Entre as diferentes teses defendidas por algumas das muitas entidades de normalização para justificar a exploração econômica das normas técnicas, observa-se classificações díspares da norma, ora como compilação de informações, ora como coletânea, ora como enciclopédia e ora como dicionário de tecnologia.
O texto individual de uma norma técnica não é uma obra formada por outras, a etimologia esclarece que:
a) Compilação é “reunião de textos sobre o mesmo assunto. Obra composta de extratos de diversos escritos sobre um assunto.” 305
b) Coletânea é “Excertos seletos e reunidos de diversas obras. Coleção de Várias obras ou de várias coisas” 306. Considerar um texto de norma uma coletânea é o mesmo que considerar cada informação ali inserida como obra.
b) Enciclopédia307 é “Conjunto de todos os conhecimentos humanos. Obra que contém informação acerca de todos os ramos do saber humano.”
c) Dicionário308 é “Coleção de vocábulos de uma língua, dispostos por ordem alfabética, com o seu significado ou equivalente na mesma ou em outra língua.” A decisão federal desconstituiu essa tese ao afirmar que “Pode-se até alegar que o direito autoral esta para proteger a forma literária, o método de compilação ou reunião dessas normas técnicas, como um “dicionário de tecnologias e padrões’, mas isto não abrange o conteúdo técnico da norma e só merece a guarida da propriedade intelectual passível de destaque”309.
de economia mista nas distintas órbitas de governo, os concessionários e permissionários de serviço público, os delegados de função ou ofício, os requisitados, os contratados sob locação civil de serviços e os gestores de negócios públicos.”
305SILVA, Adalberto Prado e. Novo dicionário brasileiro. 3. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1963. v. 1, p. 805. 306Id. Ibid., p. 789.
307Id. Ibid., p. 241. 308Id. Ibid., p. 132. 309Decisão federal.
A norma técnica pode ser equiparada a um método, a um procedimento normativo técnico ou a um meio de se fazer alguma coisa de acordo com um plano, um processo organizado, lógico e sistemático de pesquisa, instrução, investigação, apresentação etc., ordem, lógica ou sistema que regula uma determinada atividade, modo de agir, meio, recurso, qualquer procedimento técnico, científico, conjunto de regras e princípios normativos que regulam o ensino ou a prática de uma arte.310
Na etimologia, os conceitos de norma técnica e procedimento normativo denotam que normas técnicas se confundem com procedimentos normativos e métodos, entendimento compartilhado pela assessoria especializada de direito autoral do Ministério da Cultura ao ser chamada a analisar o Projeto de Lei 02 de 2006311.
Afirma Silmara Juny de Abreu Chinellato312 que, por carecer de originalidade, é pacífica a não incidência do Direito de autor em relação às obras técnicas, pois estas prescindem de originalidade, in verbis:
A doutrina brasileira não tem dúvidas em aplicar a não incidência do Direito de Autor a procedimentos normativos, como se vê, por exemplo, nas lições de Carlos Alberto Bittar por nós avalizadas, que enfatiza a preponderância de interesses coletivos a afastar a tutela autoral a certas obras, inclusive aos procedimentos normativos.
Não há tutela autoral a eles nem a sua forma de expressão, por falta de criatividade. Sendo meras descrições, não há como proteger a forma pela qual é feita a descrição da norma técnica.
Ressalta ainda que tais criações não se confundem com as descobertas científicas:
As normas técnicas elaboradas pelos experts diversos atrelados à ABNT ou a ISO e outras pessoas, por mais respeitáveis que sejam e de grande interesse para os stakeholders e consumidores em geral, não se confundem com as descobertas científicas, cujo conteúdo literário o §3º do art. 7º da Lei nº 9.610/98 visa alcançar.
310HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. 1. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p. 1910.
311Documento oficial distribuído durante as discussões do PL 02 de 2006: “(...), a Gerência de Direito Autoral entende que as Normas Técnicas elaboradas pela ABNT enquadram-se nos incisos I e IV do artigo 8º da Lei 9.610/98, não constituindo, portanto, objeto de proteção autoral, pelos motivos que se seguem. Ou seja, a definição apresentada na justificação não é correta, visto que os procedimentos normativos são o conjunto de atos que têm por objetivo gerar uma norma. A norma, neste sentido, não existe separada do procedimento que a gerou. Assim sendo, as Normas Técnicas da ABNT estão abrangidas neste inciso, uma vez que são geradas pelo procedimento normativo assinalado acima.” (g.n.)
312CHINELLATO, Silmara Juny de Abreu. Norma técnica, direito de autor e direito do consumidor. In: MORATO, Antonio Carlos; NERI, Paulo de Tarso (Orgs.). 20 Anos do Código de Defesa do Consumidor: estudos em homenagem ao Professor José Geraldo Brito Filomeno. São Paulo: Atlas, 2010. p. 38.
Trata-se de procedimentos normativos, normas técnicas ou Standards (que se traduzem por norma e não por perdão) expressamente excluídos pelo inciso I do art. 8º da Lei nº 9.610/98, sendo o interesse público e razões de política legislativa que nortearam o legislador, on inteiro teor da norma, como salienta a Doutrina, tema a ser desenvolvido no item 3 infra.
Posicionamento diverso, porém, foi adotado por Manoel Joaquim Pereira dos Santos em parecer em favor da ASTM International (“ASTM”), defendendo a originalidade das obras técnicas:
No entanto, os chamados Standards (padrões) desenvolvidos pela ASTM são descritos explicados e analisados em manuais e outros materiais elaborados e compilados pela ASTM, registrados como obras intelectuais autônomas junto ao órgão de registro autoral dos Estados Unidos, denominado de “copyright office” ou “escritório de direitos autorais”, e comercializados pela ASTM mediante acordos de licença específicos.313
Compara ainda à questão das obras científicas que, igualmente versam sobre sistemas, métodos ou conceitos matemáticos e nem por isso deixam de ser protegidos:
Portanto, não se pode argumentar que os trabalhos desenvolvidos pela ASTM não são suscetíveis de tutela legal porque padrões, procedimentos ou normas técnicas não podem ser objeto de um direito de autor. As obras científicas igualmente versam sobre sistemas, métodos ou conceitos matemáticos como tais e nem por isso o seu texto deixa de ser protegido.314
Assenta ainda que o critério da originalidade se relaciona com a forma e não com o conteúdo da obra intelectual, trazendo o exemplo dos programas de computador:
Neste ponto, deve-se ressaltar que a originalidade é um elemento relacionado com a forma e não com o conteúdo da obra intelectual. Portanto, o fato de determinado trabalho situar-se no domínio da técnica não pode determinar a conclusão de que sua atividade de elaboração seja não-criativa ou de que o produto dessa atividade seja privado de originalidade expressiva. A forma pode ser separada do efeito técnico pretendido, embora haja casos excepcionais em que a forma é condicionada pelo conteúdo315.
Programas de computador constituem um exemplo em que essa discussão se travou, gerando critérios específicos par a solução da controvérsia. Como toda criação técnica, o programa de computador apresenta um elemento funcional ou utilitário, representando pelo modo de solução de
313SANTOS, Manoel J. Pereira dos. Parecer. São Paulo, 2008. p. 5. Parecer técnico apresentado à ASTM International.
314Id. Ibid. 315Id. Ibid., p. 6.
problemas técnicos específicos, ou seja, o conjunto de instruções destinadas a fazer os dispositivos digitais funcionar para fins determinados, e o aspecto textual, representado pela linguagem em que se expressa esse conjunto de instruções316.