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Duguit, reconhecendo que todo o ser humano, desde seu nascimento, participa de agrupamentos sociais e se valendo dos conceitos firmados no pensamento sociológico desenvolvido por Durkheim, busca uma fundamentação social e objetiva para experiência jurídica, baseada no ideal de solidariedade, a qual, assim como nos ensinamentos do mestre, se divide em: solidariedade social mecânica e solidariedade social orgânica.

Com efeito, para Duguit:

³D VROLGDULHGDGH SRGH YLQFXODr-se a um dos seguintes elementos essenciais: os homens de um mesmo grupo social são solidários

entre si ± primeiramente porque têm necessidades comuns cuja satisfação reside na vida em comum; e em segundo lugar porque têm anseios e aptidões diferentes cuja satisfação efetiva-se pela troca de serviços recíprocos, relacionados exatamente ao emprego de suas aptidões. Dentro do esboço acima, conceitua-se a primeira FRPR VROLGDULHGDGH µSRU VHPHOKDQoD¶ HQTXDQWR D VHJXQGD µSRU GLYLVmRGHWUDEDOKR¶´213.

E conclui afirmando que, com o progresso, a constituição e estruturação da sociedade se baseiam na divisão do trabalho, vez que as múltiplas atividades essenciais à subsistência humana são desenvolvidas em diversos campos de ação, devendo ser distribuídas harmonicamente pelo grupo, o que exige um maior intercâmbio de serviços e vigor ao sentimento de solidariedade, conforme demonstra Miguel Reale, ao comentar a teoria de Duguit:

³D GLYLVmR GR WUDEDOKR VRFLDO WHP FRPR FRQVHTrQFLD D solidariedade social, como exigência inamovível da convivência e uma rede de serviços reciprocamente prestados: o Estado mesmo resolve-VHHPXPVLVWHPDGHVHUYLoRVS~EOLFRV´214.

Desse modo, Duguit fixa uma relação necessária de complementaridade entre a existência da solidariedade e das regras sociais determinadas com a

213 Léon Duguit, Fundamentos do Direito, p. 23. Miguel Reale, tratando das bases do sociologismo jurídico de Duguit, esclarece que este jurista não aceita o princípio fundamental da teoria de Durkheim, que pressupõe D³LGpLDGHXPDFRQVFLrQFLDFROHWLYDLUUHGXWtYHOjVFRQVFLrQFLDVLQGLYLGXDLV´QRHQWDQWRLQWURGX]QRFHQWUR de seu pensamento os conceitos durkheimianos estabelecidos acerca da solidariedade social, como retratado na distinção entre solidariedade mecânica e orgânica, a saber: ³6ROLGDULHGDGH PHFkQLFD p DTXHOD TXH VH estabelece quando duas ou mais pessoas, tendendo a um mesmo fim, praticam a mesma série de atos. Num exemplo elementar, podemos lembrar o esforço conjugado de cinco ou dez indivíduos para levantar um bloco de granito. Este é um caso de coordenação de trabalho, que tem como resultado uma solidariedade mecânica. Quando, porém, os indivíduos, para realizar determinados fins, para alcançar determinada meta, não praticam os mesmos atos, mas atos distintos e complementares, temos a divisão de trabalho orgânica, TXHWHPFRPRUHVXOWDGRXPDVROLGDULHGDGHRUJkQLFD´. (Filosofia do Direito, p. 442).

GLYLVmRGRWUDEDOKRVRFLDOFRQVLGHUDQGRDQRUPDMXUtGLFDFRPR³SURGXWRGR IDWRVRFLDO´TXHEXVFDVXDIXQGDPHQWDomRQRVGHVGREUDPHQWRVGDUHDOLGDGH vivenciada em sociedade, independentemente das vontades manifestadas pelas consciências individuais ou mesmo pelo poder do Estado215, mas que tem por finalidade em sua objetivação alcançar a solidariedade social:

³2KRPHPYLYHHPVRFLHGDGHHVySRGHDVVLPYLYHUDVRFLHGDGH mantém-se apenas pela solidariedade que une seus indivíduos. Assim uma regra de conduta impõe-se ao homem social pelas próprias contingências contextuais, e esta regra pode formular-se do seguinte modo: não praticar nada que possa atentar contra a solidariedade social sob qualquer das suas formas e, a par com isso, realizar toda atividade propícia para desenvolvê-la organicamente. O direito objetivo resume-se nesta fórmula, e a lei positiva, para ser legítima, deve ser a expressão e o GHVHQYROYLPHQWRGHVWHSULQFtSLR´216.

3DUD 'XJXLW R ³GLUHLWR REMHWLYR´ QmR VH ID] a mera causalidade, pressupõe a intervenção humana, que o constrói com vistas à realização de um valor, a solidariedade social, a qual expressa o conteúdo da lei existente

215 Duguit, ao dissertar sobre o Estado, reconhece um elemento comum em todas as doutrinas que se propuseram a estabelecer sua legitimação da autoridade política: a existência de governantes, monopolizadores do poder de comando, que determinam as ordens a serem seguidas pelos governados mediante constrangimento material. Considera, então, a força política estatal um fato real, que se legitima TXDQGRVHFRPSDWLELOL]DFRPRGLUHLWR´RSRGHUSROtWLFRWHPSRUILPUHDOL]DURGLUHLWRFRPSURPHWHQGR-se, em virtude do direito, a realizar tudo que estiver a seu alcance para assegurar o reino do direito. O Estado fundamenta-se na força, e esta força legitima-VH TXDQGR H[HUFLGD HP FRQIRUPLGDGH FRP R GLUHLWR´ /pRQ Duguit, Fundamentos do Direito, p. 51). Reconhece, assim, que a idéia de soberania estatal é substituída pela GH³VHUYLoRVS~EOLFRV´HPYLUWXGHGDSUHYDOrQFLDGDDWLYLGDGHGHFRRSHUDomRVREUHDGHGRPLQDomRHPTXH resta consagrado o caráter próprio das instituições que visam à preservação da utilização legítima do poder, para sancionar seus atos de acordo com o direito, que se desenvolve com base na solidariedade social. O Estado apenas atua como reflexo da consciência solidária, oriunda da grande massa dos espíritos, devendo prestar serviços públicos para proteger os preceitos necessários para convivência mútua entre os membros da sociedade. Posto em tais condições, o Direito não busca sua origem no Estado, mas sim no seio da própria coletividade, que direciona a atividade legislativa para seguir a espontaneidade das prescrições surgidas no meio social e que representam o sentimento de solidariedade social.

na sociedade, reveladora dos padrões comuns de comportamento firmados com base na divisão do trabalho social. Afinal de contas, Duguit diferencia as leis naturais, marcadas por relações de causalidade, das leis sociais, que tendem a realização de determinados fins, permeados pelo sentimento de solidariedade social217.

Alerte-se para a circunstância de que a solidariedade, na concepção de Duguit, não é condicionada pela divisão do trabalho, mas, ao contrário, ele entende que a divisão do trabalho é determinada pela solidariedade social. E, em tal panorama, o direito objetivo possibilita o funcionamento da divisão do trabalho, quando se constata em sua formação a presença da consciência solidária apresentada como valor a ser alcançado na diversidade das interações sociais.

Vê-se que a construção do direito objetivo deriva das exteriorizações de vontades individuais determinadas pelo sentimento de solidariedade social, que se impõe a todos os seres humanos como fenômeno decorrente de sua natureza, fazendo com que cada um cumpra seu papel no funcionamento e GHVHQYROYLPHQWR GR VLVWHPD VRFLDO ³sendo todo indivíduo obrigado pelo direito objetivo a cooperar na solidariedade social, resulta que eles têm o µGLUHLWR¶GHSUDWLFDUWRGRVDTXHOHVDWRVFRPRVTXDLVFRRSHUDQDVROLGDULHGDGH

217 6REUHDFRPSUHHQVmRGRTXHVHMD³GLUHLWRREMHWLYR´QDREUDGH'XJXLW-RVp)HUQDQGRGH&DVWUR)DULDV expõe que o autor considera a regra de direito um fato valorativo legitimado na solidariedade social, mencionando ainda que: ³'XJXLWFRQVLGHUDRµGLUHLWRREMHWLYR¶XPDµOHLGHILP¶QRVHQWLGRGDUHDOL]DomRGD µVROLGDULHGDGHVRFLDO¶3DUDRIXQGDGRUGDHVFRODGH%RUGHDX[RGLUHLWREXVca a realização de um fim, que é RGDµVROLGDULHGDGHVRFLDO¶µDOHLVRFLDOpXPDOHLGHILPWRGRILPpOHJtWLPRTXDQGRHOHpFRQIRUPHjOHL VRFLDOHWRGRDWRIHLWRSDUDDWHQGHUDHVVHILPWHPXPYDORUVRFLDOLVWRpMXUtGLFR´(A Origem do Direito de Solidariedade, p. 226).

social, refutando, por outro lado, qualquer obstáculo à realização do papel VRFLDOTXHOKHFDEH´218.

A consciência solidária viabiliza, assim, a própria obrigatoriedade da norma jurídica, penetrando na consciência da massa dos indivíduos, para que seus atos sejam direcionados em prol da solidariedade social. Nestes termos, a presença do sentimento de solidariedade nos atos realizados pelos membros de determinada sociedade tendem a preservá-la, reforçando seus laços de sustentação; e, por outro lado, os atos praticados contrariamente ao sentimento de solidariedade acabam por provocar uma reação social, expressado por um efeito de caráter coercitivo.

Então, de acordo com teoria do controle social de Duguit, centrada no sentimento de solidariedade, podem ser encontrados três tipos de normas sociais, que surgem das relações entre indivíduos perante a coletividade e se distinguem em razão do grau de coercitividade manifestado: normas morais, normas econômicas e normas jurídicas.

As normas morais e econômicas somente passam a ter relevância para o Direito, tornando-se normas jurídicas, quando suas prescrições colocarem em risco o sentimento de solidariedade pela impossibilidade de regulação/contenção através da força social, necessitando de um instrumental coercitivo dotado de maior rigor:

³4XDQGRRVHQWLPHQWRXQkQLPHRXTXDVHWal, do grupo considera que a solidariedade social estaria gravemente comprometida se o respeito a uma de tais normas não fosse garantido pelo emprego da força social, então temos o momento oportuno do surgimento da norma jurídica do seio das normas morais HHFRQ{PLFDV´219.

A norma jurídica, na concepção de Duguit, apresenta um traço peculiar o consentimento das massas em relação a sua importância no atendimento das finalidades próprias da solidariedade social, sendo perfeitamente natural a inserção do instrumental coercitivo amparado pelo Estado para lhe dar plenas condições de desenvolvimento perante as relações sociais.

Desse modo, a teoria apresentada por Duguit fundamenta sua concepção de Direito no ideal de solidariedade garantido pela força social, que norteia e influencia a massa dos espíritos, fazendo pressentir a necessidade da instituição de regras jurídicas voltadas a sua preservação, para possibilitar a convivência ordenada na sociedade.