Com os sintomas neuróticos também se verifica algo similar. Freud dá o exemplo dos efeitos psíquicos incompreensíveis decorrentes da ação compulsiva das chamadas idéias
excessivamente intensas (überstarken Vorstellungen) presentes à consciência de pacientes
neuróticos. Essas representações hiper-intensas, que se apresentam à consciência sem que se possa justificar sua origem e os motivos de sua permanência, se fazem acompanhar de conseqüências incompreensíveis, como inibições, afetos, inervações motoras, que não podem ser suprimidas pelo pensamento normal. Por meio da análise dessa compulsão, é possível inferir o processo pelo qual se produziu esse aparente absurdo, e o trabalho clínico demonstrou que o processo que leva à compreensão do sentido do sintoma (a reminiscência traumática) é o mesmo que resulta na sua solução.
Vejamos o resultado da análise no exemplo de Freud: antes da análise a idéia “A” é imposta à consciência, levando todas às vezes ao choro sem que o indivíduo saiba por que “A” o faz chorar. Após a análise, descobriu-se a existência de uma segunda idéia “B”, que tem todos os motivos para que se faça acompanhar pelo choro. O efeito de “B” é compreensível, e tende a se repetir inúmeras vezes enquanto o indivíduo não for capaz de realizar uma operação psíquica necessária à resolução do afeto. (FREUD, 1988h, p. 396). Assim, pela análise se descobriu que, na origem da compulsão houve uma vivência que consistiu em A + B, “A” foi uma circunstância acessória, porém “B” fora uma circunstância significativa para a produção do efeito. A questão é que, quando essa vivência é reproduzida
pela recordação, a representação “A” sempre surge no lugar da representação “B”, o que
explica por que a relação entre ”A” e o efeito que segue, no caso o choro, tona-se inadequada e incompreensível. Este processo em que a excitação de “B” é subtraída e transferida a “A”,
Freud denomina deslocamento, um processo primário tal qual aquele observado nos sonhos. No entanto, no caso do sintoma, essa operação leva o nome de repressão, cujo resultado é a
formação de símbolo. “A” simboliza (substitui) “B”, mas o histérico que chora por “A” nada sabe dessa substituição. Freud sintetiza: se “A é do tipo compulsivo, B está reprimida [...] toda compulsão corresponde a uma repressão, e toda intromissão desmedida na consciência, a uma amnésia”. (FREUD, 1988h, p.397).
A repressão subtrai a excitação (o afeto) de “B” e o transfere a “A” que, em razão desse acréscimo de excitação, desperta a atenção consciente podendo se articular às representações de palavra, o que lhe confere uma existência subjetiva; enquanto “B”, uma vez que sua excitação foi deslocada, permanece inconsciente, seu traço mnêmico é isolado do decurso associativo e separado das representações verbais. Contudo, seu afeto segue produzindo efeitos que somente podem ser resolvidos por um trabalho psíquico complexo: ligar o afeto deslocado (excitação sem significação) a sua representação de objeto “B”, articulando-o a linguagem falada, em outros termos, possibilitar um trâmite e um sentido para a excitação no interior do aparelho, propiciando uma descarga adequada. A fala substitui a ação sintomática e a repressão dá lugar à rememoração.
A experiência clínica de Freud tornou evidente o lugar ocupado pela sexualidade entre as condições exigidas para que uma representação seja reprimida: “em primeiro lugar, a
repressão diz respeito sem exceção a representações que despertam no eu um afeto penoso (desprazer); em segundo lugar, são representações provenientes da vida sexual”. (FREUD,
1988h, p. 397). Essa evidência clínica coloca duas questões a Freud: uma quanto ao motivo pelo qual apenas os afetos e representações sexuais são passiveis de repressão; outra, quanto ao estado em que se encontram as representações reprimidas.
Como vimos o traço mnêmico de “B”, assim como as facilitações em geral, não pode ser apagado; porém, por se tratar do traço de uma representação que desperta no eu grande
desprazer (angústia), o processo repressivo, como uma defesa patológica, resulta numa forte
resistência em se pensar com “B”. Trata-se de uma representação excluída do eu e de todo
comércio associativo. Mesmo que essa idéia incompatível já tenha se tornado consciente, permanece excluída do processo do pensar. (FREUD, 1988h, p. 398). Essa forte resistência em articular afeto e representação sexual às representações verbais é a medida da força que mantém o sintoma e suas conseqüências psíquicas.
Quanto à questão sobre o motivo pelo qual somente as representações da vida sexual são passíveis de repressão, Freud é levado a explicar, desde o ponto de vista de seu modelo teórico: qual a condição psíquica que torna possível que um afeto sexual despertado dentro do eu leve essa organização secundária a mover um processo de defesa que ultrapasse a defesa normal contra o desprazer; dando lugar, dentro dessa organização, à ação de um processo primário como a repressão e a formação de símbolo. Desde o ponto de vista clínico, Freud é levado a examinar as características naturais da sexualidade que expliquem essa condição
CAPÍTULO 6
Sexualidade e etiologia
6.1 A etiologia traumática e a teoria da sedução
Há na descrição desses processos uma concepção bastante particular sobre a etiologia das neuroses que permeia todos os trabalhos da época. Desde os trabalhos com Charcot (1886), a noção do trauma enquanto causa específica da histeria vem sendo continuamente repensada. No texto em colaboração com Breuer “Estudos sobre a histeria” (1893-95) o traumatismo sexual e as reminiscências têm um lugar de destaque na descrição do mecanismo psíquico da histeria. No entanto, é no “Projeto de uma psicologia” (1895) que a noção do trauma enquanto trauma psíquico ganha um contorno mais definido ao ser examinado de acordo com os pressupostos da formação do aparelho.
Freud propõe discutir tais questões por meio de uma exposição clínica e apresenta o caso de uma jovem, Emma, submetida à compulsão de que não pode ir sozinha a determinado
lugar, uma loja. O caso se organiza em duas cenas: a cena I é uma recordação que Emma
acredita ser a justificativa de seu impedimento. Segundo essa justificativa (incompreensível), ela está impedida de ir a tal lugar porque, aos 12 anos, esteve sozinha numa loja e viu dois
balconistas rindo. Diante dessa cena Emma é (inexplicavelmente) tomada por um afeto de terror e foge. Os pensamentos que lhe ocorrem são de que eles riam de seu vestido e de que
um dos balconistas lhe atraiu sexualmente.
Devido ao fato de que a recordação e os pensamentos associados não permitem explicar o que determinou o sintoma, a investigação segue e as associações revelam uma