• Sonuç bulunamadı

Como se pode observar, os serviços ambientais prestados pelas áreas de cobertura vegetal nativa são fundamentais para os potenciais compradores, indivíduos ou grupos que deles usufruem a uma distância curta ou longínqua, mas também para os próprios posseiros ou proprietários, especialmente os rurais. A relevância se torna ainda maior quando se trata de áreas localizadas no

entorno de unidades de conservação da natureza, como no caso daquelas situadas próximas ao Reserva da Biosfera Binacional La Amistad da Unesco e Patrimônio da Humanidade no Panamá Ocidental, na fronteira noroeste entre o Panamá e a Costa Rica.

Por ser uma área que conserva uma das maiores biodiversidade do subcontinente centroamericano, a manutenção da vegetação nativa intacta e a consequente oferta de serviços ambientais é objeto de preocupação de ambos os países. Por essa razão, Duke et al. (2010) dirigiram-se aos habitantes dessa região, fazendeiros e criadores de gado em sua maioria, visando identificar seu interesse em participar em um eventual programa de pagamentos por serviços ambientais.

Para identificar as razões para as respostas encontradas, variáveis como participação em programas anteriores de conservação ambiental desenvolvidos por organizações não governamentais, a segurança de ser o proprietário da terra e a idade do chefe da família foram consideradas relevantes.

Ademais as atividades econômicas acima descritas, algumas outras eram desenvolvidas na região e a quantidade e qualidade dos serviços ambientais nela gerados poderia influenciar diretamente nos resultados obtidos, principalmente por não ser uma área próxima a outras aglomerações urbanas nas quais pudessem buscar um serviço substituto para aqueles que não lhes fossem satisfatórios. Segundo Duke et al. (2010)

Comunidades rurais isoladas dependem dos serviços de bacias hidrográficas em matéria de água potável, água para irrigação e desenvolvimento de outras atividades socioeconômicas, serviços de geração e regeneração, dos polinizadores silvestres nas zonas florestais, e muitos outros serviços do ecossistema proporcionados pelas áreas protegidas para a produção de café e uma variedade de atividades de subsistência rurais. (DUKE, 2010, p. 14)

De acordo com os autores, baseados em diagnóstico da The Nature Conservancy de 2007 e da Unesco de 2008, essas necessidades estariam sob risco de não serem plenamente atendidas em função da superexploração dos bens e serviços gerados nas propriedades, como a sobrepesca, o turismo não regulado e mal planejado, o corte e a destinação de áreas para a agricultura de

subsistência, práticas agrícolas não sustentáveis, exemplificadas pela contaminação pelo uso de agroquímicos, a expansão de represas e centrais hidrelétricas e estradas.

Para identificar o interesse em aderir a uma iniciativa de PSA, em 2009 foram promovidas reuniões com a participação de produtores de municípios da região, inicialmente com os de Cerro Punta, no Panamá, e depois, com a colaboração de ONGs com histórico de atuação nas comunidades de Alto Boquete e Renacimiento, realizaram entrevistas com 344 locais a fim de identificar os serviços ambientais que eles acreditavam ser prestados e a relevância de cada um deles.

Os principais serviços citados foram potencial hidrológico, a fixação do carbono e a produção de água para agricultura. A partir dessa hierarquização apresentada nas primeiras reuniões, as entrevistas incluíram questões sobre a inserção em iniciativas de conservação de florestas, reflorestamento e sistemas agroflorestais. Dentre as conclusões, destaca-se o interesse de 42% em participar de iniciativas de reflorestamento, 53% da conservação de florestas e 78% de sistemas agroflorestais.

Duke et al. (2010) aponta também que a última opção consta como a preferida dos entrevistados devido à duração dos contratos, dez anos, cinco anos mais curta que os demais, e a possibilidade de gerar renda com o cultivo de espécies frutíferas e alimentares em meio às espécies nativas conservadas.

Ademais, a inclusão de proprietários com baixa remuneração familiar ensejou o questionamento dos entrevistadores aos habitantes de Alto Boquete e Renacimiento e suas respostas permitiram entender que alguns fatores são mais desestimulantes à participação em projetos de PSA do que a renda. De acordo com a análise, a falta de documentação de propriedade ou posse da terra e a reduzida extensão da propriedade, no exemplo local menor do que cinco hectares, afastava-os muito mais da participação. O argumento guarda semelhança com o exemplo nicaraguense do Risemp, em que os campesinos ganaderos, ou campesinos criadores de gado, apresentavam dificuldades para escolher pela pecuária sustentável e a manutenção de cobertura vegetal nativa na área explorada com tal atividade econômica.

Mas também similarmente ao projeto executado com o apoio do GEF e do Banco Mundial, identificou-se o interesse em aderir a esse instrumento de incentivo econômico à sustentabilidade como alto, independente do estrato socioeconômico. Isso porque 90% dos indivíduos situados no mais alto estrato têm interesse em aderir a um potencial projeto com esse objetivo, assim como 87% daqueles no estrato médio e 85% classificados como pertencentes ao baixo estrato. Pondere- se apenas que dadas as limitações apontadas logo acima, a elegibilidade dos proprietários de cada um desses estratos alcança, respectivamente, 64%, 43% e 26%.

Demonstrado o interesse e a viabilidade social em implantar um projeto de pagamento por serviços ambientais nos municípios do entorno da Reserva da Biosfera La Amistad, Duke et al. (2010) concluíram que outros passos deveriam seguir essa conclusão, como a identificação de como os potenciais beneficiários avaliam os serviços ambientais utilizados, o geoprocessamento da área para orientação quanto as áreas mais propícias à participação, a análise da capacidade institucional e da valoração econômica.

O cenário encontrado no Panamá difere bem daquele constatado na vizinha Costa Rica, principal referência mundial em PSA no mundo, a qual se encontra mais à frente na implementação desse instrumento do que os quinze anos de diferença entre o início de seus primeiros projetos e esse proposto para La Amistad. Questões como a dimensão das propriedades e posse que poderão ser inseridas estão resolvidos há bastante tempo e existem critérios para aquelas em que habitam públicos mais vulneráveis e que necessitam de critérios distintos a fim da promoção da isonomia.

Sob as regras do programa de PSA, nenhum beneficiário individual poderá registrar área menor do que dois nem maior do que trinta hectares a cada ano, a não ser grupos indígenas que podem registrar até seiscentos hectares por ano. Não há limites para coalizões que hajam através de organizações não governamentais locais. Tais organizações podem funcionar como intermediários entre pequenos proprietários e autoridades para aumentar a participação daqueles que poderiam não se inscrever. (SÁNCHEZ-AZOFEIFA et al. , 2007, p. 1167)

A definição da dimensão das áreas individuais visava, sobretudo, o ganho de escala e a adesão do maior número possível de proprietários e posseiros localizados em áreas próximas a fim de promover também a ampliação de corredores ecológicos. Simultaneamente, a concepção do

projeto reconheceu a importância de povos tradicionais e suas práticas tradicionais e sustentáveis, tratando-os de forma diferenciada dada sua característica histórica.