A manutenção periódica dos veículos motorizados é uma ferramenta importante para o controle de emissões de poluentes. Os veículos mais velhos, aqueles sem uma manutenção adequada, emitem muito mais poluentes na atmosfera, apesar desse valor não ter sido quantificado ainda no país em função da ausência de programas de inspeção veiculares já maturados e, portanto, passíveis de avaliação (CARVALHO 2011).
O Código de Trânsito Brasileiro – CTB – dispôs no artigo 104 a obrigatoriedade da inspeção dos veículos em circulação, responsabilizando o Conselho Nacional de Trânsito – Contran – e o Conselho Nacional de Meio Ambiente – CONAMA – pela definição da forma e periodicidade da medida. Por falta de regulamentação, até hoje a inspeção veicular não se tornou obrigatória no Brasil, com exceção das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro que criaram legislações próprias.
O Conama editou a Resolução nº 418/2009, estabelecendo prazo de 12 meses para que os estados e municípios com frota superior a 3 milhões de veículos elaborem um Plano de Controle de Poluição Veicular – PCPV, caracterizando as
alternativas de ações de gestão e controle da emissão de poluentes e do consumo de combustíveis.
No final de 2007, teve início na cidade de São Paulo, o Programa de Inspeção Veicular Ambiental, que faz parte do Programa de Inspeção e Manutenção de Veículos em Uso – I/M, medida regulamentada pelo CONAMA. O programa tem como objetivo mitigar o aumento da emissão de poluentes que ocorre devido o desgaste dos veículos com o uso ou devido a modificações não autorizadas (retirada do catalisador, por exemplo), visando estimular seus proprietários a fazerem a manutenção adequada e manter as emissões de seus veículos dentro dos padrões recomendados pelo CONAMA.
De acordo com o Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, estima-se que cerca de 10% das mortes de idosos, 7% da mortandade infantil e de 15 a 20% das internações de crianças por doenças respiratórias estejam relacionadas com as variações da poluição atmosférica. Em dias de grande contaminação do ar o risco de morte por doenças do pulmão e do coração aumenta em até 12%. Os moradores de São Paulo vivem em média um ano e meio a menos do que pessoas que moram em cidades de ar mais limpo (SALDIVA 2008).
O Programa I/M vinha sendo implantado pela Prefeitura gradativamente: em 2008 começou com toda a frota a diesel registrada na cidade. Em 2009 passaram pela inspeção todos os veículos diesel, todas as motos (exceto as de 2 tempos) e também os carros movidos a álcool, gás ou gasolina registrados na cidade de São Paulo entre 2003 e 2008. E a previsão era de que em 2014 o programa atingisse 100% da frota – aproximadamente 6,5 milhões de veículos – que seria convocada para realizar a inspeção, completando assim o ciclo da progressividade da implantação (PMSP 2009).
Contudo, recentemente, a administração municipal aprovou a Lei nº 15.688/13, que modifica substancialmente o Programa I/M, o que deve reduzir sua eficácia a partir de 2014, quando entrar em vigor. Uma das medidas da nova lei, que exige especial atenção, é a possibilidade de se substituir o modelo atual de inspeção, realizada em centros que somente desenvolvem essa atividade, em condições
padronizadas e com rigor técnico, pela inspeção em oficinas mecânicas que podem apresentar dificuldades em atender as mesmas características.
Outra medida preocupante é a alteração da periodicidade da inspeção de automóveis e veículos comerciais leves de anual para bienal, inclusive para motocicletas, o que, na prática, pode representar uma “licença para aumento da poluição atmosférica e sonora”, uma vez que veículos desregulados poderão circular por mais tempo sem necessidade de sanar o problema6 (AFEEVAS 2013). Para justificar essa nova abordagem, a alegação é de que diversos países adotam a periodicidade bienal. Porém, é necessário destacar que isso só acontece pelo fato de que o uso dos veículos nesses países não é tão intenso como no Brasil, pois contam com sistemas de transporte coletivo muito mais desenvolvidos, o que contribui para reduzir o desgaste dos veículos e, consequentemente, limitar o aumento de emissão (AFEEVAS 2013). Cabe ainda mencionar como fatores negativos para a manutenção da frota brasileira, a qualidade da pavimentação das cidades e estradas brasileiras, a permanente existência de congestionamentos, bem como a qualidade dos combustíveis utilizados, entre outros fatores característicos das condições oferecidas pela cidade aos seus habitantes. Além disso, em países desenvolvidos, como a Alemanha por exemplo, existe uma longa tradição de inspeção veicular, inclusive para itens de segurança (freios, suspensão, pneus), que somado à qualidade da pavimentação e dos combustíveis, contribui para uma manutenção mais equilibrada e conhecida de suas frotas, permitindo adoção de outras periodicidades em função de seus indicadores de qualidade ambiental e de vida.
Infelizmente, mesmo com todos os trabalhos científicos que atestam que a poluição do ar e sonora causam danos ao meio ambiente e à saúde humana, a nova lei não foi debatida tecnicamente nem houve ampla participação da sociedade civil organizada, com raras exceções. Percebe-se mais uma vez que razões de cunho político foram preponderantes aos fatores técnicos na definição de normas de interesse da qualidade de vida dos habitantes da cidade de São Paulo.
6. Vídeo da Associação dos Fabricantes de Equipamentos para controle de emissões
veiculares da América do Sul – AFEEVAS – disponível em
Cumpre ressaltar que a existência de um sistema de inspeção veicular efetivo contribui para melhoria da qualidade da manutenção da frota, e consequentemente, auxilia significativamente para a redução das emissões de GEE, entre outros benefícios.