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A nossa análise do escrito de João de Patmos teve, até agora, diferentes momentos. No primeiro momento olhamos, a partir do método histórico-crítico, para os dois fragmentos escolhidos. Ao perceber uma certa insuficiência desta análise pressupomos um estreito vínculo dos capítulos 6 e 7 com a seção hínica dos capítulos 4 e 5, e recorremos aos textos que poderiam ter servido a João como fontes para a redação de sua visão merkavah. Percebemos que o autor utilizou várias tradições apocalípticas para criar seu próprio cosmos apocalíptico do mundo celestial. Além disso, notamos que esta composição apresenta um caráter litúrgico sem precedentes nos escritos do mesmo gênero. Como conclusão deste passo, julgamos que a identificação das pessoas que estão presentes nas narrativas litúrgicas do Apocalipse não pode ser feita a partir de nenhum termo simbólico arrancado do contexto das imagens litúrgicas transmitidas por João. O método de fazer sobressair algumas palavras recorrentes do escrito, apoiado sobre uma certa teoria histórico-social que fundamenta tal ou tal identificação dos protagonistas dos cultos celestiais, várias vezes não respeita o contexto destas palavras dentro da visão merkavah, herdada, contemplada e retransmitida pelo autor. Portanto, este método não é suficiente para uma definição satisfatória e adequada da identidade da multidão dos humanos no céu.

No segundo passo optamos por utilizar o pressuposto da inspiração mística judaica viva durante quase dez séculos, que influiu no pensamento e escritos judaicos do tempo do Segundo Templo, nos textos hekhalot, como também no gnosticismo e na apocalíptica cristã. Como conclusão do nosso percorrido feito pelos escritos apocalípticos judaicos e cristãos e pela tradição de Qumran, e após uma breve revisão dos escritos hekhalot, afirmamos que os fragmentos do Ap 6 e 7 são testemunhos de práticas e experiências extáticas de grupos de pessoas que participavam do culto celestial. Estes fragmentos foram não apenas relidos a partir de outras fontes apocalípticas e redigidos com o próprio interesse querigmático do autor, mas foram lidos, cantados e enriquecidos pelas experiências de viagens celestiais de grupos proféticos de pessoas durante cultos terrestres. Descobrimos também que, nas experiências místicas registradas nos fragmentos analisados

do Apocalipse de João, podemos perceber certas feições dos viajantes celestiais. Nos seus discursos sobre a visão do mundo que contemplam e definem, eles revelam suas crenças, desafios e expectativas. A partir destes detalhes sutis podemos tentar definir as identidades dos participantes das experiências místicas tão sublimes de estar na proximidade de Deus.

Estamos assombrados pelo conteúdo simbólico das imagens e pelo dinamismo do desenvolvimento das visões do mundo sobrenatural que as narrativas litúrgicas transmitem. Os cânticos e hinos cantados pelas multidões parecem ser cantados e repetidos em cada estrutura dos sete céus. Ao analisar estas imagens parece-nos bastante intrigante o sentido e objetivo destas visões contempladas nos círculos dos visionários. Queremos saber qual foi o impacto social do fato de que João levou a comunidade a participar do culto no templo celestial e, a partir daí, construiu um quadro completo do universo e ofereceu este quadro a certos grupos na Ásia Menor como um critério de interpretação de sua experiência cotidiana.

Abordaremos esta temática a partir de uma hipótese cujos elementos foram sinalados já no primeiro capítulo. Ao mencionarmos a idéia de Afzal430 de que João utiliza a linguagem apocalíptica para representar Deus como Criador e governador, nós acrescentamos que João amplia esta linguagem apocalíptica e escatológica pelas imagens da multidão dos humanos no culto celestial diante de Deus. Esta multidão beneficia-se dos bens paradisíacos, resultados da participação do culto celestial na proximidade de Deus. Agora ampliamos aquela idéia e pressupomos que também o uso profético da imagética do templo, junto com o vocabulário que promete e antecipa a felicidade paradisíaca, estimularam o interesse dos participantes dos cultos celestiais em intensificar seus esforços para realizar o projeto de vida descrito nas visões. Desta maneira, a participação destes tipos de cultos de êxtase ganhou uma função reconstituinte no âmbito da oposição entre as crenças e as experiências cotidianas no mundo absurdo marcado pela existência do mal. O ato do culto comunitário extático ajustava as ações humanas a uma ordem cósmica vivenciada e projetava as imagens da ordem cósmica para o plano da experiência humana. Através da participação do culto celestial, os cristãos passavam da percepção de desordem

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do mundo experimentado como “absurdo” para a convicção e crença da existência de uma ordem existencial de merkavah.

Esta hipótese encontra sua inspiração na definição da religião elaborada por Clifford Geertz, e enfoca, sobretudo, o fato da criação, interpretação e apropriação do conteúdo da imagética contido nas visões do Apocalipse.

Uma religião é: (1) um sistema de símbolos que atua para (2) estabelecer poderosas, penetrantes e duradouras disposições nos homens através da (3) formulação de conceitos de uma ordem de existência geral e (4) vestindo essas conceições com tal aura de fatualidade que (5) as disposições e motivações parecem singularmente realistas.431

É evidente que a nossa idéia da função reconstituinte do culto celestial enfoca principalmente o estabelecimento de determinadas disposições nos seres humanos (2), como também a formulação de conceitos de uma ordem de existência geral (3). Exporemos agora, num breve panorama sobre as teorias da interpretação do Apocalipse de João as razões que nos motivaram para acolher esta hipótese.

Benzer Belgeler