3. YÖNTEM
3.3. Veri Toplama Araçları
3.3.1. Üstbilişsel Farkındalık Envanteri
Souza (1999) vê no declínio do modelo de law officer os elementos essenciais e o surgimento das idéias que deram origem ao policiamento comunitário, observando que
O aumento da violência, da insegurança e do medo nos grandes centros urbanos, a prevalência de sentimentos ambíguos em relação à polícia, que sempre a acompanharam desde a sua criação, contribuem para marcar o fim do século XX por uma crescente dúvida sobre qual é o papel da polícia nas sociedades democráticas. A tão sonhada função de controlar e prevenir crimes, sob o profissionalismo do modelo de “fazer cumprir a lei” (law enforcement/law officer), sustentada pela organização policial e considerada pelo público como atividade principal da polícia, não alcançou o objetivo social de manter em baixa as taxas de criminalidade e aumentar a segurança dos cidadãos (p.45).
Os diversos problemas já relatados vão levando a população a desacreditar na eficiência policial, comprometendo a legitimidade da instituição e pondo em dúvida o modelo repressivo de atuação que tem caracterizado a cultura policial de uma maneira geral.
As críticas e avaliações desse modelo são cruciais para compreender o surgimento do novo paradigma de polícia preventiva ou pró-ativa, representado principalmente pelo modelo de polícia comunitária, que tem sido amplamente difundido nas sociedades democráticas a partir dos anos 80 e que, a despeito das críticas e limitações feitas por seus opositores, tem sido considerada a polícia do próximo milênio (SOUZA, 1999, p.45).
Autores como Dias Neto (2001) referem-se a esse novo paradigma como a “nova prevenção”, opondo-o à abordagem que trata a criminalidade, generalizadamente, como uma questão legal e que vê na criminalização dos eventos e conflitos sociais a melhor alternativa para produção de segurança pública. Nessa perspectiva, o foco é o criminoso, e não as situações, buscam-se e produzem-se informações sobre o criminoso, e não sobre as situações, ou seja, a ênfase recai é na delação, e não na compreensão contextual dos eventos.
Há inúmeras outras críticas bem fundamentadas à função de law officer (controle do crime), sobretudo se considerada como atividade principal da polícia, no que tange a seu caráter neutro, legal, formalizado e orientado profissionalmente, decorrente da disciplina e da hierarquia numa estrutura organizacional “quase militar”.
O policiamento reativo, caracterizado por esperar a ocorrência dos crimes para então agir, compõe-se, basicamente, de três estratégias: patrulhamento motorizado, rapidez da resposta aos chamados e investigação retrospectiva dos crimes (realizada por detetives). Ele é falho por dois motivos básicos. Primeiro, não detecta e não aborda os crimes sem vítimas ou sem testemunhas (tráfico de drogas, por exemplo) e os chamados crimes de colarinho branco,
nos quais as vítimas não têm ciência de que estão sendo lesadas. Segundo, porque “os policiais tendem a conhecer pouco sobre as pessoas a quem devem segurança e sobre as situações em que se encontram” (SOUZA, 1999, p.47), o que compromete o bom desempenho da PM.
Beato Filho (2001), argumentando em favor da utilização de informações estatísticas bem organizadas e confiáveis como um parâmetro adequado para orientar as atividades policiais em contextos específicos, observa que a análise desses dados demonstra “como a obsessão com formas ortodoxas de atuação policial tem sido ineficaz no controle da criminalidade”.
No modelo tradicional de policiamento reativo os policiais não procuram saber sobre aquilo que amedronta as pessoas, sobre aquilo que mais as ameaça ou as faz sentirem-se inseguras. Em outras palavras, não dispõem das informações fundamentais para o bom exercício de grande parte de seu trabalho, pois, muito preocupados em identificar e prender suspeitos, esquecem-se daqueles que são os verdadeiros beneficiários de seus serviços. Sobre isso é bom lembrar que efetuar inúmeras prisões pode não ser um indicador muito interessante de eficiência policial, uma vez que essas ações podem estar voltadas para pessoas e para locais errados (BEATO FILHO, 2001).
É bom lembrar, ainda, que é falaciosa a crença no poder dissuasivo da rapidez da reação da polícia no atendimento de um chamado. Ou seja, atender rapidamente a uma ocorrência não representa muito em termos de dissuasão de ofensores, ao contrário do que acreditam, implícita ou explicitamente, os mais entusiastas defensores do grande poder das tecnologias da informação e comunicação como forma de combate à criminalidade, desvinculada de práticas sociopreventivas10.
... estudos mostram que a estratégia de esperar até que um delito ocorra para que os policiais entrem em ação baseia-se numa visão limitada da ação criminosa, significando, única e exclusivamente o rompimento de alguma regra legal. Desconsidera-se assim o contexto mais amplo dos problemas subjacentes que desencadearam a quebra da lei (SOUZA, 1999, p.48.).
Daí a importância de se ouvir a comunidade e de orientar os esforços para selecionar informações (novas), que se refiram às vivências e experiências da população, aos aspectos
10 Como exemplo ver Furtado (2002), num trabalho em que a questão informacional na segurança pública é
tratada numa perspectiva tecnicista-reducionista, onde a rapidez e a agilidade do atendimento aos chamados é supervalorizada.
subjetivos da coletividade local. Daí a importância dos Consep como locus de troca de informação e de práticas informacionais.
Não é difícil entender quão pouco produtiva é a estratégia reativa. Pode-se observar, por exemplo, que, embora, possa a polícia posicionar-se em pontos considerados estratégicos e, assim, diminuir seu tempo de chegada ao local do crime, é inútil e ilusório pretender chegar antes dos criminosos, prevendo o momento e o local de um crime, fato extremamente raro, que só ocorreria por uma coincidência fortuita. Além do mais, na maioria dos eventos, a vítima nunca avisa imediatamente a polícia, seja pela demora em dar-se conta do problema ou por razões psicológicas: espera refazer-se emocionalmente para, então, falar com a polícia.
Nesse modelo, na maioria das vezes, quando a polícia chega o ofensor já está muito distante, e o policial, extremamente dependente de informações da vítima ou de testemunhas, quando houver, muito pouco fica sabendo sobre os problemas e situações.
Finalmente, há evidências convincentes de que o número de casos elucidados e as taxas de prisão pouco influem sobre as taxas de crime. Na realidade, como sugerem várias experiências e pesquisas, mais importante do que isso é o policial informar-se e tomar conhecimento acerca do contexto em que se desenrolaram as ocorrências e sobre as preocupações e temores da população. O grande desafio para a polícia está em alterar uma ordem de prioridades muito presente na cultura do policial de linha.
À escassez de informações a respeito dos problemas e elementos contextuais relacionados à ocorrência de delitos, opõe-se a ênfase atribuída pelos policiais ao crime em si e às intenções dos criminosos em cometê-lo. A identificação e controle preventivo de uma série de outros fatores, considerado facilitadores de ações criminosas (...), são postos em segundo plano em face da prioridade dada à prisão de criminosos para dissuadir e prevenir crimes (SOUZA, 1999, p.49).
Além de tudo, os policiais de linha, ao contrário do que normalmente se pensa e do mito de que a principal função da polícia é lidar com crimes violentos e efetuar prisões, usam a maior parte de seu tempo útil de trabalho em atividades de cunho assistencial. Entretanto, esse tipo de trabalho é considerado pouco importante e, até mesmo, inferior pela maioria dos policiais, que preferem voltar suas atenções para os crimes considerados “sérios”. Os chamados e as ocorrências de cunho assistencial são, nos EUA por exemplo, rotulados na cultura policial reativa de garbage calls.
Por extensão, pode-se falar, também, em “garbage informations”, ou seja, detalhes e informações consideradas de pouca importância, negligenciadas por não se relacionarem diretamente aos eventos criminosos, mas a situações e conflitos interpessoais cotidianos, aparentemente banais. Em muitos casos, todavia, tais eventos, prenunciam problemas maiores, possuindo, portanto, relevância, pois podem permitir ações preventivas, ligadas à resolução de problemas.
Na avaliação de Moore, a polícia desconsidera o papel preventivo dessas chamadas, que, em primeiro lugar, funcionam como sinais de alerta à possibilidade de ocorrência de crimes futuros e, em segundo lugar, possibilitam marcar a presença da polícia pelo fluxo contínuo de informações entre polícia e cidadãos. Nessa perspectiva, o modelo de law officer impõe seu próprio limite no controle e prevenção do crime, ao tomar as chamadas assistenciais como trabalho periférico, e não como atividade central da missão policial (SOUZA, 1999, p.50).
Mais uma vez, é importante ressaltar que a crença na neutralidade do trabalho policial alimenta uma postura de autonomia, independência profissional e, sobretudo, de distanciamento em relação à comunidade e aos políticos que, na realidade, impedem o estabelecimento de um diálogo constante, potencialmente gerador de informações estratégicas para a prevenção de crimes e que fornecem as condições para o desenvolvimento de uma nova inteligência policial. Não se trata aqui de uma inteligência ligada à espionagem, à delação ou a alcagüetagem, mas aos elementos contextuais que antecedem e cercam os eventos criminosos, gerando oportunidades e condições favoráveis ou facilitadoras e aos eventos que amedrontam a comunidade.
Nos modelos que pressupõem neutralidade de sua atividade, a polícia fecha-se às críticas externas e acaba se distanciando da legalidade, que é fonte de sua legitimidade, estimulando a imagem de instituição corporativista, que desconsidera a cidadania. De maneira paradoxal,
torna-se mais vulnerável às criticas externas principalmente nos casos de atendimento de ocorrências em que privilegiam a missão de controlar o crime, tornando-a mais importante do que o respeito aos valores constitucionais. Suspeito aos olhos do público, de promotores e juízes, como instrumento democrático do Estado em defesa da segurança, o “profissionalismo” do modelo de law officer, nesse sentido, compromete uma vez mais a credibilidade pública da instituição (SOUZA, 1999, p.51).
O conjunto das críticas apresentadas permite afirmar, de acordo com Souza (1999), que prevalece um determinado modelo de organização policial, uma determinada cultura de trabalho na polícia que acaba por reforçar, em primeiro lugar, “o caráter ideológico da estratégia reativa de prender criminosos como a mais importante função da polícia” e, em segundo lugar, “o mito do distanciamento entre polícia e sociedade como fundamental para assegurar o status do profissionalismo policial”. A principal implicação disso no plano da informação e do conhecimento é que os policiais ignoram a natureza das situações que são chamados a atender. Além disso, é importante reafirmar que tendem a desconhecer o que, de fato, amedronta ou causa temor à comunidade e incomoda a população.
Nesse sentido, policiais não só desenvolvem uma visão estreita do crime, não considerando sua base contextual e a rede de problemas subjacentes que o implicam, como também se mantêm pouco informados sobre o que realmente afeta as pessoas, provocando sentimentos de medo e insegurança (SOUZA, 1999, p.51-52).
É importante sublinhar, para as finalidades desta pesquisa, que o policiamento comunitário representa uma busca de aproximação da PM com a sociedade civil, sobretudo em relação às suas camadas mais pobres e marginalizadas, que tendem ser as menos ouvidas. Essa aproximação representa, em princípio, uma tentativa de dialogar e relaciona-se, portanto, com uma troca de informações e, conseqüentemente, com a construção de novas informações e conhecimentos e novas formas de fazer policiamento que permitam o controle mais eficaz da criminalidade e a manutenção da ordem pública. Seria, portanto, uma tentativa de articular a justiça formal com a justiça substantiva através do diálogo, da comunicação e da troca de informações, que se constituiriam, nessa perspectiva, como competências essenciais no trabalho do policial.
A polícia comunitária é primeiro uma tentativa para relegitimar a polícia (...). Por esse motivo, antes de se declinar em estratégias e táticas operacionais, a policia comunitária é primeiro a vontade de renovar a relação entre a polícia e população fazendo das expectativas, demandas e necessidades expressas por ela, localmente, no quarteirão, bloqueio ou bairro, o princípio de hierarquização das prioridades policiais (MONJARDET, 2003, p.260).