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confere uma existência subjetiva, ou seja, consciência e rememoração. Assim, os processos psíquicos – enquanto inconscientes – não participam deste domínio subjetivo; por mais que tenham sua existência e eficácia conferida no plano econômico e representacional (enquanto estrutura e não qualidade), nesse trabalho, Freud ainda não lhes confere o estatuto de realidade psíquica. A realidade dos eventos externos mantém o foco das considerações, isto por razões que já discutimos a respeito da defesa por parte de Freud da importância e da significação dos fatores adquiridos na etiologia das neuroses.

Capitulo 5

Psicopatologia e os processos primários póstumos

5.1 Os sonhos: desejo e alucinação onírica

Quanto ao aparelho assim consolidado, cujas facilitações e processos se organizam em ordem crescente de complexidade exigindo um ajustamento permanente de suas funções secundárias, é preciso ponderar o fato de que: mesmo tendo sido inibido pelo desenvolvimento de psi, o processo primário segue sendo capaz, sob certas condições, de voltar a influenciar o decurso dos processos tal como era efetivo antes da consolidação do eu e dos processos secundários. Um dos fenômenos que exibem as condições propícias ao retorno deste modo de operação é o sonho, um processo normal; outro é o sintoma, um processo psicopatológico, ambos concebidos enquanto processos primários póstumos, ou seja,

que ocorrem após a constituição do eu. A análise do processo onírico, segundo Freud, é um recurso técnico e teórico que permite avançar no exame e na elucidação dos processos que envolvem a formação dos sintomas, possibilitando com isso o ajustamento de seu esquema psíquico aos dados da observação clínica da qual ele partiu.

Freud afirma que o estado de sono, como se pode observar na criança, se estabelece com a condição de que não haja nenhum carecimento ou estímulo externo. A criança adormece com a satisfação (no seio) assim como o adulto adormece post coenam et coitum. (FREUD, 1988h, p.381). Incorporada à teoria:

A condição do dormir, é assim, o decréscimo da carga endógena no núcleo de

psi, que torna supérflua a função secundária. No dormir, o indivíduo está no

estado ideal de inércia, isento do armazenamento de Qn. No adulto, este armazenamento está reunido dentro do “eu”, temos o direito de supor que a descarga do eu é que condiciona e caracteriza o dormir. E como de imediato se esclarece, com isto se proporciona também a condição para os processos psíquicos primários. (FREUD, 1988h, p.382)

Essa dissolução temporária e parcial das funções secundárias libera os processos primários de sua inibição; assim, no estado de desejo onírico volta a dominar a compulsão associativa característica da vida psíquica primária, cuja ação resulta na própria formação do sonho. Segundo Freud, dentre as características apresentadas pelo sono e sonhos, a mais importante delas é a seguinte: as idéias oníricas são de índole alucinatória, despertam a consciência e são passíveis de crença. (FREUD, 1988h, p.384). Temos numa sentença três problemas oníricos que precisam ser explicados: alucinação, consciência e crença.

Entre as explicações para essa natureza alucinatória das idéias oníricas, Freud considera a hipótese de que, durante os sonhos, a excitação no aparelho é submetida a um

retrocesso. Haveria uma inversão do decurso da excitação que, durante a vigília vai de phi a psi, e que durante o sonho, quando a motricidade e a periferia perceptual estão fora de ação,

seria conduzida regressivamente de psi (memória) até phi (extremo perceptual), onde as representações psi regressariam a seu modo de expressão primário, não através de

representações de palavras, mas por representações de objeto (sensações e imagens visuais):

“fecham-se os olhos e alucina-se, eles se abrem e pensa-se com palavras.” (FREUD, 1988h, p.384). O que demarca bem a transição entre os dois processos.

Que a consciência seja despertada durante o sonho revela, primeiro, que essa não está atrelada ao eu e pode ser agregada a todos os processos psi e, segundo, que processos primários não devem ser identificados a processos inconscientes (FREUD, 1988h, p.386). O sonho fornece signos de qualidade (despertam atenção psi) na medida em que estes não pressupõem nenhum objeto real e sim intensidade de ocupação. Como no sonho, pela dissolução temporária das funções do eu, não há signos de realidade que permitam diferenciar recordação de percepção, a crença onírica não pode ser da mesma natureza que a crença obtida pela conclusão do trabalho judicativo. A crença, enquanto resultado de um juízo, se apóia em um processo que pressupõe, já no seu ponto de partida, um dispositivo apto a inibir a alucinação. Nos sonhos trata-se de uma crença imediata produzida pelo caminho mais curto da identidade de percepção.

Sendo o sonho uma reprodução das vivências primárias de satisfação, Freud não encontra nenhuma dificuldade em atribuir-lhe sentido e finalidade: o sonho é uma realização

de desejo. A alucinação onírica demonstra com clareza a natureza essencialmente psíquica do

desejo, que, embora nasça à raiz das carências orgânicas, visa uma satisfação irredutível à necessidade, em um circuito de prazer relacionado à reprodução da percepção do objeto amado.

A observação de que o significado dos sonhos como realização de desejo se encontra

ocultado por uma série de processos psi, aproxima o sonho de processos patológicos que

também resultam nessa falta de sentido. (FREUD, 1988h, p.386). Já de saída, no início da sessão em que discute os sonhos, Freud alertara sobre essas semelhanças:

[...] os mecanismos patológicos que a mais cuidadosa análise põe a descoberto nas psiconeuroses tem a máxima semelhança com os processos oníricos. Dessa comparação, que logo explicitaremos, resultam as mais importantes conclusões. (FREUD, 1988h, p.381).

A relação entre processos patológicos e processos oníricos ainda é uma relação de analogia e não de identidade; em ambos se verifica a ação de processos primários, esses se dão sob a forma de um deslocamento da excitação entre as representações. Sonho e sintoma têm como característica comum um mecanismo particular de substituição e deslocamento que mantém associações intermediárias inconscientes, e faz com que estes fenômenos apresentem lacunas que os tornam aparentemente sem sentido. Já a diferença situa-se na observação de que, nos sonhos, o deslocamento se dá em razão da dissolução passiva e temporária das funções do eu (não há repressão nos sonhos), enquanto no sintoma, ele assume a forma de um processo ativo contra a reminiscência traumática (não há desejo nas neuroses).

Freud figura o mecanismo desse processo primário nos sonhos da seguinte maneira: imagine-se uma seqüência associativa de pensamentos oníricos (A – B – C – D) que, ao final deste processo, com a articulação da representação “D”, resultaria numa realização de desejo.

A idéia “A” se tornou consciente, mas no lugar de “B” encontra-se “C” consciente (A – C); houve uma substituição, a ocupação de “B”, que é uma idéia intermediária, foi

subtraída, e sua excitação foi deslocada para “C”, que ganha com isso uma vivacidade alucinatória; e “D”, por sua vez, também tem sua excitação subtraída, ou seja, não é consciente. O resultado pode ser figurado pelo seguinte esquema: (A –

C

) que representa a descontinuidade da consciência em relação às articulações intermediárias e a vivacidade alucinatória acrescida a um dos elementos. A conseqüência disso é que a realização de desejo é alucinada, mas o próprio desejo, ou seja, o sentido do sonho, não se faz consciente, o que o torna aparentemente absurdo. (FREUD, 1988h, p.388).

5.2 A compulsão histérica: formação de símbolos

Com os sintomas neuróticos também se verifica algo similar. Freud dá o exemplo dos efeitos psíquicos incompreensíveis decorrentes da ação compulsiva das chamadas idéias

excessivamente intensas (überstarken Vorstellungen) presentes à consciência de pacientes

neuróticos. Essas representações hiper-intensas, que se apresentam à consciência sem que se possa justificar sua origem e os motivos de sua permanência, se fazem acompanhar de conseqüências incompreensíveis, como inibições, afetos, inervações motoras, que não podem ser suprimidas pelo pensamento normal. Por meio da análise dessa compulsão, é possível inferir o processo pelo qual se produziu esse aparente absurdo, e o trabalho clínico demonstrou que o processo que leva à compreensão do sentido do sintoma (a reminiscência traumática) é o mesmo que resulta na sua solução.

Vejamos o resultado da análise no exemplo de Freud: antes da análise a idéia “A” é imposta à consciência, levando todas às vezes ao choro sem que o indivíduo saiba por que “A” o faz chorar. Após a análise, descobriu-se a existência de uma segunda idéia “B”, que tem todos os motivos para que se faça acompanhar pelo choro. O efeito de “B” é compreensível, e tende a se repetir inúmeras vezes enquanto o indivíduo não for capaz de realizar uma operação psíquica necessária à resolução do afeto. (FREUD, 1988h, p. 396). Assim, pela análise se descobriu que, na origem da compulsão houve uma vivência que consistiu em A + B, “A” foi uma circunstância acessória, porém “B” fora uma circunstância significativa para a produção do efeito. A questão é que, quando essa vivência é reproduzida

pela recordação, a representação “A” sempre surge no lugar da representação “B”, o que

explica por que a relação entre ”A” e o efeito que segue, no caso o choro, tona-se inadequada e incompreensível. Este processo em que a excitação de “B” é subtraída e transferida a “A”,

Benzer Belgeler