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1. GİRİŞ

1.1. Problem Durumu

BIRMAN(1999), em “Cartografias do Feminino”, aventura-se pelos caminhos que conduzem à compreensão do conceito da feminilidade na psicanálise. Para tanto, percorre a constituição da sexualidade dentro da psicanálise até a "rocha da castração" e seu “quebrar”. Em seu percurso BIRMAN trata do conceito de feminilidade como o território onde o registro psíquico corresponde ao que se opõe ao falo. Diferentemente de outras leituras, o conceito de feminilidade não fica restrito apenas aos lugares da falta e da castração.

BIRMAN nos diz que para empreendermos uma compreensão da feminilidade é necessária uma boa dose de aventura. Aventura no sentido de nos arriscarmos a nos desprender das falácias, das certezas.

O autor situa o falo como uma busca e um modo de dar forma ao totalizante e universal das coisas, assim como uma busca do domínio sobre estas, enquanto pelo registro da feminilidade o sujeito estaria voltado para o que é particular, implicado com a singularidade.

“Enquanto pelo falo o sujeito busca a totalização, a universalidade e o domínio das coisas e dos outros, pela feminilidade o que está em pauta é uma postura voltada para o particular, o relativo e o não-controle sobre as coisas. Por isso mesmo, a feminilidade implica a singularidade do sujeito e suas escolhas específicas, bem distantes da homogeneidade abrangente da postura fálica.” (BIRMAN, 1999, 10)

Compreende a leitura freudiana da feminilidade como marcada pelo horror, a partir da compreensão de que a feminilidade implica o descentramento da subjetividade baseado no referencial fálico.

Seria interressante pensarmos na subjetividade centrada no registro fálico, nos sujeitos assujeitados ao ter e fazer, na idéia do poder como bem e que agora entra em crise e busca outras formas de subjetivação.

Prosseguindo na leitura de BIRMAN, "a dissolução da ordem fálica coloca em questão as nossas crenças mais fundamentais. Por tudo isso, afinal de contas, a feminilidade seria a fonte sempre recomeçada da experiência de horror." ( BIRMAN, 1999, 11).

Assim, homens e mulheres seriam atingidos igualmente por esta experiência de horror. Eu acrescentaria que não haveríamos de desprezar que, estando a feminilidade ligada à figura da mulher, apesar de ser um registro de ambos os sexos, causaria na mulher ressonâncias psíquicas diferentes, ao marcá-la para o outro e para si como aquela que pode vir a encarnar o horror.

BIRMAN tece que o trabalho da psicanálise está em conduzir o sujeito ao longo do seu percurso a um processo no qual a desfalização é o norte e o encontro com a feminilidade a riqueza.

Nesta leitura, temos uma reconsideração do desamparo do ser humano e o falo como o que o recobre. O falo constitui o que pode mascarar a fragilidade humana que nada mais é do que sermos seres humanos, portanto mortais, e carecermos do outro para sobrevivermos e nos realizarmos vida afora.

Assim, podemos colocar a feminilidade e o desamparo de um lado. O desamparo não numa concepção negativista, mas como parte inerente de nossa realidade humana, o que temos de mais intrínseco. Poderiam alguns dizer que BIRMAN parte em busca de

uma idealização da feminilidade, mas se trata muito mais de colocar o desamparo no centro da experiência humana e o falo, como o escudo que utilizamos, um mero instrumento, e nem por isso desnecessário, tampouco é o único norteador para se pensar o ser humano.

No primeiro capítulo “Erotismo, Enigma e Feminilidade”, do livro “Cartografias do Feminino”, BIRMAN (1999) percorre os caminhos de construção da psicanálise e a releitura desta sobre a sexualidade humana, circunscrita dentro da história ocidental.

Depreende-se de sua escrita que a incompletude e a não-suficiência do ser humano criaria a possibilidade do erotismo.

A leitura de BIRMAN nos faz pensar como FREUD, tendo que recuperar a sexualidade de um lugar estritamente biológico, de um discurso cuja finalidade seria a reprodução da espécie (ciência), o prazer estando fora deste circuito, visto como pecado (religião), centrou-a como o que nos torna humanos. Mostrou como a sexualidade vivida pelo humano é variável, múltipla, rica, não determinada pelo biológico. Contudo, podemos dizer que, devido à época, centrou-se mais na questão da pulsão e do desejo do que na questão do desamparo humano.

È fundamental pensarmos na dimensão da precariedade e incompletude em que nascemos, a partir da qual nos constituímos, e que é marca do nosso Ser.

Em Birmam a feminilidade fica registrada como outra possibilidade de lidarmos com a incompletude do ser, para além das fantasmagorias do fálico/castrado (ser ou não ser, ter ou não ter o falo imaginário), sem precisarmos estar acoplados às miragens falaciosas e audaciosas.

A feminilidade é vista como a outra face do desamparo. Desta forma, o psicanalista faz a seguinte leitura: a feminilidade estaria estritamente ligada ao erotismo, pois é da incompletude que nasce o desejo. Acrescento, é também da incompletude que nasce o horror. Podemos assim compreender que o horror à feminilidade é horror ao desamparo.

A feminilidade seria o contraponto do horror por estar além do falo, sendo o falo a defesa contra o horror que suscita a incompletude do Ser, que nasce no desamparo e desta marca tem o vislumbre da sua finitude.

O horror do qual FREUD nos fala seria o horror inerente ao ser humano em sua incompletude e que, em última instância, remete à morte. Por sua vez, a morte real nos remete a esse horror.

A denominação de feminilidade se deve à capacidade de FREUD ter percebido que a incompletude do ser se mascara em angústia de castração, que aparece (des)vestida na figura da mulher . Apareceria na mulher como inveja do pênis e, no homem, como angústia de assumir uma posição passiva, entendido passiva como submissa.

A proposta de BIRMAN é usar o termo feminilidade para denominar uma outra forma de lidarmos com esse horror. Assim, feminilidade conjuga-se à criação. Em FREUD, a nomenclatura feminilidade está como sinônimo do horror quando este fala da recusa à feminilidade. E como seu mais além, quando FREUD diz que o neurótico teria que ultrapassá-la (embora ele não fosse otimista quanto a esta possibilidade). A meu ver, BIRMAN traça esta possibilidade ao falar da feminilidade aliada ao erotismo e à criação. O erotismo não restrito à roupagem fálica, um erotismo composto e posto em suas fendas, fendas por onde circulam e que suscitam o desejo, o sujeito podendo mostrar-se desejante e desejável em sua incompletude. Os sujeitos brincando de forma lúdica em torno da falta.

Tenho medo de acordar de olhos vazios de tua imagem Esvaindo de mim meu sonho de vida Figuras em mim meu eterno abandono tenho medo do gozo que é o seu nome, corpo e movimento Do meu pensamento Movimento ou paralisia Tenho pavor de sonhar a própria morte Acordar assustada na vida O esvaziar do desejo será puro gozo? (FARIAS, 1998)

CAPÍTULO III - UM RECORTE DA TEORIA LACANIANA SOBRE

O FEMININO – O GOZO FEMININO

E porque não interpretar uma face do Outro, a face de Deus, como suportada pelo gozo feminino (LACAN, 1985 [1973], 103)

O conceito do outro Gozo de LACAN contribui para este trabalho, uma vez que tal conceito é um dos que virá a denunciar que a lógica fálica e a linguagem não recobre toda a riqueza do humano.

Particularmente, o vejo como um conceito apaixonante, a paixão igualmente fala deste outro Gozo. Assim como a poética e o feminino.

A psicanalista ESCOLÁSTICA, ao lançar mão deste conceito de LACAN, re- denomina-o de gozo feminino. Se o feminino está para além da lógica fálica, sua sobreposição ao que LACAN denomina o outro Gozo torna-se fértil.

Para abordar o conceito do gozo feminino, me depararei com algumas dificuldades. Uma delas é o fato conhecido por todos de que a teoria lacaniana é de difícil assimilação. Soma-se a esta questão que, se é verdade que durante um período me dediquei a seu estudo, já completo um tempo de distanciamento da teoria lacaniana, o que é suficiente para dificultar esta retomada. Há ainda a dificuldade de aproximar o leitor da teoria. Procurei fazer um trabalho que não ficasse restrito ao círculo da psicanálise, ou seja, que pessoas de diferentes áreas pudessem ter uma compreensão do que abordo, já que o tema aparece e se faz pertinente a tantos campos. A linguagem de LACAN, porém, é demasiadamente específica. Mas, tendo em vista que o conceito tem sua relevância para o que temos visto até aqui, vamos juntos percorrer mais este caminho.