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Graf Tabanlı Görüntü Bölütleme Yöntemleri

3. MATERYAL VE YÖNTEM

3.3. Graf Tabanlı Görüntü Bölütleme Yöntemleri

A expressão prisionização, cunhada por Donald Clemmer (1940) durante sua pesquisa de 1934, em uma prisão de New Jersey, Estados Unidos, sintetiza a absorção dos valores da prisão. Os valores da instituição passam a ser refletidos em sua personalidade, provocando algo como a vida do preso vivida pela perspectiva da prisão, assumida a partir da prisão. Os autores que iniciaram os estudos sobre prisionização, seguindo as pesquisas de Clemmer, alertavam que, quanto mais longa a estadia na prisão, mais o preso se tornava adaptado à cultura do cárcere (SYKES e MESSINGER, 1960) e, consequentemente, inadaptado à cultura da sociedade que o esperava ao final do cumprimento da pena (THOMPSON, 1976).

Através da vida prisional o sujeito é levado a uma adaptação tão violenta e absoluta, que se transformará – será transformado – em outra pessoa, ou em outro ser. Exatamente o que João do Rio dizia, já em 1925: “Há sempre dois homens em cada detento – o que cometeu o crime e o atual”. Aquele que entrou na prisão não tem a mesma identidade daquele que se vê mais tarde, e não porque a prisão consistiu na oportunidade de transformação em uma pessoa mais apta à vida em sociedade. Mas porque o desconstruiu, fazendo com que ele fosse reconstruído sob os parâmetros da instituição.

38 Alguns estudos sobre rebeliões em prisões podem ser vistos em SALLA, 2001 e 2004; GRIMBERG, 2009; GÓES, 1991; ONODERA, 2007.

Nesse sentido, o professor César Bittencourt afirma que a prisionização é uma forma de “aprendizagem que implica em um processo de dessocialização. Esse processo dessocializador é um poderoso estímulo para que o recluso recuse, de forma definitiva, as normas admitidas pela sociedade exterior” (1993: 171). No mesmo sentido, durante sua prisão na Penitenciária Regional de Presidente Venceslau, em São Paulo, convivendo com presos comuns, Frei Betto conclui: “Depois de viver tantos anos nesse ambiente poluído de cadeia, só mesmo entre malandros é que o ex-presidiário vai se sentir inteiramente à vontade”. Porque “a escala de valores dele não combina mais com a das pessoas honestas. São dois mundos e duas línguas diferentes” (BETTO, 1977: 143). O médico Dráuzio Varella, voluntário em prisões de São Paulo, lembra um diálogo muito interessante, de um médico do sistema prisional, zangado com o ex-diretor de uma penitenciária, que estava doente; o médico havia prescrito alguns remédios ao diretor, mas ele não os havia tomado. E alegou ao médico: “Doutor Jardim, vivi no meio de bandido a vida inteira; assisti às maiores atrocidades. No fundo, acho que não consigo confiar em mais ninguém, nem nos médicos, nem nos remédios” (in Varella, 2012: 131).

Muitas vezes torna-se preciso uma nova interpretação da vida, das pessoas – aqui só

tem traíra, não confio em mais ninguém, dizem os presos (e os guardas) com frequência; e

também se veem diante da aceitação de regras que não fazem sentido, e são obrigados a impensáveis estratégias de tolerância e convivência. Na prisão há a necessidade de fingir aceitação às condições de vida extremamente hostis e ilógicas, sobre as quais o preso não tem qualquer opção ou controle. A senhora Ruth A., egressa de Auschwitz-Birkenau, fala a Michel Pollak sobre sua surpresa e revolta, no início do processo de adaptação ao campo de concentração, situação que, embora diferente da prisão, mostra mecanismos de sujeição semelhantes: “mas não me pergunte o que quer dizer ser batido por alguém! Alguma coisa se quebra profundamente em você. Quebraram sua espinha. Fisicamente alguma coisa foi quebrada. É o que há de pior” (POLLAK, 2010: 26).

A prisionização, cujos efeitos nocivos parecem ser reduzidos através do compartilhamento da singular comunicação dos presos, está sujeita a fatores diversos: o contexto e a região do país, o tratamento recebido da administração, os grupos predominantes em cada estabelecimento, a época analisada, entre diversos outros. Os presos se defendem do meio ambiente unindo-se e desempenhando internamente papéis previsíveis e entendidos como necessários. No mundo da prisão eles convivem com o nojo, com o sangue, odores,

brutalidade, horários irracionais, ruídos incessantes durante todo o dia, com a falta de intimidade, com formas de violência conhecidas ou novas. E se manifestam tentativas de ajustes, de colaboração com a nova realidade. O processo não aparece, apenas, na adaptação emocional ou à diferença nos horários de costume na sociedade, como os de alimentação, dormida ou uso das precárias instalações para necessidades fisiológicas. Mudam hábitos, surgem estratégias, e o objetivo é a sobrevivência durante o período de cumprimento da sentença.

Veja-se o preso que já cumprira pena anteriormente, e disse à professora Myriam de Castro que, da primeira vez em que esteve preso sofreu muito, pois “era primário, era inexperiente, não sabia de nada” (...). Continuando, o preso diz que no cumprimento da sentença anterior, conversou com outros que lá estavam, e que conheciam mais aquele ambiente; aprendeu como viver ali, demonstrando como a transmissão dos valores da prisão ocorre através de dos códigos informais vigentes entre os seus habitantes. (...) Portanto, “agora já sei como fazer pra poder viver aqui: eu vejo tudo e não vejo nada, eu ouço tudo e não ouço nada” (in CASTRO, 1991: 60). A senhora Ruth A., entrevistada por Michel Pollak sobre sua experiência como sobrevivente de campo de concentração nazista, também fala de sua estratégia de se abster da realidade tenebrosa, do momento presente, algo semelhante ao que o preso acima disse que fez:

E eu me refugiei em uma redoma de vidro, eu podia ver tudo, escutar tudo em torno de mim, mas eu não compreendia nada. Era provavelmente um tipo de ‘autoproteção’, eu me recusava a compreender, devo repetir, eu fiquei sentada sob essa redoma de vidro, durante muito tempo, muitíssimo tempo, porque o espírito humano não pode medir o tamanho de uma tal coisa (in POLLAK, 2010: 24).

O preso William da Silva Lima também revela a assimilação necessária a viver na prisão, quando diz que para os presos a audição é o sentido mais importante: “o molho de chaves que tilinta, a porta que range, o assovio do amigo, o pigarro combinado, vozes ao longe, passos num corredor”. São sinais, porque o preso “ao percebê-los e interpreta-los rapidamente, ainda pode haver tempo para tomar providências” (LIMA, 2001: 21). Providências de ocultação, ou de defesa, ou de melhor execução de um plano de fuga ou de ataque podem ser exemplos do que está sendo comunicado pelo preso. Os agentes

penitenciários também se adaptam à realidade do ambiente e se guiam por esses e outros sinais em seu estressante trabalho cotidiano39.

A programação do dia, as atividades, a censura e a liberdade internas não estão dirigidas apenas a constranger o preso, e sim, supostamente, para garantir o funcionamento

pacífico da instituição. O fato é que nunca se sabe o que vai ocorrer embora tudo esteja

rigorosamente planejado. Os presos reclamam de ter que se levantar às 6:00 horas da manhã para nada fazer40. Dizem que a rigidez dos horários, e sua irracionalidade, aumenta a sensação de desperdício de tempo. Nada do que o preso faz durante cada dia de sua vida prisional foi escolhido.

A prisionização tem sido exposta seguidamente como um processo desenvolvido nos estabelecimentos dos diferentes sistemas prisionais, em qualquer país estudado. Todos os que vivem e frequentam a comunidade carcerária estão expostos aos efeitos da prisionização, em maior ou menor proporção. Reconhecendo-se ao ambiente a importância de formação de identidades individual e de massa, alguns autores admitem que a prisionização atinja até mesmo agentes prisionais, a categoria profissional mais próxima do preso no cotidiano institucional41. Confirmando essa afirmação, após trabalhar vários anos em prisões, o médico Dráuzio Varella diz: “O impacto do ambiente prisional provoca transformações irreversíveis na personalidade do agente penitenciário. ‘Em que lugar eu vim parar?’ é a frase mais usada para exprimir o choque dos primeiros dias no meio dos presidiários” (2012: 31).

Há sempre a ameaça de indiscrição ou delação. O ambiente exige permanente autocontrole. Um simples palavrão, abstratamente referenciado à figura da mãe, deve produzir a obrigação de reação violenta, função do preso que quer ser considerado sujeito homem. Além do controle, o preso que deseja manter convívio mais pacífico, tem que respeitar os

outros presos, tratar bem os outros, a fim de não comprar briga. Desta forma, são

desenvolvidos os modos de adaptação ao ambiente carcerário apontados por Erwin Goffman (1980).

39 Sobre esse ponto ver Castro e Silva (2011). 40

Nos anos 1960 a 1980, preso tinha que acordar as 5h30, o café da manhã nos estabelecimentos do Estado do Rio de Janeiro era disponibilizado as 6:00 e o jantar às 16:00, mesmo que não houvesse atividades previstas pela Administração.

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Nesse sentido estão os trabalhos de CHIES e outros, 2005; FERREIRA, 2002; LOPES, 1998; MAGALHÃES, 2003; MORAES, 2005; NEDEL, 2008.

Reproduzo o diálogo do professor Edmundo Coelho com um preso, em 1983, mostrando os limites impostos pela cultura da prisão:

Sim, aprendi muita coisa... É, são uma coisa que exige.... Vamos supor, assim os termos que ele usa dentro do meio, os termos do preso, é aquela neurose de não poder... o interno não pode escovar os dentes quando o outro tá almoçando, na delegacia existe isso, a higiene... Inclusive eu concordo plenamente com isso, não pode usar o vaso sanitário quando os outros estão almoçando, lá tem hora para lavar os pratos, tem horário pra escovar os dentes, tem horário pra tomar banho...

- Esses, são os próprios presos que....

Somos nós mesmos, né, que fizemos esse regime, de não poder deitar no lugar do outro porque, se deitar lá, tá pensando que vai querer alguma coisa, porque tá deitando na cama do outro, é sexo, né? (in COELHO, 2005: 85).

A prisionização gera muitas formas de conformação de caráter em presos: fugidios, apáticos, violentos, enlouquecidos, colaboradores da administração, entre muitas outras possibilidades. As pessoas, submetidas ao regime de dominação, mais amplo e mais profundo do que o autoritarismo procuram entender o que se passa com elas e com os demais ao redor. Parecem diminuídas, enfraquecidas. De modo semelhante, a senhora Ruth A., descrevendo o que se passou com ela, como prisioneira dos nazistas, descreve a sensação desesperadora da perda de si: “nós não estávamos mais com a plena posse de nossas capacidades mentais. Eu acho que às vezeshavia brometo na comida. (...) Nós estávamos avoados” (in POLLAK, 2010: 26). E também a médica Nise da Silveira, presa em 1936 na Casa de Correção do Rio de Janeiro, comenta com Graciliano Ramos a possibilidade de a Administração estar adicionando brometo ao café, para reduzir o desejo sexual dos presos (RAMOS, 2: 234). Recomenda que evite o café, o que ele tenta fazer.

Mas o fato é que a passagem por esse tipo de instituição, mesmo quando curta, define o futuro das pessoas que ali vivem e trabalham42. É a dolorosa passagem de um mundo aberto, ainda que repleto de carência e agressão, ao fechado, com regras estritas formalizadas em regulamentos, ou informais, impostas por guardas, pelo ambiente, pela cultura local e pelos presos mais poderosos ou fortes. “Aqui tudo muda, é o mundo de cabeça para baixo. O que vale lá fora não vale aqui. A gente tem que nascer de novo e aprender tudo outra vez”, sintetizou um preso durante entrevista de pesquisa (in SÜSSEKIND, 1984: 86).

O pesquisador Julio Ludemir resume o relato feito pela viúva de um preso comum que ficou morando na Ilha Grande quando saiu em liberdade, após o cumprimento de sua pena:

No ano e dois meses que passou na rua (antes de falecer), comportou-se da mesma maneira que se comportara na cadeia. A prisão o condicionou a um ponto tal que só fazia sexo uma vez por semana, entre duas e três horas da tarde. Era como se ainda estivessem fazendo parlatório43, imagina ela hoje. (...) Ele comia sempre nos horários da cadeia (....) (LUDEMIR, 2007: 408).

A fragilidade produzida pela prisão – muitas vezes oculta pelas atitudes e comportamentos brutais do preso – é perceptível em cartas, escritos e comentários. Como a conversa que desenvolvi em 1976, na Penitenciária Lemos Brito, com um preso. Ele disse estar se sentindo ameaçado com a proximidade do final de sua pena. Um companheiro próximo havia saído e voltado (reincidido), e informado a ele que a Rua Frei Caneca, à frente da penitenciária, tinha mudado de sentido, “agora corre para o outro lado. Não sei de mais nada, como vou fazer para chegar à Central do Brasil?”, dizia-me, em meio a evidente desespero.

Referindo-se à cidadania do preso, o pesquisador Geraldo Sá chama a atenção para o desafio de sua construção em duas direções: uma delas na direção da socialização, para sobreviver e viver no mundo por detrás das grades; e outra, simultânea, na direção da marginalidade, para viver e sobreviver no mundo do crime. Entretanto, juntamente com a socialização e à ressocialização para a delinquência, ocorreria também, a aprendizagem para circular, viver, conviver e sobreviver no mundo das pessoas livres ao final da pena (SÁ, 2008: 3). O filósofo Zygmunt Bauman parece fechar essa porta de sobrevivência no mundo das pessoas livres, e entende que o fenômeno da prisionização “é exatamente o oposto da reabilitação” e o principal obstáculo “no caminho de volta à integração” (1999: 119). Esse fenômeno, inerente à prisão, encoraja o preso “a absorver e adotar hábitos e costumes típicos do ambiente penitenciário, e apenas desse ambiente, portanto, marcadamente distintos dos padrões comportamentais promovidos pelas normas culturais que governam o mundo fora de seus muros” (idem, ibidem). Como lamentou Graciliano Ramos, diante dos efeitos das novas circunstâncias que se impunham na prisão, “por assim dizer, adquirimos uma segunda

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A expressão fazendo parlatório significa usando o parlatório, o quarto disponível nas prisões para encontros íntimos entre casais. O espaço entre os encontros costuma ser mensal, mas a senhora, aqui, menciona encontros semanais.

natureza” (1979,1: 253), observação semelhante a de João do Rio, que diz que o preso que entra na prisão é outro, diferente do que ali está sendo visto, já transformado por ela.

O afastamento coletivo do mundo de fora da prisão gera saberes específicos, aparentemente úteis somente para aquela vida, e provoca medo, insegurança e, mesmo, horror em muitos presos. Ao longo dos anos, em pesquisas sobre o sistema prisional, tenho constatado diversos casos de presos condenados a penas longas que, ao chegar perto da data da libertação, às vezes seis meses antes, pedem aos agentes prisionais para ficar isolados, ou trancados na cela em que vivem, ou mesmo na cela de segurança. O objetivo é evitar que “se metam em confusão” ou que, se provocados, sejam obrigados a reagir, de acordo com as regras da prisão, e percam a oportunidade da saída prevista.