1. VERGİ PLANLAMASI KAVRAMI VE TEORİK ÇERÇEVESİ
1.7. Vergi Planlamasına Alternatif Uygulamalar
1.7.4. Peçeleme İşlemleri ve Muvazaa
A capa que evidencia o papa João Paulo II em uma expressão de dor e sofrimento não segue o padrão adotado pelo enunciador de Veja, que depois de fazer um percurso passional costuma sancionar o fato positiva ou negativamente. Nesse caso, a revista utilizou-se de trechos de orações como a unção dos enfermos e pregações bíblicas para compor o discurso, eximindo-se de uma opinião direta sobre a atuação do papa, de suas obras e do seu legado. Não avaliou se durante o período de 27 anos em que o papa esteve à frente da Igreja Católica, um dos mais longos papados, houve avanços ou retrocessos. Também não deixou nenhum questionamento explícito para os seus leitores sobre o fato. O enunciador, usualmente tão forte em seus juízos, aqui se torna mais distanciado, diversamente dos casos das outras mortes.
Na abordagem dessa matéria, Veja mudou a construção imagética que costuma utilizar quando trata da morte de personalidades com grande expressão pública. Como visto anteriormente, a revista procura colocar na capa, sempre em close, uma fotografia que lembre a pessoa em vida e, de preferência, em um dos seus melhores momentos. Embora o assunto seja a morte, traz para o primeiro plano a vida ou um objeto que é facilmente identificado pelos leitores como significante daquela pessoa, a exemplo da luva de brilhantes de Michael Jackson. Alguns exemplos:
Na foto de capa, sobre um fundo preto repousa a foto de João Paulo II com a cabeça levemente arqueada para trás, olhos cerrados e boca entreaberta em uma visível expressão de dor. Suas vestes são brancas e em nada lembram a pompa do cardeal no comando da Igreja ou nas grandes celebrações. A chamada “A Grandeza da Fé”, vem acompanhada da linha fina “Ao expor seu sofrimento terminal, o papa João Paulo II mostrou a coragem dos grandes pastores e o significado original do sacrifício cristão”. No canto esquerdo da página, em letras pequenas, a legenda da foto: “João Paulo II ao tentar, em vão, falar aos fiéis de sua janela no Vaticano, na quarta-feira passada”. Ele morreu dois dias depois, na madrugada de sexta-feira, dia primeiro de abril de 2005.
Em uma reportagem de 13 páginas, a revista ocupa quase 90% do espaço com fotografias de página dupla. Na abertura da matéria em letras garrafais com o título “Um adeus com dor”, há uma composição de sequência de fotos que documentam passo a passo o momento em que foi capturado pelo fotógrafo o grito de dor que está estampado na capa. O texto de abertura afirma que foi o terceiro pontificado mais longo da história e que chegou ao fim com uma exposição pública de dor jamais vista na história da Igreja Católica e a revista dá a entender que o papa cumpriu o seu destino
personificando e experimentando na própria pele a dor que levou Jesus Cristo a ser redimido de todos os pecados e assim salvar a todos que creem ou professam a fé cristã. A exemplo de Covas, a dor torna herói aquele que sofre, mas é justo e correta.
Houve um sentido nisso. Paralisado e silenciado pela doença de Parkinson, João Paulo II transubstanciou seu calvário particular numa mensagem universal: a de que não existe redenção sem sofrimento. É a mensagem ao mesmo tempo bela e terrível sobre a qual, afinal de contas, se alicerça o cristianismo. Como forma de recuperá-la numa era marcada pelo hedonismo, João Paulo II carregou sua cruz diante dos olhos do mundo (2005, p. 89).
As fotos seguintes, também em página dupla, mostram a mobilização dos fiéis em frente ao Vaticano e cardeais, bispos e arcebispos reunidos em Jerusalém, no cenáculo onde Jesus realizou a última ceia, em vigília pelo papa, além de fiéis em oração. O início da matéria segue a mesma estrutura narrativa e discursiva utilizada por Veja em outros textos que relatam a morte de
personalidades. A revista, na maioria das vezes, abre esse tipo de narrativa descrevendo os últimos momentos do moribundo e detalha de tal maneira que instiga o enunciatário a participar junto com ela do acontecimento ou o leva a fazer um percurso no qual ele chegará ao fim tendo firmado um contrato fiduciário com o enunciador. Nesse caso, não buscou o aval de nenhum especialista para corroborar com sua teoria por meio de frases/falas. Limitou-se a contar os fatos.
O papa já não conseguia andar, falar, nem mastigar, com a maior parte dos seus músculos internos enrijecidos pelo Parkinson. Sem poder comer, e com 19 quilos a menos, João Paulo II passou a alimentar-se por meio de uma sonda nasogástrica. (...) foi acometido por uma infecção urinária que evoluiu para um quadro de septicemia. Na madrugada de sexta-feira o papa teve uma parada cardíaca (2005, p. 96).
A seqüência da matéria se dá na comparação da morte de João Paulo II com Pio X, que faleceu depois de apenas uma semana de doença sem tanto sofrimento, mas “solitária, cruelmente monárquica, trombeteada por manchetes de jornais, antes mesmo que tivesse ocorrido”. Fotos dos últimos momentos de Pio X foram feitas e divulgadas “traiçoeiramente por seu médico”. Sem a costumeira incitação ao eleitor
para que se posicione perante os fatos, Veja deixa em aberto o fecho da ideia. Pode-se entender que a morte de Pio X foi pior, já que pontuada por uma traição, ou que a de João Paulo II foi mais divina, ou apenas coerente com suas pregações de que a dor redime os pecados. Nesse caso, um exercício de imaginação comparativa também poderia levar o leitor a questionar se a morte dolorosa de João Paulo II seria fruto de muitos pecados, pelos quais pagou duramente em vida.
A matéria é concluída com pouco texto, descrevendo as normas, leis e os rituais seguidos pela Igreja para a escolha do novo papa. O enunciador de Veja, sempre muito imperativo e seguro em suas posições, se mostra menos enfático, não tendo certeza de como será o processo de escolha, nem qual será o resultado. Usa a palavra “parece”, no lugar de expressões afirmativas que fazem parte do seu costumeiro discurso para apontar o que a revista entende ser o melhor caminho. “Os vaticanistas acreditam que não demorará para que o novo Papa seja escolhido, visto que não parece haver dissensões profundas entre os cardeais. Dos 117 eleitores, 114 foram nomeados por João Paulo II”. A revista erra em uma de suas únicas apostas, que é acreditar que haverá sequência na forma como a Igreja estava sendo conduzida. “Há boas chances de que a continuidade prevaleça. Não será nenhuma surpresa se o próximo papa se proclamar João Paulo III”.
A foto da capa expõe o homem Karol Wojtila na função de papa mostrando seu sofrimento público igual a qualquer cidadão que enfrente uma doença grave. Poderia levar as pessoas a se identificarem com o humano, com o papa em condição igual a qualquer ser humano. Porém, a reação dos leitores não foi essa. Muitas cartas e e- mails foram enviados à redação indignados com a escolha da fotografia e o desrespeito pela exposição da agonia do papa. A indignação pode ser justificada pela mudança na trajetória das capas que tratam desse assunto. A grande maioria dos leitores de Veja é assinante da revista e a recebe semanalmente em casa, então está habituado a ver repetidos certos padrões. Portanto, seria mais coerente um papa com vestes festivas em dourado e vermelho, com a mitra na cabeça e cajado em punho em um gesto grandioso. Ao contrário, o que aparece é um homem idoso todo de branco com uma cruz pendurada no peito e a cabeça coberta por um pequeno protetor branco em forma de kipá, espécie de chapéu usado pelos judeus. O contrato de comunicação foi quebrado.
Esse fato, embora seja sutil, de alguma forma foi percebido como certo desrespeito pelos fieis e leitores da revista. Naquele momento, a Igreja ficava sem o
seu representante máximo, mas isso pode ter sido entendido como a diminuição do poder de Deus e da Religião, necessários para manter a comunidade unida depois da morte do papa. Em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo (2002), o sociólogo Sérgio Rouanet ajuda a entender a importância de se preservar o divino para evitar a dispersão da comunidade e dos fiéis, especialmente, em momentos de grande perda.
Para que haja um nós é preciso sempre um outro transcendente. Desde os hebreus até os gregos e os contemporâneos, o entre si pressupõe um em cima. Cada vez que essa instância vertical desaparece, a comunidade se desagrega. O simbólico (etimologicamente, a junção de elementos separados) e o diabólico (em grego, o princípio da disjunção, da dissociação) se excluem. Sem o simbolismo religioso, que unifica, todos os agrupamentos humanos ficam entregues à dispersão, ao diabólico (ROUANET, 2002, Folha de S.Paulo, Caderno Mais).
A mudança no posicionamento do discurso de Veja poderia ser atribuída ao fato de a revista ter preferido não arriscar defender uma causa em um momento em que a discussão se dava totalmente baseada na fé, na religiosidade. A impressão é que o enunciador optou por fazer o discurso do saber/informar sem modalizar, indicar caminhos ou fazer previsões, estimativas. Informou o leitor sobre o acontecido e manteve distância como forma de se solidarizar com os que estavam desolados por perda tão relevante.