Este item tem por objetivo socializar algumas informações quanto aos Regionais do Maranhão e Rio Grande do Sul, “lugares” que sediam a organização das experiências participantes da pesquisa.
A escolha por esses dois regionais não foi uma tarefa fácil dada a diversidade e riqueza de experiências presentes no conjunto dos Regionais que integram a CB. Esta escolha tampouco foi isenta de intencionalidades. Buscou-se valorizar experiências de educação não- formal, mobilização e controle social desenvolvidas ao longo do período definido pela pesquisa. A escolha das experiências não ocorreu pelo grau de impacto sobre sua atuação, mas, por se traduzirem em processos de trabalho, portanto, com capacidade de visibilizar conquistas e destaques, e também, dificuldades e elementos que podem ser qualificados. Assim, optou-se por esses dois regionais, que apresentam em comum a organização de um trabalho ininterrupto de Cáritas, desde a sua criação. Além disso, do ponto de vista da realidade sócio-política os dois estados (MA e RS), apresentam um sistema político marcado
fortemente por heranças coronelistas e clientelistas, que levam ao trato do “público” como propriedade particular, embora já se tenha avançado nos últimos anos, através da organização de movimentos sociais, das ações do MCCE, orçamento participativo, mobilizações sociais, controle do orçamento público, participação em Conferências e Conselhos em diferentes políticas sociais, entre outros.
O Rio Grande do Sul, de acordo com dados do IBGE (2010) tem uma população de 10.723.468 habitantes, em 497 municípios. Quanto a divisão territorial este Regional é formado por 18 Dioceses, sendo que desse total há trabalho de Cáritas organizado em 12 Dioceses: Bagé, Rio Grande, Pelotas, Santa Maria, Santa Cruz do Sul, Cruz Alta, Santo Ângelo, Passo Fundo, Vacaria, Novo Hamburgo, Caxias do Sul e Porto Alegre. A sede do Secretariado Regional está localizada em Porto Alegre. O trabalho da CB nesta região teve início em 1961, sendo a data oficial de criação em 12 de novembro de 1961. Até o ano de 1973 o Regional era composto pelos Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. “Com a criação do Regional Sul IV da CNBB em Florianópolis, Porto Alegre deixou de atender oficialmente as Cáritas Diocesanas daquele Estado, embora tenha continuado a prestar seu apoio e assessoria” (PARISOTTO; ADAMS, 2001, p. 16).
De acordo com os dados da pesquisa “Perfil dos(as) agentes Cáritas”, realizada por ocasião do IV Congresso e XVIII Assembleia Nacional, neste Regional há 2.554 agentes voluntários(as) que atuam nas entidades-membro. Quanto a estrutura organizativa, o Regional busca avançar para uma perspectiva de gestão compartilhada através de espaços de participação como: Assembleia e Fórum Regional, Conselho Regional, quatro Comissões Estaduais: Economia Solidária, Políticas Públicas, Emergências e Mobilização de Recursos.
Este Regional desenvolve seus trabalhos em sintonia com as orientações gerais da Cáritas Brasileira, afinal, é parte integrante desta rede. Na trajetória de trabalho verifica-se, inicialmente, a ênfase em ações marcadas por uma perspectiva assistencialista, especialmente através do Programa de Alimentos. Posteriormente, através do trabalho comunitário, se avança para a organização de PACs, no meio urbano e rural. Estes buscam gestar iniciativas de geração de trabalho e renda, junto às pessoas em situação de vulnerabilidade social ou que tenham sido afetadas pelas mudanças ocorridas no mundo do trabalho (desemprego, subemprego, trabalho temporário, entre outros). As iniciativas locais vão se consolidando e se articulando enquanto rede, com outras experiências em nível nacional e internacional. Busca- se, dessa forma, a organização e fortalecimento de um outro tipo de economia, a economia popular solidária. O Rio Grande do Sul é o estado pioneiro neste tipo de organização. A Cáritas, em especial, foi a entidade que iniciou este trabalho ainda na década de 1980. Dom
Ivo Lorscheiter43, Bispo de Santa Maria, durante o I Congresso Estadual de Cáritas, em 1978, já desafiava a entidade a:
ultrapassar as tradicionais sete obras de misericórdia [...], e assumir os desafios das migrações, do desemprego...; superar a caridade para chegar à justiça; ir da mera assistência à verdadeira promoção; não só ficar nos efeitos mas atingir as causas (PARISOTTO; ADAMS, 2001, p. 18).
Inspirado pelo livro “A pobreza, riqueza dos povos: a transformação pela solidariedade”, de autoria do africano Albert Tévoédjré, Dom Ivo, no III Congresso Estadual realizado em 1984 orientou a entidade a fortalecer a organização de projetos alternativos, como experiências de promoção humana que progressivamente pudessem avançar na perspectiva da “mística e metodologia da caridade libertadora”, a partir da atuação na área das políticas públicas. É oportuno destacar que a Cáritas/RS, ao longo de sua história vivencia três fases importantes (PARISOTTO; ADAMS, 2001, p. 20-21): 1) assistencial, onde a ênfase estava na distribuição de alimentos e organização de obras sociais católicas; 2) promocional, através de organização de equipes, de trabalhos comunitários e de um planejamento integrado à pastoral de conjunto e, 3) libertador, ou da “mística e metodologia da caridade libertadora”, que articula as ações assistenciais e promocionais, com a luta por políticas públicas, garantidora de direitos. Conforme referimos anteriormente, partimos da concepção de que as ações pontuais, que marcam o trabalho das organizações sociais, especialmente no período entre a década de 1950 a 1970, são marcadas por uma perspectiva assistencialista.
Considerando os elementos destacados pela Cáritas/RS, a partir dos relatórios anuais, no período de 2002 a 2011, referente a linha/prioridade voltada aos direitos humanos, mobilizações e controle social de políticas públicas, verificam-se avanços quanto a: 1) formação na área de políticas públicas, em âmbito diocesano e regional; 2) participação em espaços de controle social (fóruns e conselhos), especialmente na área da assistência social, economia solidária e segurança alimentar; 3) organização e implementação do Projeto de Prevenção de Emergências "construindo comunidades mais seguras”, em 4 Dioceses, envolvendo diretamente nove municípios; 4) Mobilizações populares voltadas à garantia de direitos junto às pessoas em situação de violência e vulnerabilidade social (mulheres, jovens, indígenas e quilombolas).
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43 Dom Ivo Lorscheiter, proclamado “profeta da esperança” foi um dos apoiadores do trabalho da Cáritas na
área da economia popular solidária. Faleceu em 2010. O Centro de Referência em Economia Solidária de Santa Maria, onde acontece anualmente a Feira do Mercosul de Economia Solidária, recebeu o nome de Centro de Referência em Economia Solidária – Dom Ivo Lorscheiter em homenagem ao seu idealizador.
O público prioritário das ações desenvolvidas são as famílias em situação de vulnerabilidade social, crianças, adolescentes e jovens, mulheres, desempregados(as), indígenas e quilombolas, catadores(as) de materiais recicláveis. O trabalho acontece em parceria com as pastorais sociais, entidades, organizações e movimentos sociais do meio urbano e rural. Também conta com a parceira da cooperação internacional, especialmente, através das seguintes entidades: Misereor, Secours Catholique/Cáritas França, Cáritas Alemã, Cáritas Suiça e Sammelzentrale Akton Hoffnung.
De acordo com informações contidas no site institucional44, a Cáritas Brasileira, no Regional Maranhão foi criada em 1963, com secretariado-executivo regional, em São Luis. Este Secretariado “articula, coordena e assessora ações estaduais e locais junto às comunidades, grupos populares formais e informais, entidades, associações, cooperativas e pastorais sociais”. Dados do IBGE (2010) retratam que a população do Estado é de 6.569.683 habitantes. A abrangência territorial do Regional compreende 12 Dioceses, envolvendo 217 municípios. Dessas 12 Dioceses há trabalho efetivo de Cáritas em oito (8), as quais se constituem como entidades-membros, são elas: Brejo, Bacabal, Balsas, Caxias, Coroatá, Imperatriz, São Luis, Viana. O objetivo geral da Cáritas no Maranhão está voltado a:
ampliar a formação e mobilização da sociedade civil, em âmbito local e estadual, para intervenção nas políticas públicas, possibilitando a garantia de direitos das pessoas em situação de exclusão social com vistas à melhoria das condições de vida na perspectiva do desenvolvimento sustentável e solidário no Maranhão” 45.
Para atingir este objetivo o Regional desenvolve um conjunto de processos como: a) formação e mobilização popular para intervenção nas políticas públicas; b) fortalecimento da economia popular solidária; c) organização de grupos de catadores de materiais recicláveis para a conquista de direitos e melhores condições de trabalho; d) articulação de iniciativas comunitárias como mutirões para recuperação de moradias e de lavouras pós-enchentes; e) acompanhamento e assessoria às equipes de Cáritas diocesanas e grupos de base, com vista a potencializar um trabalho em rede. O público prioritário dessas ações são:
famílias de agricultores/as, catadores/as; trabalhadores/as sem-terra; grupos de crianças, adolescentes, jovens, mulheres, desempregados/as e pessoas em situação de vulnerabilidade social; agentes populares, lideranças de movimentos sociais e agentes de pastorais.
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44 Maiores informações podem ser obtidas através do site: http://ma.caritas.org.br/historico 45 Conforme informações publicadas através do site: http://ma.caritas.org.br/historico
As ações desenvolvidas contam com a participação de equipes locais, as quais envolvem um número expressivo de pessoas voluntárias. Conforme pesquisa sobre o “Perfil dos(as) agentes Cáritas”, neste Regional há 44 agentes voluntários(as) que atuam nas entidades-membro. Quanto a estrutura organizacional o Regional conta com Assembleia Regional, Conselho Regional e Coletivo Regional formado pelas representações dessas diversas instâncias de organização da Cáritas. Esta forma organizativa contribui para um processo de gestão compartilhada mediante a participação das pessoas envolvidas nas diferentes áreas de trabalho, nos processos de planejamento, monitoramento e avaliação.
A Cáritas Regional Maranhão vem desenvolvendo seus trabalhos em sintonia com as Diretrizes, Princípios e Prioridades construídas em âmbito nacional pela Cáritas Brasileira. Partindo desta noção, verifica-se que, historicamente, as prioridades, bem como, as estratégias para o seu desenvolvimento, partem inicialmente de uma perspectiva assistencial, avançando para a promoção humana e, posteriormente, para o que se chama de “mística e metodologia da caridade libertadora”. Os elementos destacados por este Regional, a partir dos relatórios anuais, no período de 2002 a 2011, referentes a linha/prioridade voltada aos direitos humanos, mobilizações e controle social de políticas públicas, apontam avanços quanto a: 1) formação na área de políticas públicas, com ênfase na questão orçamentária; 2) monitoramento de recursos públicos; 3) Tribunal Popular do Judiciário; 4) Mobilizações populares voltadas a garantida de direitos junto as pessoas em situação de vulnerabilidade social. As ações desenvolvidas geraram alguns impactos qualitativos como:
a) maior participação de comunidades e grupos populares em espaços de discussão, proposição, conquista e controle de políticas públicas; b) articulação de grupos, comunidades e organizações em torno das experiências da economia popular solidária, contribuindo para a consolidação do Fórum Estadual de Economia Solidária; c) adesão das comunidades às práticas alternativas de produção familiar baseada na agroecologia, construindo uma relação mais sustentável com o meio-ambiente; d) grupos de jovens, mulheres, desempregados/as, catadores, e outros em situação de vulnerabilidade social, mais articulados e exercendo o protagonismo na perspectiva da luta por direitos; e) amplo debate na sociedade de questões de interesse público, como orçamento, poder, participação popular, corrupção eleitoral e administrativa, resíduos sólidos, dentre outras, incidindo mudanças nas estruturas de governo e na relação da sociedade civil com o Estado (CÁRITAS BRASILEIRA REGIONAL MARANHÃO).
Dentre os principais parceiros e financiadores dos projetos executados pela Cáritas do Maranhão estão as entidades da cooperação internacional como: Catolic Relief Services (CRS – Cáritas dos Estados Unidos), Cáritas Alemã, Governo da Noruega, Misereor e Cáritas
Espanhola. Em âmbito estadual destacam-se as redes da sociedade civil como: Fórum Estadual de Economia Solidária, Fórum de Erradicação do Trabalho Escravo. Também se destaca a parceria com o Governo Federal através do Ministério do Desenvolvimento Agrário e do Banco do Nordeste do Brasil.
As experiências desenvolvidas por estes regionais constituem-se como processos “aprendentes e ensinantes”. “Aprendentes” na medida em que se constituem como processos em permanente construção. As pessoas envolvidas experimentam a cada dia, os desafios que a realidade apresenta. Buscam, em meio a estes desafios avançar na perspectiva do alcance dos objetivos a que se propõem. Também são experiências “ensinantes” pelo fato de não se traduzirem como modelos prontos, acabados e perfeitos. Servem de inspiração para outras experiências, considerando as especificidades de cada território. Com esta motivação convidamos a desvendar as trajetórias, desafios e aprendizados trazidos pelas experiências pesquisadas. Vamos a próxima estação!
5 ESTAÇÃO DE PASSAGEM 4 “VIVÊNCIAS NO CAMINHO TRILHADO”: