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179 Ibidem.
180 GREMAULD. Amaury Patrick. VASCONCELLOS. Marco Antônio Sandoval de. e TONETO JÚNIOR.
A Constituição Federal Brasileira de 1988 é dirigente, na medida em que não se limita a garantir a ordem, mas também apresenta um programa para o futuro, apontando linhas de atuação para a política e fins a serem perseguidos.
Conforme entende Canotilho, a Constituição dirigente é uma constituição estatal e social comprometida com mudança da realidade pelo Direito. A Constituição Dirigente é um programa de ação para alteração da sociedade. 181
Consoante leciona o professor Eros Grau, a Constituição é um sistema dotado de coerência.182 Dessa forma, ao se buscar analisar o capítulo da
Ordem Econômica, não se há de o fazer destacando-o do todo, mas levando em consideração os fundamentos da República, os princípios que a regem e os fins que esta elegeu como desejáveis.
Em sendo assim, a política econômica deve guardar coerência com os princípios, fundamentos e fins de toda a ordem constitucional, razão pela qual urge que se faça uma breve exposição destes.
Conforme se explicou no segundo capítulo desta dissertação, o artigo primeiro do Texto Constitucional reúne os fundamentos da República. São eles: a soberania, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político. A esses fundamentos gerais, somam-se os objetivos específicos da ordem econômica: livre iniciativa e valorização do trabalho humano.
A valorização do trabalho humano e o valor social do trabalho, segundo Grau,183 consubstanciam cláusulas principiológicas que, juntamente com
o direito ao desenvolvimento, servem de instrumento à consecução do objetivo de
181 BERCOVICI, Gilberto. Constituição Econômica e Desenvolvimento.Op. Cit. p. 35. 182 A Ordem Econômica na Constituição de 1988. Op. Cit. p. 193.
183
garantir existência digna a todos. Prestam-se os valores, outrossim, à conciliação entre os interesses antagônicos dos titulares do capital e do trabalho. O trabalho passa a receber proteção politicamente racional, pelo exercício, por parte do Estado de uma série de funções. Essa proteção decorre do papel essencial desempenhado pelo fator de produção do trabalho para o funcionamento do sistema capitalista.
Dentro da ordem constitucional vigente, a valorização do trabalho concretiza nos direitos expressos no artigo sétimo da Lei Maior, bem como em outros que se ocupem da melhoria da condição social dos trabalhadores.
Ao determinar o Texto Constitucional que a ordem econômica se funda na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, determinou-se que a livre iniciativa não seria tomada como expressão absoluta e individualista, mas no quanto expressa de socialmente valioso184, sendo expressão de liberdade titulada
não apenas pelo capital, mas também pelo trabalho185.
Citando o professor José Afonso da Silva, Eros Grau conclui que a ordem econômica prioriza os valores do trabalho humano sobre todos os demais valores da economia de mercado.186
A liberdade de iniciativa, juntamente com a proteção ao direito de propriedade são as bases que definem o modo de produção capitalista. A livre iniciativa decorre do direito fundamental à liberdade descrito no caput do artigo quinto da Constituição. Decorrem do fundamento liberdade de iniciativa, a liberdade de iniciativa econômica e a livre concorrência.
De fato, a liberdade de iniciativa é gênero do qual a liberdade de iniciativa econômica é espécie. A última se refere à liberdade de iniciativa
184 Ibidem. p. 200. 185 Ibidem. p.213. 186
exclusivamente empresária, ao passo que a primeira trata da liberdade associativa, cooperativa, dentre outros.
Convém dispor que a liberdade de iniciativa dita duplo comando ao Estado: exercer a função de combater atos que possam ameaçar seu exercício pleno (p. ex.: concentração do poder econômico); abster-se de intervir excessivamente na economia de forma a não obstaculizar o desenvolvimento de atividades econômicas pelos particulares.
Entende-se a livre concorrência como garantia de oportunidades iguais a todos os agentes, ou seja, trata-se de norma de proteção ao consumidor, eis que a descentralização da formação de preços induz a competitividade, que por sua vez é determinante para a distribuição dos recursos a mais baixo preço.
O artigo terceiro da CF/88, cláusula transformadora, delineia os fins do Estado Brasileiro, explicitando o contraste entre a realidade social injusta e a necessidade de eliminá-la. Aponta para obrigação do Estado de promover, por atitudes positivas, constantes e diligentes, a transformação da estrutura econômico-social.187
São fins gerais do Estado Brasileiro: a constituições de uma sociedade livre, justa e solidária, a garantia do desenvolvimento nacional, a erradicação da pobreza e a marginalização e redução das desigualdades sociais e regionais e a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
A finalidade específica da ordem econômica consiste em assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social.
Indubitavelmente, toda a atuação do Estado na elaboração de políticas deve estar pautada na concretização desses objetivos gerais e específico
187
há pouco transcritos. Esses objetivos, conforme amplamente exposto no segundo capítulo, são tidos por normas-objetivo.
Uma das normas-objetivo constitucionalmente consagrada é a formação de uma sociedade livre, justa e solidária. Há de se dispor que a liberdade aqui designada é entendida em todas as suas manifestações, não apenas a liberdade formal, mas a liberdade real, concreta.
O ideal de justiça social é também finalidade da ordem econômica expressa no artigo 170. Longe de ter um sentido unívoco, Eros Grau assevera que a justiça social se refere à superação das injustiças na repartição do produto econômico tanto do ponto de vista micro quanto macroeconômico. 188
Já Manoel Gonçalves Ferreira Filho define justiça social como a virtude que ordena para o bem comum todos os atos humanos exteriores.189 A
solidariedade será observada na sociedade que não inimiza os indivíduos entre si, mas que utiliza a energia advinda da densidade demográfica para a fraternidade, cooperação. 190
Como se expôs detalhadamente em passagem anterior, outra norma-objetivo prestigiada pelo artigo terceiro é o dever do Estado de garantir o desenvolvimento nacional. A despeito de esta norma não estar contida no art. 170, não resta dúvida de que, como objetivo geral, princípio constitucional impositivo que é, é inafastável a sua observância pela ordem econômica.
De fato, há de se dizer que o dever de desenvolvimento sintetiza todos os demais objetivos nacionais, porquanto é condição da justiça social, e o do bem-estar geral, já que não seria possível assegurar ao povo vida digna sem que se haja atingido uma elevação no patamar de produção. 191
188 A ordem econômica na Constituição de 1988. Op. Cit. 224. 189
FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Curso de Direito Constitucional. 34. ed. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 356.
190 A ordem econômica na constituição de 1988. Op. Cit. p. 215. 191
No dizer de Bercovici, o desenvolvimento econômico e social, conformando e harmonizando todas as demais políticas, com a eliminação das desigualdades, pode ser considerado a síntese dos objetivos históricos nacionais.192
É certo, pois, exprimir que o Estado deve promover o desenvolvimento cumprindo o seu dever de planejar (art. 174 CF/88), ora agindo diretamente na esfera econômica, ora criando condições necessárias ao desenvolvimento, ora induzindo os particulares a agir em consonância com seu plano.
O objetivo fundamental da República Federativa do Brasil de erradicação da pobreza e da marginalidade e da redução das desigualdades sociais e regionais foi também elencado entre os princípios da ordem econômica (art.170, VII).
Esse enunciado expressa o reconhecimento explícito da realidade nacional de subdesenvolvimento, marcado pela pobreza, marginalização e pelas desigualdades sociais e regionais, e a determinação de que o Estado, pela promoção de políticas, transforme e supere essa situação.
O art. 170 enuncia, outrossim, entre as finalidades da ordem econômica, a busca pelo pleno emprego, que pode ser traduzido pela expansão das oportunidades de emprego produtivo. Essa finalidade constitui corolário da valorização do trabalho humano e do direito social ao trabalho, este previsto no art. 6o do Texto Constitucional.
Essa norma-objetivo informa o conteúdo ativo do princípio da função social da propriedade, eis que obriga que se exerça o direito de propriedade com o objetivo de realizar o pleno emprego.
192
Por derradeiro, cumpre tratar-se aqui da dignidade da pessoa humana, que é apresentada no Texto Constitucional como fundamento da República (art. 1o, III) e como fim para o qual se deve voltar a ordem econômica (art. 170).
Com efeito, esse fundamento-fim, embora se concretize como direito individual, consiste em parcela do núcleo essencial dos direitos humanos.
Dada a sua importância, a constituição vigente atribuiu à dignidade da pessoa humana, assim como ao direito ao desenvolvimento, o duplo caráter de princípio constitucional impositivo e de norma-objetivo.
Segundo Canotilho, a dignidade da pessoa humana como base da República é o reconhecimento de que a República é uma organização política que serve ao homem, não sendo o homem que serve aos aparelhos políticos organizatórios. 193
Como fim da ordem econômica, a dignidade da pessoa humana deve ser priorizada tanto pelo Poder Público quanto pelo setor privado.
Ao que parece, não obstante a dificuldade de definir o termo “existência digna”, é certo que a determinação constitucional almeja alcançar a orientação da ordem econômica à equânime repartição do produto social, a fim de garantir o mínimo existencial a cada indivíduo, a saber: alimentação, moradia, trabalho, saúde e educação.
Conforme definição de Luís Roberto Barroso194, são princípios para
o funcionamento da ordem econômica, entendidos como tais os que estabelecem os parâmetros básicos de convivência que os agentes da ordem deverão observar, aqueles expressos entre os incisos I e VI do artigo 170 do Texto
193 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 7. ed. Coimbra:
Edições Almedina, 2003. p. 225.
194 BARROSO, Luis Roberto. A ordem econômica constitucional e os limites à atuação estatal no controle de
preços. In Revista Diálogo Jurídico, Salvador, CAJ – Centro de Atualização Jurídica, número 14, junho/agosto, 2002. p. 8-15.
Constitucional: a soberania nacional, a propriedade privada, a função social da propriedade, a livre concorrência, a defesa do consumidor, a defesa do meio ambiente. Os incisos VII a XIX, dos quais já se tratou, representam os princípios- fins, as realidades materiais que se pretende sejam alcançadas pela ordem econômica.
A soberania nacional econômica de que trata o art. 170 não supõe o isolamento econômico, mas a modernização da economia e da sociedade e a ruptura da situação de dependência em relação às sociedades desenvolvidas. Em verdade, a Constituição não determina isolamento, mas uma efetiva autodeterminação na condução da política econômica, consubstanciada na ruptura com a dependência e subordinação a interesses externos que muitas vezes permeiam as decisões políticas nos países periféricos.195
Em se tratando das taxas de juros, é inegável que as decisões de política econômica devem ser tomadas com independência. Dessa forma, verdadeira afronta à soberania nacional é a adoção do regime de metas de inflação adotado em virtude de imposições alienígenas determinadas pelo Consenso de Washington, eis que esse regime significa a sobreposição de interesses estrangeiros sobre os interesses nacionais de desenvolvimento.
Os incisos II e III consagram como princípios da Ordem Econômica a propriedade e a função social da propriedade.
Segundo o professor Eros Grau, a propriedade, afirmada pelo Texto Constitucional, reiteradamente, no art. 5o, no inciso XXII do art. 5o e no
art.170, III, não constitui instituto jurídico único, mas um conjunto de institutos jurídicos relacionados a distintos tipos de bens.196
195 COSTA, Luciana Pereira. Disciplina Jurídica do Câmbio e Política Pública. Dissertação de Mestrado.
Universidade de São Paulo, 2009. p. 87.
196
Assim, o Direito de propriedade previsto no art. 5o refere-se ao
direito individual de propriedade, que cumpre função individual de proteger o indivíduo e a sua família contra as necessidades materiais. Trata-se de meio de proteção à subsistência individual, não havendo que se cogitar aqui em uma função social para a propriedade.
Ocorre que, na civilização contemporânea, a propriedade privada deixa de ser o único, senão o melhor meio para garantir a subsistência do indivíduo. Sobrepõem-se à propriedade a garantia de emprego e salário justo e as prestações sociais devidas ou garantidas pelo Estado.
Assim, o art. 170, ao tratar da propriedade e de sua função social, tem o intuito de regrar a propriedade que integra o processo produtivo, para a qual convergem outros interesses que concorrem com aqueles do proprietário e o condicionam e por ele são condicionados.
Deve-se dizer, portanto, que a função social incide sobre a propriedade dos bens de produção e a propriedade que excede o quanto caracterizável como tangida por função individual. A exemplo da última, tem-se a propriedade detida para fins de especulação ou acumulada sem destinação ao uso a que se destina.197
Resultam da atribuição de função social à propriedade limites positivos e negativos à iniciativa econômica, impondo ao proprietário, ou ao detentor de poder de controle de determinada empresa, o dever de exercer essa propriedade não apenas se abstendo de lesar a coletividade, mas em benefício desta, sendo certo que esse exercício deve subordinar-se aos ditames da justiça social e servir de instrumento para a realização do fim de assegurar a todos existência digna.
Outro princípio da ordem econômica é o da defesa do consumidor. Justifica-se essa proteção constitucional pela verificação de que os mercados
197
adotam formas assimétricas, assumindo o consumidor, em regra, posição de debilidade e de subordinação estrutural em relação ao produtor do bem ou do serviço de consumo.
Assim, as medidas voltadas à defesa do consumidor não se configuram como mera expressão de ordem pública, devendo a sua promoção ser lograda mediante a implementação de normatividade específica e de medidas dotadas de caráter interventivo.
A defesa do meio ambiente também é princípio da ordem econômica, consubstanciando-se essa proteção em resposta às correntes que propõem a exploração predatória dos recursos naturais.
De fato, a defesa do meio ambiente conforma plenamente os objetivos de desenvolvimento, pleno emprego, justiça social e garantia de existência digna a todos, eis que a concretização destes supõe a existência de uma economia “autossustentada, suficientemente equilibrada para permitir ao homem reencontrar-se consigo próprio, como ser humano e não apenas como um dado ou índice econômico.”198
O último dos princípios da Ordem Econômica é o que diz respeito ao tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sua sede e administração no País, cujos objetivos primordiais consistem em ampliar a concorrência e incrementar o setor produtivo nacional.