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3.2. Ortamlar ile Donanan Kentler

3.2.2. Kentlerde Açılan Sanal Pencereler

Vários estudiosos definem o mundo do Apocalipse como um mundo de conflitos. Seriam conflitos entre os próprios cristãos, conflitos entre cristãos e judeus, conflitos entre cristãos e representantes de Roma, ou conflitos entre a fé do visionário e sua experiência da sociedade romana.432 Este padrão de interpretação poderia encontrar a sua justificativa se quiséssemos assemelhar o escrito de João àqueles apocalipses judaicos, cuja temática e vocabulário manifestam uma realidade de conflito entre a dominação opressora e Israel. Na opinião de vários estudiosos, a revelação da opressão e destruição, e da promessa da reversão e restauração constituem o coração do gênero de certos apocalipses judaicos da

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GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989, p.67. 432

COLLINS, Adela Yarbro. Apocalypticism in Early Cristianity: the Book of Revelation. In: COLLINS, John Joseph (ed.). Encyclopedia of Apocalypticism, vol. 1. Nova Iorque: Continuum, 1999, p.388-411.

Palestina.433 A idéia de conflito, opressão, destruição e dualismo, sem destacar a completitude da visão universal oferecida por João, ainda seria mais imperante se quiséssemos determinar como leitmotif do escrito o mito do combate cósmico.434 Também o conflito, como palavra chave do Apocalipse de João, ficaria ainda mais evidente se assemelhássemos este escrito do século 1 E. C. aos fragmentos escolhidos seletivamente do Livro de Daniel do século 2 a. E.C., sobretudo, àquelas passagens onde a nação de Israel, identificada com as multidões de anjos liderados por Gabriel e Miguel, luta contra os príncipes da Grécia e Pérsia.435 Entretanto, a nossa percepção do “conflito” no escrito de Daniel é distinta porque consideramos que estas narrativas encontram seu coroamento no fragmento que proclama a ressurreição (Dn 12,1-3).436

A tendência de interpretação do Apocalipse a partir da idéia de conflito deu fundamento para a elaboração de uma teoria tradicional de perseguição. Segundo ela, o escrito de João teria o objetivo de consolar os seus leitores que se encontravam submersos numa perseguição pelo Império Romano no tempo do imperador Domiciano.437 Deste modo, a intenção do autor de motivar os leitores para resistirem às tendências absolutizantes das autoridades romanas já era uma das conclusões de pesquisa mais certas e seguras dos estudos sobre o Novo Testamento, especialmente nos comentários que

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SANDERS, Ed P. The Genre of Palestinian Jewish Apocalypses. In: HELLHOLM, p.455-457. Aqui o autor apresenta 12 escritos cuja peculiaridade é a combinação da revelação com a promessa da restauração e reversão.

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Cf. COLLINS, Adela Yarbro. The Combat Myth in the Book of Revelation. Missoula: Scholars, 1976, p.32-35. Entre outros, também Miranda assume a idéia de Collins e afirma que “a espinha dorsal do esquema do Apocalipse é o movimento temático da perseguição para a salvação, passando pelo combate.”, cf.: MIRANDA, Valtair. Êxodo e Liberdade no Apocalipse de João. In: Uniclar, 7,1. São Paulo: Faculdades Integradas Claretianas, 2005, p.12-14.

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Cf. COLLINS, A. Cosmology, p.10-11; COLLINS, John Joseph. Seers, Sybils and Sages in Hellenistic- Roman Judaism. Leiden etc.: Brill, 2001, p.85-87.

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DELCOR, M. Le Livre de Daniel. Paris: Gabalda, 1971, p.89; segundo Rowland, é a idéia da ressurreição que mais aproxima Daniel ao escrito de João de Patmos, cf. ROWLAND, Open Heaven, p.11-14. Cf. também: COLLINS, Imagination, p.85-115. Cf. também acima, a nossa análise dos elementos comuns entre Daniel e o Apocalipse, cap. I, 8.4.2, p.61.

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MOUNCE, p.31-36, estabelece o tempo do Apocalipse para o período de Domiciano, vinculando-o com sua campanha de perseguição aos cristãos que se negavam a participar do culto imperial. Embora tivesse reservas contra esta datação do Apocalipse, ele cita como autoridade a Introdução de Kümmel (KÜMMEL, Werner Georg. Introduction to the New Testament. Londres: SCM Press, 2ª ed. 1977, obra traduzida posteriormente ao português: KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1982, p.189-240) que afirma que, sob Domiciano, “aconteceu pela primeira vez a perseguição aos cristãos pelo estado no campo religioso”.

utilizavam uma tradição de abordagem a partir da época histórica.438 Esta teoria apóia-se principalmente sobre a história da perseguição pelos imperadores romanos, da qual os cristãos ou eram vítimas diretas ou, pelo menos, estavam bem cientes. Isto inclui a perseguição sangrenta dos cristãos em Roma no tempo do imperador Nero.439 Esta perseguição nerônica marcou interpretações históricas dos imperadores romanos e de seus governos nos tempos posteriores, quando Eusébio descreve Domiciano como “sucessor” de Nero por causa da perseguição dos cristãos.440 Assim começa a história da recepção da perseguição domiciana, identificada com a perseguição nerônica. Portanto, hoje em dia, as referências à perseguição no Apocalipse são facilmente vinculadas com ambos e, conseqüentemente, com uma ação oficial e difundida do Império Romano contra os cristãos.441 Isso levou alguns comentaristas a datar o escrito no tempo de Nero, o que marcou explicitamente este imperador e não Domiciano como candidato principal da autoria da perseguição dos leitores do Apocalipse.442 Além disso, alega-se que o culto imperial também intensificou a percepção da perseguição domiciana.443 A reconstrução histórica do culto imperial normalmente implica a idéia de que este é profundamente ameaçador, levando à perseguição e morte dos cristãos, ou, pelo menos, à sua alienação e segregação social. Portanto, para os defensores desta teoria, também o culto imperial é

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Cf. por exemplo: HARTINGSVELD, Lodevijk van. Revelation. A practical commentary. Grand Rapids: Eerdmans, 1985, 103p.

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Cf. por ejemplo: Suetônio, Nero, 16.2; Tácito, Anais, 15.38,44. 440

Cf. Eusébio, Hist. Eccl., 3.17. 441

Cf. COLLINS, Adela Yarbro. Crisis and Catharsis: the Power of the Apocalypse. Philadelphia: Westminster Press, 1984, 179p. A autora também descreveu sucintamente o trauma que a ação de Nero contra os cristãos criou décadas depois do acontecido. A perspectiva dela é confirmada pela forma em que emergiu a tradição do Nero redivivus. John Collins confirma que a tradição do Nero redivivus está presente nos Oráculos Sibilinos (4.138; 5.28-34, 138-153, 215-224, 363-370), como também em Ap 17,11. Segundo o estudioso, esta tradição foi assimilada pela tradição do Anticristo, cf. COLLINS, John Joseph. From Prophecy to Apocalypticism: The Expectation of the End. In: IDEM (ed.). Encyclopedia of Apocalypticism, vol. 1. Nova Iorque, Continuum, 1999, p.150.

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ROBINSON, John A. T. Redating the New Testament. Philadelphia: Westminster, 1976, p.184; também a informação histórica sobre seu reinado, especialmente tudo que se sabe sobre a sua personalidade abusiva e violenta, foi tomada como uma indicação suficiente de que a perseguição teria acontecido sob o reinado de Nero, cf. AUNE, Revelation 1-5, p.lxvii. Sobre os argumentos a favor da datação do Apocalipse na época de Domiciano, cf. WILSON, John C.: The Problem of the Domitianic Date of Revelation. In: New Testament Studies, 39,4. Cambridge: Cambridge University Press, 1993, p.587-605.

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Cf. SWETE, Henry Barclay. The Apocalypse of John: the Greek text with introduction, notes and indices. Londres: Macmillan, 1908, p.civ-cv; COLLINS, A., Crisis, p.101; KRAYBILL, J. Nelson. Culto e Comércio Imperiais no Apocalipse de João. São Paulo: Paulinas, 2004, p.44.

vinculado com a figura de Domiciano. Por exemplo, Metzger escreve que Domiciano foi o primeiro governador que obrigou cristãos a adorar o imperador.444

Esta teoria de perseguição levou os intérpretes a consagrar o sofrimento e a idealizar o martírio como uma forma segura de salvação e de estar ao lado de Cristo. Uma das variantes desta teoria foi a idéia do martírio individual como parte integral do processo escatológico supra-individual. Segundo alguns, a morte dos mártires aproximaria mais o fim escatológico. Para o Apocalipse, o processo escatológico envolveria a destruição da terra, a tortura e destruição dos habitantes da terra, e o sofrimento e a morte para os mártires.445

Posteriormente, a teoria da perseguição domiciana, como também seus indícios textuais no Apocalipse, têm sido revisados desde o ponto de vista histórico. Um dos contra- argumentos é a falta de evidência de alguma política oficial e ativa de perseguição no tempo de Domiciano e sob sua autoridade.446 Outra razão é a intenção de distorcer a imagem de Domiciano da parte de seus oponentes Tácito, Suetônio e Plínio Menor, que enfocam sua conduta cruel e autocrática a fim de promover a causa dos senadores oponentes.447

Descartada a possibilidade de uma perseguição regular e oficial de Domiciano, a leitura da perseguição nos textos do Apocalipse acontece apenas esporadicamente. Collins alude ao martírio de Antipas (2,13) e afirma que João de Patmos proporciona “apenas um exemplo de repressão esporádica sofrida pelos cristãos nos dois primeiros séculos”.448 Knight vai ainda mais longe e afirma que João não foi exilado, mas foi a Patmos para receber a revelação profética. Ele também revisa a noção geral da perseguição no escrito e assevera que não existe uma linha hermenêutica simples e natural que permitisse passar desde o símbolo do sofrimento usado no texto para uma situação histórica. Segundo ele, a “linguagem [do Apocalipse] é principalmente simbólica e mitológica e não oferece

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METZGER, Bruce M. Breaking the Code: understanding the Book of Revelation. Nashville: Abingdon, 1993, p.15-16.

445

Cf. COLLINS, A., Cosmology and eschatology, p.207-217. 446

Cf., por exemplo, WALL, Robert. Revelation, Peabody: Hendrickson, 1991, p.10. 447

Cf. AUNE, Revelation 1-5, p.lxvii-lxviii. 448

necessariamente uma precisão histórica.”449 Na opinião de Villiers, João, em sua mensagem, transcende seu próprio tempo e sua própria situação histórica, e vê a história como uma passagem dolorosa através dos séculos. Desta maneira, a sua mensagem do sofrimento ultrapassa os limites de uma situação concreta e tem o caráter paradigmático de um mal, de cuja existência os cristãos devem estar conscientes.450

Benzer Belgeler