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A exposição cronológica dos fatos mostra as dificuldades pelas quais passou o Ensino Jurídico e aponta seriadas conquistas na busca pela qualidade, méritos que demonstram também a importância política das Escolas do Direito na História do Brasil.

Após a Constituição de 1988, a Portaria nº. 1.886/94, do Ministério da Educação e Desporto, foi a primeira norma da nova ordem constitucional a estabelecer critérios para a abertura dos Cursos Jurídicos. Publicada em 30 de dezembro, fixava as diretrizes curriculares e o conteúdo mínimo dos cursos jurídicos.

Os novos parâmetros ali tracejados impulsionariam uma revolução no ensino do Direito como nunca antes verificada e a restauração imposta serviria de base para o aprimoramento de outros cursos de graduação, pois inspirou o atual Plano Nacional de Educação. Hoje, as Atividades Complementares e o Estágio estão nas diretrizes específicas de todos os cursos superiores.

O Ensino Jurídico ingressava na nova ordem revestido de problemas antigos: a bipolaridade da teoria versus prática, a busca por um curriculum mais apropriado e uma metodologia didático-pedagógica.128 E para alcançar o alto teor social e

humanista da Constituição de 1998, deveria formar profissionais aptos para esta nova realidade, incluindo a normatização dos princípios, e impulsionaria o jurista para uma nova fase do Direito.

127 BRASIL. Ministério da Educação e Desporto. Portaria Ministerial nº. 1.886, de 30 de dezembro de

1994. Fixa as diretrizes curriculares e o conteúdo mínimo do curso jurídico. INEP/MEC, Brasília, DF, 2007. Disponível em: <http://www.prolei.inep.gov.br/>. Acesso em: 01 maio 2007.

128 RODRIGUES, Horácio Wanderley. Ensino jurídico: saber e poder. São Paulo: Acadêmica,

A etapa iniciada precisaria de profissionais capazes de interpretar a norma, conferindo a devida assunção aos princípios e valores da social-democracia, já não sendo assaz a formação de bacharéis limitados ao método da subsunção.

Não só a Constituição Federal de 1988 estimularia estas exigências. A evolução da hermenêutica já ultrapassara há muito a Escola da Exegese e não se cria mais em um código com a previsão de todas as condutas possíveis. Não se admitia mais que as relações humanas e as constantes modificações sociais não tivessem qualquer influência na aplicação das normas, como se a função jurisdicional estivesse limitada ao simples emprego das regras aos fatos.

A interpretação para ser integradora reclamava uma hermenêutica total129: “A

hermenêutica, para ter dimensão total, não se iludirá com a mecânica de enquadrar o fato na norma. Procurará também amoldar a norma ao fato, dobrando aquela perante este, com sentimento de equidade” 130.

Nas suas lições sobre Hermenêutica, o Professor Falcão faz a distinção, indispensável para este estudo, entre a interpretação pura e a interpretação para aplicação, ressaltando o custo social desta em comparação com aquela, que é feita pelo ser humano a cada instante.

[...] sem conhecimentos amplos e apreciáveis torna-se difícil abarcar o dilatado leque de sensibilidade que a boa interpretação requer. Como, por exemplo, poderia alguém interpretar bem uma obra de arte sem entender da arte respectiva ou de outras artes? Em suma, sem entender de arte? Sem qualquer noção de estética, sem informação sobre o autor, sem visão do contexto histórico de sua produção, e assim por diante? Como seria possível interpretar-se bem uma norma jurídica sem se ter conhecimento da quadratura axiológica que a inspirou e que, agora, ocasiona sua aplicação? Sem capacidade de aprofundamento na linguagem sob a qual a norma se acha estampada? Sem noção da realidade social que a ensejou ou sem ter conhecimentos sociológicos hábeis ao desvendamento da interação que a norma intenta disciplinar? Sem ter sequer alguns lineamentos básicos atinentes aos problemas que a juridicidade encerraria? Como captar seus envolvimentos com o Estado e a mistura de repercussões recíprocas entre os dois, sem qualquer sabedoria alferida da Ciência Política? [...] A resposta seria uma só: a interpretação resultante não colheria todas as opções disponíveis de sentido e não colheria bem sequer as poucas obtidas, à falta de condições culturais indispensáveis a uma correta seleção por parte do intérprete.131

129 FALCÃO, Raimundo Bezerra. Hermenêutica. São Paulo: Malheiros, 2000.p.243. 130 Ibid., p.256.

131

A formação do intérprete deveria abranger aspectos culturais e não simplesmente ficar limitada ao conhecimento das normas. Aspectos sociais, históricos e políticos teriam importante função na tarefa interpretativa do jurista.

A Portaria nº. 1.886/94 traçou diretrizes em atenção a este processo de evolução da interpretação jurídica, às quais os cursos jurídicos deveriam se adaptar a partir de 1996.

Os cursos jurídicos deixariam de ter um currículo hermético fixado pelo órgão Estatal. Este passava a direcionar e a delimitar a forma como cada Instituição deveria formar a sua própria grade curricular, levando em consideração a situação social da localidade e o mercado de trabalho, contexto em que poderiam ser contemplados os novos direitos. Este ponto valorizou sobremaneira a autonomia das instituições.

A partir de 1996, os cursos jurídicos deveriam ser ministrados em 3.300 horas de atividades a serem integralizadas no mínimo de 5 anos. Estas horas de atividade, além do estágio, compreenderiam matérias denominadas pela Portaria como Fundamentais. Assim, cada IES poderia estabelecer como elas seriam distribuídas no currículo pleno, definindo suas ramificações, mas não poderiam deixar de ser inseridas por serem componentes do Conteúdo Mínimo.

Entre as matérias fundamentais estavam a Introdução ao Direito, a Filosofia, a Sociologia, a Economia e a Ciência Política; as profissionalizantes incluiriam o Direito Constitucional, o Direito Civil e o Direito Processual Civil, o Direito Administrativo, o Direito Penal e o Direito Processual Penal, o Direito do Trabalho, o Direito Tributário, o Direito Comercial e o Direito Internacional.

A programação dos cursos passaria a desenvolver as atividades de ensino interligadas às atividades de pesquisa e extensão, de forma a atender às necessidades de formação fundamental, sociopolítica, técnico-jurídica e prática. Para tanto, de 5% a 10% da carga horária deveria ser destinada a este fim: são as Atividades Complementares.

As bibliotecas foram alvo das diretrizes, de tal forma que foi exigida a manutenção de acervo atualizado de no mínimo 10 mil volumes de obras jurídicas e

de referência às matérias do curso, além de periódicos de jurisprudências, doutrina e legislação.

Para a conclusão do curso, deveria ser feito um trabalho na forma de Monografia, com tema e orientador escolhidos pelo aluno. Este minucioso estudo deveria ser ao final defendido perante uma banca examinadora.

A prática jurídica seria desenvolvida por meio de Estágio, o qual faria parte do currículo pleno, portanto obrigatório, e competiria aos professores do curso a supervisão dos alunos. Para este fim as Instituições deveriam dispor de instalações adequadas para o treinamento das diversas profissões e poderiam, neste desiderato, fazer convênios com entidades públicas, judiciárias, empresariais, sindicais e comunitárias, de modo a permitir a participação dos alunos em prestação de serviços jurídicos.

A participação do aluno no estágio curricular dentro da IES não impediria àqueles que quisessem desenvolver o estágio em um outro local. Este estágio também seria curricular e poderia complementar a carga horária, observadas as regras estabelecidas por cada IES. Exigiria somente a supervisão dos professores do núcleo de prática e da OAB, pois o estágio está previsto no seu Estatuto.

Naquele momento, a Portaria nº. 1.886/94 foi de irrefutável denodo. Se transitória e incapaz de abolir todos os problemas do ensino jurídico, não se pode subestimar o marco que inaugurou, até hoje não superado.

Foi nela, pela primeira vez, apontada a preocupação com a qualidade do ensino noturno, limitando seus horários e imputando igual qualidade à praticada nos turnos matutino e vespertino.

A Portaria nº. 1.886/94 teve sua implementação postergada até 1997, pela Portaria nº. 3, de 9 de janeiro de 1996, do MEC132. As Portarias nº. 1.252/01 e nº.

1.875/01, ambas do MEC, dispuseram que a apresentação e defesa da Monografia somente seriam obrigatórias para os ingressos a partir de 1998.

132 BRASIL. Ministério da Educação. Portaria Ministerial nº. 3, de 9 de janeiro de 1996. Altera o art. 16

da Portaria nº1.886 de 30 de dezembro de 1994, que trata das diretrizes curriculares do cursos jurídicos dando-lhe nova redação. INEP/MEC, Brasília, DF, 2007. Disponível em:

Em 2004, a Portaria foi revogada pela Resolução nº. 9, na qual constam as atuais Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Direito.

Embora a Portaria tenha primado pela inserção da prática no currículo dos cursos jurídicos, mesmo após a Resolução nº. 9/2004, boa parte das aulas ainda ocorria dentro das salas de aula, no padrão de ensino tradicional, e muitas vezes não desenvolviam no aluno o espírito crítico, bem como não o preparavam para o Direito como uma ciência social e mutante.

Benzer Belgeler