Nesta seção, discutiremos o planejamento de curso (doravante PC), a primeira dimensão da OGEL, instrumento essencial para o exercício e o desenvolvimento da reflexividade sobre a prática do profissional docente na tomada da sua decisão antes, durante e depois do processo de ensino-aprendizagem de habilidades em LE, como no caso da nossa pesquisa, a leitura em língua inglesa.
O planejamento de ensino ou de curso se insere na hierarquia da terminologia – abordagens, métodos e técnicas defendidos por Richards e Rogers (2001) –, que, da mesma forma que o planejamento, representa ser criações de diferentes contextos que trazem em si o objetivo de atender as necessidades sociais. Buscando elucidar a importância do PC para a construção de uma prática didático-pedagógica mais eficaz para o ensino da LE, teceremos, a seguir, uma breve discussão sobre os conceitos do PC, levando em consideração a sua relevância enquanto exercício de reflexão da ação do professor de línguas e a dinâmica da sua funcionalidade enquanto instrumento que guia o professor e o aluno na complexidade de uma aula de LE.
As pesquisas sobre o PC de ensino da leitura em LE de alunos-professores do último período do curso de Letras, partindo dos estudos teóricos da LA, parecem
ser escassas. Em nossa pesquisa bibliográfica, encontramos apenas algumas investigações sobre os PCs de professores em serviço: Brossi (2008), em sua dissertação de mestrado, investiga as crenças sobre aprendizagem de língua estrangeira (inglês) a partir do planejamento de curso de uma professora em serviço da escola pública. A dissertação de mestrado de Fiidelis (2009) analisa o papel do PC em três escolas públicas do Distrito Federal, também com professores em atividades em salas de aula. O artigo de Assis (2005) é uma adaptação de sua dissertação de mestrado que também investiga o PC de professores em pleno exercício. Simione (2006) é outro trabalho sobre planejamento de LE com dez professores da rede pública de Salvador.
Alguns trabalhos de linguistas apontam a importância de entender e planejar
o ensino de línguas: UR (1991), Harmer (1991), Prabhu (1992), Woods (1996),
Nunan (1999), Brown (2000), Almeida Filho (1989, 1997a, 2005a, 2008), Woodward
(2001), Richards e Rogers (2001) e outros. A nossa discussão sobre o PC parte
desses trabalhos.
Alguns pesquisadores do processo de ensino-aprendizagem da LE situam o PC como uma ferramenta eficiente para atingir resultados positivos no ensino de
línguas. Richard e Rogers (2001), ao abordarem a composição teórica de um
método, mencionam o planejamento como o ponto determinante da sua organização, visto que, a partir dele, é que se definem os conteúdos, a tomada de decisões sobre os objetivos da aprendizagem, os procedimentos didáticos, os tipos de tarefas, os materiais que devem ser usados nos cursos e a avaliação desse processo. O plano é a materialização dos objetivos que se pretende alcançar na execução do método.
Nunan (2001) também considera o PC, intimamente ligado ao método, como o ponto de partida para a tomada de decisões do que se vai utilizar no processo de ensino-aprendizagem. Abordando a inadequação do método, defende a ideia de que nunca houve e nem haverá procedimentos metodológicos adequados que atendam todos os contextos. Para o autor, atualmente, a tendência se volta para a preparação de atividades conforme o suporte teórico que norteia o ensino de línguas de acordo com a realidade específica do que vai ser ensinado. Julgamos ser esse mais um dos motivos para que a aula de LE seja planejada.
Diferentemente desses pesquisadores, Almeida Filho (2005b, p. 35)
esclarece a noção de método como “as reconhecíveis práticas de ensino de línguas
com seus respectivos correlatos, a saber, os planejamentos das unidades, os materiais de ensino produzidos e as formas de avaliação do rendimento dos aprendizes”. Define o método com um caráter mais restrito do que expresso pelos autores anteriores.
O planejamento ocupa o primeiro lugar das quatro dimensões da Operação Global de Ensino de Línguas, já discutidas anteriormente e que aqui retomamos as suas fases: o planejamento das unidades de um determinado curso; a produção de materiais de ensino ou levantamento e seleção deles; as experiências na, com e sobre a língua-alvo realizadas com os aprendizes dentro e fora da sala de aula; e a avaliação de rendimento dos alunos. Essas são as quatro tarefas básicas para o professor que se propõe a ensinar uma dada L-alvo.
Nesta pesquisa, defendemos e situamos o PC a partir de uma visão centrada na cultura de ensinar e aprender línguas na LA: “O planejamento é um dos requisitos necessários para que uma operação formal de aprendizagem e de ensino de língua seja realizada” (ALMEIDA FILHO, 2008, p. 1). Além disso, é documento indispensável para a formulação do que se pretende colocar em prática.
O planejamento, enquanto requisito de uma operação de ensino, deve ser
construído a partir do conhecimento da realidade e das necessidades dos aprendizes. A esse respeito Kuenzer (2001, p. 63) advoga que "Toda forma de conhecer uma realidade, para nela intervir, pressupõe uma determinada concepção desta realidade". Nessa perspectiva, para ter conhecimento da realidade dos indivíduos inseridos em contexto de aprendizagem, faz-se necessário planejar o que se propõe ensinar.
Partindo dessa percepção, a nosso ver, a adequação do planejamento ao público aprendiz deve estar assentada em um conjunto de elementos objetivos que abarque as diferentes necessidades e contextos desse público, dos docentes, dos cursos e da instituição. Nesse contexto, o plano de curso deve ser o guia do docente.
De acordo com Miranda (2005), o conjunto das teorias que envolve a linguagem e a aprendizagem, formando a base de uma abordagem, não especifica
os direcionamentos para colocar em prática um método em ação. Por isso, faz-se necessário construir um planejamento para o desenvolvimento didático de ensino de uma LE. Dito de outro modo,
O planejamento estabelece a relação entre a abordagem e os procedimentos. Nele, são apresentados os objetivos, a escolha e organização de conteúdos, os tipos de aprendizagem e atividades de ensino, os papéis do aprendiz, do professor e do material didático. A realização desse planejamento é alcançada por meio dos procedimentos (MIRANDA, 2005, p. 29-30).
Essa definição revela o PC enquanto elemento materializador dos princípios práticos de uma abordagem, convergindo para os pressupostos de Almeida Filho (2005b) já explicitados neste referencial teórico.
Miranda (2005) explica ainda que os procedimentos englobam as técnicas, as práticas e os comportamentos esperados nos eventos de ensino de uma LE e obedecem a um dado método. É “neste nível que o método põe em prática a sua abordagem e o seu planejamento na sala de aula” (ALMEIDA FILHO, 2005a, p. 30).
Partindo dessa reflexão rumo à compreensão do ato de planejar, buscamos em Padilha (2001, p. 30) uma contribuição da área pedagógica sobre o conceito do PC. O autor o define como atividade de reflexão, ponto de partida para tomada de decisões sobre a ação, meio pelo qual se podem prever as necessidades e o raciocínio crítico ao empregar os procedimentos didáticos disponíveis, como materiais, recursos humanos e conhecimentos na busca da realização das metas, dentro dos prazos e das etapas definidos a partir das avaliações.