A abdução é o “primeiro degrau do raciocínio científico” (CP 7.218). A abdução tem a ver com a geração e recomendação de hipóteses explicativas. No que diz respeito ao método científico, a abdução é “meramente preparatória.” “Abdução é o processo de formação de uma hipótese explanatória. É a única operação lógica que apresenta uma idéia nova...” (PEIRCE, CP 5.171)122
A abdução está sujeita a algumas condições, ou seja, a hipótese não pode ser admitida, mesmo enquanto hipótese, a menos que se suponha que ela presta contas dos fatos ou de alguns deles. Mas o estímulo para advinhar foi derivado da experiência. A ordem vem da experiência para a hipótese.. (CP 2.755)
121L. Santaella (1992), op. cit. p.97 cita como exemplo o texto de Umberto Eco "Chifres, Cascos, Canela, Algumas Hipóteses
A forma da inferência, portanto, é esta:
Um fato surpreendente C é observado; Mas se A fosse verdadeiro, C seria natural.
Donde há razão para suspeitar-se que A é verdadeiro. (CP 5.189)
Antes de se explicar as características principais da abdução é interessante entender a visão peirceana do que significa uma hipótese:
Por hipótese eu entendo não meramente uma suposição sobre um objeto observado (...) mas também qualquer outra verdade suposta da qual resultariam tais fatos como foram observados (...). O primeiro impulso de uma hipótese e sua acolhida quer como uma simples interrogação ou com algum grau de confiança, é um passo inferencial que eu proponho chamar de abdução. Isto incluirá a preferência por uma hipótese com relação a outras que explicassem igualmente os fatos, sempre que esta preferência não seja baseada em algum conhecimento prévio imperando sobre a verdade das hipóteses, nem em qualquer teste de qualquer das hipóteses após terem sido admitidas em prova. Eu chamo tal inferência pelo nome peculiar de abdução porque sua legitimidade depende de princípios diferentes dos outros tipos de inferência. (PEIRCE, CP 6.526)123
Numa outra passagem, Peirce explica que a hipótese pode ser definida como um argumento que se desenvolve a partir da suposição de que um caráter do qual se sabe que envolve necessariamente certa quantidade de outros caracteres, pode ser provavelmente predicado de qualquer objeto que possua todos os caracteres que se sabe envolvidos por esse caráter.” (CP 5.276)
Cabe à abdução estudar fatos e projetar a teoria que os explique. A justificativa da abdução decorre do fato de ser o modo como se deve chegar à "compreensão das coisas algum dia". Para Peirce, ninguém é louco para negar que a ciência efetuou muitas descobertas verdadeiras, contudo, cada um dos itens singulares da teoria científica que estão hoje formados deve-se à abdução. (CP 5.172)124
122 idem p. 221.
123Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “By a hypothesis, I mean, not merely a supposition about an observed object, as when I suppose that a man is a Catholic priest because that would explain his dress, expression of countenance, and bearing, but also any other supposed truth from which would result such facts as have been observed...(...) The first starting of a hypothesis and the entertaining of it, whether as a simple interrogation or with any degree of confidence, is an inferential step which I propose to call abduction. This will include a preference for any one hypothesis over others which would equally explain the facts, so long as this preference is not based upon any previous knowledge bearing upon the truth of the hypotheses, nor on any testing of any of the hypotheses, after having admitted them on probation. I call all such inference by the peculiar name, abduction, because its legitimacy depends upon altogether different principles from those of other kinds of inference.” (CP 6.526)
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Peirce distingue dois momentos na fase abdutiva125: o primeiro momento é simplesmente a origem de todas as conjecturas que podem compor a lista de possíveis explicações para o fenômeno em questão, não é nada mais que simples advinhação.
“A abdução, ao fim das contas, não é senão conjectura”.(PEIRCE, CP 7.219). “A sugestão abdutiva advém-nos como num lampejo. É um ato de introvisão (insight), embora de uma introvisão extremamente falível.” (Peirce, CP 5.181)
O primeiro momento da abdução é um momento heurístico, em que certas idéias se associam na mente de maneira incontrolável. (CP 6.302) Este primeiro momento também é caracterizado por um aspecto criativo que Peirce considera como uma habilidade natural instintiva, que não pode ser reduzida a procedimentos ou fórmulas restritivas.
Segundo Sebeok a abdução “é um instinto que confia na percepção inconsciente das conexões entre os aspectos do mundo, ou usando um outro conjunto de termos, é a comunicação subliminar de mensagens.”126
Esta faculdade pertence, ao mesmo tempo, à natureza geral do instinto assemelhando-se aos instintos dos animais, na medida em que estes ultrapassam os poderes gerais de nossa razão e pelo fato de nos dirigir como se possuíssemos fatos situados inteiramente além do alcance de nossos sentidos. Assemelha-se também ao instinto em virtude de sua pequena susceptibilidade ao erro, pois embora, esteja mais freqüentemente errado do que certo, a freqüência relativa com que está certo é, no conjunto, a coisa mais maravilhosa de nossa constituição. (PEIRCE, CP 5.173).
Numa outra passagem Peirce enfatiza a afinidade genética entre a mente humana e as leis da natureza:
É certo que a única esperança de que o raciocínio retrodutivo possa alguma vez alcançar a verdade está no fato de que pode haver alguma tendência natural de acordo entre as idéias que se apresentam à mente humana e aquelas que dizem respeito às leis da natureza. (PEIRCE, CP 1.81) 127
125C. F. Delaney, op.cit. p. 15.
Este instinto que explica porque as pessoas fazem suposições corretas de modo tão freqüente, é descrito como “uma salada peculiar...cujos elementos-chave estão em sua falta de fundamento, sua ubiqüidade e sua confiabilidade”(Ms 692:24)128.
Olhando, através de minha janela, nesta linda manhã de primavera, vejo uma azaléia em plena floração. Não, não! Eu não vejo isto, embora seja essa a única maneira que eu tenho para descrever o que vejo. Isso é uma proposição, uma sentença, um fato; entretanto, o que percebo não é proposição, sentença, fato, mas apenas uma imagem, a qual torno parcialmente inteligível por meio de uma enunciação do fato. Essa enunciação é abstrata; o que vejo, porém é concreto. Realizo uma abdução quando procuro expressar em uma sentença algo que vejo. A verdade é que todo o edifício do nosso conhecimento é uma estrutura emaranhada de puras hipóteses, confirmadas e refinadas pela indução. O conhecimento não pode avançar nem um pouco além do estágio do olhar que observa despreocupado se não se fizer, a cada passo, uma abdução. (PEIRCE, Ms 692)129
Assim se todo conhecimento depende da formulação de uma hipótese, no entanto, de um fato real, apenas se infere um pode ser (pode ser e pode não ser). Porém, observa-se que freqüentemente resulta ser positivo, o que torna este fenômeno "o mais surpreendente de todos os prodígios do universo”. (CP 8.238)
“...seja como for que o homem tenha adquirido sua faculdade de adivinhar os caminhos da Natureza, certamente não o foi através de uma lógica crítica e autocontrolada.” (Peirce, CP 5.173)
Por outro lado, não é possível entender a abdução sem nos remetermos à cosmologia peirceana. Quando Peirce diz que o homem tem um certo instinto130 para a verdade, significa que a mente humana, como resultado dos processos evolutivos está predisposta a fazer suposições corretas sobre o mundo. Este instinto é uma faculdade que dirige a mente em direção ao verdadeiro mesmo à luz do acaso e do erro.
127 Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “It is certain that the only hope of retroductive reasoning ever reaching the truth is that there may be some natural tendency toward an agreement between the ideas which suggest themselves to the human mind and those which are concerned in the laws of nature.” (CP 1.81)
128 C. Eisele (1985) op.cit. p. 899. 129 idem p.20
130“Instinto é uma espécie de fio permeando as inferências da vida, ligando analogicamente o homem a todas as outras formas vitais, inclusive vegetais. (...) Nos seres humanos, não apenas algumas ações primitivas, reflexos são insitintivos, mas também o são alguns tipos de crenças (...) Além disso, todos os instintos tem caráter de hábitos, sendo por implicação interpretantes num processo sígnico” (Santaella, 1993 b:104)
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A conecção entre abdução, instinto e o processo de evolução é um ponto crucial na teoria peirceana. Para Ibri, 131se nós formos entrar no mérito do instinto, nós temos que entrar no mérito da idéia da própria evolução do organismo humano, da própria evolução do homem.
Como foi que o homem foi levado a adotar aquela teoria como verdadeira? Você não poderá dizer que aconteceu por acaso, porque as teorias possíveis, se não estritamente inumeráveis, excedem de qualquer modo, um trilhão ou a terceira potência de um milhão; e, portanto, as chances são esmagadoramente contra uma simples teoria verdadeira, em vinte ou trinta mil anos durante os quais o homem tem sido um animal pensante, ter passado pela cabeça de qualquer homem. Alem disso, você não pode seriamente pensar que todo pinto que é chocado tem de investigar todas as possíveis teorias até que ele tenha a boa idéia de bicar algo e comê-lo. O pinto, diria você, bica por instinto. Mas se você é levado a pensar que toda galinha é dotada de uma tendência inata para uma verdade positiva, por que pensaria que só ao homem esta dádiva é negada? (PEIRCE, CP 5.591)
Peirce sustenta que a habilidade do pintinho ciscar a comida é em todos os aspectos semelhante à inferência abdutiva, porque ele escolhe enquanto cisca sem raciocinar, ele não o faz deliberadamente.
Nossa capacidade de adivinhação corresponde aos poderes musicais e aeronáuticos dos pássaros, isto é, tal capacidade está para nós como aqueles poderes estão para eles, o mais elevado de nossos poderes simplesmente instintivos. (PEIRCE, CP 7.48)
Comparando a capacidade de abdução do homem com os poderes musicais e aeronáuticos dos pássaros, Peirce comenta que há suficiente afinidade entre a mente de quem raciocina e a natureza para tornar válidas as hipóteses, quando são confrontadas com a observação através da comparação. (CP 1.121)
Para Peirce, de acordo com a doutrina das possibilidades, seria praticamente impossível supor a causa de qualquer fenômeno como puro acaso. Assim, não pode haver nenhuma dúvida de que existe uma afinidade entre a mente humana e a natureza. Considerações sobre a estrutura do universo não deixam dúvidas acerca do fato de que a mente do homem, tendo se desenvolvido sob a influência das leis da natureza, e por esse motivo, de certo modo, pensa naturalmente segundo o padrão da natureza. (CP 5.604, e 7.39) Este é um dos fatores de sobrevivência do homem. O evolucionismo torna-se central na lógica da investigação de Peirce. É a "âncora mestra da ciência" (CP 7.220).
É evidente que, a menos que o homem tenha tido uma luz interior que tornasse suas suposições muito mais verdadeiras do que seriam por mero acaso, a raça humana teria há muito sido exterminada, devido a sua absoluta inépcia nas lutas pela existência... (PEIRCE, MS 692)132
Os elementos da hipótese já estão em nossas mentes, mesmo antes que tenhamos consciência deles, "mas é a idéia de reunir aquilo que nunca tínhamos sonhado reunir que lampeja a nova sugestão diante de nossa contemplação”.(CP 5.181)
Parece-me que a formulação mais clara que podemos fazer a respeito da situação lógica - a mais livre de toda a mescla questionável de elementos - consiste em dizer que o homem tem uma certa Introvisão (insight), não suficientemente forte para que esteja com mais freqüência certo do que errado, mas forte o suficiente para que esteja , na esmagadora maioria das vezes , com mais freqüência certo do que errado, uma Introvisão da Terceiridade , os elementos gerais, da Natureza. Denomino-o de Introvisão porque é preciso relacioná-la com a mesma classe geral de operações a que pertencem os Juízos Perceptivos. (PEIRCE, CP 5.173)
Peirce descreve a abdução como um instinto racional, “spontaneous conjectures of
instintive reason” (CP 6.475), enfatizando ao mesmo tempo sua natureza racional e instintiva
(capacidade de adivinhar a hipótese correta). O momento do “insight” é instantâneo, mas o processo de construção e seleção das hipóteses é consciente, controlado, voluntário, deliberado sujeito à crítica e autocrítica.
A abdução não necessita de razões, porque simplesmente apresenta sugestões, ela sugere que alguma coisa pode ser. (CP5.171). O homem não consegue dar uma razão precisa para as suas melhores conjecturas (CP 5.173), por isto Peirce qualifica como mágica esta faculdade. (CP 6.476) Em outras passagens ele usa os termos “il lume natural”, luz natural, luz da natureza, “insight” instintivo. (CP 5.604, 6.477, 1.80).
Segundo Peirce os processos pelos quais temos intuições sobre o mundo dependem dos julgamentos perceptivos, que permitem a dedução de proposições universais. Os juízos perceptivos são juízos impostos em termos absolutos à nossa aceitação através de um processo no qual somos incapazes de controlar e, por conseguinte criticar. (CP 5.157)
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A inferência abdutiva se transforma no juízo perceptivo sem que haja uma linha clara demarcação entre eles: ou em outras palavras, nossas primeiras premissas, os juízos perceptivos, devem ser encarados como um caso extremo das inferências abdutivas, das quais diferem por estar absolutamente além de toda crítica. (PEIRCE, CP 5.181)
Para Peirce, os julgamentos perceptivos são resultado de processo não suficientemente consciente para ser controlado, ou melhor, não controlável e, portanto não plenamente consciente. Tanto o julgamento perceptivo como a abdução são igualmente falíveis, embora o, julgamento perceptivo, mesmo sendo falível é indubitável.
A inferência abdutiva se dilui no julgamento perceptivo sem qualquer linha de demarcação mais clara entre eles, ou, em outra as palavras, nossas primeiras premissas, os julgamentos perceptivos, devem ser encaradas como um caso extremo de inferências abdutivas, das quais diferem por estar totalmente à margem da crítica (PEIRCE, CP 5.181).
Por outro lado o julgamento perceptivo tem algo de insistente, compulsivo que somos obrigados a reconhecer enquanto que o abdutivo nasce em momentos mais soltos, mais lúdico, e por isso mesmo são destituídos de certeza. Por isso nossas abduções devem ser submetidas à crítica, o que não acontece com os julgamentos perceptivos. Outra diferença, portanto, entre os juízos percetivos e as inferências abdutivas é que os primeiros não estão sujeitos à análise lógica.
Peirce também chama a abdução de argumento originário: uma abdução é originária quanto ao fato de ser o único tipo de argumento que começa com uma nova idéia. Portanto é à abdução que Peirce atribui o poder heurístico originário.
O processo de formação de hipótese se confunde com o processo de formação de juízos. Mas a hipótese uma vez formada é a expressão lógico-verbal de um processo inferencial sob controle, isto é, os elementos já estavam na mente (“um momento de reflexão mostrará que muitos fatos estão já presumidos quando se formula a indagação lógica”), mas não na forma como foram combinados.
Quando alguém contempla um estado de coisas surpreendente desconcertante (frequëntemente tão desconcertante que não pode estabelecer definitivamente o que é este caráter desconcertante) ele pode formulá-lo em um julgamento ou em vários julgamentos aparentemente conectados; finalmente, ele freqüentemente deverá arriscar uma hipótese ou um julgamento problemático, como mera possibilidade, da
qual ele ou percebe completamente ou suspeita que o fenômeno desconcertante seria uma conseqüência necessária e provável. (PEIRCE, CP 8.229)133
É importante ressaltar que Peirce formula a abdução como uma inferência que deve ser posterior a algum estado da mente, “mas defini-la como formulação inferencial é função da dedução e da indução, (...) nem a dedução, nem a indução contribuem com o menor item positivo à conclusão de uma investigação. Elas tornam o indefinido definido; a dedução explica; a indução avalia”. (CP 6.475)
Para alguns comentadores a abdução ao ser relacionada com instinto, não teria forma lógica, e sendo o instinto uma questão psicológica, Peirce estaria confundindo lógica com psicologia. Para Anderson 134 que faz a defesa desta questão, a abdução é da mesma natureza do instinto (CP 5.173), é um ato de introvisão (“insight”) (CP 5.181), mas mesmo assim
possui uma forma lógica perfeitamente definida. (CP 5.188).
Segundo o autor acima, a abdução é paradoxalmente intuitiva e discursiva, instintiva e inferencial, podem ter um caráter de “insight” e originativo e, ainda assim ter forma lógica. Esse instinto não é um mecanismo que determina nossas adivinhações específicas, mas é uma habilidade que nos permite adivinhar corretamente. 135
Para Santaella (1993 b: 104), no processo de raciocínio, uma proposição é inferida de outra, de acordo com algum hábito mental. Se os instintos são hábitos, podem ser interpretantes num processo de tradução sígnica, então a teoria do instinto é compatível com a teoria inferencial da ação mental e, contrariamente ao individualismo da intuição ao modo de Descartes, os instintos são coletivos, sociais, hábitos vivos.
133Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “When one contemplates a surprising or otherwise perplexing state of things (often so perplexing that he cannot definitely state what the perplexing character is) he may formulate it into a judgment or many apparently connected judgments; he will often finally strike out a hypothesis, or problematical judgment, as a mere possibility, from which he either fully perceives or more or less suspects that the perplexing phenomenon would be a necessary or quite probable consequence.” (CP 8 229)
134D. Anderson, (1986) "The Evolution of Peirce's Concept of Abduction", Transactions of the Charles S.Peirce Society, vol
XXII,n.2 p.145-64 e R. Roth, (1988) "Anderson on Peirce's Concept of Abduction: Further Reflections", Transactions of
the Charles S.Peirce Society, vol. XXIV, n.1 p.131/139, P. Forster, (1989) "Peirce on the Progress and Autorithy of Science", Transactions of the Charles S.Peirce Society, vol. XXV, n.4, p.421-452.
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Por outro lado é necessário enfatizar a distinção feita por Peirce entre abdução e intuição (CP 5.213). Ao contrário da intuição, a abdução tem lugar em “media res”, sendo influenciada por pensamentos prévios, necessitando uma determinada experiência e um problema a ser resolvido, para ter início. (CP 2.755)
O segundo momento da abdução leva em conta o fato de que poderão surgir várias hipóteses que podem explicar os fatos. Quantas hipóteses podem ser levantadas sobre um determinado fato? Inúmeras, mas a grande pergunta é como é que se dá o processo de formação de hipóteses, ou seja, que interação existe na mente humana com o objeto investigado. O que faz com que o homem levante algumas hipóteses alternativas para as quais a história tem mostrado que uma delas se mostra aproximadamente verdadeira?
Portanto, das inúmeras hipóteses levantadas deveremos selecionar algumas. É interessante ressaltar que da mesma forma que, no primeiro momento da abdução há necessidade de um instinto natural, no segundo momento também este instinto é necessário para se fazer a escolha certa.
Considere-se a multidão de teorias que poderiam ter sido sugeridas. Um físico depara-se com um novo fenômeno em seu laboratório. Como é que ele sabe se as conjunções dos planetas têm algo a ver com isso, ou se isso é assim, porque talvez, a imperatriz viúva da China, no mesmo momento há um ano atrás, pronunciou alguma palavra com um poder místico, ou se o fato se deve à presença de algum espírito invisível? Pense-se nos trilhões e trilhões de hipóteses que se poderiam formular e das quais apenas uma é verdadeira; todavia, após duas ou três, no máximo uma dúzia de conjecturas, o físico dá, bastante aproximadamente, com a hipóteses correta. (PEIRCE, CP 5.172)
A seleção das hipóteses está sujeita a algumas regras. A primeira regra diz que aquela hipótese que parecer mais simples deve ser levada em consideração em primeiro lugar. (CP 6.532) A hipótese mais simples para Peirce seria aquela mais fácil e natural, aquela que o instinto sugere que deveria ser a preferida. A simplicidade natural está ligada àquelas hipóteses que se recomendam a si mesmas, isto é, aquelas que são mais facilmente compreensíveis em termos de aptidão, de razoabilidade e de bom senso (CP 7.220).
A regra da simplicidade traz algumas vantagens, entre elas a de que as hipóteses mais simples são as mais fáceis para se começar, o que permite investigar com mais eficiência,
como também determinar o melhor modo testá-las e de deduzir suas conseqüências. Assim se estiverem erradas podem ser eliminadas com menos despesas do que outras. (CP 6.532)
Mas a principal justificativa deste critério reside no fato de que a ênfase não está colocada em um investigador individual e sim numa comunidade. O critério de simplicidade pode ser também inserido num contexto mais amplo do que Peirce chamou de "economia da