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As pessoas, buscando continuamente uma vida saudável e o seu bem-estar, preocupam-se com a habitação, a saúde, o lazer, o transporte, a educação, a liberdade, o trabalho, a auto-estima. Em suma: procuram ter Qualidade de Vida26 que é uma preocupação cada vez mais presente nas sociedades modernas.

A Qualidade de Vida foi entendida, em tempos, como indicador de riqueza possuída, produzida e distribuída, como capacidade funcional, como satisfação. O conceito de Qualidade de Vida, engloba também os aspectos materiais relacionados com as necessidades básicas (habitação, água, saúde) e, mais recentemente, preocupa-se com as questões ligadas ao ambiente, ao património cultural, ao bem-estar. No entanto, o conceito de qualidade de vida muda de pessoa para pessoa, de estrato social para estrato social, de sociedade para sociedade. Fernández-Ballesteros (1996) refere que a qualidade de vida se converteu, nos últimos anos, num dos conceitos mais utilizados tanto por planificadores sociais como pelos profissionais das ciências ambientais, sociais e da saúde.

Os meios de comunicação, os políticos, os profissionais, têm como objectivo prioritário incrementar a ―qualidade de vida‖ do cidadão nos diferentes contextos (saúde, serviços sociais). A Organização Mundial de Saúde define o conceito de saúde como o de bem-estar físico, psicológico e social do indivíduo. Não se trata de viver mais, mas melhor.27 O conceito de qualidade de vida advém da percepção do indivíduo

26 Qualidade de vida: Conjunto de condições objectivas e subjectivas que contribuem para o bem-estar

físico e espiritual dos indivíduos em sociedade. Estão neste caso, os aspectos materiais ou físicos da vida, tais como a habitação, alimentação e a saúde, os aspectos culturais, tais como a educação, a própria cultura nas formas mais variadas e o lazer, os aspectos espirituais e políticos, como a a liberdade, segurança, cidadania (Pité, J. (2004). Dicionário Breve de Sociologia. Lisboa: Editorial Presença).

27 OMS (1946) define saúde como ―o estado de completo bem-estar físico, social e mental e não somente

da sua posição na vida no contexto cultural e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objectivos, expectativas, padrões e preocupações. A medicina, as ciências ambientais, a educação, a psicologia, a acção social, têm feito aproximações ao conceito de qualidade de vida que é objecto de estudo em várias ciências.

No campo da saúde, têm-se feito numerosos estudos dando ênfase aos pacientes com doenças crónicas e o efeito que produzem no seu bem - estar físico, mental e social (Spar, 1997; Curran et al, 2005; Menezes, 2010). É nesta área da saúde onde a objectivação do conceito de qualidade de vida mais avançou com a criação de métodos de avaliação, seriação e monitorização, tendo por base escalas construídas em função de determinados itens tidos por indicadores dessa qualidade de vida. Também a psicologia desenvolveu variadas escalas de avaliação do grau de qualidade de vida, tais como Índice de Barthel28 (para avaliar a dependência – independência na realização de

actividades básicas da vida diária (ABVD), o Índice de Lawton29 (escala de avaliação da dependência – independência na realização de actividades instrumentais da vida diária).

No âmbito do meio ambiente, muitas organizações não governamentais fazem campanhas despertando para o conceito de qualidade de vida em relação com o impacto que as agressões ao meio ambiente podem provocar nas vidas das pessoas. No campo da educação, começa a haver uma forte preocupação com as necessidades educativas especiais dos alunos centrando o enfoque sobre a melhoria da qualidade de vida. Nas

28 Índice de Bartthel é a escala fundamental na avaliação da dependência-independência na realização das

actividades básicas da vida diária (ABVD). Avalia 10 ítens, com valores de 0, 5, 10 ou 15 em função de como se realize a actividade da pessoa. Obtém-se uma classificação final que oscila entre 0 e 100, sendo a 100 a máxima pontuação e o estado de independência total, e 0 a situação de dependência total.

29 Índice de Lawton é a escala de avaliação da dependência na realização de actividades instrumentais da

vida diária. Também é conhecida como escala de Philadelphia. É mais útil que as escalas que avaliam as actividades básicas da vida diária para detectar os estados iniciais deterioração, já que são as actividades instrumentais as que mais complexidade precisam para a sua realização e, portanto, as primeiras nas que se perde a independência. O índice avalia 8 ítens ou actividades instrumentais da vida diária (AIVD): utilizar o telefone, realizar compras, preparar comidas, fazer tarefas em casa, lavar a roupa, utilizar meios de transporte, tomar a medicação, usar o dinheiro. Todas se pontuam com 1 e 0, sendo a pontuação máxima 8 e o maior grau de independência e 0 a dependência absoluta para a realização de AIVD.

escolas, aprofunda-se o conceito de qualidade de ensino e busca-se a sua eficácia de modo que alunos aprendam o que realmente devem aprender (Val, 2000).

A psicologia, aportando muitos estudos sobre a desinstitucionalização do doente psiquiátrico, pesquisa a qualidade de vida dos pacientes crónicos, e estuda o funcionamento dos serviços de apoio social. O conceito de qualidade de vida aparece, assim, como uma reacção aos critérios economicistas. O sujeito pode e deve ter a sua qualidade de vida: casa, educação, saúde, cultura, relações sociais, acesso aos bens culturais, à saúde física e psíquica, enfim, à saúde física, mental e social.

A crise da sociedade, sustentada pela deterioração das condições da vida urbana, fez surgir um interesse crescente sobre o bem-estar humano. De facto, estuda-se a qualidade de vida nos bairros urbanos marginais, e qualidade de vida em ambiente de marginalização urbana (Santos, 2002). É importante dizer que a qualidade de vida está associada à percepção de bem-estar do indivíduo a nível físico, psíquico e social. Fazem-se, hoje, muitos estudos sobre o envelhecimento e sobre a qualidade de vida dos idosos. Em síntese, a melhoria da qualidade de vida é uma meta ambicionada pelas distintas áreas científicas que estudam a qualidade de vida na dimensão social, educativa, económica, habitacional, pessoal, vida diária, sanitária, sócio - sanitária.

Sendo a velhice um período da vida cada vez mais dilatado, em que nem todos os reformados são iguais, pois existem realidades muito distintas conforme a situação pessoal, biológica, psicológica, familiar, social, económica de cada pessoa, de forma que a qualidade de vida deve ser pensada e definida na velhice?

As pessoas idosas experimentam, ao longo da vida, uma série de perdas ou diminuições pelo que a sua qualidade de vida se vê afectada negativamente. Na velhice, há, geralmente, duas etapas: a da autonomia e a da dependência. Uma e outra etapa devem ser vividas com qualidade. Isto é válido também para os que estão internados num Lar, pois devem ter a melhor qualidade de vida possível, tanto na autonomia como na dependência.

Há valores que parecem integrar a qualidade de vida na velhice como sejam (Martinez, 2006): a saúde, as habilidades funcionais (ser autónomo), as condições económicas, as condições sociais (com família e amigos), a actividade (manter-se activo), os serviços sociais, a qualidade da própria residência e do contexto imediato (boa habitação e qualidade de ambiente), oportunidades culturais e de aprendizagem (ter oportunidade de ver e aprender coisas novas). A saúde, a longevidade e a qualidade de vida dependem das características biológicas, do estilo de vida, do contexto ambiental onde se vive, do sistema sanitário e das expectativas. De todas, a mais importante é o estilo de vida; a seguir, o contexto ambiental (Arrazola, 2001). O importante não é viver mais anos, mas viver uma vida que mereça a pena ser vivida, com capacidade para fazer as coisas que se quer realizar. Acrescentar vida aos anos não significa outra coisa senão ajudar as pessoas a desfrutar da sua vida e obter satisfação dela, isto é, melhorar a qualidade de vida na velhice (Arrazola, 2001). Não se devem ignorar também os valores

pessoais quando se coloca a questão: o que é mais importante na vida? Na realidade, a qualidade de vida depende dos valores, das crenças, normas, condutas e atitudes; da espiritualidade e religiosidade.

Além disso, é preciso atender à integração do idoso. A qualidade de vida do idoso depende da sua integração, isto é, sentir-se bem consigo mesmo (não ter sentimento de culpabilidade, preocupações, temores); sentir-se bem com as outras pessoas; sentir-se com capacidade para fazer frente à exigência da vida. Os estudos (Bauman, 2002; Limón Mendizibal, 2000; Serrano 2004; Yuste et al, 2004) sobre a qualidade de vida do idoso induzem a explorar e a criar respostas inovadoras coerentes com as novas necessidades e problemáticas sociais. A investigação, nestes domínios, não pode ser isolada, mas em rede. O mesmo acontece com o Serviço Social. A realidade social das pessoas exige apoios que permitam a sua integração, a pertença e a competência. A rede permite materializar e gerar comunidade, mas uma comunidade real. Além disso, é necessário ter em conta que o trabalho social interessa à comunidade pois não começa nem acaba em si mesmo e só tem sentido se facilitador e capacitador das colectividades. Em suma, urgem as redes sociais: família, amizades, relações comunitárias, relações de trabalho e de estudo.

A família, o grupo primário de socialização, contribui para o sentimento de pertença e os nossos idosos são o símbolo da herança familiar (Alberdi, 1999). A família é a melhor instituição conhecida para proporcionar aos seus membros uma permanente disponibilidade para o afecto, apoio, intimidade, companheirismo, aceitação, respeito. Os avós são figuras fundamentais nas redes familiares porque desempenham actualmente papéis importantes no seio da família (Attias e Segalen 1998). Os idosos são apoio para as suas famílias. É comum ouvir-se dizer: Graças aos

avós, podemos trabalhar os dois. Quando os avós cuidam dos nossos filhos estamos muito mais tranquilos no trabalho. Se os avós cuidarem dos filhos podemos ir para férias uns dias…

A espécie humana tem uma inclinação especial para a criação e manutenção dos vínculos sociais. Já Aristóteles afirmava que o homem é um ser social. Não existe organismo algum de nenhuma espécie cuja natureza ou constituição seja tal que possa permitir existir ou manter-se em completo isolamento de todos os demais organismos vivos (Musitu Ochoa et all, 2006). Todos os organismos vivos estão ligados no seu meio ou situação social geral, num complexo de interacções sociais do qual depende sua existência continuada (Herbert Mead, 1934). Os vínculos e relações sociais promovem a saúde e protegem os seres humanos da doença e, em certas circunstâncias, da morte. As relações e actividades sociais são consideradas positivas para a saúde e bem-estar dos seres humanos porque, através delas, se podem implicar em condutas de saúde preventivas e terapêuticas.

Em muitos casos, o recurso ao apoio social é necessário para dar alguma qualidade à vida de muitas pessoas. O apoio social pode exercer diferentes funções: apoio emocional, informacional ou estratégico, apoio material ou instrumental.

O apoio social é o resultado da interacção de quatro conjuntos de varáveis que operam em diversos níveis: intrapessoal, interpessoal, situacional, macrossocial (Garcia, E. Herrero, J. e Musitu. G. (2002).

a) Intrapessoal (modelos internos de representação de si próprio e dos outros); b) Interpessoal (características das redes em que têm lugar a conduta de apoio e os

c) Situacional (sucessos ou situações a que os participantes respondem nas relações sociais);

d) Macrossocial (posição na estrutura social e pertença a um determinado grupo social).

O apoio social pode exercer diferentes funções: apoio emocional, informacional ou estratégico, apoio material ou instrumental. São várias as fontes de apoio social a que podemos recorrer para acudir às pessoas necessitadas (Navarro, 2004, p. 51):

1. A rede natural de relações íntimas, de confiança, de vizinhança (família, amigos, vizinhos);

2. As organizações de ajuda informal ou organizações cívico-solidárias de apoio informal (organizações voluntárias e grupos cívicos e solidários); 3. Os serviços de ajuda formal ou instituições sociais de apoio formal - serviços

e organizações profissionalizadas de ajuda - (nas equipas em que nos situamos como profissionais).

Deste modo, o sistema de apoio social atende à rede natural, isto é, às relações íntimas e de confiança entre familiares e vizinhos. Além disso, são importantes as organizações cívicas – solidárias de apoio informal e, naturalmente, as instituições existentes de apoio formal. O apoio social eficaz exige estratégias de linhas de colaboração que permitam o reforço do apoio das redes naturais; o reforço do voluntariado; a criação de redes de ajuda mútua; o estabelecimento no meio de laços entre os líderes informais para melhorar os serviços e identificar os recursos.

A qualidade do envelhecimento das pessoas de um país depende em grande parte da maneira como as políticas sociais e orçamentos económicos são organizados. As políticas sociais devem permitir que todos envelheçam de forma saudável. Para isso, há que promover não só a educação para o bom envelhecimento em todos os grupos etários, mas, sobretudo, criar estruturas de apoio à prevenção secundária do mau envelhecimento, com particular atenção na área da saúde (Saldanha, 2009).

Cano (2006) refere que a acção social30 deve dirigir-se prioritariamente às pessoas idosas que carecem de família; a intervenção da acção social deve ajudar a enfrentar as perdas dos idosos (morte de familiares, solidão); deve fortalecer a capacidade de a família proporcionar apoio à pessoa idosa; deve fortalecer as redes de amizade dos vizinhos, do apoio da comunidade; deve fortalecer as redes existentes e coordenar as ajudas formais e informais procurando evitar a sua fragmentação; a intervenção da acção social procura também o apoio dos centros de dia, dos centros residenciais, do apoio domiciliário, dos cuidados paliativos. As dificuldades da pessoa que envelhece e que perde progressivamente a sua capacidade funcional levam ao recurso institucional a Lares ou Centros de Dia. Os idosos institucionalizados devem ser ajudados a superar as dificuldades e a sentir satisfação com a vida. O apoio social tem um efeito directo sobre o bem–estar, fomentando a saúde. Quanto maior for o apoio social menor será o mal-estar psicológico experimentado (Martins, 2005).

Para que a vida dos idosos possa ser de qualidade é necessário começar a pensar na aposentação, logo que se inicie o primeiro emprego (Saldanha, 2009). A aposentação é uma nova porta que se abre para a realização pessoal. Os 65 anos da actualidade não têm nada a ver com os de há décadas. Hoje entende-se que fazem parte do conceito de qualidade de vida do idoso vários elementos (Ruiz y Baca, 1993; Martinez, Sílvia, 2002): manter as habilidades funcionais do cidadão; atender que a vida é ontologicamente multidimensional e a sua qualidade terá de sê-lo também e terão de ser considerados os factores pessoais (a saúde, a autonomia, a satisfação), assim como os factores sócio ambientais (redes de apoio, os serviços sociais); ter em consideração que o gozo de experiências de lazer é também um factor de qualidade de vida e que o direito ao ócio é cada vez mais uma realidade, sendo preciso ter a arte de viver o tempo de aposentação sabendo viver o ócio e o tempo livre.

30O termo "acção social" foi introduzido por Max Weber, em sua obra Ensaios de Sociologia - Obra

transcrita de seu discurso num congresso na Universidade de Heidelberg. É um termo mais abrangente que o fenómeno social de Florian Znaniecki, posto que o indivíduo performando acções sociais não é passivo, mas (potencialmente) activo e reactivo.

Alguns autores (Paúl, Fonseca, Martin e Amado, 2005) referem-se ao

envelhecimento bem sucedido. Entendem que o envelhecimento pode ser compreendido pelo modelo de optimização e compensação perante as perdas provocadas pelo declínio de recursos biológicos e cognitivos. Na velhice, é possível manterem-se actividades de vida diária e certa satisfação de vida. O declínio do idoso pode ser minimizado se os contextos sociais e culturais compensarem a perda dos recursos biológicos (Gonçalves, 2006).

Podem surgir vários riscos depois da aposentação e é possível aduzir as respectivas receitas (Serrano, 2006):

a) Imobilismo físico (parado, passivo, inactivo, sentado). Para o imobilismo há uma receita: a actividade.

b) Imobilismo mental (desinteresse, melancolia, desmotivação). A receita para o imobilismo mental é a informação e formação permanentes.

c) Imobilismo afectivo (solidão, deficit relacional, perda de grupos de amigos, depressões). A convivência, a integração em grupos, o associativismo, apresentam-se como receita contra o imobilismo afectivo.

d) Imobilismo social (desvinculação, isolamento, automarginalização). O remédio para o imobilismo social é a participação, o compromisso social. Quando uma pessoa não pode efectuar sem ajuda as principais actividades de vida, por ser idosa ou por outros motivos de ordem física, psicológica ou social, torna-se dependente (Santos, 2002). A maioria dos idosos vai perdendo a capacidade de se recuperar das doenças e tende, na maioria dos casos, a ir perdendo a sua autonomia. A pessoa vai perdendo a capacidade de fazer as necessidades básicas (Gonzalez et al, 2004): respiração, alimentação, eliminação, mobilidade e postura, repouso e sono, higiene e estado da pele, vestir-se e despir-se, temperatura, segurança, comunicação e relação, crenças e valores, aprendizagem, auto-realização, lazer.