Todas as pesquisas que se propõem a analisar dados de fala, em uma abordagem sociolinguística, enfrentam um clássico problema metodológico, assim expresso por Labov (1972/2008, p.63): “os meios empregados para coletar os dados interferem nos dados a serem coletados”.
A esse respeito, Firmino (2006) expressa uma opinião bastante enfática e realista sobre a consciência do pesquisador acerca da inevitável interferência nos dados que compõem o corpus de estudo:
No entanto, os questionários, tal como qualquer outro método de pesquisa, também levantam alguns problemas relativamente à fiabilidade e validade. Por exemplo, os questionários são também afectados pela subjetividade do pesquisador pela forma como as perguntas são estruturadas e administradas. As respostas podem ser influenciadas pela selecção dos inquiridos ou podem mesmo reportar a
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factos sociais que não se relacionam com as actuais práticas socioculturais, quer porque os inquiridos querem apresentar uma certa imagem, quer porque não se recordam, ou porque não querem tratar de assuntos delicados, ou ainda porque não se comunicam adequadamente com o pesquisador ou então simplesmente porque querem confundir o pesquisador” (FIRMINO, 2006, p.94).
Assim como Firmino ressaltou (2006), também nesse trabalho de pesquisa há consciência de que a metodologia empregada pode interferir nos resultados. No entanto, esse caminho metodológico – que contou com o auxílio de um questionário socioeconômico e de uma entrevista baseada em fotografias de perfis sociais – mostrou- se bastante eficaz na produção de formas de tratamento pelos informantes, em contextos tais que se fez possível a análise desses dados à luz do pensamento sociolinguístico e pragmático. Nesse sentido, é preciso coadunar com Mundim (1981), ao relacionar o seu objeto de estudos – o sistema de formas de tratamento – com o paradoxo do observador laboviano:
Se agirmos da maneira que Labov propõe, atraindo a atenção do informante para um assunto que seja diferente do fenômeno linguístico propriamente dito, o único resultado que talvez obtenhamos seja a constatação de qual forma de tratamento o informante usa para nós (entrevistadores) como alvo, fato que não nos traria nenhuma satisfação face ao que nos propusemos de início (MUNDIM, 1981, p.65).
Outra dificuldade que se apresenta aos pesquisadores da modalidade falada da língua é a necessidade de se usar um instrumento de gravação – algo imprescindível para a obtenção fidedigna dos dados. No caso desta pesquisa, foi empregada uma câmera filmadora e um gravador digital de voz. Em geral, os informantes ficavam “tímidos” nos primeiros minutos em que o questionário era aplicado, mas se esqueciam logo de que estavam sendo gravados e passavam a responder as perguntas com afinco e interesse. Ainda assim, é preciso frisar que dois informantes não aceitaram ter as suas imagens gravadas. Por essa razão, acordou-se com eles em utilizar a câmera como um recurso auxiliar apenas para gravar a voz, sem obter imagens88.
Além do que aqui está exposto, também se adotou a postura de Silva (1996), ao descrever a metodologia empregada pelos pesquisadores do Projeto Censo nas entrevistas para formação de seu corpus, a fim de se tentar amenizar a formalidade habitual das situações de entrevista:
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Estamos cientes de que entrevistas nunca registram a fala totalmente informal do entrevistado. Mas tomaram-se medidas para tentar minorar esse problema: o entrevistador foi orientado para conduzir a entrevista de maneira descontraída e natural, usando estratégias que incentivassem a fala fluente (se bem que de certo modo dirigida), falando pouco e evitando interromper o falante (SILVA, 1996, p.61).
A escolha dos sujeitos da pesquisa se deu a partir do estabelecimento de algumas balizas. A primeira delas centrou-se em um modelo descrito por Milroy (2007), que ficou conhecido como “amigo do amigo”. Segundo a pesquisadora, pioneiramente esse modelo foi empregado por John Gumperz, e consiste em angariar informantes a partir de uma rede de pessoas já conhecidas. A partir desses conhecidos, outros informantes – seus amigos, portanto – são convidados a fazer parte do conjunto de entrevistados, até que se atinja o montante de pessoas com as características desejadas. O propósito para esse tipo de formação de amostra se pauta no fato de que, assim, a conversação tem maiores chances de fluir de uma forma mais espontânea – haja vista que há, preliminarmente, uma relação de simpatia entre entrevistador e entrevistado. Eis a exposição dos motivos para a utilização desse modelo de cunho etnográfico, feita por Milroy (2007, p.04, tradução nossa), baseada em uma experiência bem sucedida de uma pesquisadora em Belfast (Irlanda do Norte):
Fundamentalmente, a unidade de estudo foi o grupo social pré- existente, ao invés de uma série de indivíduos isolados como representantes de determinadas categorias sociais. Ao ligar-se a este grupo, e abranger as suas adjacências, em interações progressivas entre os membros, ela esteve apta a obter uma grande quantidade de fala espontânea, bem como informações sociais e demográficas relevantes, e o efeito do observados sobre os dados foi diminuído. Procedimentos de trabalho de campo deste tipo têm sido amplamente utilizados, tanto em comunidades bilíngues quanto monolíngues (como descrito por Milroy et al. 1995), e problemas de acesso raramente são reportados.89
É válido ainda destacar que, a fim de empreender a sua pesquisa sobre a língua portuguesa em Moçambique, Firmino (2006) também realizou entrevistas com seus “amigos” e “amigos de amigos”, conforme ele descreve a seguir:
89 “Crucially, the unit of study was the pre-existing social group, rather than a series of isolated
individuals as representatives of particular social categories. By attaching herself to this group and retreating to its fringes as interactions between members progressed, she was able to obtain large amounts of spontaneous speech as well as relevant social and demographic information, and the effect of the observer on the data was lessened. Fieldwork procedures of this general type have been used extensively in both bilingual and monolingual communities (as described by Milroy et al. 1995), and problems of access are rarely reported.”
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A pesquisa usou informantes-chave, sendo que o único critério usado para a sua selecção foi o fato de viverem em Maputo. A estratégia usada para selecionar os informantes-chave da pesquisa baseou-se na combinação da chamada ‘abordagem de rede ampla’ com a ‘amostra selectiva’ (Fetterman 1989:42-3). Alguns informantes ou eram ou tornaram-se amigos meus, ou eram amigos de amigos, com quem tinha contactos regulares em diferentes eventos sociais (FIRMINO, 2006, p.16).
A partir das experiências bem sucedidas relatadas acima, neste projeto de pesquisa também se optou por selecionar informantes já conhecidos, e que esses pudessem sugerir outras pessoas, a fim de compor a amostra de falantes de língua portuguesa das variedades brasileira, angolana e moçambicana. Sendo assim, a partir dos contatos iniciais estabelecidos pela própria pesquisadora, foi possível contactar outras pessoas até se atingir o número desejado de participantes.
Conforme mencionado anteriormente, a primeira baliza para a seleção de informantes foi o critério “amigo de amigo”. Além dessa, outras duas balizas também foram estabelecidas: i) os informantes necessariamente precisavam residir em diferentes zonas de cada uma das três cidades; e ii), considerando agrupamentos de duas, três, ou até quatro pessoas, precisavam ter entre si um contato familiar, a fim de que houvesse possibilidades de comparação dos usos de formas de tratamento de uma forma mais estreita. Sendo assim, acordou-se que dez famílias seriam entrevistadas em cada um dos países.
A começar pelo caso brasileiro, com o intento de compor uma amostra representativa da realidade urbana da cidade de São Paulo, foram feitas entrevistas com duas famílias de cada zona da cidade: da região central, entrevistou-se duas famílias do bairro Santa Cecília, totalizando cinco informantes; da zona Norte, houve entrevista com uma família do Parque São Paulo (Santana) (duas pessoas) e outra família da Vila Iório (Freguesia do Ó) (também duas pessoas); da zona Sul, duas pessoas de uma mesma família foram entrevistadas da Vila das Belezas (Campo Limpo) e outras duas (também da mesma família) do bairro Panamby (região do Morumbi); da zona Leste, a família entrevistada foi do Bairro do Tatuapé (duas pessoas) e houve mais uma entrevista em São Miguel Paulista90; por fim, da Zona Oeste, quatro pessoas de uma
90 Na composição da amostra da cidade de São Paulo houve uma única exceção ao modelo previsto de se
entrevistar famílias. A partir de um amigo, foi indicado o contato de uma família que estabelecia todas as suas relações sociais (familiares e profissionais) no bairro de São Miguel Paulista. No entanto, há pouco tempo, essa família havia se mudado para uma casa que fica no município de Ferraz de Vasconcelos – na Grande São Paulo, portanto. No dia combinado para a entrevista (01 de novembro de 2012), entretanto, houve um imprevisto: a entrevista fora marcada para após o horário de trabalho dos familiares, no fim da
153 família que residia na Vila Madalena (Pinheiros) e três pessoas de outra família do Sumaré (Perdizes) foram entrevistadas.
Na cidade de Maputo, Moçambique, os mesmos critérios foram seguidos. A fim de se esboçar um panorama adequado do cenário sociolinguístico da cidade, optou-se por entrevistar famílias residentes tanto na “região de cimento”, como na “região de caniço”91 (zona central e zona intermédia, respectivamente, na nomenclatura adotada por Firmino92, 2006).93 Dessa forma, da região de cimento foram entrevistadas sete famílias residentes nos bairros Central (nove pessoas, de três famílias diferentes), Polana Cimento (duas pessoas), Coop (duas pessoas), Malhangalene (duas pessoas) e Alto Maé (quatro pessoas, de duas famílias diferentes). As outras três famílias que compuseram essa amostra residiam nos seguintes bairros da zona de caniço: Hulene A (duas pessoas), Polana Caniço (duas pessoas) e Mafalala (duas pessoas).
O propósito de se entrevistar famílias angolanas, a fim de completar a amostra de falantes de língua portuguesa das três variedades em questão, não foi possível de se realizar na cidade de Luanda, em função do imbricamento de dois fatores principais: i) a cidade de Luanda conta com uma organização administrativa bastante peculiar, que a divide em diferentes “municípios” – em Angola, essa palavra não possui o mesmo valor semântico do que no Brasil –, assim sendo, a lógica de organização da cidade seguia princípios diferentes dos brasileiros; ii) houve pouco tempo para se realizar a pesquisa empírica nessa cidade – apenas dois meses. Esse tempo não foi suficiente para se conhecer adequadamente a geografia da cidade e, consequentemente, realizar os deslocamentos necessários.
Em função dessa situação descrita, fez-se necessária uma readequação da metodologia inicial. Assim, optou-se por realizar entrevistas (a partir dos mesmos métodos dos países anteriores: a aplicação de um questionário socioeconômico e de entrevistas utilizando fotografias) em uma única instituição (a saber, uma universidade), com diferentes pessoas que compõem o seu corpo social (alunos, professores, tarde. Após a primeira entrevista, que foi bastante longa, já era tarde e surgiu a informação de que havia sido decretado pelo poder paralelo um “toque de recolher” aos moradores da cidade de São Paulo, em um contexto de severas ondas de violência que assolavam a capital paulista na ocasião. Assim sendo, por uma questão de segurança, optou-se por, apenas nesse caso, entrevistar apenas um membro da família.
91 Essa região da cidade popularmente recebe esse nome em função do material utilizado na construção
das casas.
92 Para maiores informações sobre a consideração de Firmino (2006) acerca da divisão geográfica da
cidade de Maputo, cf. p. 57, primeira seção.
93 A justificativa para a não inclusão da zona rural de Moçambique nessa amostra se centra na dificuldade
154 bibliotecários, motoristas, atendentes de lanchonete e funcionários em geral). Se por um lado, houve a necessidade de se adequar a metodologia ao contexto encontrado – com a consequência de não ser possível entrevistar pessoas de um mesmo núcleo familiar –, por outro lado, esse rearranjo permitiu que houvesse uma amostra representativa da fala angolana e, portanto, os objetivos dessa pesquisa, de se comparar as três variedades da língua portuguesa, puderam ser levados a cabo.
É imprescindível mencionar que foram entrevistadas 25 pessoas que possuíam algum vínculo com essa instituição. Esse número foi escolhido para que pudesse equiparar-se a extensão da amostra angolana à brasileira e à moçambicana (23 e 25 informantes, respectivamente). Além disso, como será exposto na seção seguinte (3.4 “Apresentação socioeconômica do corpus”), a escolha desses informantes angolanos representa significativamente a realidade sociocultural da cidade de Luanda – por haver participantes de diferentes extratos sociais, credos, pertencimentos étnicos, níveis de escolaridade e proveniências.
Em suma, dos 25 informantes angolanos, apenas quatro não eram moradores do “município” de Luanda – de acordo com a nova nomenclatura, vigente oficialmente a partir de 2011, na província de Luanda. Assim sendo, acerca do município de Luanda, dois informantes residiam na região da Ingombota, sete na Maianga, outros sete no Kilamba-Kiaxi, dois no Rangel e três na região do Samba. Dois participantes moravam na região de Talatona, município de Belas, e outros dois residiam no município de Viana. Uma vez que esses conceitos político-administrativos possuem um valor peculiar ao contexto angolano, todos os vinte e cinco informantes foram considerados nessa pesquisa, pela compreensão de que todos residem em um contexto luandese. A fim de favorecer a compreensão dessa divisão administrativa, segue o quadro 10, com os respectivos municípios e divisões:
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Quadro 10: Divisão administrativa de Luanda
Municípios Divisões Subdivisões
Luanda Ingombota Ingombota
Ilha do cabo Maianga Maianga Prenda Kilamba-kiaxe Kilamba-kiaxe Palanca Golf Neves bendinha Rangel Rangel Vila alice Samba Sambizanga Sambizanga Ngola kiluanji Belas Talatona Kilamba Benfica Barra do cuanza Mussulo
Cazenga Tala hady Cazenga Hoji ya henda 11 de novembro Cacuaco Cacuaco Kicolo Funda Viana Viana Mbaia Zango Calumbo Icolo e bengo Catete
Cabiri Bom jesus Cassoneca Quissama Quissama Demba-chio Mumbondo Quixinge
Fonte: Disponível em: <http://virtualidade.blogs.sapo.ao/3812.html>. Acesso em: 22 de julho de 2013
Por fim, uma última ressalva acerca da amostra de entrevistados faz-se necessária. No início de cada entrevista, os informantes recebiam um documento explicativo, com informações relevantes acerca da pesquisa e, ao final, a eles era fornecido um “termo de consentimento livre e esclarecido”. Após a leitura, todos os
156 participantes concordaram em assinar e colaborar com a finalidade proposta por esse trabalho investigativo.