Quando se presenciam a deterioração da zona costeira e o crescente aumento da população, faz-se necessária uma reflexão sobre as formas de uso e ocupação desses espaços, mediante a análise de seus impactos positivos e negativos, bem como as mudanças de atitude necessárias para se aproximar da sustentabilidade.
A noção da importância do planejamento territorial para o exercício de políticas ambientais adequadas fica bem clara na própria centralidade adquirida pelo conceito de desenvolvimento sustentável, o qual, em si mesmo, expressa o apelo pela articulação do crescimento econômico com a preservação do meio ambiente.
Previsto no texto da PNMA, o ZEE é executado no Brasil há cerca de duas décadas como instrumento de ordenação territorial. Regulamentado pelo Decreto federal nº 4.297, de 10 de julho de 2002, o ZEE é definido como instrumento de organização do território a ser obrigatoriamente seguido na implantação de planos, obras e atividades públicas e privadas. Nele são estabelecidos medidas e padrões de proteção ambiental destinados a assegurar a qualidade ambiental dos recursos hídricos e do solo e a conservação da biodiversidade, garantindo o desenvolvimento sustentável e a melhoria das condições de vida da população (art.2º).
Tem como objetivo geral organizar, de forma vinculada, as decisões dos agentes públicos e privados quanto a planos, programas, projetos e atividades que, direta ou indiretamente, utilizem recursos naturais, assegurando a plena manutenção do capital e dos serviços ambientais dos ecossistemas (art. 3º).
O texto do Decreto indica que o processo de elaboração e implementação do ZEE: deve: buscar a sustentabilidade ecológica, econômica e social, com vistas a compatibilizar o crescimento econômico e a proteção dos recursos naturais, em favor das presentes e futuras gerações, em decorrência do reconhecimento de valor intrínseco à biodiversidade e aos seus componentes; contar com ampla participação democrática, compartilhando suas ações e responsabilidades entre os diferentes níveis da Administração Pública e da sociedade civil; e valorizar o conhecimento científico multidisciplinar.
O ZEE surgiu com o intuito de integrar os aspectos naturais e sociais à gestão do território. De acordo com as explicações obtidas na página eletrônica do MMA39,
essa foi uma demanda proveniente da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano, promovida em Estocolmo em 1972, que se tornou ponto de referência para as questões ambientais. Nesse período, a abordagem entre desenvolvimento e meio ambiente saudável era uma visão de mundo predominante e a demanda por proteção ambiental uma necessidade inadiável.
O MMA em seu sítio esclarece que o ZEE é um instrumento da gestão territorial e ambiental. Primeiramente foi planejado para a Amazônia Legal, em virtude da visibilidade da floresta ante os organismos internacionais, da pressão de
39 Zoneamento Ecológico-Econômico. Disponível em: http://www.mma.gov.br/gestao-territorial/zoneamento-
entidades ligadas ao meio ambiente e das formas inadequadas de uso dos recursos naturais. Depois o ZEE se tornou um Programa do Plano Plurianual (PPA) para todo o País. Sobre o PPA define a Secretaria da Presidência da República40:
[...] é o instrumento de planejamento do Governo Federal que estabelece, de forma regionalizada, as diretrizes, objetivos e metas da Administração Pública Federal para as despesas de capital e outras delas decorrentes e para as relativas aos programas de duração continuada. Por meio dele, é declarado o conjunto das políticas públicas do governo para um período de quatro anos, podendo ser revisado a cada ano, e os caminhos trilhados para viabilizar as metas previstas.
O programa do ZEE tem como propósito principal a execução do MacroZEE Brasil, que seria o zoneamento ecológico-econômico do território brasileiro. Efetivado o MacroZEE Brasil, este será uma ferramenta, no curto prazo, para a estruturação de um sistema de planejamento e gerenciamento estratégico do território brasileiro, capaz de selecionar e especializar indicadores socioambientais, respondendo, assim, de forma expedita, questões centrais envolvendo o uso do território brasileiro na atualidade, assim como projetar a configuração espacial do país em um futuro próximo (MMA)41.
Para o MMA o valor do programa consiste na sua capacidade de preencher a lacuna atualmente existente nos ZEEs estaduais na abordagem de questões estratégicas de âmbito nacional que possuem expressiva repercussão na configuração territorial do País. Cita como exemplos: a dinâmica populacional, a expansão da fronteira agropecuária, a integração continental sul-americana, assim como a gestão econômica e política do território, cuja espacialização e compreensão transcendem, em muito, as fronteiras estaduais. Desta forma, por via do MacroZEE Brasil se teria capacidade de disponibilizar, na forma de mapeamento, a informação proveniente das características básicas da população e do território e de produzir, a partir daí, um novo e mais aprofundado quadro de conhecimento das inúmeras realidades territoriais presentes no Brasil.
Partindo desse ponto, tem-se a possibilidade de subsidiar a formulação de políticas de ordenamento do território da União, estados e municípios, orientando os diversos níveis decisórios para a adoção de políticas convergentes com as diretrizes
40 Pano Plurianual. Disponível em: http://www.secretariageral.gov.br/acessoainformacao/acoeseprogramas/ii-ppa-2012-2015-
plano-mais-brasil [28 de dezembro de 2012]
41 MacroZEE Brasil. Disponível em: http://homolog-
de planejamento estratégico do País, propondo soluções de proteção ambiental e de desenvolvimento que considerem a melhoria das condições de vida da população e a redução dos riscos de perda do patrimônio natural (MMA, 2006a).
Em um levantamento feito no ano de 2007 pelo MMA, chegou-se aos seguintes dados: a área com projetos de zoneamentos concluídos ou em andamento, na escala 1:250.000 ou maiores, descontando as áreas de sobreposições entre projetos de 1:250.000 e 1:100.000, totalizam 5.389.872,3 km2, o
que representa 63,3% do território nacional. É o que se demonstra na figura 6.1:
Figura 6.1 – Estados brasileiros que realizaram o ZEE em seus territórios
Fonte: Departamento de Zoneamento Territorial, MMA , 200742
De acordo com o MMA, o IBAMA tem um importante papel na formulação desse programa por ser ele parte do Consórcio ZEE Brasil, criado pelo Decreto federal nº 99.540/90. Referido órgão tem atuação primordial para a obtenção de metodologias e ferramentas, visando ao estabelecimento de áreas importantes para a conservação da biodiversidade no Brasil, associando essas áreas a estratégias de conservação e à recuperação de ecossistemas degradados.
42 Disponível em:
http://www.mma.gov.br/sitio/index.php?ido=conteudo.monta&idEstrutura=28&idConteudo=8251&idMenu=8760 [04 de abril de 2009]
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Embora seja uma eficiente ferramenta de planejamento territorial, o ZEE expressa diversos problemas para ser efetivamente utilizado no Brasil. Na tentativa de se elaborar estudos capazes de nortear políticas públicas federais no sentido de integração nacional e desenvolvimento são feitos vários zoneamentos, nas mais diversas regiões do País, que apresentam inúmeras dificuldades como a grande variação de escalas de trabalho, assim como da utilização de vários tipos de metodologias, inviabilizando uma unidade na interpretação de tais zoneamentos (BASTOS e SILVA 2010).
Outro embaraço, bastante discutido a respeito da implementação desse instrumento de planejamento territorial, é a questão econômica, juntamente com a ecológica. Como conciliar as duas coisas? Esse é o grande desafio.
Fundamental é discutir e amadurecer bastante para se chegar à execução do ZEE em todo o território brasileiro, tornando-se esse rotina no sistema de planejamento, subsidiando o monitoramento, o controle, a priorização de programas e projetos, os planos da gestão, sistematizando informações dispersas e dando sentido a níveis escalares diferenciados e atendendo a uma diversidade de usuários e interessados. Na sequência, o ZEEC objeto desta investigação.