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SEBEBİ L160111 89 Kadın 1,59m 46kg 18,84 Spondilozis,

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Na primeira parte desse trabalho, apresentei em forma de depoimentos, a trajetória traçada pelos quatro músicos, que possibilitasse identificar como surgiu o interesse pelo rock. Nos quatro depoimentos ficou claro que o simples fato de se interessarem em conhecer o rock, já era um indicador de que havia uma necessidade de ampliar o campo de escuta. Lembrando uma fala do Heberte, “na favela só se ouvia rap, funk e pagode; fico pensando porque fui gostar de rock”.

O acesso à escuta se deu por vias diferentes, através de um irmão mais velho, no caso do Beto e do Robert, na escola através dos colegas vindos de outro contexto sócio-cultural, no caso do Heberte, e através de um amigo de infância, o “Popinho”, na experiência do Edinho. Nos quatro casos havia a consciência de rompimento com um padrão de escuta da favela. No discurso do Beto a intenção em ser diferente em relação à maioria dos habitantes desse contexto fica mais explícita. Uma quase afirmação de que “eu quero ser o diferente na favela”. No Heberte, o desejo de se sentir incluído em um grupo (seus colegas de escola) que manifestava preconceito por quem era de favela, fortalece o interesse pelo gênero; no Robert uma identificação mais explícita com o discurso e postura roqueira, uma necessidade de manifestar indignação, e é, dentre os quatro músicos, o que menos explicita diferenças entre o meio da favela e o resto da cidade nessa opção. A conotação de rebeldia e transgressão presente no rock é externalizada de maneira mais evidente pelo Robert, Beto e Heberte. Para o Edinho era mais uma questão de

superação de limites, porque coincidiu com o período em que estava parando de usar drogas, com necessidade de entrar num outro estilo de vida. Como se pode observar, nesta favela especificamente, os roqueiros são os que não se drogam e são mais intelectualizados.

Renato Russo foi citado pelos três músicos como a influência mais decisiva para o tipo de rock que decidiram fazer, uma identificação com o discurso existencialista do movimento pós-punk. Esse artista representou, principalmente para o Robert, uma espécie de mentor intelectual: passou a seguir os “passos” literários e musicais de seu ídolo. A estética e temática adotada na produção da banda “Pelos de Cachorro” é resultante das incursões literárias do Robert pelo o que denominam de poesia “ultra-romântica” e escuta de bandas inglesas da cena undergrmund. As conexões foram se ampliando a partir daí, quando entraram na rede undergrmund de informações, através de fanzines e sessões de correspondência de revistas especializadas em rock e também através da Internet.

A negritude passa a ser uma questão relevante para eles a partir de uma visão que vem de fora, como manifestações de discriminação racial. A relação com a polícia é a mais citada, quando relatam experiências de violência com agressões físicas gratuitas, o que atribuem ao fato de serem negros e favelados. As reações de estranhamento vindo de pessoas da própria comunidade onde vivem, e também de outros meios, ao verem negros fazendo rock e não pagode, também reforçam a noção de auto-imagem ligada à cor de pele negra. A partir da constatação desse estranhamento é que vieram as construções dos argumentos para justificar e legitimar essa opção. A origem negra do rock é um desses argumentos; mas a defesa mais consistente na minha opinião vem na fala do Heberte: “não vejo

necessidade de justificar nada. Gosto musical não tem nada a ver com a cor da pele”. Indiretamente, ou talvez de forma inconsciente negam a maneira mais comum de se perceber e vivenciar a negritude: pela associação imediata com as raízes africanas ancestrais junto à idéia de brasilidade. Pelo que observei, não se trata de uma atitude deliberada de rejeição às raízes musicais afro-brasileiras. Mas expressa o desejo de mostrar que podem ir além do que o signo da cor da pele invoca no senso comum, e também como afirmação do direito a ter escolhas, a optar em fazer a música que quiserem independente de raça, classe social e nacionalidade. Beto sintetiza bem essa postura com uma pergunta carregada de ironia: “mas quer dizer que ‘música negra’ é restrição?”

Um comentário trazido por Edinho feito por um vizinho seu, me fez sentir a necessidade de buscar uma compreensão de como se deu a consolidação do samba em símbolo de brasilidade. Impressionante observar como quase imediatamente à construção de uma identidade brasileira associada à raça negra e à mestiçagem, vem o repúdio das elites a quaisquer tendências cosmopolitas presentes em cidadãos negros ou mestiços. A apropriação do samba pelas elites, resultando em consolidação de um elemento de cultura marginal em símbolo da nação brasileira, trouxe ironicamente como conseqüência, a expectativa com relação à população de cor negra, de que se comprometa com os sons de suas raízes ancestrais, um certo aprisionamento aos estereótipos associados à raça negra. Para alguns autores, sobretudo para Rita Segato (2005) e Peter Fry (apud Vianna, 1995), a conversão de símbolos étnicos em símbolos nacionais “oculta a situação de dominação racial e torna mais difícil a tarefa de denunciá-la”. Vimos também como as noções de africanidade, brasilidade e negritude estão misturadas nessa noção de

identidade. Só que esses jovens negros brasileiros preferem uma música que não surgiu aqui no Brasil, que tem origem no blues dos negros dos Estados Unidos, e que deixou de ser considerada uma música negra.

Sentem um compromisso em fazer um “resgate”, como gostam de afirmar, dos

valores contidos na origem do rock, uma manifestação vinda do blues, que seguiu um percurso que culminou num “embranquecimento” do gênero. Tanto os meios como os objetivos contidos na ação desses negros roqueiros brasileiros, são em sua essência, profundamente negros. Pude constatar que de forma original estão dando continuidade à sua linhagem africana; música não é concebida como mercadoria, é um misto de lazer, ferramenta política, meio de expressão. O rock feito no morro pode ser interpretado como expressão de apatia e alienação de uma juventude vítima dos processos de massificação. Mas também como um “grito pra ser ouvido”, resposta criativa e sofisticada pela capacidade de surpreender, de inverter a lógica das divisões entre o que é ser pobre e rico, branco e preto, favelado e morador de um bairro de classe alta.

Pois há também um tom de desafio em mostrar que são capazes de romper as “fronteiras simbólicas” que separam o bairro e a favela. Isso fica muito evidente quando disseram que os eventos promovidos pelo Favermck têm a finalidade de um contato com outros jovens que gostam de rock fora da favela, uma espécie de troca de sinais. Querem uma aproximação, mas não querem se sentir discriminados. Fazer um rock de qualidade tornou-se a forma mais inteligente de alcançar esse objetivo.

A pesquisa apontou para a constatação de que o fato de não corresponderem aos estereótipos ligados à raça negra e sua situação sócio-econômica, e de haver

uma intenção em romper com eles, não significa desconsiderar esses dados como informações importantes na compreensão de subjetividades. Não há como negar a forte influência que cada uma dessas características, se é que podemos chamar assim, exercem na formação de sujeitos. O que me interessou compreender foi como se deram essas influências para além dos estereótipos. Os músicos estudados nessa pesquisa são negros e moram em favelas. A forma que a sociedade tende a enxergá-los vem com uma carga de informações já pré- estabelecidas e estáticas. Negros, por exemplo, tocam percussão, são pobres, não possuem instrução, etc. Favelados fazem rap, ou funk, são usuários de droga, ou traficantes, são mal educados, incultos, não dominam nenhuma língua estrangeira, etc., etc. Os quatro músicos não se enquadram num perfil considerado o comum entre jovens moradores de favelas. Mais significativo do que considerá-los como uma exceção à regra, seria percebê-los como sujeitos que apesar de serem impelidos a todo o tempo a serem objetos, reivindicam o direto à subjetividade.

Podemos relacionar a experiência espacial da favela com os processos que envolvem a formação da subjetividade em alguns pontos. O conceito de Labirinto, os labirintos numa favela, com a busca de identidade que não segue uma lógica pré- estabelecida e previsível. Retomemos ao que Paola Jacques disse sobre labirintos: “O estado labiríntico é o de quem vaga, um estado errático, do percurso, da descoberta, da surpresa, da experiência, da multiplicidade e, sobretudo, da liberdade”. Se a construção das cidades parte de uma lógica da árvore raiz, a da favela é a do rizoma. Pode-se fazer aqui um paralelo com a falta de compromisso com a idéia de raiz, aqui especificamente, à idéia de raiz afro-brasileira, no comportamento musical desses jovens. Para eles, ao contrário, interessa ampliar as

possibilidades de fazer conexões novas, isso pode ser visto pelas diversas maneiras como estabelecem contato com o mundo: via Internet, via fanzines, via leitura, via escuta, via cursos de cinema, de artes, de música. As formas rizomáticas como se dão as ocupações de terreno na favela, não previsíveis, múltiplas, não lineares, são como eles: há destreza em visualizar possibilidades novas de “ocupação” e de aproveitar o que os espaços oferecem.

A visão de favela apresentada nesse trabalho foi coerente com a visão que eu tive como pesquisadora a partir também do que meus amigos percebem e me revelam sobre esse lugar. Em alguns momentos ela pode soar como idealização ou uma visão romântica desse contexto social. Favela hoje no Brasil virou sinônimo de violência, tráfico de drogas, ou o lugar onde o poder público e as ONGs exercitam, através dos projetos sociais, maneiras de tirar crianças e jovens da situação de risco social, usando a arte como ferramenta. O que pude constatar, entretanto, é que esses espaços representam muito mais que isso: primeiramente porque é o lugar onde esses jovens nasceram, de onde sentem orgulho, onde estão suas famílias, onde possibilidades expressivas de ação são geradas a todo tempo, onde as convivências são solidárias dentro das adversidades.

Nas letras das canções, Robert, o letrista com maior volume de produção até o momento, não utiliza um tom de denúncia explícita de fatos sociais concretos. O que ele traduz nas suas composições são sentimentos muito profundos que tomam uma dimensão não localizável em nenhuma geografia específica. Naquela sua afirmação (“a favela provoca em mim sentimentos e sensações que são universais”) o que fica evidente é mais que o desejo de se libertar de um enquadramento sensorial, mas a demonstração de que já se sente livre dessas amarras, como cidadão do mundo, do

universo. Apesar do tom melancólico e pessimista presente na estética da banda, seus músicos são pessoas alegres, delicadas e gentis, muito sinceros, capazes de dizer as verdades mais difíceis de se ouvir com muita firmeza e elegância.

Nas observações feitas sobre a canção “La Puta Madre Blues”, onde não tive a pretensão de esgotar as possibilidades de análise, pudemos perceber as influências musicais e literárias presentes na composição; inevitável a associação com a arquitetura presente nas favelas, com a idéia e conceito de “fragmento” apresentado por Paola Jacques. A maneira como a figura materna está presente na temática dessa música, como em outras composições da banda, provocou a associação com traços biográficos de Robert Frank e coincidências com os de Álvares de Azevedo, um poeta de quem ele gosta muito. Mas nesse caso a associação mais relevante me parece a que apontou um dado mais abrangente: o papel que a figura materna vem representando nesses contextos sociais.

Essa canção, como pudemos ver, inaugura uma fase pós FAN, a negritude começa a ser incorporada como um valor positivo. A banda “Pelos de Cachorro” foi a primeira banda de rock a ser selecionada para participar desse evento cultural; entre os organizadores havia dúvidas quanto ao rock ser considerado ou não uma manifestação da cultura negra. A música “La Puta Madre Blues” representa também a primeira mistura intencional com um outro gênero musical: até então queriam fazer um rock “puro”.

Nesse trabalho não falei sobre as performances de palco da banda “Pelos de Cachorro”. Lamentável, porque tenho consciência de que o rock de fato acontece na relação direta entre a banda e seu público, através da expressão e uso de vários códigos na comunicação que se estabelece num show de rock. A descrição de uma

apresentação da banda, ampliaria o campo de possibilidades de compreensão da estética e dos objetivos contidos na trajetória desta banda. O fato de não ter desenvolvido com profundidade essas questões nesse trabalho, não impede que eu transcreva nesse momento conclusivo, uma breve descrição de impressões e sensações que tive assistindo a um show da banda realizado em 2006, no teatro Marília em Belo Horizonte, do tipo daquelas que as fãs costumam escrever em seus diários,: Nm palcm, cincm jmvens cmm guitarras, baixm e bateria, prmduzem uma smnmridade que pmr vezes parece querer rasgar m cmraçãm da gente, pmr mutras sma cmmm um acalantm, mu um hinm religimsm. Em seu cantm, surgem gritms e urrms que nãm nms cmnvidam a dançar; prmvmcam um silêncim interimr, mistm de tristeza, angústia, melancmlia. Dms cincm, quatrm sãm negrms. Dmis estãm de saia, camisa smcial, paletó e gravata, um terceirm se smbressai, pmr estar sem paletó, m brancm reluzente da camisa em cmntraste cmm m negrm de sua pele. O que predmmina sãm tmnalidades fmrtes cmmm pretm e vermelhm, tantm nas rmupas quantm nm jmgm de iluminaçãm dm palcm. O vmcalista tem uma vmz grave, chegandm às vezes a um baixm prmfundm. Canta palavras de dmr: “num infernm minha vida se transfmrmmu ... eu prefirm até mmrrer... nãm me ensine a smrrir ... a verdade é que ms smrrisms nãm vêm para ficar “, fragmentms percebidms de um discursm às vezes imperceptível pelas mutras smnmridades que se smbressaem. Na medida em que vai anunciandm as canções, relata as situações que serviram cmmm fmnte de inspiraçãm. Uma delas, intitulada “Uma mãe chmra smbre m cadáver de seu filhm”, narra uma cena que presenciaram um dia quandm vmltavam para casa, dm encmntrm de uma mãe cmm m filhm assassinadm. O cantm vem gutural, gritadm, smbre base das três guitarras que “chmram”, “gemem”, e para finalizar, um lmngm imprmvism em que as guitarras

dialmgam entre si, cmm smnmridades que remetem a sirenes de ambulância mu de viatura pmlicial, resultandm em textura smnmra de entrelaçamentm de linhas melódicas na regiãm aguda, timbres rascantes prmvmcadms pmr uma livre experimentaçãm dms pedais das guitarras.

Muito do que foi apresentado nesse texto sobre a banda e a vida dos cinco músicos já se alterou. Edinho decidiu que quer entrar na Universidade e se prepara para fazer vestibular no final do ano, para o curso de Licenciatura em Música. Ficou noivo de sua namorada Rosânia, uma bailarina de dança do ventre, no início de 2007. Heberte está gostando muito da nova vida de universitário (está cursando Licenciatura em Música na UEMG), continua um aluno assíduo nas oficinas do Programa Arena da Cultura. Deixou o emprego de agente de saúde da Prefeitura, agora é professor de música do Programa “Fica Vivo”, que funciona próximo à sua casa. Beto está em dúvidas quanto a continuar o curso de Ciências Sociais na PUC, pensa em mudar para algum curso mais ligado à área de tecnologia. Recentemente foi contratado como editor de vídeo da “Associação Imagem Comunitária”, onde trabalha junto com o Robert. Kim está estudando para concursos públicos, preocupado com questões de sobrevivência, mas muito otimista quanto ao futuro da banda “Pelos de Cachorro”.

Um dia antes de escrever a parte final desse texto, recebi a notícia de que Robert não mora mais no Aglomerado da Serra. A casa onde morou desde que nasceu e que seus pais vinham construindo há 40 anos, foi desapropriada pela Prefeitura, porque localizada numa área onde vai passar uma grande avenida, parte de uma das ações de reurbanização da Prefeitura, o Programa “Vila Viva”. Afora o

difícil período de adaptação pelo que passa toda a sua família, está feliz com os novos desafios profissionais: recentemente foi contratado pela “Associação Imagem Comunitária” como monitor de filmagem e edição, onde fica durante todas as manhãs. À tarde vai para “Macacos”, onde iniciou recentemente o trabalho como designer e editor de vídeo do “Instituto Kairós”. Sua namorada Mariana inaugura uma nova vida ao lado da mãe, se mudou para um apartamento bem próximo da vila Cafezal e Marçola. A loja da família dele continua no mesmo lugar, numa das vilas do Aglomerado. A banda, os amigos, também estão lá. Ele me disse que apesar de estar achando difícil se acostumar com o novo lugar, (a casa fica no bairro Céu Azul, na região da Pampulha) vê de forma positiva o fato dessa experiência de mudança de espaço coincidir com mudanças profissionais, e outras mais internas, que ainda estão se processando.

Ouvi-los, acompanhar o dinamismo de suas ações, e os movimentos, e as mudanças durante este tempo em que estive perto deles, sempre me fizeram pensar e aprender muito. Isso tudo me remete a Gilles Deleuze falando sobre subjetividade: ”O sujeito se define por e como um movimento, movimento de desenvolver-se a si mesmo. O que se desenvolve é sujeito. Aí está o único conteúdo que se pode dar à idéia de subjetividade: a mediação, a transcendência”. (Deleuze, 2001, p. 93)

Benzer Belgeler