A partir das análises realizadas nos itens anteriores, é possível discutir sobre a hipótese formulada para a competitividade internacional da uva de mesa, que foi:
O ambiente institucional é o fator que mais pesa na competitividade do mercado internacional de uva de mesa
Em relação ao ambiente institucional analisado neste trabalho, o Brasil tem baixa competitividade frente a Chile e Itália, como visto anteriormente no item 4.2.1. O Brasil tem poucos acordos de comércio estabelecidos, o que limita a competitividade internacional no que diz respeito à facilidade de entrada dos produtos brasileiros em outros países. Por outro lado, Chile e Itália têm muitos acordos firmados, o que garante maior facilidade na comercialização internacional. E a Itália, ainda, tem mais acordos, atingindo mais países que o Chile. Assim, pela hipótese, a Itália deveria ser mais competitiva no mercado global, seguida pelo Chile e, por último, o Brasil, no ranking dos três países analisados, já que a Itália e o Chile têm preços bastante competitivos e a produtividade média dos três países foi praticamente semelhante nos anos analisados.
Porém, de acordo com a análise dos dados no item 4.2.2, o Brasil evoluiu muito na competitividade internacional da uva de mesa entre 2000 e 2013 frente aos dois países em comparação, com exceção do preço de comercialização. Vitti (2009) analisou a competitividade das exportações brasileiras de frutas, dentre elas a uva, e concluiu que o Brasil ganhou mercado para a uva de mesa entre 1989 e 2006 por conta da diversificação de variedades (sobretudo a partir dos anos 2000), oferta em “janelas” de mercado (quando os principais concorrentes não produzem), expansão da infraestrutura de armazenamento e distribuição e investimentos em tecnologia no campo e marketing da uva no exterior. Em 2009, Vitti destacou, ainda, alguns pontos para que o Brasil não perdesse competitividade e conseguisse aumentá-la. Para a autora, o Brasil ainda deveria reduzir os custos para ter preços competitivos no mercado, investir em qualidade e certificações, buscar novos compradores (fora da Europa) e investir em material genético – este último já tem sido feito no Vale do São
Francisco, conforme entrevistados deste trabalho. Uma dificuldade atual é a oferta em “janelas” de mercado, tendo em vista que nos Estados Unidos, o estado produtor da Califórnia estendeu seu período de produção, reduzindo a oportunidade de venda das uvas brasileiras naquele país – em 2009, Vitti tinha destacado os Estados Unidos como uma das principais expectativas de aumento nas vendas brasileiras. Além disso, o Peru começou a produzir uvas com competitividade e tem ofertado uva na Europa no mesmo período que o Brasil – em 2009, Vitti já tinha destacado que este país merecia atenção dos exportadores brasileiros. Este cenário mostra como o mercado internacional é dinâmico e o produtor deve sempre investir, seja em tecnologia ou em propaganda dentre outros fatores, para que a competitividade não seja reduzida a cada ano.
Já a Itália, mesmo com o forte ambiente institucional, o que, pela hipótese acima, deveria melhorar a competitividade, reduziu a produção, a exportação e o consumo interno da uva de mesa, o que remete a uma perda de competitividade da viticultura local ao longo dos anos analisados – 2000 a 2013.
Um estudo que evidencia os resultados deste trabalho foi o de Lazzarotto e Fioravanço (2013), que analisa a competitividade internacional dos principais países produtores/exportadores de uva de mesa no mundo entre 1980 e 2009 sob a ótica do desempenho, inclusive Brasil, Chile e Itália. Nas últimas três décadas analisadas, os autores constataram aumento da competição entre os países no negócio internacional de uva fresca. Os autores constataram, também, que o Brasil teve expansão na produção e no comércio nos anos analisados, enquanto a Itália teve perdas de competitividade nas exportações de uva de mesa. O Chile, por sua vez, apresentou competitividade muito superior aos demais países (com exceção do Uzbequistão), mostrando, além da alta eficiência no campo, forte especialização na cultura. Apesar disso, o Chile mostrou uma tendência de queda na competitividade revelada na comercialização da uva de mesa. No geral, para Lazzarotto e Fioravanço (2013), a qualidade e a diferenciação são dois fatores que levam a uma melhora na competitividade internacional.
Outros fatores, como os recursos, devem ser mais importantes que o ambiente institucional para a manutenção da competitividade internacional. Isso porque a Itália, que tem força neste último parâmetro, registrou queda na competitividade ao longo dos anos analisados.
No entanto, a Itália, apesar da queda na competitividade nos anos analisados, oferta pouco volume de uva para a Europa no período que o Brasil também vende as uvas naquele continente, e assim, não concorre diretamente com o Brasil no mercado europeu, segundo
agentes do setor consultados. Para produtores/exportadores de uva, o Peru começou a ganhar espaço no mercado europeu nos últimos 10 anos e oferta a uva na Europa entre novembro e fevereiro, quando o Brasil também está comercializando no mercado internacional. Até mesmo produtores dos Estados Unidos estão incomodados com a presença do Peru no mercado internacional da uva de mesa (USDA, 2010).
A produção de uva, no geral, vem crescendo no Peru por conta da demanda internacional e do preço atrativos, e esse produto acabou se tornando um dos mais importantes do país em termos de exportação – os principais destinos são União Europeia, Estados Unidos e China. Em 2014, a produção ainda foi abaixo da brasileira, em torno de 500 mil toneladas, sendo que se exportou pouco mais de 50% desse volume – o Peru já exporta muito mais que o Brasil nos anos mais recentes, sendo que em 2000 a exportação de uva era praticamente inexistente naquele país. O que tem impulsionado a competitividade internacional do Peru é o baixo custo com mão de obra (ainda existe oferta abundante de trabalhadores rurais, além da familiar), presença de investidores internacionais que permitiu avanço tecnológico, o clima favorável e as tarifas preferencias de importação nos principais países compradores. Em termos de produtividade no campo, a do Peru também fica em torno de 20 toneladas/hectare, nos mesmos padrões dos três países analisados neste trabalho (USDA, 2010; 2014b).
O Peru não só tem afetado as vendas brasileiras na Europa, como tem aumentado a concorrência com as negociações dos produtores chilenos com os compradores dos Estados Unidos. Por conta de uma concorrência mais acirrada, os preços da uva chilena recuaram nesse mercado (USDA, 2014b). O Chile é um grande exportador de muitas frutas de clima temperado, abastecendo Estados Unidos e Europa no período de entressafra dos seus produtos. Além disso, o Chile oferta uva de mesa ao Brasil no primeiro semestre de cada ano, concorrendo com as regiões brasileiras que ofertam no período – principalmente as paulistas de Campinas e Macro Metropolitana e o Paraná –, apesar de ofertarem variedades diferentes da fruta.
O Chile vende ao Brasil prioritariamente uvas sem semente no período que o Vale do São Francisco não produz volume para abastecer o mercado doméstico com essas variedades. E mesmo que não venda uva itália e niagara, acaba pressionando as cotações aos produtores brasileiros, tendo em vista que geralmente ofertam uma fruta de maior qualidade e valor agregado. Este é um caso de diferenciação de produto que impacta na comercialização de uvas mais comuns – o Chile produz em torno de 36 variedades de uva para exportação (USDA, 2014b). O que favorece as exportações chilenas de uva, além da tecnologia empregada nos parreiras, é o ambiente institucional, com acordos bilaterais e órgãos chilenos
voltados ao comércio internacional. E assim como Brasil, Itália e Peru, a produção chilena também é afetada pelo clima, um fator externo não controlável.