Apesar do Pacto da Unidade, em 2004, ter conseguido estabelecer uma série de reivindicações comuns a todas as organizações indígenas, vale a pena mencionar algumas peculiaridades e traços dos povos indígenas que povoam a Bolívia altiplânica, em particular os aymarás, uma vez que foi dessa região e desse grupo que surgiram as primeiras demandas indígenas de maior expressão e que ganharam status de movimento nacionalista.
Os aymarás que, junto aos Quéchuas, são o grupo indígena mais numeroso e expressivo da Bolívia, transcenderam os limites de simples movimento étnico para se tornar um movimento nacionalista de fato. Isto se deu, em boa medida, pela ação de intelectuais e professores, que, a partir do fim dos anos 1960, procuraram recuperar a identidade, os valores
e a simbologia do povo aymará. A criação de uma “inteligentsia” aymará urbana foi fator
fundamental para que esse movimento ganhasse traços nacionalistas, o que o diferencia frontalmente dos movimentos indígenas da Bolívia “chaquenha” e amazônica surgidos na década de 1980. Deve-se salientar, inclusive, que o discurso nacionalista aymará abarcou outros grupos indígenas do Altiplano, como os Quéchuas e os Urus. O surgimento de uma produção intelectual “indianista”, que, substituindo a já existente literatura indigenista, foi
ponto capital neste processo, vistas as grandes diferenças entre “indianismo” e “indigenismo”.
O indigenismo, como aquele de Arguedas, foi uma linha intelectual/literária que tinha como tema central a questão do índio e sua inserção na sociedade nacional, mas era oriunda de setores das elites tradicionais criollas, tendo como grande público setores dessas mesmas elites. O indianismo, ao contrário, era uma corrente articulada por intelectuais de origem indígena, visando um público que, embora não estivesse restrito a indivíduos de origem indígena, abarcava-os. O advento do indianismo é bastante emblemático no que diz respeito à emergência do índio como esfera social constitutiva da nação, como um grupo social que ocupa uma posição central na reconfiguração da nação boliviana, sendo seu fio condutor cultural, político e ideológico. Através do indianismo, tem-se uma produção intelectual onde o índio se enxerga a partir de “dentro”, de si mesmo. No indigenismo, por sua vez, a construção da “visão” do índio partia de grupos sociais alheios a ele. O índio era visto a partir do não-
índio. Essa intelectualidade e o impulso proporcionado por ela na ressignificação e transformação do indigenismo em indianismo conferem aos aymarás um status de diferenciação em relação aos outros grupos indígenas, de acordo com Mario Galindo Soza.
Partindo da ideia de que a luta por autonomia/independência dos aymarás começara ainda no século XVIII com Tupac-Katari, passando por Zárate Willka no século XIX, esses intelectuais retomaram o ayllu, como unidade social, política e cultural básica e original dos povos aymarás. Teria começado nesse momento da história boliviana o projeto de re- configuração do Qullasuyu, como foi descrito ao longo deste capítulo, assim como a descolonização ideológica. Esse caráter nacionalista e intelectualizado dos movimentos socais aymarás pôs em evidência certas diferenças desse grupo indígena em relação a outros. Alguns intelectuais dessa corrente afirmam que não existe na língua aymará o conceito de autonomia, tal como nas línguas ocidentais, configurando uma espécie de conceito imposto por uma ótica ocidental-liberal.
De acordo com Mario Galindo Soza, o sistema político equivalente à “democracia” no mundo andino (thaki, em Aymará) se daria através de rotação de cargos de poder. Ou seja, Mallkus e Jilakatas, (lideranças comunitárias tradicionais) seriam eleitos por um sistema de rotação sustentado por um modelo jurídico de tradição oral e não por um sistema eleitoral moderno e impessoal (aqui, no sentido atribuído por Weber). Ademais, essas lideranças exercem seus cargos junto a suas esposas, embora estas tenham, em geral, um papel menor que o do homem na comunidade. A própria “persona”, no mundo camponês tradicional dos aymarás, é constituída por uma idéia dualista de indivíduo. A pessoa (que seria o indivíduo na concepção ocidental) só estaria constituída a partir da união entre duas partes, no caso, homem e mulher. Esta dicotomia, chamada de chacha-warmi, cuja manutenção foi ferrenhamente defendida pelo CONAMAQ, seria a base de toda a cosmologia e concepção de mundo dos aymarás, em que todas as coisas teriam sentido a partir de uma complementação, ser parte de uma só energia, ou fibra. Sem estar constituído como chacha-warmi e possuir
certa quantidade de terras, não é permitida a ocupação e a execução dos “cargos públicos”.42
Muitos dos próprios Ayllus camponeses, como já mencionado, foram deliberadamente reconstruídos, com apoio de uma intelectualidade e lideranças alicerçadas em movimentos sindicais de forma e molde modernos. Este talvez seja mais um sinal do caráter nacionalista
42 Galindo Soza, Mario. Visiones Aymaras sobre las autonomias. Aportes para la construcción Del Estado
dos aymarás e indígenas do altiplano. Suas demandas não abarcam apenas a ideia de manutenção, defesa e preservação dos territórios originais, como ocorre entre os índios da região oriental, mas também a reconstrução, de forma planejada, pensada e deliberada do que teriam sido e possuído no passado. A nação, nestes termos, é pensada e reconstruída, selecionando os traços culturais e simbólicos mais marcantes. Em suma, o advento de uma inteligentsia indígena altiplânica, assim como a criação de espaços políticos associacionais dentro da burocracia estatal, foi importante condição para que o nacionalismo se formasse entre os grupos indígenas ocidentais.