HAKKINDA NASIL B‹LG‹ VER‹LMEKTED‹R?
19- PEYGAMBER‹M‹Z (SAV)'‹N HAD‹SLER‹NDE
iii.B, título) Nome apagado
―Encontrei uma bruxa com os olhos de âmbar,
Que lentamente entoava uma runa escarlate, Mudando para um riso gelado,
Como o riso da lua.
Vermelha como a de uma libertina era sua boca, E gracioso o peito ela me ofereceu tomar, Com uma palavra que cravou e agarrou-se, Queimando como um floco da fornalha.
Mas de seu seio brilhante e erguido, Quando toquei com a minha mão, Veio a frieza de muitas agulhas, De uma terra tomada pelo gelo.
E eis! A bruxa com os olhos de âmbar, Desapareceu como uma chama que se apagou, Deixando apenas a pedra comida pelo líquen,
Que carregava um nome apagado.‖
Clark Ashton Smith (1893-1961)
(do original ―The Witch with Eyes of Amber‖)
Embora já esquecido, ou habitualmente desconhecido nas suas forças, Quíron é um dos notórios personagens na genealogia da ―Ars Medicina‖. Embora os juramentos dos pupilos/aspirantes dirijam súplicas para Apolo, a Medicina (arte por excelência de Asclépios a Hipócrates), entretanto, é um saber transmitido e resguardado por Quíron, nas florestas e cavernas mágicas onde habita.
Essa Medicina, devedora para Quíron, o Sábio da Floresta, tem a dívida das Ciências, de um modo geral, com o mesmo Quíron, que liberta Prometeu (o patrono por excelência do Conhecimento e das Ciências Humanas). Lembremos, para ambas as bifurcações, que Quíron foi apenas um filho ―adotivo‖, e, portanto, embora ―ilegítimo‖ para os Deuses, a profusão de suas ações entrecruzam-se com diversas outras narrativas. Com o busto de homem e a metade do corpo na forma de cavalo (instintos), Quíron era filho de um titã (Cronos) e foi posteriormente adotado por Apolo/Sol que se
71 torna seu mentor (nas questões da harmonia e da cultura, da ordem e da razão, do Logos e dos ideários apolíneos) – de quem recebe os ciclos de transmissões oraculares, divinatórias, proféticas, religiosas/ritualísticas, astrológicas, artísticas (especialmente a música), marciais (arco, caça, montaria, lutas), filosóficas (especialmente a política, a justiça e a sabedoria), ciências naturais e curativas (ervas, medicina e cirurgia).
Quíron, o Centauro Superior, caçava com Artémis/Diana nas florestas e morava em uma caverna visitada por Asclépio e Héracles/Hércules na condição de dois dos seus muitos jovens pupilos. Convidados para a celebração de um casamento, os demais Centauros excederam-se nas bebidas e tentaram raptar/violentar a bela noiva (Hipodâmia, filha do Rei dos Lápitas).
Ferido acidentalmente na coxa (terrível e incurável), Quíron abdicou da sua imortalidade (agora com dor) em favor de Prometeu (por compartilhar o fogo dos deuses com os mortais, Zeus havia prometido liberta-lo da punição eterna em troca do impossível – alguém abrir mão da imortalidade e optar o Hades). Conhecedor dos sofrimentos e do alívio à tormenta (embora não seja capaz de curar a si mesmo), Quíron foi levado à constelação (da flecha, do sagitário). Portanto, essa foi a trajetória: abandonado, educado na sua força, ferido, sacrificado, morto e concedido à eternidade em outra condição (por Zeus).
Esse episódio recortado é de oportuna semelhança à condição do próprio Asclépio, também um filho dessas qualidades radicalmente masculinas de Apolo. Sendo razoável pensar a medicina (e de outra forma, também a psiké+terapéia) enquanto exercício do cuidado, da recepção, da acolhida e da cura (prerrogativas do feminino), há que se considerar como é que se constitui tal caminho de expressão do masculino de Asclépio até o feminino da sua respectiva constelação.
Semelhantemente a Quíron, é também a convocação intempestiva/indireta de um aspecto feminino (em uma trama sempre trágica), que lhe permite seguir a jornada de nova condição para a imortalidade: ferir, morrer e ascender para outra condição. Quando Hipólito (um pupilo que jurou fidelidade à Artémis) morre, a Deusa clama Asclépio, o pupilo do Quíron (por um lado, irmão de Zeus – filhos de Cronos; por outro, ambos, irmãos do mesmo Pai Sol, Apolo), que traga seu protegido de volta.
Como punição à solicitação concedida na extensão familiar dos afetos, Hades pede que Zeus castigue Asclépio pela interferência na morte resgatada de Hipólito. Uma vez morto pelo relâmpago que reorganiza a vida, é Apolo que o concede a eternidade enquanto constelação, exatamente como acontecido por Zeus (pai de Apolo) para Quíron (o próprio Sol-Masculino restitui a eternidade feminina ao Centauro).
Curioso, portanto, observar que para ambos os filhos da Ordem-Razão o caminho dessa eternidade última inclui uma passagem que cede ao feminino – a beleza/o Belo em Hipodâmia/Quíron, a beleza/o Belo em Artémis/, indiretamente, ambas, participantes da morte/punição de ambos os ―irmãos‖, Quíron e Asclépio). Somente depois da morte de Asclépio é que seus ensinamentos estão resguardados pelo divino-feminino que o sucede (a esposa e as quatro filhas, bem como as sacerdotisas).
Nas jornadas sagradas da Psiké/Alma, é Hermes (irmão de Apolo, o Mensageiro, O Psychopompós) quem a resgata do Hades para o convívio eterno junto à Éros. Não por acaso, para Hermes e Asclépio, os que vão buscar os mortos no Hades (o Grande Reino para Ambos), seus respectivos bastões trazem a serpente da força telúrica-vital (uma no bordão do último, duas no caduceu alado para o primeiro). O místico Caminho de Santiago de Compostela (Espanha), originalmente desenvolvido com seu bastão/cajado (arquetípico) do peregrino... Sendo dois importantes símbolos,
72 ou instrumentos de trabalhos, saberiam ainda manejar, médicos e terapeutas, respectivamente, o bordão de Asclépio e o caduceu de Hermes?
―(...) A história da terapêutica do fenômeno humano assistiu a uma prática caracterizada
pelo tratamento pontual do que se pensava ser o problema (a ser tratado). Dessa forma, repousada na idéia de iatriké, o que classicamente foi objeto de intervenção foi o aspecto manifesto, externo, daquela experiência de sofrimento. O foco do tratamento se voltou para o corpo ou, ainda menos, o papel social desse corpo. Se se objetiva, entretanto, já não mais um tratamento, mas um cuidado dessa subjetividade humana em crise, é preciso que essa terapêutica seja mais ampla, alcançando aspectos outros do sujeito em terapia.
A idéia de therapeía, em contraste com a aquela idéia de ―iátrico‖ (iatriké), intenta não o tratamento de um problema, mas o cuidado global do sujeito experiencial de sofrimento, o cuidado do ser desse sujeito [...], e isso não pode ser pensado fora da compreensão essencial desse sujeito, isto é, de seu processo de subjetivação, continente clínico do seu ser.‖ (Barros e Holanda, 2007)41
Os bastões, em suas diferenças, pressupõem chamados e finalidades distintas (quais sejam, da Iatriké e da Therapéia gregas) – são diferentes, exatamente, porquanto seriam capazes de agir e produzir efeitos distintos: quais seriam, afinal, os pedidos divinatórios que sobrevivem aos sussurros humanos, com toda a fragilidade, a insegurança e a ambiguidade do que signifique o pedido de um mortal? Crer ou não crer é o suficiente, dizer com fé ou descaracterizar o sentido da divindade é um ato de ignorância recorrente que não desfaz a ordem do mundo e o campo de operação da divindade, ou as divindades gregas pressupõe conhecimento dos homens?
Estamos, aqui, nos arredores da Escola Alquímica, onde a medicina também implica conhecer as forças da natureza e das estrelas, na inspiração daquela primeira experiência que, ao sentar em uma roda de fogueira, sentiu o impacto do sofrimento de um terceiro, e, portanto, incomodado, decidiu prestar-lhe auxílio. Do momento, assim, em que o homem não era sacerdote para um rito sistematizado, embora estivesse sensível às estações, ao silêncio e ao espírito, aos movimentos no tempo e no espaço, oráculo que escutando o céu deriva uma prática de manipulação para os elementos da terra, realiza um tipo de aprendizado vidente para o equilíbrio e a cura.
Não por acaso, Asclépios é pupilo de Quíron que, por sua vez, era um filho adotado por Apolo. Na Floresta, Quíron cresceu muito próximo de Artémis, a irmã gêmea de Apolo (com lira, arco e flecha de prata; os mesmos de ouro, para Apolo), com quem aprende e compartilha os segredos dos povos da floresta, e os mistérios sagrados da coleta perfeita para as ervas, as flores e as demais porções de acordo com a presença das estrelas. Hermes, aquele chamado de três vezes grande (Hermes Trismegistus), é também o irmão de Apolo. Na Alquimia dos antigos, Hermes desempenhava papel central, e seu símbolo material era o metal Mercúrio, que por suas qualidades ambíguas – o único metal que se mantém líquido à temperatura ambiente – deu origem a uma grande quantidade de novos mitos alquímicos.
Oportunamente, não confundir o Centauro, que traz a ferida e a cura, com o Minotauro, que oferece o segredo do labirinto construído por Ícaro e seu pai. Todavia, Hipólito, personagem a quem a súplica de Artémis (da Floresta) solicita que Asclépios, o pupilo de Quíron (também da Floresta), resgate do Hades, é o mesmo héroi que derrota o Minotauro do labirinto, embora sofrendo um acidente nos mares, por sabotagem de Afrodite.
Se, por um lado, temos como imaginário médico os que passavam cera sobre as roupas para impermeabilizar-se e usavam máscaras com bicos cumpridos cheios de ervas para filtrar o ar durante a peste negra, teríamos, numa pista mais
41
FERNANDO DE BARROS E ADRIANO HOLANDA. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1809- 68672007000100006&script=sci_arttext
73 ancestra, as armas de Apolo e de Artémis, além do caduceu de Hermes, como patrocinadores de um saber mágico que descende de Quíron, de Asclépios e de Hipócrates. De Nicolas Flamel (séc. XIII) à Paracelso (séc. XVI), há uma importante mudança de perspectiva e de paradigma, embora desde Flamel, dado seu interesse na saúde pública, a criação de dezenas de hospitais e vários cemitérios foram conduzidas.
A partir de uma medicina medieval, seguida da modernidade (renascentista, iluminista, antropocentrista, humanista etc), esse conhecimento antigo é afastado pela macroscopia da Igreja e de Descartes, e, posteriormente, consolidada na ruptura microscópica industrial, tecnológica e farmacocinética. Sem Hermes, entretanto, não há interpretação.
Se os médicos, em seus juramentos desde Hipócrates, invocam os campos da mítica, do símbolo e do transcendente, em palavras que são menos ambiciosas que os compromissos de alívio implícitos aos terapóns – e nem por isso, mais fáceis de
compreensão –, não é preciso lembrar os parágrafos exatos daquele Patriarca grego, para saber que um pupilo em honesta formação médica assume como sua certa visada mágica da vida e do seu ofício... é mais ou menos assim, o juramento – ou a maldição que acomete os distraídos espíritos:
... Assim juro, com respeito ao Filho de Zeus, Apolo que é Pai Imortal dos homens, Soberano do Conhecimento que atravessa os Domínios e Reinos, juro por Asclépio, o filho dessa Divindade com uma Mortal, o Semi-Deus próximo às carências e às dores humanas, o Guardião Inviolável das Curas para as Dores, o Protegido do Centauro- Maior, também filho de Apolo e Bem-Quisto dos Povos dos Segredos com Fios Ocultos, invoco, também, a guiança de todos os Protetores e Mestres que aceitem o lugar de meus olhos e minhas testemunhas, especialmente as duas filhas de Asclépio, Higéia com seu cálice de porções e Panacéia com seu instrumental perfeito, e juro cumprir, sob a proteção das divindades que regem a vida do Kósmos, sob a pena da ira nos que me assistem e guardam a Ordem dos mundos, conforme meu Poder e Razão, a seguinte promessa...(e continuam, os discípulos sob o encantamento de Hipócrates)... ―Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida (...) se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça.‖...
Assim eles invocariam, em um resumo adaptado, para a versão mais concisa abaixo:
... Eu juro, por Apolo, médico, por Esculápio (Asclépio), Higia e Panacea e por todos os deuses e deusas, a quem conclamo como minhas testemunhas, juro cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa ...//... Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu dele me afastar ou infringir, O CONTRÁRIO ACONTEÇA.
Se desconhecem o que dizem, ou são displicentes com o que juram, essa arbitrariedade na palavra empenhada não os tornam ilesos ou imunes à própria injunção de tormentas que invocam e proclamam diante do Kósmo grego (o seu próprio, em alguma medida, por inércia do tempo carreado). Pedem, e desgraçadas serão as suas vidas, por signo e clamor auto-dirigido.
Basta ler Jean Houston, em A Busca do Ser Amado, para imaginar, ainda que de longe, o quão complexas eram as jornadas e experiências no Templo de Asclépio, o quanto há de mistério revestido nesse ofício épico da cura que se deixa apreender na indução facilitada aos sonhos e sua consequente interpretação das imagens e símbolos. Por derivação, Marie-Louise von Franz bem descreve as exaustivas fases a
74 serem vividas em um Templo hipotético da Psiké (no livro The interpretation of Apuleius´ Golden Ass with the late of Eros and Psyche).
Semelhantemente, não entender as ficções ima ginais que circundam o
terapón e o que é a terapéia, desde as jornadas da Psiké junto à Éros, a relação entre Amor/Éros, Afrodite/Beleza e a Alma/Psiké, o lugar de ritual para a filha do enlace entre o Amor/Éros com a Alma/Psiké, Volúpia (uma Semi-Deusa), é certamente tomar parte de um desastre simbólico sem precedentes na biografia de um desavisado.
É filiar-se, por conseguinte, a uma parte do mistério coletivo desse legado humano, sem ter a capacidade de decifrar, ajustar e atualizar, sem os meios para honrar sua grandeza arcana e contínua, do culto estruturante que se transmite na gestualidade e atenção de profético cuidar: um para um, alma com alma.
É nessa perspectiva do encantamento que também as relações de ajuda podem constituir-se enquanto práticas da mais íntima pessoalidade e eternidade de si com o mistério, onde profissão e poética são elementos ajustados e complementares em um mosaico que nos fala da vida como um todo e não dos seus particulares em supostos elementos alheios e isolados.
No final das contas, a herança da Razão e da Ordem (de Zeus para Apolo e Hermes) arrisca-se/submete-se ao precipício/assombro/abismo do Amor. Ora, na mítica da Physis, todo movimento vivo é necessariamente erótico e psicótico, é poesia e encantamento, feição, afeto e afeição, é feitiço em movimento (Éros e Psiké). Ensina- nos a Psiké que até o último dracma de ouro será exigido – quando não houver para onde ir, nem de onde voltar, quando não houver qualquer esperança no barco de Caronte, nos instantes que antecedem Cérbero.
A última jornada da Psiké, o encontro final, dá-se em Hades – de onde ninguém retorna. Dois pares de irmãos, Quíron e Asclépio, Hermes e Apolo, se é razoável entender que a Beleza, a manifestação do feminino na expresso do Belo, conduz para um exercício da areté (aristeuein, o mover na efetiva prática da areté, o agenciamento da excelência), então, nessa interface impregnada com as vicissitudes da vida, toda ética é também movimento, é também deslocamento, é também ruptura do singular em suas demandas de multiplicidade e de diferença: no esculpir a si próprio, na matéria bruta de uma vida dura e real, toda ética é trágica, é diversão para o estático e profanação do mármore puro de imobilismo.
Nesse sentido, embora o juramento da Ars Medicina dirija-se para a Luz de Apolo, é, na verdade, por entre o exercício sombrio de Asclépios e de Hermes com suas intervenções no Hádes (respectivamente, ―neto‖ e ―irmão‖ de Apolo) que os entraves entre o poder/poros e a pobreza/penia são confrontados na alquimia de possibilidades. Essa posição que não se conforta pela definição do equilíbrio e da Luz, que refrata o controle do esclarecimento perfeito e da submissão ao infinitamente sublime/numinoso, é condição excelsa para o Dyabolus, o que se fragiliza, o que refrata, o que se expressa no episódico, no acidental, no inesperado.
Trata-se da expectância que enfraquece a seriedade última, a força coesa da militância e sociedade, que dissolve a evidência, desfoca o controle, gera intensidades e produz movimentos. Da força mesma que não busca adensamentos teórico- contemplativos, que repercute temores em vez de seguranças, da condição de permeável e de vício inconspurcável ao qualitativo mais bestial e selvagem do humano.
Se a paisagem onírica em Asclépios e Hermes gradua-se no convívio de Quíron, no arquétipo do Dyabolus, textos, fotografias, filmes, peças de teatro serão trianguladas na fissura para a repetição, em uma antropologia da resistência.
Ferindo-se a textura do acontecimento, exorcizar o familiar entranhado: repetir e estranhar, repetir e fragilizar, repetir e deformar, repetir e estrangular, repetir e
75 baldear...converter em forrózinho (não em samba42): essa condição de um artista inserido nos pactos e agendas marginais da saúde/coletiva/brasileira.
Penso em Dyotima, bruxa extraordinária e uma das tutoras (inspirações) malditas de Sócrates (o inimigo da democracia e danoso corruptor dos jovens de Atenas), em uma conversa necessária com Paracelso, sobre uma Ars Medicina onde Asclépios, em nossa condição contemporânea, estivesse fraturado da sua cabeça. Uma trama dyalógica mais ou menos assim inspirada:
Ó crianças deslumbradas com essa modernidade no cérebro, na genética e nos fármacos; os pupilos de Asclépios já não sabem que a tensão entre vida e morte que habitam no corpo, o que, afinal, distingue o herói e o mortal, ou um paciente de um imortal, encontra-se exatamente na tênue fronteira entre o kósmos que se busca manter (e nas artes para resguarda-lo, insuflá-lo) e as consequências da invasão pelo káos (sempre iminente, feroz e final). ―Tudo em ordem‖, perguntam aos que jazem nos leitos, e não sabem que ordem e káos requisitam, desde os gregos, de uma força que agregue e não apenas aglomere. Não sabem que Éros, o Primevo, é também o precipício entre o káos profundo e o kósmos frágil – este último, suave e ameaçado, embora o único possível e desesperadamente desejado. Não sabem, para além do juramento a ser honrado, que todo amor é feitiço e que, apenas em nome dele, é por Éros que todo e qualquer feitiço será conduzido – amando-se.
Éros, indiretamente (re)ferido em Asclépios, na empatia e cumplicidade atentas ao outro, é a personagem principal nas Jornadas da Alma/Psiké... Éros, que foi o primeiro terapón, o primeiro capaz de sustentar a relação amorosa/agregadora do kósmos, o primeiro a facilitar a caminhada da alma – é dele também a primeira lição, a instrução valiosa que se testemunha do amante ao amado: saibamos ensejar não a personificação restrita mas a direção mesma que o amor/amante ama, que o amado, assim, torne-se um amante que também nutre a intensidade amorosa pelo destino originalmente amado, que ame o amor ao belo, que saiba amar inteiramente a beleza; qual seja, em outras palavras... porque enxerga o Belo, em todo e mínimo fragmento da Physis (esse movimento de vida nascente da composição entre os elementais e o sopro anímico), Beleza perfeita e imortal, em Afrodite, beleza mortal e finita em Psiké; em ambas, onde há também fruição de Éros, a vislumbrar essa emanação da harmonia e do equilíbrio do universo, na lembrança de que todo o belo é manifestação aludida do kósmos.
Faz, pois, nascer da alma enfeitiçada pelo amor essa visão a partir da qual se enxerga o belo das manhãs e das noites – essa é a magya, a mítica de Éros: à finalidade da beleza e do belo que são eternos! Quebrar um juramento em nome de Apolo é fraturar essa proteção de Éros e desmanchar todo o circuito do kósmos para um (modo de) viver ordenado.
A consequência tola não é um tipo de mal que se pede, mas a força do káos que se infiltra brutalmente – e que não saberemos os efeitos ou a duração na instabilidade. Mas, e se funcionar bem, e se ainda for viável (e os segredos não forem
42Exigência epistêmica do poeta e sambista popular: ―(...) Alegria é a melhor coisa que existe/ É assim como a luz no coração/ Mas
pra fazer um samba com beleza/ É preciso um bocado de tristeza/ É preciso um bocado de tristeza/ Senão, não se faz um samba não
76 completamente perdidos): o que seria dos pupilos de Asclépios, tornados heróis da própria alma e destino, o que seria das suas imortalidades em potencial quando o juramento for cumprido, se fossem capazes de preservar as conjuras mágicas do universo e da alma que fizeram aos céus?
Os seguidores de Hipócrates quase completamente desconhecem o que acontecia nas câmaras entre colunas de mármore da Escola Médica de Cós (de onde veio Hipócrates) e do Santuário de Epidauro, os corredores ofídicos nos templos onde os gregos, por excelência, se dedicavam à Asclépios e ao tratamento das enfermidades43. Filho de Apolo, que era considerado o próprio ―Médico‖ dos Deuses, Asclépios é o benfeitor que traz a luz solar de Apolo para os homens.
Deus Sanador e Herói de grande fama, sua educação foi confiada ao Centauro (sábio e caçador) dos bosques, das florestas e das montanhas – onde aprendeu sobre Ciência, Arte, Medicina e Amor pela Humanidade (Quíron transmitiu o conhecimento da Botânica e dos Céus, ensinou a virtude das Plantas Medicinais,