As TDICs possuem um grande potencial de causar fascínio e encantamento nos receptores, decorrente dos diferentes recursos e linguagens utilizados por essas tecnologias. Devido a esse encantamento, o tempo gasto pelas crianças e jovens em frente à televisão ou navegando na internet é cada vez maior. Em contrapartida, a dedicação para a realização das atividades da escola é cada vez menor, considerada chata e descontextualizada com o cotidiano. Segundo Orozco (1997, p.60), as crianças aprendem mais e com maior facilidade com os meios do que com o professor, fato que ele chama como “eficácia, ou efetividade da aprendizagem”. Orozco (1997) adverte que:
Enquanto na escola queremos produzir uma situação propícia para o ensino-aprendizagem, os meios de comunicação estão reproduzindo situações reais, que se não têm muito que ver com o ensino, têm a ver e muito mais com a facilitação da aprendizagem (p.60).
Na escola, as TDICs ainda são utilizadas, por muitos professores, para desenvolver práticas pedagógicas que visam o ensino e a transmissão do conhecimento do professor para os alunos, sem refletir se essas situações são as melhores para que ocorra a aprendizagem. Ou seja, muitas práticas pedagógicas ainda enfatizam o ensino ao invés da aprendizagem. Assim, além das crianças estarem recebendo mais informações com os meios, independente de julgarmos como boas ou ruins, a mídia está oferecendo informações mais significativas para que os jovens localizem-se e movam-se no cotidiano (OROZCO, 1997). Assim, “existe o claro perigo de que o que estamos fazendo em sala de aula venha a se tornar irrelevante em suas vidas”, alerta Buckingham (2012, p. 43).
O conflito entre o que a escola faz e o que a mídia oferece de relevante para a vida diária dos jovens, é entendido por Orozco (1997, p. 61) como outro desafio para a escola, o “desafio da relevância”. Enquanto as mensagens transmitidas pela mídia estão cada vez mais atraentes, a escola continua ensinando as mesmas coisas, só que agora, com a utilização de um equipamento tecnológico, mas, sem modificar as práticas expositivas e instrumentais. Isso demonstra que, mais uma vez, a escola está atrasada e possui capacidade reduzida “em incorporar a realidade, o país e o mundo e atender aos verdadeiros interesses dos jovens, cujas experiências sociais e culturais, são efetivamente outras” (VELASCO, 2011, p.68). Diante dessa
situação, os jovens preferem buscar as informações que consideram mais interessantes para a sua vida diária em outros espaços, nos quais possuem mais liberdade, do que na escola, onde muitas vezes são reprimidos e as informações transmitidas são desinteressantes para o cotidiano.
O potencial de encantamento, de transformação dos sentidos do receptor, ocasionados pelas TDICs é crescente e uma das razões para isso são os diferentes recursos utilizados, que proporcionam a interação de diferentes linguagens como a imagem, o som, a escrita e a eletrônica. Essa combinação de linguagens proporcionadas pelas TDICs rompe com a linearidade da linguagem escrita dos livros e se apresenta “[...] como um fenômeno descontínuo, fragmentado e, ao mesmo tempo, dinâmico, aberto e veloz.” (KENSKI, 2007, p. 32).
Na era tecnológica, crianças cada vez mais novas iniciam o contato com as diferentes linguagens proporcionadas pelas TDICs, seja pela televisão, videogame, computador, dentre outras tecnologias que, desde muito cedo, fazem parte do cotidiano infantil. Esse contato antecipado vem ocasionando transformações nas formas de acesso às informações e ao conhecimento e, “cria uma nova cultura e uma outra realidade informacional” (KENSKI, 2007, p.33). Com essas transformações, grande parte da população apropria-se da modernidade, das linguagens da televisão, do rádio, do cinema, do computador, “sem passar pelo livro, porque a imensa maioria nunca aprende a ler ou lê muito pouco” (MARTÍN- BARBERO, 1995, p.50). Ou seja, os jovens leem cada vez menos, não apenas devido à aproximação com as novas linguagens, mas, também, pelo fato das crianças aprenderem a ler sem nenhum prazer, o que passa a ser uma tarefa árdua (MARTÍN-BARBERO, 2000).
Enquanto as TDICs oferecem essa mistura de linguagens que possuem o poder de encantamento, a escola, ao invés de inserir as novas linguagens, opta por rejeitá-las e desvaloriza a cultura produzida fora da cultura letrada. Porém, além de ser fundamental a inserção da cultura dos jovens, na era tecnológica o cidadão pede que a escola o capacite a realizar a leitura crítica dessa multiplicidade de linguagens, para que ele possa distinguir entre uma informação confiável e uma informação que atende aos interesses do mercado e fortalece o preconceito (MARTÍN-BARBERO, 2000). Ademais, a combinação de linguagens é muito mais utilizada para conquistar a audiência e realizar o espetáculo do que para informar (OROZCO, 1997).
Com as mudanças sociais e culturais, a linearidade da leitura e escrita dos livros estão deixando de ser as principais formas de informação e comunicação, o que exige da escola a valorização e o desenvolvimento das demais linguagens, ou seja, uma “nova resposta educativa” (KALANTZIS e COPE, 2008, p.198, tradução minha). Assim, é desafio da escola:
[...] ser capaz de ensinar a ler os livros não só como ponto de chegada, mas também de partida para outra alfabetização, a da informática e das multimídias. Isso implica pensar se a escola está formando o cidadão que não só sabe ler livros, mas também noticiários de televisão e hipertextos informáticos (MARTÍN-BARBERO, 2000, p.57).
Diante das transformações ocasionadas pelas TDICs, é preciso desenvolver práticas pedagógicas que proporcionem a leitura, a reflexão, o desenvolvimento das diferentes linguagens, suas conexões e ressignificações e, ainda, aproximem a escola dos diferentes contextos da vida dos alunos.
Para bem aproveitar os diferentes recursos tecnológicos, Moran (2010, p.19) apresenta como princípios metodológicos norteadores a integração de textos escritos com a comunicação oral, hipertextual e “multimídica”, e a experimentação de diferentes tecnologias para realizar a mesma atividade. Esses princípios contribuem para a construção e aprofundamento do conhecimento e para diversificar a dinâmica das aulas, uma vez que a previsibilidade e repetição podem ser obstáculos para a aprendizagem (MORAN, 2010). Além disso, criam condições para a participação ativa dos alunos no processo de exploração das possibilidades (SENA, 2009).
Ao fazer uso das tecnologias é necessário que o professor elabore atividades envolventes, despertando nos alunos o interesse em pesquisar mais informações, em livros, na internet ou em outros meios de comunicação, sobre aquilo que está sendo estudado (MATTAR, 2011). No entanto, é necessária maior interação entre professores e alunos, de modo que todos se sintam responsáveis pelo processo de construção do conhecimento. Como destaca Moran (2010, p. 61), as possibilidades de realização de novas práticas pedagógicas são inúmeras, mas, é importante que elas estejam sempre conectadas com a vida do aluno, seja “[...] pela experiência, pela imagem, pelo som, pela representação (dramatização, simulações), pela multimídia, pela interação on-line e off-line”.
Assim, reforçando apontamentos anteriores, consideramos que inserir as TDICs na escola é muito mais do que utilizar novos recursos para ilustrar os
discursos dos professores. Ao inserir as TDICs na escola é fundamental levar em consideração as transformações ocasionadas pelo desenvolvimento tecnológico, que exigem o desenvolvimento de novas habilidades e novas formas de ensinar e aprender.
Nesse sentido, com o desenvolvimento colaborativo de um software sobre atletismo, pensamos na possibilidade de oferecer aos alunos a aproximação com o universo desta modalidade esportiva por meio de diferentes linguagens. Explorando os recursos disponibilizados no software, é possível, dentre outras coisas: ler sobre o atletismo, visualizar imagens, vídeos e animações, criar novas imagens e vídeos e interagir com elas, vivenciar e criar novos movimentos.
Com a colaboração dos professores na elaboração do software, buscamos reunir e valorizar seus conhecimentos e suas experiências em diferentes realidades. Dessa forma, entendemos que o software possa atender melhor às necessidades dos professores, contribuindo para a superação de dificuldades e incertezas de se trabalhar com o atletismo, além de favorecer à inserção das TDICs na Educação Física Escolar, como também, contribuir para a aprendizagem e interesse dos alunos em relação ao atletismo. Assim, entendemos que a participação dos professores no desenvolvimento do software pode proporcionar mudanças na cultura escolar em relação ao atletismo e às TDICs.
Contudo, para que os professores possam trabalhar com o atletismo e explorar o software e demais tecnologias, de modo a favorecer o uso produtivo, criativo e ético, juntamente com o desenvolvimento do software, realizamos um curso de formação continuada. Com a realização do curso, buscamos incentivar reflexões, diálogos e o desenvolvimento de novas práticas pedagógicas que possam explorar as diferentes linguagens, valorizar o conhecimento dos alunos advindos de outros contextos, favorecer à participação ativa dos alunos e incentivar a busca por novos conhecimentos relacionados ao atletismo.
Nesse sentido, para melhor compreender os benefícios que a inserção das TDICs podem proporcionar à formação do cidadão, desde que sejam desenvolvidas práticas pedagógicas que proporcionem a formação crítica, criativa e ética, consideramos necessário a aproximação com o referencial da mídia-educação, como faremos a seguir.