1. GİRİŞ
1.1. Problem Durumu
Acredita-se, como afirma Santos (2006), que o espaço geográfico não seria algo aleatório, mas sim, fruto de intenções sociais, construído de acordo com a evolução histórica e também da ciência e técnicas presentes no território.
Assim, o espaço geográfico é fruto de múltiplas relações que se caracterizam através dos objetos (formas) e ações (conteúdos) pelo transcorrer do tempo. Esse híbrido de que é formado o espaço geográfico envolve aspectos naturais, culturais, econômicos, políticos e sociais e essas relações se materializam no espaço dando sentido aos objetos construídos no decorrer do tempo (SANTOS, 2006).
Ao se considerar o espaço geográfico como fruto de múltiplas relações, não seria coerente compreender o desenvolvimento como o processo ligado apenas ao crescimento econômico. Assim, busca-se entender o desenvolvimento como o processo no qual essas múltiplas relações devem ser consideradas.
O desenvolvimento territorial, portanto, vai além do desenvolvimento econômico, pois, envolve diversas esferas que compõem o território. Assim, para realizar um desenvolvimento sustentável, deve-se buscar o desenvolvimento territorial como um todo.
Santos, M. (2008) desenvolve uma concepção materialista de território, pois, define o mesmo como território usado, ou seja, a apropriação humana do espaço, assim:
O território não é apenas o resultado da superposição de um conjunto de sistemas naturais e um conjunto de sistemas de coisas criadas pelo homem. O território é o chão e mais a população, isto é, uma identidade, o fato e o sentimento de pertencer àquilo que nos pertence. O território é a base do trabalho, da residência, das trocas materiais e espirituais e da vida sobre os quais ele influi. Quando se fala em território deve-se, pois, de logo, entender que se está falando em território usado, utilizado por uma dada população (SANTOS, M. 2008, p.96-97).
Como está visível, Santos, M. (2008), define a territorialidade como o processo de apropriação e pertencimento do espaço, ou seja, a identidade criada com o espaço geográfico. O território abriga relações sociais e econômicas, tanto em nível global como local. As relações locais e globais são tratadas pelo autor como as horizontalidades e verticalidades. As verticalidades são definidas, “num território,
como um conjunto de pontos formando um espaço de fluxos (...) o sistema de produção que se serve desse espaço de fluxos é constituído por redes” (p.105 e 106).
O que Santos, M. (2008) denomina por verticalidades seria uma forma de apropriação do território por atores hegemônicos que impõem regras e uma racionalidade aos lugares que constituem o espaço dos fluxos. Esses lugares tendem a seguir um modelo determinado por sujeitos hegemônicos os quais tomam decisões essenciais relacionados aos processos locais, além de sobressaírem aos interesses públicos.
Nessa lógica, pode-se considerar que os projetos desenvolvimentistas estão intrinsecamente ligados às redes e fluxos liderados por esses sujeitos hegemônicos. Os interesses de populações locais do território são deixadas à mercê da racionalidade modernizadora disseminada pelas verticalidades.
No caso da agricultura brasileira, percebe-se que alguns pontos escolhidos pelos sujeitos hegemônicos são privilegiados em relação a outros sendo que, nos primeiros ligados aos fluxos, a modernidade é imposta como a única forma de inserção e desenvolvimento.
Isso é visível ao se analisar a produção agropecuária no município de Coronel Vivida – PR, onde as verticalidades estão presentes. Verifica-se uma produção ligada aos padrões tecnológicos disseminados pela Revolução Verde; a produção agrícola municipal estabelece redes verticais ao produzir para o mercado as duas principais culturas que correspondem cerca de 90% de toda produção agrícola: a soja e o milho.
Essas duas monoculturas prevalecem no município e, para serem produzidas, são tecidas redes de relações verticais desde a compra de sementes (geneticamente modificadas, em sua maioria), do financiamento (através das cooperativas de créditos e bancos locais para alocação de recursos), até a sua comercialização com cooperativas como a COAMO e empresas cerealistas como a San Rafael, atuantes no município. Além disso, ao comercializar seus produtos, dependem de toda uma conjuntura de mercado, para a definição dos preços a serem pagos às suas mercadorias, ou seja, a produção agropecuária está ligada aos fluxos nacionais e internacionais reduzindo a autonomia do agricultor.
Ao mesmo tempo em que Santos, M. (2008) identifica a existência da verticalidade no território, ele afirma que os territórios também são compostos por
horizontalidades, que, em suas palavras, “são zonas da contiguidade que formam extensões contínuas (...) um „espaço banal‟ em oposição ao espaço econômico. O espaço banal seria o espaço de todos: empresas, instituições, pessoas; o espaço das vivências” (p.108).
O espaço das horizontalidades seria caracterizado pelas vivências locais e é símbolo de resistência à racionalidade econômica hegemônica, pois consideram, além das racionalidades típicas das verticalidades, outras racionalidades. “São contra-racionalidades, isto é, formas de convivência e de regulação criadas a partir do próprio território e que se mantêm nesse território a despeito da vontade de unificação e homogeneização” (SANTOS, M. 2008, p.110) da racionalidade disseminada pela verticalidade.
Verifica-se, nos espaços das verticalidades,a existência das horizontalidades através dos espaços de vivência. Em Coronel Vivida, há predominância da agricultura familiar (87,5% das propriedades segundo IBGE) que em sua maioria está inserida no modelo produtivista. No entanto, ainda coexistem em seus cotidianos elementos que criam um elo entre a família e a comunidade (igreja, festas comunitárias, ajuda mútua, etc.), e entre a família e o ambiente sendo, portanto, um espaço de vivência mais do que um simples espaço de produção, diferentemente dos locais onde predominam a agricultura empresarial.
As horizontalidades do território abordadas por Santos, M. (2008) também podem ser comparadas às formas de agriculturas alternativas, como a Agroecologia, que através da sua prática busca-se, através de uma racionalidade ambiental, valorizar a produção local diferentemente da agricultura convencional.
No entanto, mesmo nos territórios onde prevalecem as horizontalidades, existem relações locais com o global, ou seja, a formação de redes associadas às verticalidades. Isso é visível, nos movimentos ambientalistas que levaram à origem de uma agricultura alternativa, são ações globais que modificam de alguma forma o espaço das vivências.
Pode-se perceber a busca de homogeneização do pacote tecnológico disseminado pela Revolução Verde, através da própria designação que se usa ao se referir à agricultura que se utiliza dessas tecnologias. O termo convencional dá a ideia de predominância, que segue a convenção, ou seja, de modelo ideal a ser seguido. No entanto, deve-se questionar se esse modelo é adequado às realidades de todos os territórios.
Santos (2006) aponta para a formação de um espaço racional com o advento do meio técnico-científico-informacional, onde há diferentes espaços, uns constituídos pelos objetos do meio técnico-científico e dão suporte ao saber hegemônico e os outros espaços do fazer. Assim, com a globalização e a especialização agrícola, baseado na técnica e ciência, o campo modernizado passa a adotar a lógica e a racionalidade capitalista para gerir suas relações:
Cria-se, praticamente, um mundo rural sem mistério, onde cada gesto e cada resultado deve ser previsto de modo a assegurar a maior produtividade e a maior rentabilidade possível. Plantas e animais já não são herdados das gerações anteriores, mas são criaturas da biotecnologia; as técnicas a serviço da produção, da armazenagem, do transporte, da transformação dos produtos e da sua distribuição, respondem ao modelo mundial e são calcadas em objetivos pragmáticos, tanto mais provavelmente alcançados, quanto mais claro for o cálculo na sua escolha e na sua implantação. É desse modo que se produzem nexos estranhos à sociedade local, e, mesmo, nacional e que se passam a ter um papel determinante, apresentando-se tanto como causa, quanto como consequência da inovação técnica e da inovação organizacional. O todo é movido pela força (externa) dos mitos comerciais, essa razão do mercado que se impõe como motor do consumo e da produção (SANTOS, 2006, p.304 -305).
Nesse sentido, a noção de modernização e desenvolvimento, impõe modelos a serem seguidos, ignorando realidades e identidades locais. O campo passa a ser visto como um local de produção sem se considerar o local de vivência e as diferenças territoriais. Na citação, observa-se a relação estabelecida pelo autor do local com o global, onde o último impõe mudanças técnicas e organizacionais e os primeiros ajudam a manter essa ordem, através da adaptação à racionalidade capitalista.
Dematteis (2008) afirma que, com o progressivo avanço técnico-científico, cada vez mais orientado para o ideal capitalista, tende a generalizar técnicas desenvolvidas pela ciência, sem considerar os contrastes locais. Dessa forma, “em vez de adaptar aos ambientes locais, ao conhecimento e às técnicas disponíveis, tende a adaptar os lugares às técnicas, nivelando-os às tecnologias que, no atual sistema de mercado capitalista, são rotuladas de mais produtivas” (p.44).
Pode-se afirmar que o pacote da Revolução Verde, disseminado pela agricultura convencional, tende a adaptar os lugares às suas tecnologias sem avaliar as condições territoriais (ambiental, econômica, política, cultural) dos locais. Assim,
faz-se necessário um sistema produtivo que avalie melhor essas condições para promover um desenvolvimento sustentável.
Dematteis (2008) afirma que a ciência pode estar atrelada aos diferentes contextos locais desenvolvendo tecnologias apropriadas para promover um desenvolvimento territorial sustentável.
Para isso, Dematteis (2008, p.35) sugere um desenvolvimento baseado nos Sistemas Locais Territoriais (SLOTs) que são constituídos pela rede local de sujeitos (relações e interações baseadas no conhecimento e comunicação direta, entre os sujeitos em certo território local), pelo milieu local (capital territorial, ou seja, os recursos materiais e imateriais do local), a relação de interação da rede local com o milieu e com os ecossistemas locais e a relação interativa da rede local com redes globais.
Portanto, o desenvolvimento territorial deve partir da realidade local avaliando as condições dos sujeitos e do meio e sua relação. Mesmo priorizando as relações locais o autor não desconsidera a relação local com as redes globais.
O autor afirma que o SLOT deve ser um instrumento para alcançar a autonomia dos sistemas locais e o desenvolvimento territorial através de políticas que envolvam aspectos da sua realidade. O SLOT permite:
i. Delinear a geografia da projeção e do agir coletivo em um território (regional, nacional, transnacional) com base nas relações sociais e territoriais existentes;
ii. Individualizar o estado atual destas relações que, normalmente, são incompletas;
iii. Avaliar a possibilidade de ativar as relações que faltam e os processos de desenvolvimento autocentrados;
iv. Avaliar a existência e as características dos valores territoriais produzidos;
v. Sugerir a arquitetura mais apropriada para construir, caso a caso, um sistema de governança eficaz para a implementação de políticas e para a realização de programas e projetos;
vi. Avaliar a sustentabilidade territorial do desenvolvimento, compreendida como capacidade de reproduzir e enriquecer o “capital territorial” local sem empobrecer o de outros territórios;
vii. Oferecer uma sustentação cognitiva para planos e políticas de vastas áreas baseados na articulação, em rede, dos sistemas locais territoriais (DEMATTEIS, 2008, p.37).
Enfim, o autor faz uma abordagem territorial múltipla considerando aspectos naturais, sociais, políticos, econômicos e culturais do território. Ele vê, na diversidade territorial, a maneira mais adequada de se conceber um planejamento para um desenvolvimento que não esteja calcado somente nos aspectos econômicos. Assim, o estudo e diagnóstico dos sistemas locais é um viés para a produção e execução de projetos baseados na sustentabilidade territorial e para a reprodução do capital territorial, a fim de promover um desenvolvimento descentralizado e democrático.
Através do estudo e diagnóstico dos sujeitos desta pesquisa, serão delimitadas as dificuldades e estabelecidas as propostas para projetos de desenvolvimento territorial sustentável. O estudo de diferentes realidades, desde a agricultura convencional representada pelos ex-agricultores agroecológicos e pelos agricultores em transição para uma agricultura mais ecológica e os agricultores agroecológicos do município, poderão fornecer o suporte para entender como deve ser planejado o desenvolvimento local.
No contexto da modernização da agricultura, deve-se pensar em um desenvolvimento baseado nos diferentes territórios. Santos, R. (2008) avalia que o processo de modernização da agricultura brasileira, assim como a ideia de desenvolvimento, abrange apenas a dimensão econômica dos territórios, ignorando as dimensões políticas, culturais e ambientais. Portanto, seria necessário um modelo que valorize o potencial territorial e as condições específicas dos agricultores familiares com mais dificuldade de adaptação aos padrões impostos pela agricultura convencional ou dita “moderna”.
Portanto, para se pensar no desenvolvimento territorial, devem ser considerados diversos fatores. Deve-se pensar no território como sendo o resultado de múltiplas relações construídas historicamente. A Agroecologia, como alternativa ao processo de modernização da agricultura, visa valorizar os aspectos inerentes a cada território valorizando a cultura local e a autonomia do agricultor familiar frente à dependência de recursos externos.
O território é uma das formas de avaliar a problemática do desenvolvimento. De acordo com Saquet (2007) é na década de 1970 que as abordagens territoriais buscam explicar a “dominação social, a constituição e expansão do poderio do Estado-Nação, a geopolítica, a reprodução do capital, a problemática do desenvolvimento desigual, a importância dos signos e símbolos como formas de
controle na vida” (p.53). Portanto, o conceito de território e as relações de poder inerentes a ele é que melhor se adaptam para a compreensão das desigualdades socioeconômicas e de desenvolvimento.
Saquet (2007) faz uma abordagem (i)material do território e de desenvolvimento territorial. O autor afirma que o território é composto de aspectos econômicos, políticos, culturais e naturais; é multiescalar e multitemporal. Em sua abordagem territorial, o autor verifica elementos materiais e imateriais resultantes das relações sociais no âmbito econômico, político, cultural e, com a natureza, na territorialização, desterritorialização e reterritorialização.
Os processos territoriais, segundo Saquet (2007), são resultantes de relações de poder, compreendidas além do Poder institucionalizado, mas fruto de todas as relações sociais.
Nesse aspecto, Raffestin (1993) distingue o “Poder” do “poder”, sendo que o primeiro se refere à dominação exercida pela soberania do Estado, que, segundo ele, seria a forma identificável e menos perigosa. Já o “poder”, com letra minúscula, se refere às relações de forças inerentes a todas as relações sociais; é o poder invisível e o mais perigoso, já que está oculto em todas às relações.
O autor afirma que o território é constituído através das relações de poder, que nada mais é, do que a combinação de energia (força) e informação (saber). Para Raffestin (1993), o espaço antecede o território. E é transformado a partir das relações de poder exercidas sobre esse espaço.
O território, nessa perspectiva, é um espaço onde se projetou um trabalho, seja energia e informação, e que por conseqüência, revela relações marcadas pelo poder. O espaço é a “prisão original”, o território é a prisão que os homens constroem para si (Raffestin, 1993, p.144).
Nessa análise, o autor mostra que o território é fruto das diversas relações sociais que criam um campo de poder. Para se compreender a organização territorial do campo brasileiro e se estendendo para o município em estudo, deve-se observar as diversas formas de relações sociais estabelecidas e o poder contido nelas, sendo que o “poder” não está nas mãos dos agricultores, mas nas mãos das grandes empresas que buscam ampliar o seu mercado consumidor disseminando suas tecnologias no campo.
No entanto, estas tecnologias (sementes modificadas, agrotóxicos, fertilizantes, adubos químicos e maquinários) promoveram um significativo aumento na produtividade, mas, por outro lado, reduziram a autonomia dos agricultores, fazendo-os dependentes de sujeitos externos que detêm o poder.
Esse poder está materializado ou não no espaço. As redes de produção e comercialização criadas pela agricultura convencional são o exemplo disso.
A abordagem territorial de Raffestin (1993) é reticular, ou seja, os territórios são constituídos por redes, nós e malhas, os quais permitem controlar “aquilo que pode ser distribuído, alocado e/ou possuído (...) permitem realizar a integração e a coesão dos territórios. Esses sistemas constituem o invólucro no qual se origina as relações de poder (p.151)”.
Esses três elementos constituem o território, sendo que as tessituras delimitam os territórios, ou seja, a relação de um grupo com uma determinada porção do espaço fornece o limite da atuação do poder, ou seja, é a “área de exercício dos poderes ou a área de capacidade dos poderes” (RAFFESTIN, 1993 p.154).
O conjunto de malhas é composto de nós que caracterizam os locais de poderes e de referência para os indivíduos e determinam a posição do atores. Assim, os diversos locais e seus sujeitos não estão isolados, mas mantêm relações entre si, criando redes. “Uma rede é um sistema de linhas que desenham tramas. Uma rede pode ser abstrata ou concreta, invisível ou visível” (RAFFESTIN, 1993, p.157).
Segundo Raffestin (1993), as redes concretas são aquelas que são visíveis no espaço e compõem a infraestrutura do território, como rodovias e ferrovias. As redes abstratas, os arcos que ligam os pontos, não são visíveis, como a rede de rádio e televisão.
O autor afirma que as redes, ao mesmo tempo em que promovem a comunicação, favorecem a ruptura da comunicação entre os locais promovendo a ligação de pontos no espaço e a exclusão de outros que não possuem importância para os interesses de alguns atores que detêm o poder.
O território, para Raffestin (1993), é um espaço marcado por relações de poder onde se formam diversas tramas sociais compostas, principalmente, por relações econômicas, onde estaria contido o poder de fato e o mais perigoso.
Pode-se verificar, na Agroecologia, a formação de redes e tramas sociais e as relações de poder que são inerentes a elas. As primeiras formas de redes que se pode identificar no município são as ligações dos agricultores agroecológicos com as entidades (ASSESOAR, Rede Ecovida, CRESOL, STR) que lhes fornecem formação e a certificação de seus produtos. Além disso, pode-se citar as redes de relações entre os próprios agricultores agroecológicos que, mesmo sendo reduzida, podem auxiliar na cooperação entre os mesmos.
Por último, apontam-se as redes estabelecidas entre agricultores, comerciantes e consumidores. Nas redes entre comerciantes são mais evidentes as relações de poder. Muitas vezes os agricultores dependem de terceiros para comercializar a sua produção e por conseqüência reduz sua autonomia e renda.
Esse fato, é verificado no município de Coronel Vivida, no caso de dois agricultores agroecológicos (A.V e J.V) que, por falta de alternativa para comercializar, fornecem os seus produtos orgânicos certificados para a empresa de alimentos Cantu que paga aos agricultores o preço de um produto convencional e repassa ao consumidor um preço diferenciado de produto orgânico.
Estão presentes na produção e comercialização agroecológica relações de poder de cunho capitalista onde, muitas vezes, acabam desestimulando o agricultor a continuar a produzir, pois, não possui autonomia suficiente. São necessárias políticas públicas que estimulem uma maior autonomia do agricultor para que continue se reproduzindo no campo de forma sustentável. Nesse sentido, o capitalismo promove a territorialização, assim como, a desterritorialização da Agroecologia.
Para Saquet (2007), autores da filosofia como Deleuze e Guatarri, contribuem para a compreensão do processo de territorialização – desterritorialização – reterritorialização eminente na produção capitalista. O capitalismo desterritorializa ao mesmo tempo em que reterritorializa, ou seja, são processos interligados. Assim, Deleuze e Guatarri:
(...) entendem o trabalhador desterritorializado do solo como aquele
tornado livre e nu, vendedor de força de trabalho, privado dos meios
de produção. Dão indícios da ligação que há na T-D-R e de permanências efetivadas por esse movimento (...)“as sociedades modernas civilizadas se definem por procedimentos de decodificação e de desterritorialização. Mas, o que elas desterritorializam de um lado, elas re-territorializam do outro”(p.327). São novas
territorialidades, constituídas na reterritorialização. As territorialidades são culturais (folclóricas), políticas (do Estado, de partidos e de bairros) e econômicas (centradas na criação e reprodução do capitalismo) e estão presentes na reterritorialização (SAQUET, 2007,p.56).
Os autores analisam a desterritorialização e a sucessiva reterritorialização, determinada pelo sistema capitalista, questionando a desterritorialização causada pelo capital em relação ao trabalhador destituído do solo e dos meios de produção, forçando-o a uma nova territorialidade.
Para Saquet (2007), os elementos da territorialização estão presentes na desterritorialização, pois, ao mesmo tempo em que acontecem as perdas, há “reconstrução de identidades; mudanças nas relações de poder, de vizinhança, de amigos, de novas relações sociais, de elementos culturais, que são reterritorializados” (p.163). Assim, os aspectos econômicos, políticos, culturais que territorializam, também geram as desterritorialidades e novas territorialidades.
Assim:
O território funda-se em relações e conflitos, contradições e é substantivado simultaneamente pela unidade. Há, ao mesmo tempo, em sua composição diversidade e unidade, heterogeneidade e homogeneidade, desigualdade e diferenças, tempos, temporalidades (ritmos) e territorialidades (SAQUET, 2007, P.62).
O território se mostra como um híbrido de relações sociais envolvendo todos