3. MATERYAL VE YÖNTEM
3.5. Prim Algoritması ile Bir Görüntünün MYA Yapısının Sıralı Temsili
Os presos se comunicam por meio de linguagem que dominam, e que, significativamente, difere da linguagem de fora da prisão, sobretudo a linguagem dominante em estratos sociais diferentes dos da maior parte dos presos: “(...) a gíria é consequência da
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Entrevista de Gregório Bezerra ao jornal Pasquim, nº 500, de fevereiro de 1979, gravada na França.
51 ANL são as iniciais de Aliança Nacional Libertadora, organização política clandestina que lutava contra do fascismo e o integralismo. Era composta por comunistas, socialistas e outros grupos de esquerda.
segmentação da sociedade. Seu intercurso social é um fator essencial, ela funciona como uma reação linguística ao condicionamento e ao anonimato social” (REMENCHE, 2003: 23). Maria de Lourdes Remenche afirma, ainda, que “através do estudo da gíria, podemos visualizar a realidade de uma Penitenciária, desde a definição dos objetos pessoais utilizados pelos internos, até o mundo das drogas, tão valorizado por eles (...)” (idem: 13).
Gestos, gírias e códigos estão diretamente ligados ao modo como as pessoas se relacionam em comunidades mais ou menos restritas, fechadas, ou especiais, e à identidade e ao universo que compartilham: “quanto maior for o sentimento de união que liga os membros do grupo, mas a linguagem gíria servirá como elemento identificador” e isso é um fator de diferenciação (...). E serve “como meio ideal de comunicação, além de uma forma de autoafirmação (...)” (REMENCHE, 2003: 24).
Decifrar os códigos, entender as dinâmicas e as regras, contornar os entraves, descontar as fantasias são, talvez, as partes mais complexas de uma pesquisa de campo, pois os presos, com linguagem e atitudes cuidadosamente empregadas, defendem-se dos estranhos que tentam se aproximar de seu mundo. A gíria também pode ser vista como declaração de pertencimento, de opção por um lado, um grupo, um tipo de comportamento.
Dentre as funções atribuídas à gíria está a defesa de ambientes inóspitos; ou como forma de preparação para ataques, ou para proteção, sempre um fechamento ao exterior de um conjunto de pessoas e ambiente, por razões diversas, mas que fazem sentido e são compartilhadas pelo grupo que “através da linguagem, defende-se da grande comunidade, pelo próprio desprezo que por ela sente” (REMENCHE 2003: 25). Também é uma exclusão dos demais grupos, sobretudo dos grupos ligados à administração. Tal como as tatuagens, os modos de comunicação carimbam52. Nos casos em que há lideranças fortes em estabelecimentos carcerários com condições de vida especialmente difíceis, esses grupos podem gerar organizações de presos mais estáveis e complexas, um passo adiante a meras quadrilhas de encarcerados revoltados tramando eventos pontuais53. A articulação de facções internas é parte desse processo.
52 As tatuagens, que aparentavam não consistir em ritual de maior significação dentro dos estabelecimentos, têm sido usadas por alguns grupos do Rio de Janeiro. Assim, por exemplo, a tatuagem de uma sereia, na perna direita, significa um preso homossexual. Outros desenhos indicam o crime cometido. A maior parte das tatuagens é feita internamente, pelos presos, com qualquer instrumento perfurante disponível, em condições de higiene absolutamente precárias.
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Frequentemente Secretários de Administração Penitenciária alardeiam que há tantos meses não ocorre um
Se, por um lado, desejam e procuram contato com a sociedade extramuros, por outro, fecham-se entre si, resguardando o que lhes resta de identidade e privacidade. A parte (ou as partes) que consiste na essência do ser preso não é para ser conhecida mesmo. É assim que o mundo da prisão permanece obscuro, ou interpretado quase que somente por seus custodiadores ou visitantes.
Alguns modos de comunicação acabam contribuindo para que a instituição se torne menos fechada, no sentido de interrupção com a vida e com as dinâmicas do mundo livre. A atitude é parte de um processo por meio do qual a população interna procura reter algo de sua identidade, impedir que seja totalmente alterada. Ou, mesmo, assumir uma nova identidade desejada, essa, entendida como adotada por decisão própria, e não pelos efeitos da prisionização. É o que se chama subcultura da prisão, teoria desenvolvida por pesquisadores americanos no final dos anos 1950 e contextualizada nos anos seguintes (SYKES, 1958 e CLEMER, 1958).
Mas a prisão não deixa de ser locus da cultura formada por sujeitos de origem econômica desfavorecida, que têm muito pouca autonomia e possibilidades de escolhas, e menos oportunidades para decidir ou planejar a própria existência e o seu futuro. E “a presença de uma linguagem específica da população carcerária – os fatos a demonstram - está relacionada à influência do ambiente físico e sócio cultural, elementos estes bastante ligados entre si e que marcam a linguagem desse grupo” (REMENCHE, 2003: 8). Mas, de modo geral, os códigos protegem os internos, distinguem-nos e facilitam seus procedimentos ilícitos em diversos períodos de tempo, pois, como diz o agente prisional Jorge Salvador Mota, “(...) utilizando táticas de inteligência em suas comunicações escritas e de oratória, os criminosos tornaram-se bem mais audaciosos e preparados em suas ações (internas)” (MOTA, 2008, introdução).
Mais adiante, com a criação de novos órgãos de vigilância no sistema penitenciário, e a chegada de equipamentos de segurança mais sofisticados para os estabelecimentos, a administração dos Estados passou a se preocupar com o poder da comunicação e os modos de expressão da população carcerária, o que não ocorria até o início da década de 199054. paz costuma ser devido apenas ao atendimento de interesses de presos, como o afrouxamento no controle da entrada de drogas, de visitantes, horários, e outros.
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Atualmente, as prisões estão sob a jurisdição da Secretaria de Administração Penitenciária - SEAP, o que representa uma elevação na condição administrativa. Anteriormente pertenciam ao Departamento de Sistema Penitenciário - DESIPE, ou da Superintendência de Sistema Penitenciário- SUSIPE, ambos parte das Secretarias
1.7.3 Os congos
Como outra função da comunicação havia um dispositivo que os presos estudados em nossas pesquisas usavam entre si, a linguagem escrita codificada. Seu sentido parecia revelar a garantia de identidade, mas, também, a garantia de algum poder sobre guardas e os demais presos. A escrita tinha que ser cotejada com uma tabela de código, e era chamada de congo. Algumas prisões brasileiras desenvolveram seus congos, que são usados, modificados, modernizados segundo as épocas, os estabelecimentos, os grupos que os inventam e os Estados em que são utilizados. À medida que são decifrados pela administração, ou se tornam banalizados pelo uso intenso em pequenos grupos, aquele congo é abandonado e substituído, ou é recomposto, reinventado.
O jornalista Percival de Souza exemplifica o uso do código, e mostra como ele faz parte da tentativa de manter oculto o que o preso quer que seja mantido, até que a estratégia mude, e o objetivo passe a ser outro. Referindo-se ao PCC – Primeiro Comando da Capital, grupo de presos de São Paulo, e que ele chama de “a frente do crime formada por prisioneiros”, diz:
No começo tinha um código, o número 1533, porque 15 corresponde à décima quinta letra do alfabeto, P, seguida duas vezes pela terceira letra, C. Portanto, PCC. Com estatuto. Com batismo. Com rituais de entrada. Com pagamento de mensalidade. Com investimentos (SOUZA, 2006: 21).
Embora não sejam divulgados ou frequentes, mais de um congo pode estar vigente no sistema penitenciário de um Estado ou, mais raro, em cada um de seus estabelecimentos. Mas como servem também à comunicação entre diferentes estabelecimentos, por cartas, têm que passar por algumas combinações entre os responsáveis nesses locais. Os presos da primeira fase do Comando Vermelho – a década de 1970 - usavam congos sofisticados, e somente os principais líderes tinham acesso às tabelas de decodificação. Mas a geração jovem, que hoje consiste na maior parte da população prisional, tem se mostrado imediatista e raramente utiliza esse tipo de comunicação, que exige paciência e alguns conhecimentos gerais para a elaboração de um congo seguro.
de Justiça ou de Segurança Pública, respectivamente. A SEAP tem uma área de inteligência que monitora a comunicação interna e interna/externa, boa parte da qual é realizada através de interceptação (grampos) em telefones celulares, cujo uso é proibido.
Evidentemente, os criminosos agora dispõem da facilidade de telefones celulares, atalho poderoso para a comunicação de dentro e para fora da prisão. E, contribuem, ainda, o trânsito contínuo de integrantes de facções que estão fora das prisões, já que algumas comunidades e as prisões tornaram-se vasos comunicantes.
A entrada em massa do telefone celular no sistema prisional, ocorrida na década de 1990, constitui variável extremamente significativa, no Brasil e em outros países. Como exemplo, o telefone celular reduziu – talvez tenha extinguido - a importância do congo, que, no entanto, ainda é utilizado. É considerado mais seguro do que o telefone, que costuma ser interceptado e rastreado eletronicamente. Autoridades de vários estados, inclusive as do Rio de Janeiro, alegam que ao invés de investir recursos no bloqueio do sinal do celular, preferem interceptá-los, e, portanto, tomar conhecimento do que é falado e combinado entre os presos.