Ao longo deste capítulo buscamos evidenciar como e quando o tema do trabalho escravo surgiu na indústria de confecções. Ele aparece relacionado a migrantes transnacionais oriundos de países vizinhos do Brasil. O trabalho de migrantes na indústria de confecções remonta à própria história do setor, mas foi a partir da vinda dos coreanos, nos anos 1960 e 1970, que a produção passou a se dar predominantemente através das oficinas de costura, tal como se organiza atualmente. No início, os próprios coreanos contratavam e mobilizavam outros conterrâneos para ocuparem os postos de trabalho. A partir dos anos 1980, os coreanos passam a contratar bolivianos, paraguaios e peruanos para trabalharem como costureiros e passam a se dedicar ao design das peças e às vendas. Nos anos 1990, de forma cada vez mais intensa, os coreanos deixam de ser proprietários de oficinas de costura, livrando-se da gestão da produção, tanto para diminuírem custos fixos, como para se distanciarem da responsabilidade pelas condições de trabalho. Passam a se dedicar à fase mais lucrativa da cadeia: a comercialização. Nesse período, praticamente todos os diferentes tipos de segmentos produtivos do setor da indústria de
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confecções, das grifes e marcas famosas aos grandes varejistas, passam a utilizar das oficinas subcontratadas para gerirem sua produção de forma adequada ao novo período econômico que se abria.
Enquanto o movimento de reestruturação econômica favorecia a multiplicação das oficinas, começam a aparecer os primeiros casos de denúncia de condições precaríssimas de trabalho, muitas vezes relacionadas ao tráfico de pessoas, que foram caracterizadas como condição análoga à de escravo. Ainda que não houvesse esse tipo de denúncia em relação ao trabalho desempenhado por costureiros coreanos, com a substituição da força de trabalho desses migrantes pelos bolivianos, paraguaios e peruanos, começam a pulular as denúncias a partir de meados dos anos 1990, mais intensamente nos anos 2000.
A definição legal do que seria trabalho escravo, formatada em 1926 em convenção da Liga das Nações, foi atualizada diversas vezes ao longo do século passado. Não se tratava mais da relação jurídica que torna as pessoas propriedades de alguém, mas sim das condições de trabalho a que eram submetidos os trabalhadores, os exercícios do atributo
do direito de propriedade. Os tratados internacionais e o Código Penal Brasileiro definem
que reduzir alguém à condição análoga à de escravo não é simplesmente uma infração trabalhista, mas um crime contra a pessoa e contra a humanidade.
Pelas notícias veiculadas, conseguimos demonstrar como a atuação de agentes do Estado em relação aos migrantes da costura se transformou ao longo dos últimos 25 anos. Assim como ocorria com os primeiros casos de denúncias de trabalho escravo no campo, em regiões afastadas do Brasil, ainda nos anos 1960, a responsabilização recaía sobre as pessoas que lidavam diretamente com os trabalhadores, ainda que fossem empregados intermediários e não os principais beneficiados da exploração dos trabalhadores. Naquele contexto, responsabilizavam-se os motoristas dos caminhões que transportavam os trabalhadores e os arregimentadores (ESTERCI, 2008). Mostramos como o debate sobre o trabalho escravo no Brasil começou a partir das denúncias no campo, majoritariamente levadas a cabo pela CPT e sindicatos rurais.
Após a redemocratização, o debate sobre o tema passa a ocorrer em outro nível. Aumenta o número de mobilizações e de atores imbricados no combate e erradicação deste crime. Progressivamente, os governos eleitos passam a pautar o tema, concatenados e pressionados por organismos internacionais, como a OIT e ONGs, além das pressões em nível nacional realizada por movimentos sociais. Nesse período, o Brasil torna-se uma das referências mundiais em relação ao combate ao trabalho escravo, sobretudo em sua modalidade rural. O acúmulo das práticas de fiscalização do trabalho
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rural passam a impactar as ações nas cidades, que se referem, sobretudo, ao combate ao trabalho escravo na indústria de confecções e na construção civil.
Quanto aos migrantes da costura, até meados dos anos 2000, as ações tinham cunho estritamente policial. Tanto a Polícia Federal quanto a Polícia Civil faziam fiscalizações e prendiam os donos das oficinas quando identificavam condições que pudessem caracterizar a redução a condições análogas à de escravo. Segundo Rossi (2005), em 2003, MPT, MTE e PF fizeram uma força tarefa para fiscalizar as oficinas. Com a presença da PF, as autuações terminavam na incriminação dos próprios migrantes, segu doà elatouàaàp o u ado aàdoàt a alhoàVe aàCa losà ua doà o à hega aàl à o àaà diligência, você tinha que prender todo mundo porque eles estavam em uma condição
ilegal, e eles iam para a Polícia Federal 133 (CARLOS apud ROSSI, 2005, p. 35). Rossi relata
uma diligência realizada por Vera Carlos, em que todos os migrantes terminaram presos. Neste caso, percebeu-se que os tomadores da mão de obra ficaram mais fortes ainda, pois a possibilidade da prisão, aspecto que era utilizado como ameaça, efetivou-se como prática. O procedimento adotado até meados dos anos 2000 era o de responsabilizar o dono da oficina em que se encontrava a infração criminal, ele era preso e o MTE lacrava a oficina de costura. Além disso, para aqueles migrantes que estivessem em situação irregular no Brasil, eram expedidas notificações para que deixassem o território nacional em até oito dias. Caso os migrantes fossem encontrados após o prazo estabelecido, segundo o Estatuto do Estrangeiro, deveriam ser deportados (não conseguimos colher nenhum relato ou notícia de deportação que confirmasse a aplicação da lei).
Tendo em vista o encaminhamento padrão adotado, em 2004 os atores envolvidos no combate à prática da escravidão avaliaram que não seria possível seguir com as autuações tal como estavam. Assim, acordaram com a Polícia Federal que a sua participação ocorreria apenas para fazer a segurança dos servidores públicos, não para autuarem os migrantes. Nesse momento, as fiscalizações estavam começando a mudar de estratégia, iniciava-se o entendimento de que a fiscalização seria eficaz se responsabilizasse o tomador forte da cadeia, isto é, a empresa responsável pela comercialização.
O primeiro passo para a cristalização desse novo entendimento se deu com a CPI do Trabalho Escravo, instalada em março de 2005 e com publicação do relatório final em fevereiro de 2006. Concluiu-se que havia a necessidade de estabelecer a responsabilidade
133àU aàdis uss oà ueà oà a eàaàestaàpes uisaà efe e-seà àdefi iç oàdeà ig a teàilegal,à la desti oàouài egula .àOpta osàpo à
utiliza à aà e p ess oà i egula ,à ueà pa e eà se à oà te oà ueà e osà efo çaà estig as.à áà ideiaà deà i egula idadeà ,à e à ge al,à p o ta e teàasso iadaà àpossi ilidadeàdeà egula izaç o.à
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jurídica entre as empresas que comercializam itens de vestuário e suas fornecedoras. Quando eram encontradas oficinas que produziam sob condições análogas à de escravo numa cadeia em que a produção passava por uma confecção intermediária (cadeia longa), não se conseguia responsabilizar a tomadora do serviço pela situação encontrada. Assim, a CPI sugere um projeto de lei em âmbito municipal que exija, para a expedição do alvará de funcionamento do estabelecimento comercial, que a empresa tomadora certifique-se da procedência de seus produtos e que garanta que não haja trabalho irregular em qualquer fase do processo de produção das mercadorias por ela vendidas. Além disso, a CPI sugere
aà iaç oàdaà a pa haà “eloàdeàP o ed iaàGa a tida .à
Trata-se de iniciativa baseada em método atualmente usual, através do qual associam-se o interesse de empresas na propaganda positiva provocada pela certificação de seus produtos, promovida por entidades com credibilidade social, ao risco de exposição negativa nos meios de comunicação. (CPI TRABALHO ESCRAVO, 2006, p. 57).
Para além desses aspectos, a CPI sugeria outras ações que seriam realizadas pela Prefeitura, de cunho mais difuso, para auxiliar na inserção do migrante na sociedade paulistana: atendimento de saúde especializado para os migrantes da costura; oferecimento de cursos de português gratuito; campanhas sobre direitos e deveres dos migrantes; criação do Centro de Apoio ao Migrante; fomento ao cooperativismo; criação de cadastro dos empregadores que tivessem mantido trabalhadores em condição análoga ao de escravo, aos moldes da Lista Suja do MTE; incremento das fiscalizações. Além dessas ações, a CPI sugere uma série de medidas a outros órgãos e instâncias públicas de poder, dentre as quais: o apoio à PEC que estabelece a expropriação de propriedades em que se identificava trabalho análogo ao de escravo; que o MPT exija o pagamento das indenizações trabalhistas aos trabalhadores explorados, independente da condição migratória.
A partir da CPI e da mobilização de diversos atores na erradicação do trabalho escravo na indústria de confecções, em junho de 2007, constituiu-se um grupo, coordenado pela Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (representante do MTE àe à“ oàPaulo,àde o i adoàdeà Dig idadeàpa aàoàt a alhado à ig a te .àOàg upoàe aà composto por MPT, MTE, MJ, PMSP, DPU, sindicatos patronais e de trabalhadores, centrais sindicais, Serviço Pastoral do Migrante, Missão Paz, Associações de Migrantes Bolivianos, Paraguaios e Coreanos, associações de lojistas, C&A, Renner, Riachuelo e Marisa, o Instituto Observatório Social e a ONG Repórter Brasil. O grupo publicou, em
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Cadeia Produtiva das Confecções. O documento foi importante para consolidar de modo ainda mais substantivo o novo entendimento, de que as fiscalizações deveriam ocorrer em outro patamar, não mais responsabilizando os costureiros e donos de confecções, mas rastreando o restante da cadeia, imputando à tomadora final a responsabilidade pelas condições encontradas. Os desdobramentos dessa mudança na fiscalização serão analisados pormenorizadamente através do estudo de caso, no próximo capítulo.
As pesquisas sobre os migrantes da costura, em especial os bolivianos, multiplicaram-se na academia justamente depois de 2004, quando do início da mudança de estratégia do MTE. Nesse mesmo momento, a imprensa passou a pautar cada vez mais os casos de trabalho escravo na indústria de confecções. A ONG Repórter Brasil começou a fazer cobertura jornalística aprofundada sobre os casos e pautar cada vez mais o tema na imprensa. Outro fator conjuntural que ajuda a explicar o aumento de pesquisas e notícias sobre a temática refere-se ao incremento do fluxo de migrantes da costura para São Paulo a partir da crise da Argentina, iniciada no começo do século. Este país é, ainda hoje, o principal destino migratório das populações boliviana e paraguaia, que, com a crise argentina, passaram a buscar o Brasil como alternativa.
Pode-se afirmar que a miríade de pesquisas que trata dos migrantes da costura
tematiza a questão do trabalho escravo sob duas abordagens distintas134. De um lado,
pesquisadores diagnosticam que o trabalho escravo é um dos problemas mais graves que assola os migrantes em solo brasileiro, e que a invisibilidade e a clandestinidade (isto é, a não regularização da situação migratória no país) servem para acentuar o caráter da opressão vivida por eles. Esses estudos frisam os aspectos relacionados à ausência da garantia de direitos dos migrantes. Eles assumem o trabalho escravo como uma categoria política e analítica, que serve para melhor elucidar a problemática forma de inserção dos migrantes da costura na economia urbana da região metropolitana de São Paulo (MAGALHÃES, 2010; HIRSCH, 2008; CACCIAMALI e AZEVEDO, 2006; ROSSI, 2005; AZEVEDO, 2005; Mc GRATH, 2010; MAZZOCANTE, 2008; BIGNAMI, 2011; dentre outros).
No outro polo, há pesquisas que preferem se distanciar da ideia de trabalho escravo como uma categoria analítica e explicativa, pois almejam evitar o problema da
estigmatização do migra teà o oà se doà es a o-ilegal-i isí el .à Istoà ,à iti a à aà
postura que acaba por generalizar e criar uma identidade sobre os migrantes que afirme um caráter pejorativo à experiência migratória (XAVIER, 2010; FREIRE, 2008; SOUCHAUD,
134àO ia e te,à adaàu aàdessasàa o dage sàte àsuasàespe ifi idadesàeàt ataàoàte aàdeà odoàdife e iado,àa uiàfaze osà e toà
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2012; CAMPOS, 2009; SILVA, 2006). Tais perspectivas não afirmam que não haja exploração, ou que não haja situações em que as condições de trabalho dos migrantes sejam exaustivas, ou mesmo que não haja dívidas em que os migrantes se veem presos ao contratante; as pesquisas apontam que a situação migratória os mantém em situação de vulnerabilidade. No entanto, o que buscam é não repor uma categorização ou um estigma, que vem pesando sobre os ombros dos migrantes em seu cotidiano. Em oposição à
categoria escravo, eles preferem utilizar a de trabalho indigno135, tal como afirma a Missão
Paz, ou a noção mais sociológica de superexploração do trabalho. Ambas as perspectivas concordam que a inserção dos migrantes em São Paulo, muitas vezes, é precária e que sofrem inúmeras violações que afrontam os protocolos e tratados internacionais sobre os direitos humanos dos quais o país é signatário.
A maior parte das vezes que o trabalho escravo é tematizado como estigma, trata- se quase exclusivamente de abordagem que toma como referência os migrantes com biótipo da população indígena do altiplano andino. Em geral, fala-se em bolivianos, no entanto, muitos peruanos, que apresentam traços físicos típicos dessa região, são identificados no Brasil como bolivianos e, nesse sentido, podem também ser estigmatizados como escravos. No trabalho de campo realizado com paraguaios não se pôde perceber qualquer estigma que imputasse a essa população a caracterização de escravos. O estigma sofrido pelos paraguaios, em geral, refere-se à ideia de falsidade, inautenticidade e pirataria.
Sidney Antônio da Silva publicou uma pesquisa pioneira em 1997, referência para todos que tematizam os bolivianos em São Paulo. Com o trabalho de campo realizado entre 1992 e 1995, o autor aborda aprofundadamente um grupo de bolivianos em São Paulo. No estudo, o estigma de escravo não é citado por Silva, uma vez que a ideia não era
difu didaà o oà passouà aà se à osà a osà .à “il aà po tuaà ueà aà d adaà deà ,à oà
estigma social mais recorrente e que se apresenta como um desafio aos bolivianos de todas as classes sociais, e particularmente para os costureiros, é o relacionado com o
p o le aàdaàd oga,àe,à o se ue te e te,à o àoàdoà o t a a do. à “ILVá,à ,àp.à .à
Ele identifica ainda a estigmatização social sofrida devido à pobreza mate ial,à à po ezaà
ultu al ,àaoà o su oàdeà l ool,àaoàestig aà t i oàouà a ialàeàaoàestig aà ela io adoàaoà a te à ju ídi oà dessesà ig a tes,à istoà ueà oàEstadoà B asilei oà ide tifi aàosà i ig a tesà ilegais ou clandestinos como infratores, e que, portanto, devem ser punidos por tal
i e . à “ILVá,à ,àp.à .à
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J àe àestudoàpu li adoàe à ,à“il aà o side aà ueà [oà e o he i e toàso ialàdoà
migrante boliviano] depende da desconstrução da imagem negativa que foi se construindo ao longo dos anos 1990 (...). Esses são associados com frequência ao trabalho escravo e ao
tráfico de mão-de-o aà pa aà asà ofi i asà deà ostu a. à “ILVá,à ,à p.à .à Noà es oà
texto, apesar de criticar o estigma, Silva utiliza a noção trabalho escravo como categoria
explicativa e afi aà ueà e à algu sà asos,à aà e plo aç oà hegaà aoà seuà li ite,à
transformando-os em escravos. O esquema de subjugação imposto pelos oficinistas consiste na retenção dos seus documentos, na proibição de sair nos fins de semana e no
exaustivo regime de trabalhoài postoàaosàt a alhado es as . à “ILVá,à ,àp.à .à
Percebe-se uma mudança na forma como o autor tematiza a questão. Se nos anos 1990 ele não utiliza o termo trabalho escravo para explicar a migração boliviana em São Paulo, ou mesmo se ele não diz que essa noção era um estigma que havia sido construído sobre os bolivianos, isso demonstra como o debate sobre trabalho escravo era incipiente à época, isto é, ainda não havia se tornado uma questão ou um problema propriamente sociológico a se compreender. A partir do final dos anos 1990, aumentam as denúncias de trabalho escravo, em geral relacionada a bolivianos, e, ao mesmo tempo, aumentam as críticas que frisam a ideia de um estigma que recai sobre os migrantes.
Mais do que definir o que seja o trabalho escravo, ou em condições análogas ao de escravo, o que se buscou fazer neste capítulo foi definir como e quando o tema aparece e toma relevância central no debate sobre os migrantes da costura. Compreendendo a força que a nominação trabalho escravo tem sobre os migrantes da costura, em especial os bolivianos, e os estigmas que decorrem da utilização do termo, não pretendemos repor o conceito como categoria explicativa, pois poderíamos estar operando no sentido de reforçar o estigma e suas consequências discriminatórias que eles relatam. Por outro lado, evidenciamos como a noção surge como um termo de luta, político, empregado por atores que buscam defender os trabalhadores frente aos processos de flexibilização da economia e de superexploração do trabalho. Junto a isso, evidenciamos as histórias e trajetórias de alguns migrantes para auxiliar a compreensão do que vem sendo descrito pelos atores do Estado, de empresas e de ONGs como situações que compõe a ideia de trabalho escravo.
Ao longo do capítulo, não se buscou arbitrar o que seria a escravidão contemporânea na indústria de confecções, mas evidenciar as relações da nominação
trabalho escravo com a constituição do dispositivo de mobilização de força de trabalho,
isto é, as oficinas, que são, ademais, um dispositivo circulatório, pois fazem os migrantes circularem e se territorializar na RMSP. O que vem sendo descrito como trabalho escravo
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na indústria de confecções é exatamente o modo como se estrutura a oficina de costura de migrantes. Ao construirmos a argumentação relacionando o trabalho escravo ao modo como se estrutura o setor, em especial a forma que as oficinas de costura funcionam, buscamos sair da chave analítica que olha, de um lado, os migrantes entre as redes criminosas do trabalho escravo e, de outro, a possibilidade da ascensão social. Não se trata de considerar os atores em suas trajetórias entre os extremos, mas compreender a racionalidade que conforma a oficina de costura como, ao mesmo tempo, dispositivo circulatório e de exploração de força de trabalho. No próximo capítulo, a partir do estudo de caso, poderemos aprofundar a análise de como o trabalho escravo aparece como um dispositivo de gestão dos migrantes na RMSP, que ao mesmo tempo em que busca proteger o trabalho, almeja controlar os fluxos e conduzir a conduta dos migrantes em São Paulo.
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