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Deve-se esclarecer inicialmente que as Portarias até então vigentes eram deliberadas pelo próprio Ministro da Educação e do Desporto, no uso das atribuições do Conselho Nacional. Para se adequar à Constituição Federal de 1988 e à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a Lei nº. 9.131/95133 fixou a competência
da Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação para deliberar sobre as diretrizes curriculares propostas pelo Ministério da Educação e do Desporto, para os cursos de graduação.
Esta mudança de competência levou o próprio Conselho Nacional de Educação a emitir parecer declarando a Portaria nº. 1.886/94 como não recepcionada pela LDB. Mas este parecer não chegou a ser publicado.134
A Resolução nº. 9 foi emanada pelo Conselho Nacional de Educação e pela Câmara de Educação Superior, respectivamente CNE e CES, dentro uma de seqüência de trabalhos, priorizando o estabelecimento de parâmetros mínimos para todas as áreas do ensino superior135. Foi instituído o Plano Nacional de Educação,
aprovado pela Lei nº. 10.172/01136. 133
Id. Lei nº. 9.131, de 24 de novembro de 1995. Altera os dispositivos da Lei nº 4.024, de 20 de dezembro de 1961, e dá outras providências. Planalto, Brasília, DF, 2007. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9131.htm>. Acesso em: 29 abr.2007.
Lei nº 9.131/95.
134
RODRIGUES, Horácio Wanderley. Título do capítulo. In: JUNQUEIRA, Eliane Botelho; RODRIGUES, Horácio Wanderley. Ensino do Direito no Brasil: Diretrizes curriculares e avaliação das condições de ensino. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2002. p. 50.
135 BRASIL. Conselho Nacional de Educação/Câmara de Educação Superior. Resolução CNE/CES n°
9, de 29 de setembro de 2004. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Direito e dá outras providências. CNE, Brasília, DF, 2007. Disponível em:
<http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/rces09_04.pdf/>. Acesso em: 01 maio 2007.
136 BRASIL. Lei nº. 10.172, de 9 de janeiro de 2001. Aprova o Plano Nacional de Educação e dá
As Comissões de Especialistas convocariam as Instituições de Ensino para apresentarem as propostas para a elaboração das novas diretrizes dos cursos superiores.
A Comissão de Especialistas do Ensino do Direito (CEED) manifestou-se pela não necessidade de elaboração de novas diretrizes para o curso de Direito, pois entendia como recepcionada a Portaria nº. 1.886/94. Foi criada então uma Comissão de Consultores para a apresentação de proposta das novas diretrizes para os cursos jurídicos. Paulo Luiz Netto Lôbo, Roberto Fragale Filho, Sérgio Luiz Souza Araújo e Loussia Penha Musse Felix foram designados137.
A proposta por eles apresentada adaptava o texto da Portaria nº. 1.886/94 às exigências do Conselho Nacional de Educação e do Plano Nacional de Educação, cujo resultado dos trabalhos está sintetizado na atual redação da Resolução nº. 9/2004.
A Resolução nº. 9 estabelece que a organização do Curso de Graduação em Direito se expressa através do seu projeto pedagógico e deve abranger: o perfil do formando, as competências e habilidades, os conteúdos curriculares, o estágio curricular supervisionado, as atividades complementares, o sistema de avaliação, o trabalho de curso como componente curricular obrigatório do curso, o regime acadêmico de oferta e a duração do curso.
O Projeto Pedagógico dos cursos jurídicos deve contemplar: a concepção e os objetivos gerais do curso, contextualizados em relação às suas inserções institucional, política, geográfica e social; as condições objetivas de oferta e a vocação do curso; as cargas horárias das atividades didáticas e da integralização do curso; as formas de realização da interdisciplinaridade; os modos de integração entre teoria e prática; as formas de avaliação do ensino e da aprendizagem; os modos da integração entre graduação e pós-graduação, quando houver; o incentivo à pesquisa e à extensão, como necessário prolongamento da atividade de ensino e como instrumento para a iniciação científica; a concepção e composição das atividades de estágio curricular supervisionado, suas diferentes formas e condições
em:<http://www.planalto.gov.br/ccivil/leis/leis_2001/L10172.htm>. Acesso em: 20 maio 2007.
137 RODRIGUES, Horácio Wanderley. Título do capítulo. In: JUNQUEIRA, Eliane Botelho;
de realização, bem como a forma de implantação e a estrutura do Núcleo de Prática Jurídica; a concepção e composição das atividades complementares; e a inclusão obrigatória do Trabalho de Curso.
Os egressos dos cursos jurídicos devem ter qualificação tal a permitir a leitura, a compreensão, a interpretação e a elaboração de textos jurídicos, incluindo necessariamente a correta utilização da terminologia jurídica.
A capacidade para o desenvolvimento da pesquisa às diversas fontes do direito e a correta aplicação das normas e dos princípios são condições para a adequada atuação técnico-jurídica, as quais deverão também estar presentes entre as habilidades do formando.
O espírito crítico deve estar presente no perfil dos bacharéis, que devem estar aptos à utilização de raciocínio jurídico, de argumentação, de persuasão e de reflexão, bem como ao julgamento e à tomada de decisões.
Os métodos para permanente compreensão e aplicação do Direito deverão ser considerados na formação jurídica como essenciais para acompanhar a dinâmica da ciência do direito, ciência social e em constante processo de evolução.
O domínio de tecnologias é essencial para o jurista e o auxiliará na pesquisa e na elaboração de textos, com destaque, dentre estas tecnologias, para a internet e para os editores de texto, cuja utilização é indispensável. O Art. 3º da Resolução destaca:
O curso de graduação em Direito deverá assegurar, no perfil do graduando, sólida formação geral, humanística e axiológica, capacidade de análise, domínio de conceitos e da terminologia jurídica, adequada argumentação, interpretação e valorização dos fenômenos jurídicos e sociais, aliada a uma postura reflexiva e de visão crítica que fomente a capacidade e a aptidão para a aprendizagem autônoma e dinâmica, indispensável ao exercício da Ciência do Direito, da prestação da justiça e do desenvolvimento da cidadania.
Para alcançar este fim, os Projetos Pedagógicos devem prestigiar e interligar os conteúdos dos Eixos de Formação Fundamental, de Formação Profissional e de Formação Prática.
O Eixo de Formação Fundamental inclui no curso de direito o estudo da Antropologia, da Ciência Política, da Economia, da Filosofia, da História e da
Sociologia. A Psicologia aparece contemplada pela primeira vez e a Ética, igualmente, revela-se desassociada da Filosofia, passando a ser trabalhada em disciplina autônoma, dentro das perspectivas Geral e Profissional.
As disciplinas tradicionais estão contempladas no Eixo de Formação Profissional. O Direito Constitucional, o Direito Administrativo, o Direito Tributário, o Direito Penal, o Direito Civil, o Direito Empresarial, o Direito do Trabalho, o Direito Internacional e o Direito Processual deverão ser “estudados sistematicamente e contextualizados segundo a evolução da Ciência do Direito e sua aplicação às mudanças sociais, econômicas, políticas e culturais do Brasil e suas relações internacionais”.
A Formação Prática consta do terceiro Eixo e estabelece o desenvolvimento aplicado da teoria dos demais eixos através do Estágio Curricular Supervisionado, do Trabalho de Curso e das Atividades Complementares.
A Resolução nº. 9 valoriza a idéia segundo a qual o Estágio deva ser realizado prioritariamente dentro da própria IES. Para tanto estas devem se estruturar e criar métodos para operacionalizar um Núcleo de Prática Jurídico próprio. Admite, ainda assim, a realização do estágio, em parte, através de convênios com outras entidades ou instituições e escritórios de advocacia; em serviços de assistência judiciária implantados na instituição, nos órgãos do Poder Judiciário, do Ministério Público e da Defensoria Pública ou ainda em departamentos jurídicos oficiais.
Significa dizer: todas as instituições de ensino deverão contar com estrutura para o aluno cursar o estágio curricular. A opção de realizar parte do estágio em instituições conveniadas é uma exceção, que não exclui a obrigatoriedade de supervisão, pois o estágio realizado fora da IES também é estágio curricular e deve ser avaliado.
O Estágio Supervisionado, previsto § 2º do art. 7º, permite a reprogramação e a reorientação das atividades de Estágio de acordo com os resultados teórico-práticos gradualmente revelados pelo aluno. Assim, a regulamentação do Núcleo de Prática Jurídica deve prever uma forma para fazer os alunos inaptos ao exercício das diversas carreiras jurídicas permanecerem em treinamento até alcançar habilidade compatível com sua formação. Tal medida visa assegurar um padrão de qualidade a
partir de mecanismos avaliativos outros, pois a formação prática não pode ser dimensionada da mesma forma como é aferida a formação teórica.
Em qualquer caso, o estágio curricular deverá ser supervisionado para fins de avaliação, feita a partir de relatórios elaborados pelos alunos.
O estágio extracurricular não perde por isto seu prestígio na formação do bacharel, pois poderá ser considerado nas Atividades Complementares, componentes curriculares enriquecedores e complementadores do perfil do formando.
As Atividades Complementares devem incluir a prática de estudos e atividades independentes, transversais, opcionais, de interdisciplinaridade, especialmente nas relações com o mercado de trabalho e com as ações de extensão junto à comunidade. Nelas estão inseridas as Atividades de Pesquisa, Iniciação Científica e Iniciação à Docência, as Atividades de Extensão e as de Monitoria, os Simpósios, os Seminários, os Congressos e as Conferências.
Como também abrange o ensino, as Atividades Complementares podem envolver as disciplinas não contempladas no Currículo Pleno. Exemplificando, a Faculdade “A”, para contextualizar o Projeto Pedagógico com as suas inserções institucional, política, geográfica e social, estabeleceu sua concepção voltada para as necessidades dos cidadãos dos grandes centros urbanos. No seu currículo pleno inseriu o Direito Urbanístico, o Direito Municipal, o Direito Ambiental, o Direito do Consumidor, os Mecanismos de Solução Extrajudicial de Conflitos, entre outros. O Direito Agrário somente aparece nas disciplinas eletivas e se ofertada, pois a Instituição não está obrigada a fazê-lo. Cursada, poderá ter suas horas convalidadas como horas de Atividade Complementar, de acordo com as regras definidas por cada Curso.
A exigência de Planos de Ensino é um dos destaques na Resolução nº. 9. Estes Planos de Ensino devem ser fornecidos aos alunos antes do início de cada período letivo e deverão conter os conteúdos, as atividades, a metodologia do processo de ensino-aprendizagem, os critérios de avaliação aos quais serão submetidos e a bibliografia básica. Esta previsão é bastante salutar, porquanto permite ao aluno conferir o Plano com as Ementas constantes no Projeto
Pedagógico e funciona como termo de compromisso do trabalho a ser desenvolvido pelo Professor.
Deve ser enfatizada na Resolução a exigência de sistemas de avaliação. Estas avaliações devem ser sistemáticas e envolver todos os participantes no processo de ensino e aprendizagem do curso, além de estarem centradas em aspectos considerados fundamentais para a identificação do perfil do formando.
Um dos aspectos da Resolução nº. 9 mais censurados é a falta de definição da carga horária mínima, deixando a questão para ser decidida em outra Resolução.
O ponto foi combatido da mesma forma como se criticou o currículo mínimo de outrora, pois permite as matérias obrigatórias como únicas e não cria óbices para que as instituições rendam-se às formula do mercado, achatando a durabilidade dos cursos. Tal medida prejudica a formação dos bacharéis e facilita a proliferação dos cursos jurídicos.
Hoje, todos os cursos de Direito já devem estar adequados a essas diretrizes, pois o prazo concedido para a implantação foi de no máximo 2 anos, em relação aos alunos ingressantes a partir da publicação da Resolução, ou seja, a partir de 29 de setembro de 2004.