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A segunda metade do século XVII foi marcada filosoficamente pelo movimento Iluminista2,ou simplesmente Iluminismo (Aufklärung), ou Ilustração, que tinha a razão como

2 Movimento cultural da elite intelectual europeia do século XVIII que procurou mobilizar o poder da razão, a

ideal. No mesmo período, a Revolução Francesa3, um dos principais acontecimentos históricos que transformaram a cultura e o pensamento ocidental, promoveu grandes discussões na Alemanha sobre a melhor maneira de colocar em prática os ideais do Iluminismo, principalmente o da liberdade. Martins (2008, p.5) nos chama atenção para os aspectos que influenciaram as discussões dessa época:

Sobre o período da revolução francesa, que é também o período conhecido a partir das ideias iluministas, apontamos dois importantes aspectos que influenciaram o pensamento dos filósofos e cientistas deste período em questão: a emergência da consciência histórica e do conceito de razão que foi sendo concebido a partir de tal movimento. Com base nestes conceitos surgem também algumas questões e debates relativos à filosofia e a produção de conhecimento que alimentaram boa parte dos escritos e reflexões dos pensadores deste período.

Nem o Iluminismo, porém, tampouco a Revolução Francesa conseguiram promover uma verdadeira revolução no modo de sentir e de pensar, conduzindo o ser humano à liberdade. O desencanto com a Revolução, que se transformou em violência (barbárie), e a decadência politica fizeram que muitos pensadores se manifestassem nesse período.

A Alemanha ainda não era um Estado unificado. O que compunha o Sacro- Império Romano-Germânico era a união de 300 estados, onde conviviam variadas tendências – empiristas, racionalistas, idealistas, materialistas, etc. Foi nesse âmbito de reflexão, Revolução e Estado fragmentado que Friedrich Schiller marcou sua trajetória como poeta, dramaturgo e filósofo.

Schiller inicia sua carreira como poeta e dramaturgo em 1782, com a peça Os

bandoleiros (Die Räuber). Essa e as peças que seguem a sua carreira até meados de 1790 estão esquadradas no movimento dos jovens alemães intitulado Tempestade e Ímpeto (Sturm

und Drang), e já nessa época Schiller se preocupava com as questões relacionadas à Estética. Andrade (2007, p. 5) diz que

[...] devido a suas primeiras peças, como Os bandoleiros, Schiller tornou-se uma espécie de herói para todo o Pré-Romantismo. No estilo quase selvagem de sua dramaturgia, identificam a possibilidade de rompimento, na produção artística, com a obediência às regras normativas herdadas da antiguidade clássica.

3 Nome dado ao conjunto de acontecimentos que, entre 5 de maio de 1789 e 9 de novembro de 1791 , alteraram o

quadro político e social da França. Ela começa com a convocação dos Estados Gerais e a Queda da Bastilha e se encerra com o golpe de Estado de 18 de brumário, de Napoleão Bonaparte. Foi influenciada pelos ideais do Iluminismo2 e da Independência dos EUA (1776). Está entre as maiores revoluções da história da humanidade.

Em 1784, com o objetivo de criar um público leitor fixo e fortalecer sua produção poética, Schiller criou a revista Rheinische Thalia, mas essa não passou do primeiro número. Ele tentou novamente em 1786, com a revista Thalia e em 1792, com a Neue Thalia. De acordo com Böhler (2004, p. 10), a “criação de revistas é parte das inúmeras tentativas dos escritores no século XVIII no sentido de estabilização de seu papel e posição social e também com o intuito de estabelecer condições mais favoráveis para suas respectivas produções literárias”.

Quando seu contrato como dramaturgo não foi renovado pelo teatro de Mannheim, ele começou a passar por dificuldades de ordem financeira. Em 1789, no entanto, Goethe indica Schiller à Universidade de Jena e esse começa a lecionar como professor de História. Nessa universidade, ele teve contato com os principais pensadores alemães, como Johann Gottlieb Fichte, Johann Gottfried Herder, Karl Philipp Moritz e Wilhelm von Humboldt. Foi, porém, a Filosofia kantiana, amplamente difundida em Jena, que influenciou Schiller. O interesse pela Filosofia de Kant foi nitidamente percebido em seus escritos do final de 1780 e início de 1790 se tornando cada vez mais presente nos anos seguintes.

Schiller também realizou conferências e preleções historiográficas, dentre as quais merece destaque O que é e com que fim se estuda história universal? (Was heißt und zu

welchem Ende studiert man Universalgeschichte?) e História da guerra dos 30 anos (Geschchte des Dreißigjährigen Krieges). Segundo Kestler (200θ) a “concepção de história universal que se depreende destas obras e de outros pequenos trabalhos de Schiller baseia-se numa interpretação humanista e com enfoque universalista, comum nas obras de história universal e de filosofia da história durante o Iluminismo”. Assim com os outros pensadores de seu tempo, Schiller mostra desenvolvimento da humanidade e seu progresso mediante a razão. Em 1791, Schiller ficou gravemente doente e nunca mais se recuperou totalmente. O duque dinamarquês de Augustenburg decide então financiar Schiller com uma pensão que durou três anos. Foi nesse período que o filósofo se dedicou mais à própria obra poética e aos estudos da obra de Kant ligados à Estética; dentre as obras kantianas, merece destaque Crítica

da faculdade do juízo (Kritik der Urteilskraft). Concomitantemente aos estudos da obra filosófica de Kant, Schiller se voltou para os ideais estéticos da Antiguidade Clássica, considerado o ideal de excelência estética.

Os primeiro escritos estéticos-filosóficos são do início da década de 1790, merecendo destaque as obras Kallias ou sobre a beleza (Kallias oder über die Schönheit) e

Sobre a graça e a dignidade (Ueber Anmut und Würde)

Em 1794, Schiller convidou Goethe para a redação e elaboração de uma nova revista Die Horen (As horas); o repudio de ambos à Revolução Francesa foi um dos fatores que proporcionou essa parceria. A criação desse periódico era um projeto mais pretensioso, pois tencionava cooptar o maior número de pensadores e poetas possível, a fim de estabelecer interação com o publico-leitor culto. Para isso, Schiller fez propaganda da Revista em anúncios, resenhas que eram publicadas em vários jornais e magazines, mas a Revista não teve a recepção esperada, gerando críticas hostis e um desinteresse de se discutir uma “educação estética”. τ funcionamento da Revista foi até 1ι9ι.

O tratado A Educação estética do homem numa série de cartas, foi publicado na Revista em três partes. Essa obra é uma reelaboração das cartas escritas por Schiller ao seu mecenas, o duque de Augustenburg, nos meses de julho a novembro de 1793. A primeira parte são as cartas de 1 a 9; a segunda as cartas de 10 a 16; e a terceira as cartas de 17 a 27.

Na primeira parte, Schiller faz uma análise da Modernidade, diagnosticando as questões centrais de seu período – a divisão do trabalho, o isolamento, a alienação e a fragmentação do indivíduo. Com suporte nessa análise, Schiller propôs um modelo pedagógico tendo como fundamento a educação estética, pois, segundo o autor, nem o Estado nem a Filosofia com toda a sua racionalidade, não foram capazes de tirar a humanidade da barbárie. Somente a Estética, por intermédio da Arte, poderia educar a humanidade para a sensibilidade e assim conduzir o ser humano à liberdade. “Schiller tem uma proposta para tentar reparar aquilo que a especialização constante fez desaparecer no homem (...). O meio de restabelecer a unidade perdida é através da Estética”. (VERÁSTEGUI, 2012, p. 4η).

Na segunda parte das cartas o Filósofo explica melhor seu sistema de educação estética e descreve como ocorrem os impulsos do ser humano. Schiller percebe três impulsos: o sensível (ligado à natureza e aos sentidos), o formal (vinculado à razão) e o lúdico (o meio pelo qual os impulsos sensível e formal atuariam em conjunto). O impulso lúdico é que levará o ser humano a um estado estético, ou seja, um estado onde razão e sensibilidade (sentidos) estão ativas simultaneamente, conduzindo-o à liberdade. Para que isso ocorra, o jogo com os

impulso é importante, pois no jogo conseguimos harmonizar razão e sentidos de forma a não permitir que um se sobressaia sobre o outro. De acordo com Verástegui (2012, p. 49):

A experiência lúdica permite um salto qualitativo na experiência humana, que se converte numa manifestação formadora e transformadora que humaniza, e equilibra resultando aquela harmonia perdida na divisão do trabalho e na especialização. Nesse sentido, o lúdico como experiência estática não é um meio didático, ele é um objetivo ao qual a educação deve aspirar.

Por fim, no último grupo de cartas, Schiller nos esclarece melhor os efeitos da beleza na reflexão humana. Para o Filósofo a beleza influencia tanto o entendimento (razão), quanto a sensibilidade (sentidos). Somente a beleza pode conduzir a humanidade a um viver sociável, a um Estado estético. σesse âmbito, a “arte tem a função que poderíamos chamar de educação complexa, que nos ajuda a desejar uma formação integral. Seu domínio é do racional e do emotivo: domínio sem fronteiras nítidas. Domínio fecundo, pois o contato com a arte nos transforma”. (VERÁSTEGUI, 200ι, p.ι).

Em 1795 e 1796, Schiller publicou Poesia ingênua e sentimental (Über naive und

sentimentalische Dichtung) em três partes na revista Die Horen. Nessa obra, o Filósofo encerra seu percurso de investigação estético-filosófica, traçando as próprias características em relação a Goethe.

Após uma vida dedicada à Estética e com a saúde muito abalada, Schiller morreu em 9 de maio de 1805, depois de uma infecção causada por tuberculose. Ele deixou ainda em sua escrivaninha a peça inacabada Demetrius (iniciada em 1804). Encontra-se sepultado no Cemitério Histórico, Weimar, Turíngia, na Alemanha, ao lado de Goethe.