O setor da viticultura no Brasil avançou significativamente nos últimos anos. Na competitividade do cenário doméstico, a região produtora do Vale do São Francisco, mesmo sendo a mais nova dentre as analisadas, se destacou e foi a que mais avançou em relação ao emprego de tecnologias e modernização da comercialização da década de 90 até os anos 2010. Nesta região, ainda, os produtores e empresas viticultoras têm uma visão mais voltada ao comércio global da fruta.
As regiões paulistas e a paranaense, por mais que invistam em novos modos de produção (como o sistema de condução em Y e maquinários simples), ainda estão atrasadas na adoção de tecnologias mais avançadas. Até mesmo a região de São José do Rio Preto que detém tecnologia como irrigação, ainda tem padrões de negociação mais dificultados, talvez por não predominar uma gestão mais profissional.
A irrigação é um recurso que também poderia ser adotado nas regiões de Campinas, Macro Metropolitana Paulista e do Norte do Paraná com maior intensidade, mas produtores alegam que o regime hídrico favorável e o baixo capital para investimentos de alto gasto, como é o caso da irrigação, limitam o uso. A região do Vale do São Francisco, neste quesito, tem melhor competitividade, tendo em vista que a disponibilidade de água permite que produtores adotem atividades para colher a uva o ano todo.
Na competitividade regional, ainda é importante destacar o papel desempenhado pelos recursos, seja do produtor ou da própria região. O Vale do São Francisco é a região que mais dispõe de recursos favoráveis (mão de obra, disponibilidade de água, terras mais baratas, tecnologias agrícolas etc), seja no campo ou na comercialização. A venda de uvas, por sua vez, ainda é um gargalo para muitos produtores familiares, paulistas e paranaenses.
O Vale do São Francisco esteve sempre em constante busca pela qualidade da uva, investindo em tecnologias disponíveis, conforme relatos durante as entrevistas. Segundo Da- Silva e colaboradores (1999), nos anos 1990, quando ainda avançava a produção nordestina,
produtores locais já tinham estratégias de priorizar a qualidade, investindo em tecnologias necessárias, que aumentavam também a produtividade no campo.
Mas, no geral, produtores de todas as regiões analisadas estão em busca constante de qualidade e boa produtividade, para que tenham rentabilidade positiva e continuem na cultura. Assim, o Vale do São Francisco investe em tecnologias, e as outras regiões têm investido em novas formas de condução do parreiral para que a mão de obra seja mais eficiente, mesmo sem tecnologias tão avançadas quanto as existentes no Nordeste.
A mão de obra ainda é um recurso limitante para maiores avanços na cultura e deve continuar sendo nos próximos anos até que surjam inovações tecnológicas que possam substituir esse trabalhador nas atividades mais delicadas. Por enquanto, os investimentos em sistemas de condução em Y já amenizam esta questão, pois, além da menor necessidade de mão de obra, o sistema garante melhor ergonomia para o trabalhador e um pouco mais de sombra frente à espaldeira no período de colheita. Além disso, o sistema em Y tem maior produtividade frente à espaldeira e maior espaçamento entre as plantas, o que permite atividades mecanizadas. Produtores tentam, também, qualificar a mão de obra para que a atividade seja ainda mais produtiva. Os viticultores compensam, ainda, a falta de mão de obra no campo através da mecanização parcial das propriedades.
Além dos recursos, o ambiente institucional brasileiro também afeta, mesmo que não tão positivamente, a competitividade regional. O mais evidente deste aspecto é que o produtor de uva só tem um tipo de seguro rural para contratar – contra granizo -, tendo em vista que as seguradoras privadas não querem se arriscar e não auxiliam o produtor. Falta uma pressão junto ao governo para que este cenário mude no Brasil, não só para uva, mas também para toda a fruticultura. No geral, faltam incentivos governamentais para que aumente a produção de frutas no Brasil. Os incentivos existentes são, em sua grande maioria, privados e dificilmente chegam aos produtores mais carentes. Além disso, a falta de casos de sucesso com associação/cooperativa nas regiões produtoras de São Paulo e do Paraná limitam o crescimento da competitividade, sobretudo por serem, em grande maioria, pequenos produtores.
Um fator que não pode ser esquecido, tanto na competitividade regional quanto na internacional é o clima. Assim como todos os produtos agrícolas, o clima é um dos determinantes da produtividade, e para as frutas, especialmente, da qualidade. Para uva, o clima impacta no calendário de colheita, e com isso, o Vale do São Francisco consegue colher o ano todo, enquanto, e a região de São José do Rio Preto, em período de baixa oferta de uva
das outras regiões, o que garante a vantagem competitiva para estas duas regiões. Sobretudo no Paraná, o clima, de um modo geral, tem sido um empecilho para a produção.
Também foi constatado no trabalho que o impacto do clima na produtividade da uva não é exclusivo do Brasil, mas ocorre em outros países, como Itália, Chile e Peru. Isso pode limitar os ganhos internacionais, tendo em vista que a qualidade é um fator que pesa muito no preço da fruta.
Na competitividade internacional, ainda, o Brasil ganhou mercado nos anos analisados frente ao Chile e à Itália. Porém, não foi por conta do ambiente institucional, já que o brasileiro é fraco frente ao dos outros dois países analisados. A Itália e o Chile têm mais acordos comerciais do que o Brasil e as negociações internacionais são facilitadas por conta disso. Vale destacar, ainda, as fortes instituições governamentais e/ou privadas do Chile, que promovem as frutas daquele país no mercado global e que visam rentabilidade positiva aos produtores. Essas instituições sempre estão em busca de melhor competitividade internacional. Assim, o Chile é um dos maiores exportadores de frutas frescas do mundo.
No geral, o Brasil ganhou mais espaço no mercado internacional frente aos outros países analisados por conta da evolução tecnológica do Vale do São Francisco e por esta região ofertar a fruta em períodos de baixa concorrência na Europa.
Por outro lado, nos anos mais recentes, o Brasil (e outros países) vem perdendo espaço para o Peru na comercialização internacional, país que tem produzido a fruta no mesmo período que o Brasil – já que os dois tem clima favorável à produção estando na mesma latitude. Assim, exportadores brasileiros devem ficar atentos ao movimento do Peru.