O conjunto da literatura hekhalot caracteriza-se por seu caráter instrutivo das descrições das experiências místicas. Não há nenhuma indicação de que os praticantes utilizassem drogas psico-ativas para induzir suas experiências visionárias. Tampouco há menção de usar, por exemplo, tambores. Em vez disso encontramos descrições de um conjunto de técnicas ascéticas que envolvem uma auto-negação e purificação ritual. Encontramos um exemplo bastante típico encontramos no fragmento de Sar Torah,403 onde
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Rabi Nehuniah adverte que o adepto, ao chegar ao sexto palácio, será desafiado pelo anjo Dumiel:
(§234, Synopse, p.102-103) E ele repetiu: Diante de ti eu testemunho e te advirto que nenhum descente descende ao palácio, somente aquele que possui estas duas características: ele é um dos que lêem a Tora, os Profetas e as Escrituras, e ele ensina tradições, midrashim, leis, doutrinas e interpretação de leis – ação proibida e permitida; ou ele é um que comprovou todo mandamento negativo que está escrito na Torá e guardou todas as proibições dos estatutos e dos costumes e das instruções que foram ditas a Moises no Sinai.” 400
Rabi Ismael relata que Rabi Aqiba lhe disse que “para toda carne e todo sangue em cujo coração está o louvor de rvzyy yhvh [3435-55*4Q], Deus de Israel, está revelado este grande mistério”. (§547, Synopse, p.204-
205). Cf. também §688, acima, nota 391, p.109. 401
Um discípulo em estado sacerdotal é mais protegido dos assaltos angelicais, mesmo se ele errasse nos rituais, cf. (§681, Synopse, p.251).
402
Cf. DAVILA, Descenders, p.60-73. 403
(§299, Synopse, p.134-135) “Rabi Ismael disse: Assim disse Rabi Aqiba em nome do Rabi Eliezer o Grande: Aquele que quiser unir-se com o Príncipe da Tora deve lavar suas vestes e suas roupas e imergir numa estrita imersão como garantia em caso da polução. E ele deve entrar e morar durante 12 dias num quarto ou num aposento de acima. Não deve sair fora ou entrar, e não deve nem comer nem beber. Mas, de uma tarde para outra tarde, olha se ele come o seu pão, o pão claro de suas próprias mãos, e ele bebe água pura, e ele não prova nenhuma espécie de vegetal.
(§300, Synopse, p.134-135) E ele deve inserir seu midrash do Príncipe da Torá na oração três vezes ao dia; é depois da oração que ele deve rezá-lo desde o seu início até o fim. E posteriormente, ele deve sentar e recitar durante 12 dias, os dias do seu jejum, desde a manhã até à tarde, e não deve ficar silencioso. E em
o objetivo principal do exercício é ganhar o controle sobre o Príncipe da Torá e sobre o os príncipes angelicais, seus seguidores, assim como conseguir o poder dos antigos princípios da Torá, aqui definidos como Bíblia, Mishna e experiência visionária do palácio. Outras prescrições ascéticas semelhantes encontram-se em Hekhalot Zutarti,404 e em Ma‘aseh Merkavah, a visão do reino celestial é associada com a oração de Deus executada num ritual purificador, que traz benefícios para o praticante tanto no presente como na vida futura.405 O próprio Sar Panim é uma coleção de adjurações designada para convocar o Príncipe da Presença e obrigá-lo a revelar os segredos celestiais.406 Também em Merkavah Rabba localizamos vários fragmentos que descrevem diferentes práticas ascéticas.407 A maioria destes fragmentos inclui restrições dietéticas e jejum de um até quarenta dias, vários níveis de auto-isolação, privação sensual, celibato temporário e o interesse em pureza e imersões rituais.408
As práticas ascéticas estão estreitamente unidas com os cânticos, orações e adjurações, e juntos permeiam a literatura hekhalot. Ela abunda daquilo que Scholem chamou de “hinos numinosos”.409 Estes cânticos de poder são mencionados repetidamente nos documentos. Hekhalot Rabbati começa com a pergunta de Rabi Ismael: “O que são estes cânticos que se recita quando alguém busca contemplar a visão do palácio, assim como descer e ascender com segurança?” (§81). A partir dessa pergunta, os cânticos dos anjos aparecem praticamente em todos os livros da coleção. Existe um número incontável
cada hora que terminar, ele deve ficar de pé e adjurar os serventes, assim como o Rei deles, cada um príncipe doze vezes. Depois disso, ele deve adjurar cada um deles com o selo.
(§301, Synopse, p.136) Estes são os nomes deles; Ele deve dizer: (segue uma lista de nomina bárbara, a cada um dos membros é atribuído o nome ‘o príncipe’.)
(§302, Synopse, p.136-137) Ele deve adjurá-los durante doze (dias) em nome de yvpy’l [>25#45], que é
o adorno na altura do seu Rei; e em nome de srby’l [>25WQ`], que é um dos príncipes do palácio; e em nome de
shdry’l [>25Q03a ], que é o príncipe querido; e em nome hsdy’l [>250`'], quem é chamado de força seis horas cada
dia. E ele deve voltar e adjurá-los, os últimos quatro príncipes, com o grande selo e com o grande juramento em nome de ’zbvgh [3@4W*2], que é grande selo, e em nome de tsvrtq [;SQ4O ] um nome santo e uma coroa
temível.
(§303, Synopse, p.136-137) Quando ele completar os doze (dias), ele partirá a todos os princípios da Torá que procura, tanto à Bíblia ou à Mishna, ou à visão do palácio, para onde ele parte numa condição pura e (sai) de uma aflição e de uma grande pena. Para a aprendizagem está em nossas mãos o remédio dos maiores e a tradição dos antigos, que eles escreveram e colocaram para as gerações, para que o humilde faça uso deles.”
404
§§422-424, Synopse, p.181-181. 405
§547, Synopse, p.204-205, e outras instruções: §565; §§572-578, Synopse, p.216-217; 218-219. 406 §§623-639, Synopse, p.236-241. 407 §§659-669, Synopse, p.244-247; §§677-684, Synopse, p.248-251. 408 Cf. DAVILA, Descenders, p.93-114. 409
de hinos merkavah na coleção. O espaço permite citar apenas alguns fragmentos de um deles de Hekhalot Rabbati.410 O poder destes cânticos reside no seu conteúdo. A coleção de hinos em Hekhalot Rabbati é cantada tanto pelo trono de Deus como pelos que descem ao palácio em transe. Os visionários que cantam estes cânticos participam do culto celestial. Os hinos louvam a Deus e comentam sua natureza e glória. Os cânticos também estão prescritos tanto para poder conseguir o poder ritual como experimentar a descida ao
410
Este fragmento de Hekhalot Rabbati aparece ao fim do relato da chegada do descente ao palácio (§§247- 250) e descreve a sua participação na liturgia celestial:
(§251, Synopse, p.110-111) “Tão logo que ficou diante do trono da glória, começou recitar o cântico que o trono da glória canta todos os dias:
Salmo, canção, melodia, bênção, oração, salmodia, louvor, agradecimento, confissão, eminência, música, recitação, regozijo, aclamações, felicidade, alegria, cântico, euforia, humildade, fineza, verdade, justiça, retidão, possessão entesourada, ornamentação, poder, exultação, júbilo, ascensão, sossego, repouso, conforto, facilidade, quietude, paz, repouso, verdade, bondade, amor, beleza, graça, benevolência, beldade, perfeição, magnificência, compaixão, esplendor, radiância, mérito, brilho, epifania, florão, a estrela de madrugada, luz, ramo, elevação, maravilha, salvação, incenso refinado, luminária, atos magnificentes, atos de ajuda, exclamações, vigor, imponência, dignidade, força, governo, valentia, elevação, exaltação, levantamento, poder, potência, valor, santidade, pureza, nitidez, majestade, grandeza, realeza, fulgor, adornamento, glória, e ornamento seja para zhrry’l yhvh, [3435->25QQ3*] Deus de Israel.
(§252, Synopse, p.112-113) Rei ornamentado, engrinaldado com ornamentos, Adornado com bordados de canção,
Engrinaldado com fulgor de glória e adornamento: A grinalda de atos majestosos e a coroa dos atos temíveis. Seu nome é agradável para Ele;
Sua invocação é doce para Ele; Seu trono é ornamentado para Ele; Seu palácio é adornado para Ele; Sua glória é cara para Ele; Seu fulgor é fino para Ele; Seu poder é prazeroso para Ele;
Seus serventes cantam eufoniosamente para Ele; Israel relata a Ele Seu poder e Seus atos maravilhosos.”
(§253... §257, Synopse, p.112-115) “Tu vais reinar eternamente; Teu trono reinará de geração em geração,
Ó Rei cheio de compaixão e de graça, Que os perdoas e os desculpas, És paciente com eles e dominas. Estás adornado com cada cântico (...) Estás declarado santo eternamente; tvtrvsy’y, [525`4Q646]
Rei de todos os mundos, Senhor de obras,
Sábio em todos os mistérios, Governador sobre todas as gerações, O Deus único que é desde eternidade, Rei único Quem é para sempre. Selah.”
palácio.411 Os cânticos em Ma‘aseh Merkavah também louvam Deus, mas, além disso, eles buscam explicitamente o conhecimento da Torá, como também a proteção divina.
Em resumo, o objetivo destas práticas ascéticas é alcançar o conhecimento dos princípios da Torá e da habilidade na experiência da visão do palácio (Sar Torah). Ma‘aseh Merkavah ensina como convocar o Príncipe da Torá, ganhar sabedoria celestial e descer ao palácio.412 Os cinco hinos merkavah no final da obra,413 como também alguns outros hinos neste documento, estão associados com o descenso e a ascensão ao palácio. Merkavah Rabba apresenta significados rituais para ajudar a aprender e lembrar as lições da Torá.414 As práxis em Hekhalot Zutarti estão associadas tanto com a ascensão como com o descenso ao palácio.415 Sar Panim ensina como obter o conhecimento dos segredos celestiais, enquanto Merkavah Rabba416 procura benefícios gerais.417