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Belgede Volume: 3 Issue: 3 ISSN: (sayfa 53-60)

153 5.3.1 Oficina de Combate à Mortalidade da Juventude Negra

Em setembro de 2010, a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, em parceria com a Fundação Friedrich Ebert46, realizou um evento chamado “Oficina de Combate à Mortalidade da Juventude Negra”, com o objetivo de elaborar diretrizes para a constituição de um Plano de Combate à Mortalidade da Juventude Negra. Participaram da oficina: militantes do movimento de juventude negra, representados pelos Agentes de Pastorais Negros, pela Rede Nacional AfroAtitude e pelo Círculo Palmarino – a União Nacional de Estudantes também esteve presente; técnicos do IPEA; especialistas em direitos humanos e em segurança pública, com interesse em relações raciais; gestores do Ministério da Saúde (esta instituição levou representantes de diferentes áreas – vigilância sanitária, adolescente e jovem, saúde da mulher, por exemplo), da Secretaria Nacional de Juventude e da Secretaria de Política para as Mulheres – no âmbito do Executivo, chama-se a atenção para a ausência do Ministério da Justiça. Além disso, houve a presença de três policiais militares (do Rio de Janeiro, do Distrito Federal e de Pernambuco), o que possibilitou o compartilhamento de informações sobre a ação policial, as taxas de mortalidade de jovens e as políticas públicas voltadas para a juventude negra. Ficou advertida a necessidade de elaborar uma agenda em torno da criação de um Plano de Combate à Mortalidade da Juventude Negra. (Relatório da Oficina “Combate à Mortalidade da Juventude Negra”, de outubro de 2010, SEPPIR.

5.3.2 Sala de Situação Fórum Direitos e Cidadania

No mesmo ano de 2011, já sob a gestão da presidenta Dilma Rousseff, a Secretaria Nacional de Juventude apresentou ao Fórum Direitos e Cidadania (FDC)47 a proposta de constituição de uma Sala de Situação de Juventude Negra, com a intenção de construir uma agenda em torno dessa temática. Entretanto, há outras versões sobre quem apresentou a proposta ao FDC. Durante os meses iniciais de 2012, estive em Brasília, frequentando reuniões da Secretaria Nacional de Juventude e da Secretaria-Geral, para a elaboração do que viria a ser o Plano Juventude Viva; o outro ator que se apresenta como o autor da proposta encaminhada ao FDC é a SEPPIR, que também teve atribuições centrais na

46 Disponível em: <http://www.seppir.gov.br/noticias/ultimas_noticias/2010/09/secretaria-de-politicas-de-acoes- afirmativas-da-seppir-realiza-oficina-201ccombate-a-mortalidade-da-juventude-

negra201d/?searchterm=juventude>. Acesso em: 13 maio 2013.

47 “Instalado em 15 de março de 2011, o Fórum de Direitos e Cidadania é a instância responsável , no âmbito do Governo Federal, por promover a articulação política e gerencial das ações voltadas para a garantia e expansão do exercício da cidadania e do desenvolvimento sustentável”. Apresentação do FDC, 25 de novembro de 2011.

154 elaboração dessa política, que tem o chamado recorte racial. A sequência dessa ação, cuja autoria é duplamente reivindicada, foi a elaboração de um diagnóstico nacional sobre homicídios com recorte etário e racial, feito pela Secretaria Executiva da Secretaria-Geral da Presidência da República, e o estabelecimento de uma agenda de debates com um grupo de Conselhos Nacionais, o chamado Fórum Interconselhos.

O processo de discussão e elaboração do Plano Juventude Viva iniciou-se em julho de 2011 no Fórum Direitos e Cidadania, instância do Governo Federal responsável por promover a articulação política e gerencial das ações voltadas para a garantia e expansão do exercício da cidadania. A Violência Contra Jovens Negros foi eleita pelo conjunto de ministros e ministras que compõem o fórum como uma das questões sociais prioritárias a serem enfrentadas. Ao longo de 2011, o Fórum Direitos e Cidadania debruçou-se sobre o tema. No processo de mobilização e participação social, foram realizadas consultas envolvendo a participação de diversas organizações da sociedade civil48.

As reuniões do Fórum Interconselhos foram coordenadas pela Secretaria-Geral da Presidência da República, a fim de discutir com setores da sociedade civil organizada a situação da juventude negra durante o período de novembro de 2011 a novembro de 201249. Assim como a decisão de levar o tema ao FDC, o Fórum Interconselhos já passa a ser uma agenda iniciada pelo Poder Executivo, sem haver necessariamente uma provocação dos movimentos juvenis ou do movimento negro.

5.3.3 Juventude e raça: sujeito multifacetado da política pública

A participação dos diversos ministérios do Governo Federal nos eventos era reivindicada pelas organizações através da defesa da aplicação da transversalidade na gestão das Políticas de Juventude. De acordo com essa ideia, todos os ministérios seriam responsáveis por essas políticas. A participação do governo, entretanto, sempre foi segmentada e desorganizada, a considerar, por exemplo, a ausência do Ministério da Justiça, que deveria ser o primeiro a interessar-se por questões relacionadas aos problemas de violência e segurança. Há, portanto, um interesse contraditório do Governo Federal no tema,

48Relatório do Fórum Interconselhos, 2012.Secretaria-Geral da Presidência da República.

49http://www.camara.gov.br/internet/sitaqweb/TextoHTML.asp?etapa=5&nuSessao=325.2.54.O%20%20%20%2 0%20&nuQuarto=96&nuOrador=2&nuInsercao=40&dtHorarioQuarto=17:10&sgFaseSessao=OD%20%20%20 %20%20%20%20%20&Data=27/11/2012&txApelido=SANDES%20J%C3%9ANIOR,%20PP- GO&txFaseSessao=Ordem%20do%20Dia%20%20%20%20%20%20%20%20%20%20%20%20%20%20%20% 20%20%20&txTipoSessao=Ordin%C3%A1ria%20- %20CD%20%20%20%20%20%20%20%20%20%20%20%20%20%20%20%20&dtHoraQuarto=17:10&txEtap a=

155 pois há órgãos institucionais que não participam das ações elaboradas pelo próprio Estado e que até mesmo não reconhecem o problema do homicídio de jovens negros

De todas as ocasiões citadas, o Ministério da Justiça – que deveria atuar em questões voltadas para a segurança e a violência por meio da Secretaria Nacional de Segurança Pública – fez-se presente em dois momentos: em novembro de 2009, para apresentar o índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência (IVJV), quando foi duramente criticado pelo fato de o índice não ser composto por dados relacionados à cor; em janeiro de 2012, para apresentar o PL contra os autos de resistência. Nessa ocasião, chegou ao pleno da reunião que o MJ preparava um Plano para Redução de Homicídios, o que causou impacto negativo entre os participantes e gerou fortes questionamentos, principalmente se dessa vez haveria um recorte racial – preterido na elaboração do IVJV.

Segundo uma das diretoras da Secretaria Nacional de Segurança Pública, em atividade sobre o Plano Juventude Viva, em Brasília, no dia 5 de maio de 2013, os homicídios de jovens negros poderiam ser resolvidos sem que houvesse a necessidade de uma abordagem com recorte etário ou racial: “Quando a gente reduz os homicídios em geral, a gente também reduz os homicídios de jovens negros, não é?” (registro de Campo de 2013).

Havia, portanto, um desencontro entre as elaborações de políticas na área de segurança pública. Ainda que jovens negros chegassem a espaços como o Conjuve, não se conseguiu avanços do gênero nem com a Lei no 10.639/2003 nem com a Política Nacional de Saúde da População Negra. Se há uma variação na definição do problema (genocídio, mortalidade, vida), há uma permanência quanto à denominação do sujeito: trata-se de juventude negra nem só juventude nem só população negra. Não houve nos registros a ocorrência de questionamentos à dimensão juvenil do problema, mas em diversos espaços tentou-se generalizar a questão em torno de toda a juventude – sem que houvesse prosseguimento no debate. No entanto, quando era feito o recorte entre jovens, era certo que eram os jovens racializados como negros.

O Conjuve pôde engajar diversos ministérios, sob a defesa da transversalidade, como a SEPPIR, o Ministério da Educação, o Ministério da Saúde, mas não o Ministério da Justiça, no problema dos homicídios de jovens negros. Essa ausência impõe uma reflexão maior, sobretudo, acerca dos fundamentos da noção de justiça que embasam a ação do Poder Público Federal e, portanto, do Estado brasileiro.

O engajamento dos ministérios ocorreu também em consequência das alterações da formulação do problema: a passagem do termo “genocídio” para a ideia de prevenção da

156 violência foi a chave para haver a construção de uma agenda propositiva que, em seguida, ser tornou um plano nacional.

Num evento que reunia jovens da comunidade de países de língua portuguesa em dezembro de 2010, no Rio de Janeiro, o secretário adjunto de Juventude, Danilo Moreira, foi indagado sobre que respostas o Governo Federal deu para a demanda da I Conferência Nacional de Juventude. Segundo ele, tratava-se de algo de responsabilidade da Secretaria de Promoção de Políticas de Igualdade Racial, pois, se juventude era uma questão transversal, juventude negra seria responsabilidade da SEPPIR.

A declaração do secretário adjunto de Juventude ocorreu quando não havia representantes da direção da SEPPIR presentes; momentos depois, Martvs das Chagas, um dirigente deste ministério, tomou a palavra e disse que o organismo a dar a resposta sobre a conferência de juventude era a SNJ, e não a SEPPIR, pois se tratava de uma deliberação da conferência organizada por “eles”. Por fim, a questão ficou sem resposta, por pelo menos mais dois anos.

A junção de duas categorias identitárias para se referir um único sujeito, a partir da ideia da transversalidade, implica esse tipo de problema para o trabalho com políticas públicas. O debate acerca das teorias do reconhecimento em contextos liberais (ou pós- socialistas, como queiram) sugere que elas poderiam ser limitadas devido à rigidez dos conceitos de identidade presentes. Os sujeitos de direitos aqui evocados não têm uma dimensão única: são jovens e negros; são, portanto, multifacetados e precisam ser tratados em vista da sua pluralidade (NOVAES, 2011). Daí a necessidade de tomarmos a teoria do reconhecimento a partir de uma noção de identidade que permita deslocamentos (HALL, 1995) dos sujeitos que ora são jovens, ora são negros, ora são jovens negros – e a juventude negra só pode haver a partir da intersecção daqueles dois campos.

As contribuições de Brah (1996) sobre as políticas da diferença, do comum e do universal colaboram para estabelecer termos compartilhados segundo as necessidades de setores específicos. A dimensão do reconhecimento da juventude negra torna-se possível através da reconfiguração do múltiplo.

Belgede Volume: 3 Issue: 3 ISSN: (sayfa 53-60)