A I Conferência Nacional de Políticas de Juventude reuniu mais de quatro mil participantes, e quase a metade deles associava-se de alguma forma à identidade negra. Segundo a pesquisa Quebrando mitos: juventude, participação e políticas. Perfil, percepções e recomendações dos participantes da I Conferência Nacional de Políticas Públicas de Juventude (CASTRO; ABRAMOVAY, 2009), 32,3% se autodeclararam negros; 11,3%, pardos e mestiços; 0,8%, afrodescendentes. Nota-se que a forma de autoclassificação com base em uma pergunta aberta gerou poucos termos classificatórios em comparação a outras situações verificadas Brasil afora, predominando aqui a categoria negra. Ocorrida em abril de 2008, a conferência aprovou como prioridade a implementação das resoluções do relatório do I ENJUNE.
A proposta de implementação das resoluções contidas no relatório do I ENJUNE foi a mais votada pelos delegados da conferência, embora houvesse outras, elaboradas por Jovens do Campo, Povos e Cidadania LGBT, Jovens Mulheres, Fortalecimento Institucional da Política Nacional de Juventude
Cabe, aqui, fazer uma diferenciação quanto à organização desses grupos em grupos de sujeitos e de temas. Jovens negros, Jovens do Campo, Cidadania LGBT são diferentes de grupos que tratam de Fortalecimento Institucional da Política Nacional de Juventude, Fortalecimento Institucional Meio Ambiente e Esporte. De acordo com Danilo Morais, um dos facilitadores do Grupo de Jovens Negros e Negras, em conversa mantida em abril de 2011, houve um debate sobre qual seria o nome desse grupo.
Segundo esse interlocutor, atualmente conselheiro do Conselho Nacional de Juventude – representando a CONEN –, alguns membros da Secretaria Nacional de Juventude do Governo Federal defendiam que os grupos deveriam apenas ser dedicados aos temas, e não aos chamados “segmentos”; a defesa desse ativista, que estava envolvido no processo de organização da conferência como consultor, foi a manutenção de grupos que nomeassem os segmentos. Dessa forma, com grupos de temas e de segmentos, decidiu-se nomear os sujeitos, havendo assim o reconhecimento de diferenças e da pluralidade em cada uma das chamadas “juventudes”. Ainda, de acordo com esse interlocutor, sendo de outro modo, mantendo apenas os grupos temáticos, permaneceria uma visão da juventude como uma questão transversal, diluindo os segmentos entre os diversos temas.
135 Os mais de dois mil participantes da conferência foram reunidos em 23 grupos, e cada um destes elaborou três propostas que sintetizassem o debate e as reivindicações das juventude em torno do tema a que o grupo se dedicava. Das três propostas, uma era levada para o momento interativo, de deliberação final; lá, era avaliada e submetida aos votos dos delegados. Para que a proposta fosse ao momento interativo, ela deveria primeiramente ser aprovada pelo grupo temático. O Grupo de Jovens Negras e Negros elaborou mais duas propostas além da vitoriosa. A menos votada dizia respeito ao Estatuto da Igualdade Racial, e a segunda colocada tematizava os homicídios e outras violências. Esta proposta foi, portanto, preterida.
2. Responsabilizar o Estado e implementar políticas específicas de extinção do genocídio cotidiano da juventude negra que se dá pelas políticas de segurança pública, ação das polícias (execução sumária dos jovens negros/as e tortura), do sistema prisional e a ineficácia das medidas socioeducativas que violam os direitos humanos; e de saúde, que penaliza especialmente a jovem mulher negra.
3. Aprovação imediata do Estatuto da Igualdade Racial, com a criação de um fundo governamental para o financiamento de suas políticas. (CASTRO; ABRAMOVAY, 2009)
Para Latoya Guimarães, uma das presentes à CNPPJ, militante do CEN de São Paulo e, posteriormente, conselheira do Conjuve (biênio 2010-2011), foi um erro não escolher a segunda proposta, que tratava diretamente do “genocídio de juventude negra”, pois era necessário ir direto ao problema, e a proposta que foi aprovada dava espaço para tergiversação dos agentes do Poder Público.
Samoury Mugabe, um dos conselheiros do Conjuve e membro da Articulação Política de Juventudes Negras, disse-me em entrevista realizada em janeiro de 2013 que essa opção foi feita por se tratar de uma proposta com maior possibilidade de ser aprovada: “As pessoas não sabiam o que era genocídio. E a proposta que fala do ENJUNE é mais objetiva, tem mais legitimidade [por falar diretamente de outro movimento social]”.
A proposta, mesmo assim, causou alguns incômodos. A leitura de Latoya Guimarães está concatenada com o que ocorreu no evento de dezembro de 2010, no Rio de Janeiro, no debate indireto entre Martvs das Chagas e Danilo Moreira, bem como com o que um de nossos interlocutores, Carlos Odas, assessor da Secretaria Nacional de Juventude (de 2005 a 2010), disse-me quando o indaguei sobre a aplicação da prioridade da I CNPPJ. Respondeu-me ele com outra pergunta: “Como aplicar uma resolução que remete a um relatório com mais de 100 páginas e que tem mais de 700 propostas?” (Registro de campo de 2009, conversa informal com Carlos Odas).
136 Outro incômodo manifestado acerca da proposta de jovens negros está na citação, feita na proposta, do I ENJUNE. Quando mencionei essa referência (em julho de 2013) a uma das interlocutoras (paulista, branca e não jovem, vice-presidenta do Conjuve no biênio 2008- 2009), ela imediatamente respondeu-me: “Pois é, não é?! Estava lá, bem grande, com todas as letras: ENJUNE!”, encerrando a frase com uma gargalhada. Entendi que isso a incomodou ao ponto de ela relembrar esse detalhe e retratar a informação com uma caricatura enfática: o “bem grande” pode ser entendido como algo que está fora do lugar ou com mais destaque do que mereceria.
Assim, a I Conferência Nacional de Políticas Públicas de Juventude não trouxe os homicídios de jovens negros para o tema, opção descartada pelos membros presentes e organizados na conferência. Necessitou-se trazer o tema à tona posteriormente, ainda que de maneira genérica, falando de um problema maior, como relata Ângela Guimarães, em entrevista cedida em 28 de maio de 2014:
O relatório final do GT Juventude Negra e Políticas Públicas (2010) produziu um relatório dos trabalhos contendo um mapeamento de algumas ações desenvolvidas pelo Governo Federal que possuíam potencial para atender a juventude negra, propondo uma articulação transversal entre vários ministérios da área social. Destaco deste relatório a indicação da necessidade de implementação emergencial de uma ESTRATÉGIA NACIONAL DE PROTEÇÃO E GARANTIA DA VIDA E DOS DIREITOS À JUVENTUDE NEGRA, dentro da qual se sobressai a necessidade de um PACTO PELA VIDA DA JUVENTUDE NEGRA. Segundo este mesmo relatório, esta estratégia precisaria se espelhar no sistema de proteção e garantia de direitos de crianças e adolescentes, que engloba legislação específica, articulação entre os entes federados, delimitando responsabilidades, criação de instrumentos de fiscalização e controle social atuantes e orçamento específico para suas ações.
Dessa forma, foi possível inserir o tema da juventude negra entre os principais temas a serem tratados pela política pública de juventude. Morais (2013) argumenta que a metodologia do momento interativo foi um dos fatores que possibilitaram esse resultado. Esse fato também é mencionado como uma inovação metodológica pela organização do evento, em publicação posterior. No Caderno de Resoluções, na seção “Uma conferência inovadora”, lê- se:
Os processos participativos possuem grandes dificuldades na sistematização das propostas elaboradas em pequenos grupos e, posteriormente, na aprovação coletiva em plenário. Essas dificuldades geram frustrações nos participantes por dois motivos principais:
• A falta de tempo para uma discussão democrática, devido à grande quantidade de propostas que chegam à plenária final e à falta de identificação dos participantes
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com as propostas, devido ao “enxugamento” do número de propostas que chegam à plenária final.
Nesse sentido, a utilização do método denominado “momento interativo” possibilitou a superação dessas dificuldades na medida em que permitiu que muitas propostas fossem votadas ao mesmo tempo e possibilitou que todos os participantes pudessem exercer o direito de convencer os demais sem muita restrição de tempo. Outra “vantagem comparativa” em relação ao método usual estava na possibilidade de distribuir votos em mais de uma proposta. Isso garantiu que tanto os grandes consensos sobre questões gerais quanto temas específicos fossem aprovados sem necessitar de exercícios de maiorias em plenário.
Com isso, acreditamos que o momento interativo diminuiu a tensão da disputa entre os participantes, atenuou o impacto das práticas competitivas entre os grupos sem que com isso houvesse perda na politização. Sem dúvida, o resultado mais positivo foi a construção de deliberações amplamente reconhecidas e legitimadas por todos (CONFERÊNCIA NACIONAL DE JUVENTUDE, 2008).
Embora a organização procurasse diminuir as tensões, nos grupos focais entrevistados na pesquisa Quebrando mitos: juventude, participação e políticas. Perfil, percepções e recomendações dos participantes da I Conferência Nacional de Políticas Públicas de Juventude, durante a realização da conferência, houve muitas críticas de jovens negros aos partidos políticos41.