Como a cigárra da vélha fábula, cantavamos – na despreocupação feliz da vida simples – o hino da gratidão etérna ao sol gloriozo, cujo calor fecunda nossa terra, cuja luz eríza nossos inumeráveis minerais e cujo brilho tonifica nossa gente, enquanto cuidavam nossos vizinhos – quais próvidas formigas – prover a vida dos elementos concretos que lhe são primordialmente imprecindíveis. (REIS, 1920, p. 228-229)
Com essas palavras o engenheiro Aarão Reis, ex-inspetor de obras contra as secas, protestava em seu artigo de 1919 “As sêcas do nordeste”27, contra o que percebia ter sido uma incapacidade do regime imperial em mobilizar o Brasil, através do trabalho, em direção ao progresso. O Brasil tinha recursos abundantes, sim, mas isso era ruim; o excesso de fartura, aliado à imprevidência dos governantes, acreditava, acabara por tolher o espírito laborioso dos brasileiros – o que não acontecia, por exemplo, com seus vizinhos de continente (provável referência aos argentinos), que, contando com menos exuberantes recursos naturais, haviam avançado mais no fomento da produção e na circulação de produtos. Esse pensamento, de fato, não se originara naquelas reflexões de Aarão Reis; estas eram ecos de uma hipótese que já fora usada, por exemplo, pelos colonizadores portugueses para explicar a suposta indolência dos indígenas, ou por europeus duvidosos da possibilidade de desenvolvimento de uma verdadeira civilização nos trópicos.
Ademais, Reis duvidava da “dádiva” que recebera o Brasil, “onde a natureza acentuára seu capricho eriçando o sólo de alterozas cordilheiras, encachoeirando as mais vultuozas caudais, impenetralizando pela excessiva exuberancia as densas florestas, afastando os mares pela amplidão do território”. E acrescenta:
Fôssem os nossos S. Francisco, Tocantis e Araguaya francamente navegáveis, e outra sería, ao certo, a prosperidade do sertão do nosso planálto central do interior, onde se teria já dezinvolvido – com passo igual – a produção das couzas e a dos entes humanos, tão riquezas êstes como aquelas, porque igualmente úteis e adaptáveis á satisfação das múltiplas e variadíssimas necessidades humanas. Não fôssem tão impenetráveis as bravías florestas que – ainda virjens – fêcham até aos raios solares, o ubérrimo vále do nosso majestozo e colossal Amazonas, e, com a facilidade circulatória, teria já a
produção da riqueza adquirido -- em couzas e em pessoas -
exuberancia proporcional á dêsse sólo de maravilhas e de milágres. (REIS, 1920. p. 228)
27
Publicado como anexo a seu relatório das obras contra as secas realizadas pela Inspetoria de Obras Contra as Secas, sob seu comando, de 1915 a 1918.
O engenheiro falava de uma natureza que se apresentava como obstáculo à intervenção humana justamente por sua excessiva exuberância. De uma natureza que, menos de uma década antes, mostrara-se ferrenha inimiga do progresso, tornando dolorosamente difíceis todos os esforços humanos, consumindo vorazmente materiais e vidas na construção da ferrovia Madeira-Mamoré e na instalação de linhas telegráficas em território amazônico (HARDMAN, 2005).
Mas não era apenas a mata densa do extremo norte que se impunha contra o crescimento econômico da nação; o fenômeno da estiagem periódica no nordeste brasileiro era tema constante de discussões e o combate a seus efeitos era destino de muitos dos esforços dos engenheiros. Aarão Reis encontrava na periodicidade irregular das chuvas a verdadeira origem dos problemas da região:
Temos nós, no Brazil, infelizmente, vasta rejião do nosso prodijioso sólo sujeita á ação nefasta dêsse fenômeno: - o nósso nordéste semi- árido (...)
E, entretanto, dificil, bem dificil, será apontar-se, no vastíssimo território brasileiro, rejião mais fértil e mais aprazivel á vida do que êsses dous Estados - do Rio Grande do Nórte e do Ceará, exatamente os mais sujeiros ás inclemencias de tão calamitoza periódicidade. Corrêssem regulares e normais, por essa rejião nordéste do nosso paiz, águas perênes, levanto a todos os seus recantos encantadores a fertilidade da terra e, com esta, a vida, em plena louçanía e franca prosperidade, de todos os sêres – do vejetal ao ente humano – que nella se ajitam, – e, ao certo, nem uma outra, das mais bem fadadas na partilha dadivoza da natureza, se lhe avantajaria, de prezente, no Brazil, sinão na América do Sul, em riqueza econômica reprezentada por nível bastante elevado do confôrto e do bem-estar generalizados. (REIS, 1920. p. 231)
Desde a generalização da imprensa no Brasil, nas últimas décadas do século XIX, as secas – especialmente os relatos de levas de retirantes famintos que sofriam e morriam em sua fuga das regiões afetadas – haviam obtido visibilidade a nível nacional. No último quartel do século XIX, os engenheiros trabalhavam na região, construindo as ferrovias, símbolo de uma modernidade que seria trazida àqueles confins do Brasil. Francisco Saturnino Rodrigues de Brito, ao realizar em 1892 o
reconhecimento do terreno de Quixeramobim ao Crato, para o prolongamento da Estrada de Ferro Baturité descrevia a paisagem e a topografia locais:
Até Maria Pereira o terreno apresenta a mesma conformação que em quase toda a extensão da linha construida: – das serras principais descem contrafortes, que imediatamente se abaixam, atingindo uma altura média comum a todos, e se prolongam, sem grande modificação em altura, até as confluências das águas que uma imensa superfície corrugada e da qual bruscamente emergem, aquí e alí, sem a menor consoância de continuidade, eriçadas pontas de pedra nua; manchando o horizonte e enfeixando as ondulações amplas e longas, as serras de cada sistema orográfico parcial se mostram erguidas rudemente sobre a uniformidade da grande extensão ondulada. (BRITO, 1944. p. 113)
Uma década depois, Euclydes da Cunha, ao escrever “Os Sertões”, descreveria, através de uma mescla de vocabulário técnico e literário semelhante, uma paisagem agressiva, de superfícies ásperas e picos afiados, visão da paisagem do hinterland nordestino que alcançaria um número considerável de leitores – entre os quais, engenheiros das escolas politécnicas de São Paulo e Rio de Janeiro. A criação de comissões técnicas incumbidas de estudar o fenômeno das secas, no governo de Rodrigues Alves (1902-1906), e a posterior criação da Inspetoria de Obras Contra as Secas (1909), colocava um maior número de engenheiros em contato direto com a natureza da região, e somavam novos relatos que a descreviam. Luiz Mariano de Barros Fournier, maranhense, engenheiro de formação militar, ao publicar seu livro contendo um plano que, segundo ele, resolveria definitivamente o problema das secas do nordeste, discorria sobre os aspectos físicos e climáticos do nordeste, em meio a comparações com a Tunísia e o Egito:
Tudo, por alli, é brutalmente impressionador, por toda a parte; desde a superficie até a contextura intima da terra, eternamente martyrisada pela fantastica violencia dos instaveis agentes exteriores. Ora é a extrema seccura dos ares no estio, do que deriva, em consequencia da intensissima irradiação nocturna, a perda do calor obsorvido durante o dia e d'ahi, as alternativas e repentinas elevações e quédas thermometricas; ou é o subitaneo regimen torrencial e corrosivo, que vem abruptamente fechar o cyclo da secca adurentemente demolidora. (FOURNIER, 1920, p. 105-106)
A chuva torrencial era considerada, desta forma, tão nociva quanto a estiagem; fato com o qual concordava Garibaldi Dantas, engenheiro agrônomo norte- riograndense, que publicava na segunda parte de seu artigo “Pelo Sertão”, no jornal “A República”, de seu Estado natal:
A declividade accentuada dos leitos dos rios, chegando a ter, para todo o Seridó, uma media de quasi dois por cento, a impermeabilidade do solo e sub-solo, a nudez triste dos campos, a violencia das precipitações pluviaes, tudo isto explica o regime caudaloso, inutil e prejudicial dos rios do Sertão. (DANTAS, 1922)
Eram inquestionadas as adversidades que o meio impunha à atividade humana no semi-árido nordestino. Não deixavam de existir, mesmo assim, as oportunidades em que os engenheiros podiam testemunhar no nordeste uma aparência menos hostil, que no entanto se mostrava ainda mais surpreendente do que o próprio terreno esturricado e morto, já costumeiramente associado com aquele sertão:
Para o viajante que percorre o Estado neste tempo de seca, para o filho do Sul, surpreendido desagradavelmente pelo aspecto da vegetação que parece morta, sem ver, durante a viagem, uma folha verde nas árvores, sem passar um filete dágua nos rios, é o Cariri um oasis pelo aspecto ridente que oferece a vegetação verde, os esplêndidos tapetes formados pelas plantações de cana, estendendo- se das fraldas aos baixios, a água corrente... enfim, um acanhado panorama daquilo que temos exuberantemente no Sul. (BRITO, 1944, p. 116)
Saturnino de Brito então declarou, ao final de 41 dias de viagem e após testemunhar o “renascimento” da paisagem com a chegada das chuvas, seu deslumbramento com o ciclo daquela “extraordinária natureza”, relato que – garantia aos leitores – não era um quadro fantasioso, mas a apreciação de fenômenos que se reproduzem anualmente, de verão a inverno. Atitude similar teve Garibaldi Dantas, fechando seu artigo, após descrever batatais e feijoais e capinzais que rebrotariam alimentando-se da água absorvida no subsolo, com o reconhecimento de que “é este contraste que dá ao sertão e às suas coisas esta belleza eterna que faz seu encanto” (DANTAS, 1922). Por um momento, desaparecia a representação da seca como o flagelo devastador.
Tais reflexões, no en engenheiros, afinal, não era en fenômeno das secas; sua patr sertaneja e trazer desenvolvim