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No período em que Hegel ainda era um jovem docente de filosofia em Jena, suas teorias apontam para uma posição crítica em relação à forma estabelecida de dominação política. O jovem Hegel possui a convicção de que o estabelecimento político e prático de instituições garantidoras da liberdade só pode ser o resultado de uma luta dos sujeitos pelo reconhecimento recíproco de suas identidades. Os diversos autores que se interessam pelo tema (Honneth, Pippin, Jacques Taminiaux) são unânimes em afirmar que Hegel só conseguiu pensar desta forma porque modificou os parâmetros do modo da luta social introduzida previamente na filosofia de Hobbes. Enquanto para este a vida social é definida em seu conceito fundamental como uma relação motivada pela autoconservação16 para Hegel os conflitos entre os homens

passam a ser atribuídos a impulsos morais.

O filósofo alemão não reconhece nestas lutas sociais o motivo para a realização do contrato social, como os filósofos contratualistas a reconheciam, mas antes vê nestas lutas a base fundamental para todo o processo de formação ética do espírito humano. A luta hobbesiana de todos contra todos é substituída em Hegel por formas elementares de reconhecimento inter-humano, que denomina de eticidade natural. É através da violação das primeiras relações de reconhecimento nos diversos tipos de lutas que será possível um estado de integração social. Desta forma, a luta pelo reconhecimento para Hegel constitui o momento em que se atualiza uma exigência de reconhecimento que faz parte da própria atividade humana, sem a qual as relações sociais correriam o grande risco de se estagnarem, permanecendo artificiais e limitadas. Na “luta por reconhecimento”, os indivíduos impõem-se como objetos dignos de reconhecimento intersubjetivo e social.

Hegel no Sistema da eticidade concebe um modelo inicial de relação intersubjetiva que ainda não possui um cunho institucionalizado que levaria a um respeito recíproco legalmente sancionado. No entanto, esta primeira etapa colabora para a formação de um tecido social que é anterior à organização política. Se por um lado

16 Em Hobbes a luta entre os indivíduos ocorre para a preservação e busca de seus próprios interesses e

torna-se a base para o contrato social que justificará a soberania do Estado. Podemos afirmar que Hobbes é o filósofo que vem romper com a homologia entre o indivíduo e o bem da polis tão cara aos Antigos. Segundo Léo Strauss entre os Antigos o homem em todos os seus atos se refere ao outro, pois a sua humanidade pressupõe sua sociabilidade. Contudo não há um cálculo nem uma sociabilidade atrelada apenas à busca pela satisfação de seus próprios interesses, pois o homem é por natureza um ser social e político. (STRAUSS, 2008, pp. 12-14)

Hegel assimila a esta sua concepção de formas societárias naturais, a relação intersubjetiva do amor restrita em seu escopo social à pequena estrutura familiar, por outro lado, sob a influência de Fichte, ele agrega a este tecido social pré-político, o papel da educação formadora (Bildung) dos indivíduos. É na relação entre pais e filhos que os sujeitos inicialmente se reconhecem como seres emocionalmente carentes e dependentes vitalmente (HONNETH, 2003, p.49).

Contudo, segundo Honneth, o trabalho da educação no âmbito familiar constitui em Hegel uma tarefa de formação a fim de proporcionar uma independência aos filhos, de maneira que, no final, ocorra uma superação daquele primeiro sentimento de unificação. Mas em Hegel esse debate se expressa da seguinte forma:

Os pais são o universal, e o trabalho da natureza visa a supressão desta relação, tal como o trabalho dos pais, que suprimem sempre mais a negatividade exterior da criança e por isso mesmo põem uma negatividade interna maior e, deste modo, uma individualidade mais elevada (...).

III) Mas a totalidade do trabalho é a individualidade levada a cabo e, deste modo, igualmente dos opostos, onde a relação se põe e se suprime; aparecendo no tempo, ocorre em todos os instantes e inverte-se no oposto, em conformidade com o que precede; a ação recíproca e a formação universal dos homens (…) (HEGEL, 1991, p.22-23).

Esses dois parágrafos indicam que a família, na relação pais/filhos, possui o papel formador das identidades pessoais, mas, ao mesmo tempo, tem este caráter negativo – próprio da filosofia hegeliana – pois o resultado da criação é a superação da unificação do sentimento. À família cabe a tarefa de formar o futuro homem que fará parte da sociedade dos homens, mais abrangente que a estrutura familiar. Através desta primeira relação cuja base é o sentimento de amor, a criança será o ser adulto capaz de se inteirar nas relações cada vez mais universais. Assim, para Hegel, o processo de formação das primeiras relações sociais ocorre na medida em que os sujeitos afastam-se das determinações naturais. O aumento da individualidade ocorre na medida em que os homens se reconhecem reciprocamente. A esta etapa da família segue-se uma segunda, ainda denominada de eticidade natural, que diz respeito às relações de troca entre proprietários17. Nessas relações os sujeitos se reconhecem reciprocamente como

17 A posse/propriedade, no método da subsunção, se insere na segunda potência, potência da infinidade,

idealidade, no formal ou na relação (fazem parte igualmente desta potência o domínio da máquina no trabalho e o excedente como sua consequência). Neste estágio de potência, o universal domina o particular, contudo trata-se de um ideal e não uma totalidade, ou seja, a relação ainda é marcada pelo princípio da singularidade. Segundo Honneth (2003, p. 50), embora a relação entre os sujeitos na posse está livre dos vínculos emocionais particularistas presentes na família, eles ainda são incluídos apenas

portadores de pretensões legítimas à posse (HONNETH, 2003, p.50). Na troca eles se relacionam entre si enquanto indivíduos particulares cabendo ao direito formal legalizar‘ através de um título jurídico suas pretensões. Se na família o reconhecimento se dá através das relações emocionais existentes entre seus membros, na posse a forma de reconhecimento é presente nas relações pré-jurídicas estabelecidas entre indivíduos numa organização social.

Esta segunda etapa marca um progresso na universalização social do sujeito, visto que a particularidade das relações no âmbito da família fora superada pelas relações intrassociais. É bom notar que o termo eticidade natural‖ é utilizado por Hegel para explicar as etapas que antecedem a eticidade absoluta. O que caracteriza a eticidade natural que abrange as relações na família e na posse é o princípio da singularidade. No nível da eticidade natural‖ existe a predominância da multiplicidade sobre a unidade. Ainda não se pode falar da unidade intuitiva de um povo, mas antes da multiplicidade dos indivíduos. A unificação é, contudo desde o princípio algo que os indivíduos aspiram. Na linguagem utilizada por Hegel, isto é, o domínio das potências, cada potência neste âmbito da eticidade natural permanece uma determinidade ou uma particularidade. Nenhuma delas consegue a Aufhebung absoluta das particularidades, ou seja, a suprassunção de todas as determinidades na universalidade absoluta. Cada negativo que opera neste momento da eticidade deixa permanecer uma oposição em relação ao universal. Somente na vida ética absoluta a oposição é aniquilada de tal maneira que o negativo longe de ser um estado de oposição, realiza a única supressão perfeita da determinidade, aquela que consiste, após a reunião com o seu contrário, realizar algo de superior, de real (TAMINIAUX, 1992, p. 62).

As primeiras relações jurídicas que, portanto, dizem respeito à eticidade natural ainda não pertencem ao reino do direito institucionalizado. Hegel acredita que o indivíduo em si não é absolutamente proprietário, ou seja, um possuidor por direito. “O direito à propriedade é o direito ao direito; o direito de proprietário é (por um) lado, a abstração ligada à propriedade, segundo o qual é um direito; por outro lado, o particular, a posse subsiste” (1991, p.30). No reconhecimento da posse do outro ainda estamos no âmbito do contrato informal cujo cumprimento depende unicamente do desejo dos contraentes. A realização do contrato é puramente aleatória e contingente. Por isso será

através de suas liberdades negativas, ou seja, como indivíduos capazes de negar ou aceitar ofertas.

necessário introduzir um elemento transformador, a partir do qual será possível dar um passo além das meras relações pré-jurídicas, razão pela qual Hegel faz apelo aos diferentes tipos de crimes ou lutas.

Como aponta Honneth (2003, p.51), o que é estranho é a maneira como Hegel introduz a categoria de crime. Colocado entre a eticidade natural e a eticidade absoluta, ele tem a tarefa de realizar a passagem da primeira à segunda. Isso implica em afirmar que no momento da própria eticidade natural não existe nenhum tipo de luta que constitui o fomento para o reconhecimento entre os homens. O crime aqui aparece antes como ato de destruição de um tipo de reconhecimento que já existia na eticidade natural. Honneth sugere que uma das razões teóricas pela qual Hegel poderia ter adotado esta construção seria a confrontação direta com Hobbes, sugerindo uma esfera natural isenta de conflitos.18

O fato é que na Realphilosophie, Hegel muda esta perspectiva e distingue a luta pelo reconhecimento do crime propriamente dito. A luta pelo reconhecimento terá nesta obra o papel de explicar a passagem entre as diferentes etapas éticas, começando com a exclusão do outro na posse, e o crime se daria somente a partir da instituição do direito. O que parece bem mais compreensível, tendo em vista que na ausência de lei, os conflitos ainda não podem ser entendidos como crimes.

Assim, no Sistema da eticidade Hegel introduz entre as duas formas de eticidade, um capítulo sobre espécies distintas de lutas, entendidas como crime. O crime é o meio pelo qual se pode chegar à eticidade absoluta. Para Hegel não existe outro caminho. Veremos justamente, neste tópico, porque para Hegel a passagem para a eticidade absoluta só é possível através de diversos atos de destruição, nomeados crimes. Foram necessárias lutas, aparentemente governadas por interesses unilaterais e egoísticos, nos quais se revelaram desejos profundos pela afirmação de si mesmo através do outro. A razão pela qual o crime constitui o único caminho para atingir a eticidade absoluta está relacionada com a sua possibilidade de desenvolver nos indivíduos uma consciência de dimensão prático moral. Os confrontos que ocorrem no momento da eticidade natural exacerbam as relações intersubjetivas, o que resulta numa

18 A outra razão seria as pressões metodológicas que acompanham a aplicação esquemática da teoria do

eticidade mais madura, com indivíduos conscientes de uma dependência recíproca inseridos em uma comunidade de cidadãos livres.

Benzer Belgeler