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Osmanlı Sarayları’nda Dış Mekân Tasarımının Tarihsel Gelişim Sürec

3. OSMANLI’DA BAHÇE ANLAYIŞI VE OSMANLI SARAYLARI’NDA DIŞ

3.2. Osmanlı Sarayları’nda Dış Mekân Tasarımının Tarihsel Gelişim Sürec

Há ainda uma perspectiva muito comum da pesquisa em torno das personagens públicas por meio da metodologia de estudo de caso. Essa proposta tem o objetivo de investigar a trajetória pública de indivíduos específicos e não constitui uma única linha de pesquisa. A conjuntura midiática muitas vezes emerge nesses estudos, mas seu foco não é exatamente este: a busca consiste na reconstrução de correlações sociais e contextuais que levam à ascensão de personagens específicos.

Esses estudos científicos não se confundem com as biografias, gênero que representa uma porção relevante e rentável da mídia.66 Herschmann e Pereira (2003) chamam atenção para o sucesso das narrativas biográficas na mídia nos anos 1990 a 2000, ressaltando o papel do interesse do público em conhecer a história de vida desses personagens. Assim, as biografias trariam “(...) a sensação de que fazemos parte de uma grande coletividade, isto é, o material biográfico – ficcional e não ficcional –, de certa forma, alimenta e recria comunidades de fãs e consumidores” (HERSCHMANN; PEREIRA, 2003, p.11). Não desconsiderando o valor cultural das biografias, nem mesmo esquecendo que elas são as narrativas pioneiras para o surgimento do tema na mídia, é preciso salientar seu aspecto limitado na reconstrução da trajetória das pessoas públicas. Como mostra Chris Rojek (2008), as biografias midiáticas podem ser entendidas como uma abordagem subjetivista das celebridades, visto que a história de vida do biografado é tratada como se fosse única, como se nenhum outro indivíduo pudesse perfazer a mesma trajetória.

Pierre Bourdieu (1986) havia já apontado crítica semelhante aos limites da “ilusão biográfica”. O autor define que o pressuposto das biografias é uma concepção da vida como um conjunto coerente, orientado e organizado em uma ordem lógica, de origens, princípios e

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Para lembrar os mais recentes, os filmes Che, o argentino (2008), de Steven Soderbergh, Piaf, um hino ao

amor (2007), de Olivier Dahan, Lula, filho do Brasil (2009), de Fábio Barreto, entre tantos outros. Assim

como no cinema, os programas especiais também são muito comuns na televisão. Citando apenas alguns últimos produzidos: na Rede Globo, Maísa e Por toda minha vida - Elis Regina e Chacrinha; no GNT,

razões de ser, postulando o sentido da existência no âmbito de um agente individual. Aproximando os estudos acadêmicos das narrativas biográficas da mídia, Bourdieu fala em ilusão biográfica no sentido de que o biógrafo selecionaria alguns acontecimentos significativos a partir de uma enquete sem critérios (ou com critérios mercadológicos), estabelecendo uma criação artificial do sentido. “Produzir uma história de vida, tratar a vida como história, ou seja, como narrativa coerente (...) é sacrificá-la a uma ilusão retórica”67 (BOURDIEU, 1986, p.70). Em busca de um contexto social das biografias, Bourdieu retoma a questão da nominação, o processo social de atribuir um nome próprio aos indivíduos em seu nascimento e todas as outras especificidades que se seguem: estado civil, idade, nacionalidade etc. O nome próprio criaria um indivíduo na sociedade; a instituição do nome buscaria atribuir constância à inconstância da vida biológica e social. Assim, o ato social de nominação pretenderia alcançar a estabilidade da existência individual no seio da experiência, que se caracteriza pela imprecisão, instabilidade e não linearidade. Enquanto ato de atribuição, o nome nunca corresponderia à existência.

A ilusão biográfica funcionaria como a nominação social. Ao selecionar características abstratas na definição da trajetória dos indivíduos, as biografias passariam a variar de acordo com o mercado em que seriam oferecidas. Nesse sentido, a biografia recompõe a trajetória de vida apenas pela posição de seus agentes individuais, sem levar em conta que a nominação social é a única constante na experiência dos indivíduos. Pierre Bourdieu propõe uma outra perspectiva para a reconstrução da trajetória dos indivíduos, a partir da definição de condições nunca internas a ela mesma. Em uma metáfora com um trajeto no metrô, o autor explica que não seria possível defini-lo sem conhecer toda a rede e as relações objetivas entre as diferentes estações.

Quer dizer que não se pode compreender uma trajetória (...) sem haver previamente construído os estados sucessivos do campo em que ela se desenvolve, ou seja, o conjunto de relações objetivas que o agente único possui (...) ao conjunto de outros agentes engajados no mesmo campo e afrontados no mesmo espaço de possíveis. (BOURDIEU, 1986, p.72).

O estudo de caso científico vai nessa direção, já que caracteriza as condições contextuais da emergência da personagem pública, ainda que, em alguns momentos, baseie-se em dados biográficos. Os estudos de caso de personagens públicas desenvolvem enquetes reveladoras de um contexto de determinações que constituem essas trajetórias de vida. Ainda

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“Produire une histoire de vie, traiter la vie comme une histoire, c’est-à-dire, comme le récit cohérent (...) c’est peut-être sacrifier à une illusion rhétorique.” (tradução nossa).

que o conjunto desses estudos não problematize a mídia de maneira específica, as informações trazidas e sua metodologia iluminam a compreensão da trajetória das pessoas públicas: não enquanto indivíduos abstratos, mas concebidos por suas relações sociais. Alguns estudos ilustram essa perspectiva.

Tânia Garcia (2004) busca os elementos que constituíram o sucesso internacional de Carmen Miranda entre os anos 1930-1940. Por meio das canções, filmes e revistas da época, a tese procura reconstruir as ambiguidades que acompanharam as imagens da cantora. O estudo mostra que a constituição da identidade brasileira atravessou ambivalências semelhantes, em que “diferentes segmentos sociais, na intenção de forjarem um símbolo nacional, a representação de um Brasil que imaginavam ou desejavam, terminam por revelar interesses desiguais e muitas vezes opostos, objetivando fazer valer seu poder e dominação” (GARCIA, 2004, p.23). As contradições da construção da identidade nacional foram observadas também nos caminhos de Carmen.

Um outro exemplo nacional é o trabalho clássico de Sérgio Miceli (1982) a respeito dos programas de televisão do início dos anos 1970, A noite da madrinha. Miceli analisou a atuação da apresentadora Hebe Camargo, mostrando aspectos relevantes da elaboração de seus papéis; ela seria “uma espécie de ‘madrinha’ no lazer, a mamãe postiça e afável que distribui delicadeza, sorrisos e presentes, que comparece às festas e trata todos como filhos” (MICELI, 1982, p.56). Hebe construiria a imagem de uma mulher muito semelhante e próxima às mulheres comuns, valendo-se de diferentes tipologias do feminino: mãe, filha, esposa, dona de casa e madrinha.

Douglas Kellner (1994) desenvolve um estudo de caso da cantora Madonna em diferentes momentos de sua trajetória pública, identificando fases específicas que consolidaram seu sucesso.68 Conjugando a análise de letras de músicas, videoclipes e entrevistas da cantora, Kellner busca reconstituir uma série de ações planejadas por uma grande equipe de marketing. O autor focaliza a construção da imagem da cantora, mostrando como a moda foi fundamental em sua trajetória. Ao procurar se vestir com um estilo que poderia ser facilmente copiado por sua audiência (usando roupas e acessórios populares), Madonna viu sua imagem se reproduzir na vida cotidiana, alcançando um diálogo rentável junto ao seu público. Os posicionamentos controversos e os pequenos escândalos atraíam o público jovem e as minorias étnicas, em ascensão nos Estados Unidos nesse período.

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Saindo do universo do entretenimento, Peter Burke (1994) propõe a reconstituição da circularidade dos processos comunicativos em torno do rei Luís XIV. Inicialmente, Burke analisa imagens que aproximam Luís XIV aos deuses da mitologia clássica. A hipótese do autor é de que a comparação com a mitologia traz sua apresentação enquanto divindade: invencível, onisciente, dotado de qualidades sagradas. No entanto, a figura do rei não era alimentada apenas por imagens oficiais. Burke interessa-se também pela recepção dessas imagens, incorporando à sua análise uma pesquisa de quais seriam os objetivos que os comunicadores pretendiam atingir com as peças criadas e também do “reverso da medalha”, ou seja, as imagens alternativas às oficiais, que circulavam na época para criticar Luís XIV. A ideia de “fabricação de Luís XIV” ressalta o caráter processual, marcado por uma variedade de ações que se sucedem, o que, portanto, não corresponde a uma imagem única, fechada, descolada do curso de eventos e da produção de outras imagens.

Os estudos de caso, mesmo que oriundos de áreas muito distintas e com seu variado leque de objetos, indicam que é possível realizar uma boa articulação entre aspectos biográficos e aspectos contextuais da emergência de seus personagens. Os estudos de caso são capazes de combinar o que Bourdieu denominou “campo de relações objetivas” em que essas personagens se inserem ao longo de sua trajetória biográfica pública. Isso porque essas pesquisas têm método de enquete e elaboram uma pergunta para a realidade a partir de um conjunto de elementos factuais.

Com isso, mesmo sem explorar aqui todas as dimensões dos estudos de caso citados, pode-se extrair dois aspectos comuns aos diferentes trabalhos. O primeiro diz respeito ao contexto social e às maneiras de experimentar a vida cotidiana em um determinado tempo e espaço. O movimento das análises, do microssocial (fatos específicos que compõem a ação pública das personagens) para o macrossocial (contexto em que atuam), mostra que a compreensão da atuação da pessoa pública é um termômetro para o ambiente social que a circunda. Refazer a sequência de ações de uma pessoa pública revela as condições de existência social daquele momento. Carmen Miranda estava em diálogo com a imaginação da identidade nacional brasileira nos anos 1930 e 1940; Madonna, por sua vez, captou a ascensão de grupos étnicos minoritários nos Estados Unidos nos anos 1980 e outros exemplos. Se o historiador Carlo Ginzburg defende que o cotidiano de Menocchio pode desvendar as transformações histórico-culturais da Idade Média para o Renascimento, as pessoas públicas são como Menocchios, mas com seus diários e anotações pessoais públicos. A pessoa pública é uma personagem relacionada aos indivíduos comuns. Essa interlocução não se estabelece de maneira abstrata – a pessoa pública convoca textualmente seus ouvintes em sua fala. Assim,

os indivíduos comuns habitam a constituição de suas ações por meio da linguagem, contribuindo com elementos definidores de seu ethos. Em seu programa na televisão, Hebe Camargo convida simbolicamente o telespectador para assentar em seu sofá; em seus shows, Madonna insere o público em seus argumentos sobre temas controversos nos Estados Unidos, como a liberdade sexual. Nessa dinâmica, o conjunto de expectativas e a variedade de situações em que atuam fazem com que a pessoa pública desempenhe diferentes papéis. A pessoa pública não possui um caminho fixo para o desenvolvimento de sua performance. Ela dança conforme a música69 e precisa saber lidar com o público que habita sua própria constituição (através da linguagem), que está também em ação diante de sua performance. Portanto, a personagem pública manifesta a expressão e o movimento da plateia em seus textos.

A segunda característica comum aos estudos de trajetória indica a presença do conselheiro na atuação das personagens públicas – que varia de acordo com as contingências de seu tempo. Antes do desenvolvimento das técnicas de comunicação no século XVIII, bastavam bons pintores retratistas para a construção da imagem do rei.70 O estudo de caso de Luís XIV mostra um aparato exagerado para a época na assessoria da imagem do rei, sugerindo indícios do aumento da preocupação com a performance da pessoa pública. Daniel Boorstin indica que a função do conselheiro vem se transformando; o exemplo da revitalização da imagem de um hotel nos anos 1960 a partir de um “pseudoacontecimento”, protagonizado por celebridades, foi uma novidade trazida pelo profissional de relações públicas. Hoje em dia, cada área que envolve essa atuação possui sua especialidade própria (cabeleireiros, figurinistas, maquiadores, consultor de imagem etc.).71 Carmen Miranda tinha seus conselheiros, especialmente depois que se mudou para os Estados Unidos; Madonna, uma grande equipe de desenvolvimento de produtos. Atravessa as diferentes épocas a presença desse assessor ou conselheiro da atuação das personagens públicas.