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É por meio do contato com profissionais e familiares que muitos gestos e termos tornam-se presentes fora do cárcere: descrevem atividades, situações, e alguns papéis desempenhados no cárcere, entre outros. Entrevistado na pesquisa de Edmundo Campos Coelho, um guarda penitenciário disse que já tinha usado a linguagem da prisão em casa, causando aborrecimentos à mulher: “a gente, sei lá, pega aquele esquema, que você às vezes... você fala em casa porque tá com a cabeça aqui dentro, tá dentro do serviço e é o cara responsável” (in COELHO, 2005:107). Os guardas precisam conhecer os mecanismos e modos de expressão e de comunicação para terem condições de se situar no ambiente, entender melhor o que se passa, atuar e se defender dele. Como outro guarda entrevistado explica:

(...) você, quando você convive dentro de um ambiente... vamos dizer assim, oito horas por dia, o horário de serviço, é impossível, que você não assimile, no mínimo... não vou dizer nem a atitude, mas no mínimo o palavreado. Porque senão você não acertaria (COELHO, 2005: 107).

Quando fala do poder da transmissão do palavreado pelo convívio diário, o guarda acima, cuidadoso, afirma que a atitude dos presos não for assimilada por ele, já que ela é considerada negativa, imoral. E diz que os guardas também se utilizam do palavreado como forma de acertar, de poder executar o seu trabalho naquele ambiente. Não seria possível ao guarda ficar exposto à comunicação cotidiana do meio carcerário sem que compreendesse o seu sentido. O médico Dráuzio Varella também entende que é necessário dominar a linguagem interna da instituição para trabalhar com presos: “sem o domínio dos mesmos códigos não há diálogo possível” (VARELLA, 2012: 224).

A coleta de termos usados internamente, realizada pelo agente prisional Jorge Alexandre, como mencionado anteriormente, é exemplo da necessidade da quebra dos códigos, de forma a conseguir trabalhar correndo menos riscos e sendo mais eficiente. Em

pesquisa realizada no Estado do Paraná, Maria de Lourdes Remenche constatou que o contato direto com os “usuários dessa linguagem”, gradativamente leva os funcionários à adoção, “a ponto de extrapolarem os muros das prisões, usando esse vocabulário no seu dia-a-dia familiar e social” (REMENCHE, 2003: 8). Quanto ao que ocorre em relação a presos, ex- presos e familiares,

forma-se, assim, um círculo vicioso: a sociedade os estigmatiza, levando esse grupo minoritário, em conflito com o meio em que vive, a hermetizar-se de maneiras diversificadas: isolamento em favelas, vestimentas características, uso de tatuagens, e, consequentemente, à criação de uma comunidade linguística especial, identificadora de seu grupo (REMENCHE, 2003: 8).

O agente prisional Francisco José de Souza Serrano, do Rio de Janeiro, também observa o fenômeno da expansão da linguagem fora dos muros, e sua interação com núcleos familiares, e diz que, “nos espaços externos, têm-se as famílias dos presos que vivenciam esta vida paralela, com seus parentes e amigos encarcerados, que vivem o dia-a-dia”, e ressalta que os familiares, “quando cumprem o dia e hora das visitas, recebem novas formas de falas, passando a ter de conviver para poderem se comunicar em uma linguagem, bem diferente da cultura erudita”, ainda que a linguagem da prisão não seja “considerada uma cultura popular” (SERRANO, 2012: 55). Nem erudita nem popular, mas absorvida por não-presos, e assim, disseminada em comunidades carentes, de onde são originários.

Portanto, a comunicação específica do cárcere, e dele com os territórios de origem de sua população, consistem em manifestações culturais, como o são outras linguagens e formas de expressão. A assimilação de formas de convivência, estratégias de resolução de conflitos são asseguradas através da cíclica entrada e saída de suspeitos e de ex-condenados, que retornam a suas comunidades de origem, expondo a assustadora reincidência demonstrativa da falência da pena de prisão.

A dinâmica perversa que torna a prisão uma constante na vida dessa grande faixa da população, a única que entra e sai da instituição. São demonstrações de efeitos diretos e secundários da instituição prisional, agravadas pelas deformações que existem no país. A espantosa reincidência criminal faz com que o percurso comunidade pobre–prisão seja mantido aberto, em permanente posição de origem-consequência. Parece inevitável que isso ocorra, já que o denominador comum da prisão – não do crime - é a pobreza.

Ressalto que a prisão tem seus efeitos negativos ampliados por esse movimento de interação permanente entre universos, e que a criminalidade se torna cultural, um modo de expressão, quando não um modo de manutenção. É estendida à vida de visitantes, sobretudo de crianças66 de famílias pobres, instalando redes que se realimentam. E digo famílias pobres por serem elas as que são enviadas à prisão, e não porque repita, aqui, a tese ultrapassada de que seriam seus membros os que cometeriam mais crimes, por razões de carência de recursos. Como sabemos, os chamados crimes do colarinho branco desmentem essa tese, revelando comportamentos que só podem ser praticados por pessoas que dispõem de nível educacional elevado e que ocupam postos profissionais elevados.

No correr das últimas décadas, cada vez mais o linguajar específico da prisão, e muitos de seus valores, vêm sendo compartilhados com as comunidades carentes, tornando-se significativo nesses territórios, presente em músicas, bailes e formas de lazer. Além disso, através das mídias e redes, tal linguajar espalha-se a outras camadas da sociedade, como são exemplos termos como “perdeu”, “a casa caiu”, “a chapa tá quente”, “juntos e misturados”, “vacilão”, “caído”, “cafofo”, “desenrolar”, “caô”, entre muitos outros.

O professor Michel Misse se manifesta sobre a percepção generalizada de aumento da violência, que teria relação com o compartilhamento amplo de signos e linguagem da prisão com outros setores da sociedade. E, ainda, sobre a disseminação, fora do cárcere, da cultura que antes era predominante e partícula do universo prisional:

o crescimento da representação social de um “aumento da violência”

acompanhou-se, também de uma generalização e banalização do emprego de códigos e linguagens antes contidos aos segmentos sociais que os criaram e que eram vistos como constituindo um mundo à parte (MISSE, 1999: 337).

O autor acrescenta que, além da “mera banalização desses códigos e linguagens, não é improvável a hipótese de que o submundo, tal como existia antes, está desaparecendo

66 A frequência de crianças em prisões cumpre o papel de manter famílias próximas, reduzir a solidão e a tristeza da separação. Mas não posso deixar de dizer que também é um deplorável contato das crianças com o ambiente, a cultura da criminalidade, tornando a prisão um fato normal em suas vidas. Observando-se diversos estabelecimentos ao longo dos anos, notam-se gerações de presos: conhecem-se, casam-se, os filhos frequentam os estabelecimentos. E, ainda, há muitos filhos de presos e de ex-presos não mais como visitantes, mas como condenados. Sobre problemática de prisão e crianças ver BECKMAN, 2007; SANTA RITA (2009), SILVA (2007); JARDIM, 2010.

enquanto um lugar separado” (idem, ibidem). Assim, uma das formas através das quais ocorre forte disseminação da cultura da prisão é o uso da mesma terminologia em áreas marginalizadas, onde transita um número expressivo de ex-presos, familiares e jovens, estes, lamentavelmente sujeitos a uma vaga na prisão. Michel Misse afirma, ainda, que a ampliação ou generalização dos códigos e linguagens “para outras áreas da sociedade abrangente (...) tem migrado mais rapidamente e com maior abrangência e frequência de uso, nas últimas décadas, para mais longe do entorno social da sujeição criminal (...)” (idem, ibidem).

Sendo o submundo o lugar que deixa de ser separado por regras, comportamentos, valores e atores distintos de outros contextos sociais, e a prisão estando cada vez mais próxima a esse submundo, talvez seja possível afirmar que os efeitos do cárcere são, ainda, mais amplos e nocivos. Assim, os valores do que era restrito (e condenável) como submundo, aparecem sendo assimilados por segmentos mais amplos, que os adotam e a eles aderem.

Outra questão é que muitos egressos de prisões são mantidos como que aprisionados, pois continuam tendo compromissos em relação aos antigos companheiros; voluntária ou obrigatoriamente têm que pagar dívidas contraídas internamente, por terem tido proteção, acesso a drogas, inclusão em tentativas de fuga, ou por outra razão. Ou pela simples adesão, pelo batismo na facção, condição que não termina, no caso de facções como o Primeiro Comando da Capital - PCC, de São Paulo. E, ainda, os integrantes de fora da prisão consistem em permanente mão de obra externa, a que os chefes de facções recorrem para enfrentar disposições do Estado, ou protestar, ou exigir, ou se vingar, ou obter recursos, através da prática de crimes. Também ordenam manifestações violentas, que incluem a queima de ônibus e outros veículos. Através delas tentam submeter o Governo e a administradores do sistema prisional, como verificado por diversas vezes. Ambas as questões relativas à exigência permanente de adesão aos chefes do tráfico de drogas, mesmo já presos, podem ser exemplificadas na notícia de O Globo, de 27/01/2015, coletada após o final deste trabalho: “Segundo fontes do Sistema de Inteligência Penitenciária o comando da quadrilha estaria arregimentando presos em regime semiaberto, que moram em comunidades dominadas pela quadrilha, para reforçar (...)”. Trata-se de uma guerra entre quadrilhas por pontos de venda de drogas, que envolve queima e depredação de ônibus e mobiliário público e invasões a morros com armamento altamente letal, como informa a mesma notícia: “Ainda de acordo com investigadores, os traficantes teriam recebido 150 fuzis e 100 mil cartuchos calibre 7.62

fornecidos por uma facção criminosa67 de São Paulo”, referindo-se ao Primeiro Comando da Capital – PCC.

Segundo o jornalista Josmar Jozino, no ano de 2012 a facção PCC “contava com 6 mil integrantes no sistema prisional e tinha um exército de 15 mil homens nas ruas” (JOZINO, 2012: 176). Mais do que nunca, uma vez criminoso ele passa a ser criminoso para sempre. Trata-se de uma condição definitiva e permanente.

Essa constatação é relevante para a avaliação da instituição prisional, de seus efeitos, causas e perspectivas. Sobretudo, essa aliança que se estende para além da pena impede a tentativa do egresso de superar a vida no cárcere, individualmente ou com a colaboração de algum eventual projeto social. Pois essa extensão dos laços e braços da prisão, que fideliza o egresso, aumenta enormemente a violência.

Note-se que nos anos 1960 e 1970, os presos costumavam denunciar a sociedade, que não lhes dava a chance de, uma vez cumprida a pena, deixarem de serem vistos como culpados, ex-presos. De modo geral, era o que ocorria, como constatavam, sobretudo, na frustrante busca por trabalho. No entanto, a persistência das próprias condições da prisão na vida de tantos ex-presos levaram muitos a continuar indeterminadamente referenciados à instituição, da qual se torna quase impossível se desligar. Mesmo nos textos de ex-presos que parecem ter conseguido ultrapassar esses vínculos tão fortes, as histórias sobre companheiros do cárcere são, quase todas, no sentido a que me refiro - MENDES (2001), JOCENIR (2001), BORGES (2008), LIMA (2001), DU RAP (2002).

Uma parte da comunidade prisional consegue disseminar, ou mesmo, em alguns casos, consegue impor, fora dos muros, especialmente em determinadas áreas, o poder da força, as estratégias de ganhos, o comércio das drogas, bem como as noções de injustiça e de sujeição ali dominantes. Como já há vários anos afirmou o preso William da Silva Lima,

Acrescenta-se, ainda, que o mesmo indivíduo, que não é mais um ser social, continua atuando na sociedade, de dentro da prisão, através de comandos e orientações virtuais ou tele-transportados, sem que seja necessária a presença física nos espaços sociais. Sua existência insiste em permanecer dentro da sociedade, marginalmente, influenciando diretamente na sobrevivência da mesma (2001: 5).

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Como mencionaremos mais à frente, os meios de comunicação, por acordo mútuo ou por solicitação do governo Estadual, não mencionam o nome das facções, sobretudo o Comando Vermelho – CV e Primeiro Comando da Capital – PCC.

A pesquisadora Ana Gabriela Braga explica a expansão dos efeitos da prisão nas comunidades: “as facções se aperfeiçoaram em termos organizacionais, principalmente com o desenvolvimento de estratégias internas e externas de comunicação e controle”. E, ainda, e, talvez mais preocupante, o crime organizado, hoje dominado por facções autoritárias e violentas, entra cada vez mais para o interior das instituições estatais: “ao mesmo tempo em que se enraizaram dentro dos presídios, estas organizações expandiram-se para fora, com tentáculos nas comunidades, no mercado ilegal e nas instituições estatais” (BRAGA, 2008: 86).

Esse aculturamento vai se estender e penetrar em escolas, músicas, bailes, atividades em espaços comunitários, escolas, hospitais, serviços públicos, em que a predominância dos valores da prisão, ou de seus líderes, vai provocar ou impor obediência e adesão a padrões cada vez menos previstos e inaceitáveis. Assim, são destroçadas as formas comunitárias de controle social tradicional, que se espera que reproduzam valores positivos, mantendo a coesão das comunidades e contribuindo para a prevenção do crime. Muitas regiões passam a sofrer a influência direta da comunidade prisional, desorganizando-se em relação a valores tradicionais antes dominantes (ROSE e CLEAR, 1998), e organizando-se com vistas a atender à crescente população relacionada à prisão.

Naturalmente, a maior parte das pessoas que foi sentenciada à pena de prisão no país não mantém laços diretos com a mesma, e tenta se desvencilhar de sua identidade e imagem. Mas o fato é que, atualmente, a prisão marca fortemente as comunidades pobres, com imposições, com o movimento de visitação, e com a ida e as vindas dos sujeitos submetidos ou egressos do encarceramento. Segundo as professoras Birman e Machado (2012), citando Vera Telles, “é significativa a ‘experiência do encarceramento’ na cidade e em suas periferias, pelo fato de ser hoje “quase impossível encontrar uma família que não tenha contato e familiaridade, direta ou indireta [...], com a experiência do encarceramento’” (TELLES, 2010: 120, apud BIRMAN e MACHADO, 2012).