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Parmaklar ve Tırnaklar

Belgede Çocuk resmi ve bilinçaltı (sayfa 79-82)

4.4. İnsan Figürünün Detayları ve Anlamları (2-7 Yaş)

4.4.11. Parmaklar ve Tırnaklar

"... o trabalho de construção do objeto determina um conjunto finito de propriedades pertinentes, estabelecidas hipoteticamente como variáveis efetivas, cujas variações são associadas com as variações do fenômeno observado, e define, desse modo, a população de indivíduos construídos, eles mesmos caracterizados pela posse dessas propriedades em graus diversos. Essas operações lógicas produzem um conjunto de efeitos que precisam ser articulados para evitar que sejam registrados inconscientemente na forma de uma afirmação (que corresponde ao erro fundamental do positivismo objetivista). [...] Esse efeito não pode ser descuidado no caso de teste de propriedades que são oficialmente ou tacitamente excluídas de todas as taxonomias, sejam oficiais e institucionalizadas ou não-oficiais e informais, tais como denominações religiosas ou preferências sexuais (heterosexualidade ou homesexualidade), ainda que possam ser associadas com as variações visíveis na realidade observada (não há dúvida de que é esse o tipo de informação que as pessoas têm em mente quando denunciam as tendências de 'inquérito policial" da investigação sociológica)." (BOURDIEU, 1988a, p. 9-10). [Grifos do autor]

Em várias passagens de sua obra, Bourdieu adverte que as competências mais fundamentais e distintas que possuímos como seres sociais são os conhecimentos e habilidades incorporados que operam abaixo do nível do discurso e da consciência, e que, num sentido personificado, emergem da interpenetração recíproca entre o "ser" e o mundo (BOURDIEU, 1977; 1984; 1990; BOURDIEU e WACQUANT, 1992).

Se é verdade que nossa presença no mundo opera através do que Bourdieu chama de "conhecimento pelo corpo" (BOURDIEU, 2001, p. 157), logo, para entrar num dado universo como analistas sociais é necessário adquirir conhecimento sobre esse universo através dos nossos corpos. Precisamos ter acesso, interrogar e problematizar as propriedades pertinentes, categorias práticas, sensibilidades e habilidades que os "nativos" desenvolveram na e para a prática ao longo do tempo (WACQUANT, 2004b). Precisamos elucidar a illusio, "essa maneira de estar no mundo, de estar ocupado pelo mundo fazendo com que o agente possa ser afetado por uma coisa bem distante, ou até presente, embora participando do jogo no qual está empenhado." (BOURDIEU, 2001, p. 165, grifos do autor).

Um bom exemplo dessa postura é encontrado no livro "Corpo e Alma" (WACQUANT, 2002a), um relato etnográfico que serviu como grande fonte inspiradora no meu trabalho, onde Wacquant fornece uma demonstração viva e intensa da reflexividade levada ao extremo através do estudo da produção social do habitus pugilístico. Trata-se, de fato, de uma radicalização empírica da noção de habitus, e como esse conjunto de desejos, forças e habilidades socialmente constituídas, permeadas por elementos de natureza cognitiva, emocional, estética e ética, são moldados e operados concretamente.

Não foi por acaso, portanto, que o termo operacionalização aparece entre aspas no título deste capítulo. Minha intenção é alertar que o propósito primordial da boa teoria social é servir como instrumento para a produção de novos objetos, detectar novas dimensões de análise e dissecar mecanismos existentes no mundo social que, de outra forma, não seríamos capazes de compreender. Bourdieu (BOURDIEU, 1988a; 2001; BOURDIEU e WACQUANT, 1992) nos lembra que existem duas maneiras de conceber e utilizar a teoria social: o modo "escolástico", onde os conceitos são decompostos, "polidos" e retrabalhados para produzir categorias teóricas a serviço de uma exposição ritualística, e o modo "generativo", onde a teoria é desenvolvida para ser colocada "em ação" na pesquisa empírica, e provar e expandir sua capacidade heurística a partir da confrontação sistemática com a realidade socio-histórica dos fenômenos.

Por essa razão, qualquer tentativa de operacionalizar os conceitos centrais da teoria social de Bourdieu (habitus, campo e capital) deve levar em conta que esses conceitos são "generativos" e relacionais por excelência, constituídos por vínculos sociais em diferentes estados (incorporados, objetivados ou institucionalizados), cujo poder explicativo reside precisamente quando utilizados na prática, relacionalmente uns com os outros.

Neste trabalho, pretendo fazer uso de todos os instrumentos metodológicos aqui descritos para identificar o conjunto de propriedades pertinentes e os mecanismos de produção e reprodução dos arranjos sociais associados ao fenômeno da confraria na organização que está sendo investigada. Os conceitos de habitus, capital e campo serão "operacionalizados", com todas as ressalvas já feitas, utilizando algumas fontes disponíveis na literatura para sinalizar os "temas" que servirão como ponto de partida das operações de coleta de dados e das análises e interpretações posteriores.

3.5.1 “Operacionalizando” a noção de habitus

O ponto de partida para a aplicação da noção de habitus na pesquisa empírica é aceitar e compreender o conceito como a expressão de um "sistema" de disposições duráveis. A palavra "sistema" é de fundamental importância nessa definição, uma vez que permite refutar a alegação frequente feita por boa parte dos críticos de Bourdieu quanto ao caráter excessivamente determinístico da noção de habitus: dois irmãos podem ter adquirido disposições e capitais similares ao longo de processos de socialização semelhantes, mas a maneira pela qual essas disposições são organizadas e internalizadas em um sistema podem

ser bem diferentes, gerando esquemas de percepção e apreciação não necessariamente análogos, constituindo, assim, habitus diferentes.

Apesar de serem duráveis, nem todas as disposições são efetivadas ou colocadas em prática ao mesmo tempo, mas continuam a existir como potenciais, prontos para serem animados, e sua efetivação dependerá, em grande parte, da natureza da situação com a qual o agente é confrontado (o contexto). A efetivação desigual das disposições tem um efeito direto na evolução do habitus, já que o habitus é uma construção intérmina. Emerge daí, talvez, um dos pontos cruciais para o seu entendimento: o habitus nunca é, de fato, constituído "de uma vez por todas" mas evolui através dos ajustamentos às condições da ação, as quais, por sua vez, também estão em constante mudança.

Na pesquisa de campo, as disposições serão "operacionalizadas" como história incorporada, como a presença ativa de todo um passado, como princípios generativos e organizadores de práticas, como potencialidades, uma "forma de ser", um estado habitual, tendência ou inclinação (BOURDIEU, 1977; 1990; 2004), cujas propriedades e características serão reveladas a partir do trabalho de construção teórico-empírica do objeto confraria e servirão como base para as elaborações acerca desse habitus específico produzidas a partir do meu relato pessoal, das entrevistas narrativas sobre as histórias de vida dos atores que corporificam o fenômeno, e de documentos, fotografias e vídeos.

Um habitus específico, quando associado a um campo particular pode produzir um relacionamento de "encanto" ou "fascínio" com o mundo e com o campo em questão, e suas respectivas regras e apostas que estão em jogo. Esse encantamento surge quando um constrangimento ou obstáculo cultural é transformado numa inclinação "natural", quando se possui o habitus "certo" no campo "certo". Parafraseando uma citação metafórica de Bourdieu (BOURDIEU e WACQUANT, 1992, p. 127-128) sobre a noção de habitus: "o peixe dentro d'água não sente o peso da água”; toma como certo, único e natural tudo aquilo que está ao alcance dos seus sentidos.

Todas as questões levantadas neste capítulo foram consideradas tanto na escolha do critério de seleção dos dados pertinentes como nas análises e interpretações que serão conduzidas sobre os diversos registros etnográficos coletados.

De acordo com Bourdieu, um campo é caracterizado tanto como um conjunto padronizado de práticas que sugere uma ação competente de conformidade com regras e papéis, como um palco ou arena de disputas no qual atores, dotados de certos capitais relevantes para o campo, tentam manter ou melhorar sua posição relativa. Cada campo é baseado num sistema historicamente gerado com base em significados compartilhados. As fronteiras de campo somente podem ser identificadas e investigadas através da pesquisa empírica, e indicam onde cessam os efeitos mais fortes do campo e onde as apostas do jogo perdem seu impacto ou interesse para os atores. Campos são contextos sociais, imbricados historicamente mas sem deixarem de estar em permanente mudança, no interior dos quais as práticas acontecem.

Neste trabalho, a confraria será tratada como um conjunto de atores que compartilham um habitus específico e realizam estratégias individuais em consonância com as regras "em jogo" no campo. Essas regras são definidas com base no volume e na distribuição específica das espécies de capital mais valiosas para assegurar a legitimidade do exercício do poder no campo e a autoridade para definir seus próprios princípios hierarquizadores, eventualmente divergentes dos objetivos da organização.

O método consiste em analisar o espaço das organizações como um campo onde as práticas organizacionais são estruturadas relacionalmente em torno do volume ("+/-") e da estrutura de distribuição das formas de capital, com suas respectivas propriedades, que serão analisadas por meio de oposições binárias expressas na forma de indicadores tais como "distintivo"/"não distintivo", "alta extração social"/"baixa extração social", "membro"/'não- membro" e "legitimado"/"não legitimado". A natureza dinâmica do campo se expressa nas suas interseções permanentes com o contexto marco: de um lado, a sociedade, do outro, o mercado, distintos em suas lógicas de funcionamento e de ordenação da realidade . O valor de cada elemento no sistema é definido, assim, em relação aos outros elementos desse mesmo sistema. Certas práticas organizacionais obtêm legitimidade em oposição a outras. Legitimação e dominação não são pensados em termos de estilos ou idéias particulares, mas concebidos com base em práticas contrastantes, originadas a partir de habitus diferentes. Indivíduos socializados diferentemente tendem a internalizar disposições adquiridas e competências desenvolvidas ao longo do tempo que produzem diferentes "filtros" na relação do habitus com as diferentes formas de capital. Fica evidenciado assim, o papel mediador da noção de habitus: esses "filtros" definem como as potencialidades serão efetivamente úteis e aproveitadas nas disputas pelas "apostas" que estão "em jogo".

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