente como futura, pode ser real ou ideal. Comunidade seria um conjunto de indivíduos unidos pela prática da ciência, colaborando na busca da verdade ou do conhecimento. (CP 2.647-658)
O primeiro artigo da série da cognição "Questões Referentes a Certas Faculdades Reivindicadas pelo Homem" desmonta implacavelmente os argumentos nos quais se funda o cartesianismo, cujo núcleo está no conceito de intuição e introspecção. Para Peirce, a realidade é independente de nossas opiniões, mas ela afeta nossos sentidos de acordo com leis regulares , assim através da percepção podemos estabelecer pelo raciocínio como as coisas são realmente e verdadeiramente.
Neste artigo, Peirce enumera sete capacidades mentais que a filosofia cartesiana atribui aos homens, e para cada uma delas pesa os argumentos a favor e contra, concluindo que a faculdade em questão pode ser reduzida a algo mais simples.
As faculdades questionadas neste artigo são as seguintes: 1) se através da simples contemplação de uma cognição independentemente de qualquer conhecimento anterior e sem raciocinar a partir de signos, estamos corretamente capacitados a julgar se essa cognição foi determinada por uma cognição prévia ou se refere imediatamente a seu objeto; 2) se temos uma autoconsciência intuitiva; 3) se temos um poder intuitivo de distinguir entre os elementos subjetivos de diferentes tipos de cognições; 4) se temos algum poder de introspecção, ou se todo nosso conhecimento do mundo interno deriva da observação dos fatos externos; 5) se podemos pensar sem signos; 6) se um signo pode ter algum significado uma vez que, por definição, é o signo de algo absolutamente incognoscível e 7) se há alguma cognição não determinada por uma cognição anterior.
Para Peirce o termo “intuição será tomado como significando uma cognição não determinada por uma cognição prévia do mesmo objeto” e, conseqüentemente determinada por algo fora da consciência. A crença na intuição e na certeza que ela acarreta produz um abrigo seguro contra a indeterminação, o provisório, o erro. Até então, a intuição era tomada como um sinônimo de inspiração na qual repousavam os poderes humanos da descoberta. Para Peirce há, portanto, uma diferença entre ter uma intuição e pensar que ela é intuitiva, como também é impossível distinguir uma cognição derivada de uma intuitiva.
[...]. a questão consiste em saber se estas duas coisas, distinguíveis no pensamento , estão de fato, invariavelmente conectadas, de forma tal que podemos sempre distinguir intuitivamente entre uma intuição e uma cognição determinada por uma outra [..] Neste caso, eu diria que tivemos um poder intuitivo de distinguir uma intuição de outra cognição. Não há evidências de que temos esta faculdade, exceto que parecemos sentir que a temos. (PEIRCE, CP 5.214)
Por outro lado, não temos uma autoconsciência intuitiva. Para Peirce a autoconsciência é a recognição de interioridade privada (sei que eu existo). Esta autoconsciência é distinta da consciência em termos gerais, do sentido interno e da apercepção. Esta autoconsciência é inferencial, isto é, só temos consciência do mundo exterior, que existe como algo diferente do eu, quando erramos.
Com respeito ao poder intuitivo de distinguir entre os elementos subjetivos de diferentes tipos de cognições, para Peirce, embora haja distinção entre os diferentes objetos ou conteúdos da consciência, isto não serve como prova de que somos capazes de distinguí-los intuitivamente. Para ele a habilidade humana de diferenciar crenças e conceitos, do imaginado e do real, foi tomada como evidência de que temos uma faculdade intuitiva.
Esta questão é uma preparação para se entender a questão da introspecção, isto é, só conhecemos nosso ego individual através de referências a partir de fatos externos. A autoconsciência e nosso conhecimento do mundo interior só podem ser explicados por uma teoria inferencial alternativa.
Para complementar esta questão Peirce introduz a teoria dos signos. Não há inferência possível sem signos.
Da proposição de que todo pensamento é um signo, segue-se que todo pensamento deve endereçar-se a algum outro pensamento, deve determinar algum outro pensamento, uma vez que essa é a essência do signo. Portanto, dizer que o pensamento não pode acontecer num instante, mas que requer um tempo, não é senão outra maneira de dizer que todo pensamento deve ser interpretado em outro, ou que todo pensamento está em signos. (PEIRCE, CP 5.215)
Esta afirmação implica a continuidade anterior e posterior dos signos (Terceiridade) contra a imediatidade e instantaneidade (Primeridade) do fundamento da intuição no conceito de Descartes. Em Descartes, a intuição é intelectual, se intuir pensando. Intuição tem um sentido técnico de uma cognição ou percepção imediata, sem mediações, Primeiridade.
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A questão referente ao significado de um signo já que por esta definição, ele é o signo de algo absolutamente incognoscível, é resolvida por Peirce através da conclusão que, embora a verdade das proposições universais e hipotéticas não possa ser conhecida com certeza, ela provavelmente poderá ser conhecida por indução. Aqui Peirce começa a insinuar algumas idéias a respeito da importância do método científico na fixação das crenças.
Peirce sustenta que toda cognição é determinada por outra, atacando o postulado aristotélico-cartesiano de que as premissas primeiras (originárias) são indemonstráveis. Para Peirce a certeza intuitiva é psicológica e não lógica, ele mostra que as cognições intuitivas não podem ser tomadas como sinônimo de certeza e infalibilidade. Nós podemos ter intuições, mas nunca poderemos ter certeza de que essas intuições são originárias. Peirce rejeita a dúvida total, a certeza, a clareza, o método, a verdade, o incognoscível como origem.
Peirce introduz a doutrina do falibilismo, segundo a qual nosso conhecimento envolve a nossa tendência ao erro, envolve certa indeterminação diante do objeto. Assim, nossas verdades não são verdades finais, porque verdade é uma propriedade da teoria. Portanto, falar em verdade final é um absurdo diante de um objeto que não é final, diante de um objeto que está evoluindo. As leis vão sendo formadas pela aquisição de hábitos, mas há sempre um resíduo de acaso. A diversidade cresce, e o universo se complexifica.
O objeto da teoria é profundamente dinâmico e quanto mais vivo, maior grau de erraticidade, menos submetido à lei, embora não seja possível a vida sem lei, nenhum sistema vivo sobrevive sem hábito, sem estar submetido a regras de conduta, sem organização. A verdade é sempre evolucionária, porque o objeto é dinâmico, ele cresce, ele se modifica, tem graus variáveis de erraticidade.
Peirce inclui o papel da dúvida na investigação, estabelecendo as bases para a criação de um novo método. Isto é desenvolvido no segundo artigo “Algumas Conseqüências das Quatro Incapacidades”.
1. “O cartesianismo ensina que a filosofia deve começar com a dúvida universal, ao passo que o escolasticismo nunca questionou os princípios fundamentais.
2. Ensina que a comprovação final da certeza encontra-se na consciência individual, ao passo que o escolasticismo se baseou no testemunho dos doutos e da Igreja Católica.
3. A argumentação multiforme da Idade Média é substituída por uma linha singular de inferência que freqüentemente depende de premissas imperceptíveis.
4. O escolasticismo tinha seus mistérios de fé, mas empreendeu uma explicação de todas as coisas criadas. Todavia, há muitos fatos que o cartesianismo não apenas não explica como também torna absolutamente inexplicáveis, a menos que dizer que “Deus os fez assim” há de ser considerado como explicação." (Peirce, CP 5.264)
Peirce refuta o cartesianismo não para voltar ao escolasticismo, mas para atender às exigências da ciência e da lógica modernas estabelecendo que “não podemos começar uma investigação a partir da dúvida completa", porque nenhuma investigação parte do nada. Alem do que não podemos começar pela dúvida em parte porque é impossível psicologicamente, em parte porque não há intuições ou premissas originárias e em parte porque o senso comum nos diz que não duvidamos daquilo que de verdade não duvidamos. “Não pretendemos duvidar filosoficamente daquilo que não duvidamos em nossos corações.” A dúvida real é um estado doloroso e desconfortável.
A dúvida cartesiana é irreal, não passando de mero formalismo, o mesmo formalismo que aparece na noção de verdade cartesiana, "tudo aquilo de que eu estiver claramente convencido é verdadeiro”. Para Peirce quem está realmente convencido não precisa de raciocínio e não exige comprovação de certeza. Pelo contrário, a verdade depende de uma comunidade de investigadores e não de um indivíduo isolado e fechado em suas certezas. A certeza não deve ser processada nas verdades individuais. “Em ciências em que os homens chegaram a um acordo, quando uma teoria é trazida à baila, considera-se que ela está em prova até que este acordo seja alcançado.“ (PEIRCE, CP 5.265)
Assim, a filosofia deveria imitar os métodos das ciências, adaptando-os às suas necessidades e natureza. As ciências que obtêm resultados confiam na multiplicidade e na variedade dos argumentos e não numa única cadeia de argumentos como propõe Descartes.
Por outro lado, supor algo inexplicável como originário só pode ser feito através do raciocínio em signos, mas a única justificativa para uma inferência a partir de signos é que a conclusão explique o fato. Supor que o fato seja absolutamente inexplicável é não explicá-lo
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e, por conseguinte, esta suposição nunca é permitida. A crítica ao espírito cartesiano resultou em quatro incapacidades:
1. “Não temos poder algum de Introspecção mas sim, todo conhecimento do mundo interno deriva-se, por raciocínio hipotético, de nosso conhecimento de fatos externos.
2. Não temos poder algum de Intuição mas, sim, toda cognição é determinada logicamente por cognições anteriores.
3. Não temos poder algum de pensar sem signos.
4. Não temos concepção alguma do absolutamente incognoscível “ (PEIRCE, CP 5.264)..
Dessa forma, Peirce ataca o Cogito de Descartes, isto é, o eu penso como um ponto original e fundamental para se chegar ao conhecimento do mundo, negando que todo conhecimento inferido e derivado necessita ser justificado por uma dedução lógica a partir de um conjunto de premissas que são elas próprias intuições.
Um sujeito individual não pode alimentar a expectativa de que tenha condições de atingir qualquer certeza, como a teoria da intuição nos leva a supor. A certeza, sempre provisória, é uma questão coletiva, há uma comunidade de pensamento. A continuidade das idéias não pode ser limitada às idéias de um único indivíduo. O eu que aparece é uma fonte de erro e só pode ser explicado pela suposição de que existe um “self” que é falível. (CP 5.234)
Para Descartes todo conhecimento teria seu início nas percepções recebidas pelos sentidos. Mas, para Peirce percepções por si mesmas não constituem conhecimento e não podem servir de premissas para inferir conhecimento. Aceitar a primeira proposição de que não temos poder introspectivo, sendo nosso conhecimento do mundo interior derivado de hipóteses a partir do conhecimento de fatos externos, significa ter de abandonar os preconceitos arraigados e crenças numa autoconsciência intuitivamente acessível.
Peirce está, portanto, preocupado em evitar o dogmatismo de que certas crenças estão, em princípio imunes à discussão e críticas, como também evitar o ceticismo.93
Para Peirce, a cognição só pode existir num processo contínuo. A continuidade é expressada nas formas das inferências válidas que são três: dedução (é o raciocínio
necessário), indução (o raciocínio procede como se todos os objetos dotados de certos caracteres fossem conhecidos) e hipótese ( ou abdução, que é a inferência que procede como se todos os caracteres necessários para a determinação de um certo objeto ou classe fossem conhecidos).
A cognição não tem início numa intuição mas é o resultado de uma inferência que ocorre num processo cuja origem e cujo fim não se pode precisar. Embora, posteriormente Peirce mude sua maneira de pensar, na época em que escreveu este artigo, ele acreditava que toda inferência tem a forma de um silogismo padrão resultando nos três tipos de raciocínios possíveis: hipótese, indução e dedução.
Do fato de que não temos poder algum de pensar sem signos, decorre que em qualquer momento que temos um pensamento, estará presente na consciência algum sentimento, imagem ou concepção, ou outra representação que serve como signo.
Ora, um signo tem, como tal, três referências; o primeiro, é um signo para algum pensamento que o interpreta; é um signo de algum objeto ao qual, naquele pensamento é equivalente; terceiro, é um signo, em algum aspecto ou qualidade, que o põe em conexão com seu objeto. (PEIRCE, CP 5.283)
Dessa forma o pensamento-signo se refere a algo exterior, quando uma coisa real é pensada, mas sendo o pensamento determinado por um pensamento precedente do mesmo objeto, ele só pode se referir à coisa exterior, denotando este pensamento prévio. Peirce retoma a negação da cognição originária na postulação de que não há pensamento ou cognição ou signo que não seja precedido por um pensamento anterior.
Pensamentos são eventos, cada pensamento é um evento no tempo, portanto aqui se evidencia a posição de Peirce com respeito à concepção de instantaneidade e imediaticidade legadas pela tradição aristotélico-cartesiana.
Para Descartes imediaticidade significava contato direto da mente com o objeto da compreensão, produzindo certeza e infalibilidade. Para Peirce, significava que na imediaticidade e na presentidade, o pensamento nada significa, pois o pensamento em si mesmo não pode ser diretamente conhecido. Pensamento é um processo ininterrupto em uma relação de três elementos: signo, pensamento, objeto, ou pensamento precedente, ao qual o signo se segue e pensamento subseqüente.
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A presentidade não tem valor intelectual, sendo assim, os conteúdos da consciência não são conhecidos em si mesmos, mas apenas através da ação mental. Daí decorre que não há conhecimento sem interpretação, visto que todo conhecimento é condicionado pelos fatores anteriores a ele no processo de cognição e só se revela no momento em que é interpretado num conhecimento subsequente.94
Ao dizer que “não temos concepção alguma do absolutamente incognoscível”, o que está sob ataque é o conceito kantiano de “coisa-em-si”. Peirce argumenta que a nossa concepção de alguma coisa está ligada a concepção desta alguma coisa como objeto possível de conhecimento, portanto o conceito de coisa em si incognoscível é auto-contraditório.
Nós chegamos agora à consideração do último dos quatro princípios cujas conseqüências vamos traçar, a saber, que o absolutamente incognoscível é absolutamente inconcebível. De que com respeito aos princípios cartesianos as verdadeiras realidades das coisas não podem ser nunca ser conhecidas de qualquer maneira, muitas pessoas competentes estão há muito convencidas. Daí, a irrupção do idealismo, que é essencialmente anti-cartesiano, em todas as direções, seja entre os empiristas (Berkeley, Hume), ou entre os noologistas (Hegel, Fichte). O princípio que agora é trazido à discussão é diretamente idealístico, porque desde que o significado de uma palavra é a concepção que ela transmite, o absolutamente incognoscível não tem significado porque nenhuma concepção a ele se liga. É, portanto, uma palavra sem sentido e conseqüentemente, tudo que seja significado por qualquer termo como „o real‟ é cognoscível até certo ponto e, assim, é da natureza da cognição, no sentido, objetivo do termo. (PEIRCE, CP 5.310) 95
Para Peirce, a qualquer momento nós estamos de posse de certas informações, de cognições que foram logicamente derivadas por indução e hipóteses de cognições prévias, que são menos gerais, menos diferentes, e das quais nós temos uma consciência menos vívida. Estas, por sua vez, foram derivadas de outras ainda menos gerais, menos diferentes e menos vívidas e assim por diante até voltar ao primeiro ideal, que é bastante singular e bastante fora da consciência. Este primeiro ideal é a “coisa-em-si” particular. “Não existe como tal, isto é,
94Existe consenso entre os comentadores de Peirce que estes textos, embora da juventude, cujos conceitos vão sendo
amadurecidos, já deixam evidentes alguns pontos muito importantes na obra de Peirce: o falibilismo, o pragmatismo, sua teoria da percepção, o conceito de signo triádico.
95Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “We come now to the consideration of the last of the four principles whose consequences we were to trace; namely, that the absolutely incognizable is absolutely inconceivable. That upon Cartesian principles the very realities of things can never be known in the least, most competent persons must long