2. KURAMSAL ÇERÇEVE ve İLGİLİ ARAŞTIRMALAR
2.3. Problem Çözme Becerisi
No Brasil, a polícia adotou o modelo de organização característica da França e de Portugal. Ao contrário da moderna polícia inglesa, no Brasil essa instituição assume um caráter instrumental, colocando-se muito mais a serviço do Estado e de grupos dominantes do que a serviço do público. Trata-se do uso privado da violência contra a sociedade, de forma que as ações consideradas ameaçadoras ao poder político (subversiva) possam ser, então, contidas pela força da repressão.
A conseqüência mais evidente e duradoura desse modelo centralizado de polícia é, mais uma vez, a desconfiança entre policiais e cidadãos. Socialmente, a polícia é representada como força a serviço dos interesses dos dirigentes políticos e contra a sociedade, e isso traz para o cidadão comum algum grau de incerteza e imprevisibilidade quanto ao que poderia ocorrer no caso de um encontro face a face com um policial.
7 As IEG e os Consep, por exemplo.
Por outro lado, aos olhos do policial, um indivíduo, até prova em contrário, não é, de pronto, definido e considerado como cidadão ordeiro. O policial está sempre buscando o que está oculto sob o cidadão comum. Desta forma, uma possível aproximação entre policiais e cidadãos só ocorre após uma observação atenta e após a identificação de elementos que permitam definir o sujeito como cidadão ordeiro.
Em Bretas (1997) encontram-se exemplos de situações que revelam a existência de tratamento fortemente diferenciado, desde o período colonial, dispensado pelos policiais brasileiros à pessoas de diferentes classes sociais, caracterizando uma forte desigualdade na distribuição de segurança e na garantia de direitos. O curso da ação policial, tanto quanto a legalidade ou não das decisões tomadas, depende de quem são os atores envolvidos numa ação delituosa, implicando assim o estabelecimento de relações distintas para grupos sociais em posições assimétricas na hierarquia social.
É dessa forma que, como mostra Paixão (1981), policiais passam da condição de executores para a de produtores da lei, usando a legalidade para os bons cidadãos e a ordem imposta para os criminosos conhecidos. Essa situação configura aquilo que se costuma chamar de “polícia de gente” e “polícia de moleque” e que pode ser considerada como expressão do modo como o poder do policial torna-se rarefeito à medida que se aproxima das classes média e alta.
Do século XIX ao inicio do século XX, o trabalho do policial no Brasil não esteve sujeito a qualquer treinamento formal, desenvolvendo-se, apenas, com base no acúmulo de experiências práticas do dia-a-dia. Estava, no entanto, sujeito à obediência a regras rígidas do comando centralizado. O saber policial constituía-se a partir das experiências e da troca de experiências de rotina entre policiais.
No período colonial, a divisão clara e bem-definida das classes sociais superiores e subalternas facilitava-lhes o trabalho. À medida que a sociedade se torna mais complexa, porém, as funções vão ficando mais difíceis, exigindo-lhes o desenvolvimento de habilidades no trato com diferentes grupos sociais e a inclusão de novas categorias de classificação, como gênero, nacionalidade e trabalho, além da cor e da classe social. Nesse sentido, os recursos disponíveis para exercer a atividade policial, disciplinar desordeiros e impor a ordem na cidade, comumente restritos ao uso da violência, também ampliaram-se, passando a incorporar meios extra-legais de negociação.
Vê-se que o saber policial não se desenvolve isolada e independentemente dos valores sociais mais amplos que caracterizam a sociedade e a cultura de cada época. As mudanças na estratificação social implicam desorganização e reorganização da atividade policial. Essas mudanças socioculturais vêm se constituindo num dos determinantes de um processo de discussões dentro da própria polícia que aponta para a necessidade de construção de novos conhecimentos e desenvolvimento de novas habilidades profissionais que, no entanto, devem suscitar novas e renovadas formas de resistência, que ainda não foram muito bem identificadas.
Freqüentemente, na sua atividade prática cotidiana, os policiais pautam-se por um intenso trabalho de tipificação (rotulação) que, como já foi dito, dá-se informalmente, ou seja, não está registrado em qualquer documento oficial. Esse costume visa, sobretudo, à redução da complexidade das situações enfrentadas e a uma economia de esforços. Sendo assim, uma determinada clientela, entre vítimas, suspeitos, criminosos, etc., sobretudo, uma clientela marginal, é classificada a partir de um aprendizado prático, informal, adquirido fora das salas de aula e de treinamento formal. O que conta é a experiência subjetiva do policial e os ensinamentos que adquiriu com seus colegas no cotidiano da profissão.
Essa “clientela marginal”, que se constitui como foco principal da vigilância policial, identifica-se com as classes subalternas de tal forma que, como observa Paixão (1983),
A ação dos membros da organização policial se orienta por teorias de senso comum, estereótipos e ideologias organizacionalmente formulados que, se tornam mais “econômica” a ação policial (na medida em que está orientada para a vigilância e controle de populações previamente definidas como “potencialmente criminosas”), contribuem para que a associação entre marginalidade e criminalidade assuma contornos de uma “profecia autocumprida” (p.20).
Evidencia-se, portanto, na experiência e na tradição da força policial brasileira a busca de legitimação junto aos grupos dominantes e contra a sociedade, o que acaba determinando a existência de fronteiras entre policiais e cidadãos. Esse problema, segundo Paixão (1988), ainda está em pauta na agenda política brasileira. A limitação e, até mesmo, a redução do poder de polícia e o controle externo da atividade policial são condições fundamentais para a consolidação da democracia e promoção da cidadania, sobretudo nas relações sociais cotidianas e rotineiras dos grandes centros urbanos.
Pode-se concluir, com Souza (1999), que a interação assimétrica entre policiais e os diversos atores sociais, e a conseqüente distribuição desigual de segurança, associa-se ao distanciamento entre polícia e sociedade, encarado como um dos entraves para a efetivação da segurança pública em sociedades democráticas. Alguns policiais, reconhecendo o medo que as pessoas sentem da polícia, atribuem-no à cultura militarista da organização. Além da questão da respeitabilidade, o militarismo dificultaria a relação entre policiais e cidadãos, pois nessa posição o policial sente-se superior ao civil. Ao valor social da respeitabilidade atribuído à profissão soma-se a crença na superioridade do policial em relação aos civis, cultuada na organização policial e reforçada socialmente pelo medo generalizado da polícia.
Mesmo em bairros mais ricos, diz um capitão entrevistado por Souza (1999), o policial é tratado de forma indiferenciada, como se fosse uma pessoa estranha. Vê-se que a desconfiança e o medo em relação aos policiais são difusos, ultrapassando as fronteiras entre as classes sociais, embora sejam distintos, de acordo com gênero, idade e cor. Também a confiança em relação à eficiência da polícia é questionada pelo público em geral.