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O processo de transformações estruturais de Teresina - iniciando-se na segunda metade do século XX - culminou nos conflitos urbanos a partir dos anos de 1980, cujos impactos conjunturais intensificaram-se na década de 90. Com efeito, as inversões das políticas governamentais - grandes investimentos em infra-estruturas - atenderam setores sociais e econômicos das classes hegemônicas,34 abandonando políticas sociais voltadas tanto para as questões do “movimento migratório campo-cidade” como para a implementação de políticas habitacionais para as camadas populares. Consequentemente, esses investimentos na modernização da cidade provocaram ainda mais a formação de um quadro de grandes contradições e conflitos sociais, com fortes traços segregadores e excludentes das populações pobres (Lima, 2001, p. 41-43).
Contudo, essa inversão em políticas urbanas para a cidade fazia parte do processo de urbanização pelo qual estavam passando vários centros urbanos brasileiros desde a segunda metade do século XX. Códigos de Posturas foram elaborados e implementados pelos governos, que justificavam a execução de tais resoluções para banir as “classes pobres” ou “classe perigosa” (Chalhoub, 1998, p.19) desses centros urbanos, segregando-os na periferia, onde, sem nenhuma estrutura habitacional, formavam os bolsões de pobreza e miséria. Com efeito, esta situação iria substancialmente agravar mais as relações sociais, pois as elites passaram a se cercar por todos os lados através das cercas de arames, câmaras, vigias, alarmes.
34 No sentido gramsciano, hegemonia “é a capacidade de uma classe específica para dirigir moral e intelectualmente o conjunto da sociedade, produzindo consensos em torno de seu projeto político. De acordo com Gramsci, a disputa entre as classes pela hegemonia tem lugar predominantemente na órbita da sociedade civil, completando-se na sociedade política (Estado) (Costa, 2002, p.40). Conforme Gramsci, “o desenvolvimento político do conceito de hegemonia representa, para além do progresso político prático, um grande progresso filosófico, já que implica e supõe necessariamente uma unidade intelectual é uma ética adequada a uma concepção do real que superou o senso comum e tornou-se crítica, mesmo que dentro de limites ainda restritos” (Gramsci, 1999, p.104).
Na verdade, o que estava em jogo era a “higienização” do centro da cidade. E isso os Códigos de Posturas deixavam bem claro em seus procedimentos: manter a ordem social, revitalizando os seus espaços físicos e sociais. Teresina passou por esse processo de “higienização” a partir dos anos 50, quando os Códigos tinham como objetivo retirar as “casas de palha” localizadas próximas ao centro da cidade, justificando, assim, o seu “embelezamento”. Com isso, alguns desses espaços passaram a ser controlados pelas classes dominantes, removendo, portanto, os indivíduos supostamente “perigosos” para as periferias. Não apenas o romance histórico de Fontes Ibiapina, como também a foto (Foto 1) que o historiador Nascimento copiou das fontes da época, elucidam a questão dos negros nesses bairros.
Foto 1
Casas incendiadas 1941 (E) e moradores negros (D)
Fonte: Cópia da foto: Livro “A Cidade sob o Fogo”. (Nascimento, 2002).
Mas esse impacto violento e autoritário de “higienizar” os centros das cidades brasileiras não fugiu do mesmo que havia ocorrido na Europa no século XIX. Pois, conforme Edgar Morin,
O crescimento das cidades no século XIX, através do qual se efetuou o desenvolvimento da complexidade social e individual, traduziu-se, ao nível popular, em terríveis coações, em repressões profundas, em incertezas de vida e de sobrevivência (desemprego), em aglomerações
anômicas, em desregulamentos múltiplos (delinqüência, alcoolismo). (Morin, 1998, p.254)
No Rio de Janeiro, no início do século XX, o cortiço Cabeça de Porco, com mais de duas centenas de casas, foi demolido de forma autoritária pelo Prefeito Barata Ribeiro. Segundo Chalhoub (1998, p.16), “o Cabeça de Porco – assim como os cortiços do centro do Rio em geral – era tido pelas autoridades da época como um ‘valhacouto de desordeiros’”. Com a dramatização da destruição do Cabeça de Porco, em 1893, iniciava-se “o processo de andamento de erradicação dos cortiços cariocas...e a cidade do Rio já entrava no século das favelas” (Chalhoub, 1998, p. 17). Neste mesmo sentido, Gilberto Velho (1999, p.12) afirma que o “surto imobiliário, ocorrido no Rio de Janeiro a partir dos anos 40”, alterou drasticamente o “panorama local”. Assim, este autor informa:
É a partir de 1940 que se dá a grande expansão vertical do bairro. Copacabana foi se transformando aceleradamente com a intensificação da construção de edifícios e a demolição de casas. Terrenos comprados a preços irrisórios são aproveitados para a construção de edifícios, permitindo lucros fantásticos às companhias construtoras. (Gilberto Velho, 1999, p.13)
A cidade de São Paulo não fugiu também a esta lógica urbanística, pois, conforme Caldeira, no início do século XX havia uma “tendência de a elite ocupar a parte mais alta da cidade [de São Paulo] (...) e os trabalhadores viverem nas áreas mais baixas, ladeando as margens dos rios Tamanduateí e Tietê e próximo ao sistema ferroviário” (Caldeira, 2003, p.14). Nesse contexto de industrialização da cidade, debatiam-se questões habitacionais que atendessem as demadas das camadas populares, visando, assim, organizar o espaço urbano. Portanto, moradia e organização urbana tornaram-se o tema central das preocupações da elite e das políticas públicas durante as primeiras décadas do século XX. (Caldeira, 2003, p. 214)
Estas políticas urbanas tinham como objetivo, diante da complexidade do fenômeno, instaurar uma “nova ordem” a partir da modernização da cidade cuja conseqüência foi a segregação das camadas populares. Segundo Nascimento
(2002, p.28), “o processo de modernização da sociedade brasileira sustenta-se na forma autoritária de governar imposta pela elite”. Neste sentido, Teresina não fugiu à “ideologia da modernização”, tendo como primeira ação política do Prefeito Lindolfo do Rego Monteiro, em 1941, transformar uma das principais avenidas, Frei Serafim, “em cartão de visita da nova cidade” (Nascimento, 2002, p.152). Em nome dessas mudanças, ditadas tanto pelos “interesses dos grupos” quanto por um conjunto de regras rígidas e excludentes, os espaços físicos e sociais foram se metamorfoseando. Isso demonstrava, na verdade, a intenção das autoridades de “higienizar” o centro da cidade.
Para Nascimento,
Se, por um lado, as autoridades municipais pretendiam evitar que a zona urbana fosse tomada por incêndios, não tinham a mesma preocupação com os habitantes da periferia que construíam suas habitações fundamentalmente com a palha. A tese da “limpeza” do núcleo central da cidade é formalizada. (Nascimento, 2002, p. 213)
Neste contexto de “limpeza” muitos projetos foram criados e obras públicas implementadas. A cidade tornou-se um “canteiro de obras”, porque para embelezá-la foram necessários o alargamento e pavimentação de ruas e avenidas, reformas das praças, construção de rodovias e pontes (Lima, 2003).
Com isso, esses espaços sócio-geográficos foram se reconfigurando e dando visibilidade à segregação. Percorrendo a Avenida Marechal Castelo Branco, zona sul/centro, às margens do rio Poti, no bairro Ilhotas, observam-se as grandes “mansões” e os “luxuosos edifícios de apartamentos”, símbolo do “fenômeno de verticalização” (Lima, 2003, p.44) (Foto 2).
Foto 2
Vista panorâmica da verticalização de Teresina. Localizada à Av. Marechal Castelo Branco, às margens do Rio Poti. Zona centro de Teresina.
Fotografia: Antônio Nunes. Teresina, Agosto, 2005.
Segundo Façanha, o “fenômeno de verticalização” pode ser conceituado como:
Um símbolo de uma geografia dos espaços metropolitanos, o qual representa o surgimento de edifícios em uma determinada área da cidade, implicando alterações na propriedade e no uso urbano. A compreensão dessa geografia da verticalização obriga que se adentre nos meandros dos processos de modernidade. (Façanha, 1998, p.24)
Nesse fenômeno há, para o autor, uma evidente relação entre “áreas verticalizadas” e “valorização dos terrenos” que, geralmente, estão localizados em “espaços vazios”. Nestes lugares, surgiram os suntuosos condomínios fechados e localizados próximos aos shoppings centers, redes bancárias, hospitais, cujos aluguéis são caríssimos. Estes novos espaços tiveram como efeito a visibilidade de “áreas de segregação” (Façanha, 1998, p.24). Esta paisagem contrasta com
outros espaços sócio-geográficos marcadamente formados de vilas e favelas, cuja população é, em sua maioria, composta de negros e pobres (Foto 3).
Foto 3
Ruas e casas sem infra-estrutura localizadas à Vila Ferroviária, Bairro Murilo Rezende, zona centro de Teresina.
Fotografia: Antônio Nunes. Teresina, Agosto, 2005.
Ruimar Barbosa, um dos líderes do movimento negro de Teresina, descreve os espaços geo-sociais em que vivem os negros na cidade:
“Os negros moram na periferia. Eu moro aqui na Vermelha, que
antigamente era subúrbio de Teresina, agora é centro/sul. Tem que ver a questão da época. Mas você anda cinco ruas e conhece a Vila Nova, a Prainha, então é um contraste. Mas o que é a Prainha? É um local onde a maioria vive na pobreza e a maioria desses pobres é negra. Se você vai à Vila Irmã Dulce, você vai ver outro exemplo, a população negra. Se você vem aqui para a Olaria, então, nós estamos na periferia”.35
35 Ruimar Barbosa, em entrevista concedida no dia 20 de julho de 2005, na sede da Fundação Cultural do Piauí. No próximo tópico, descreverei a biografia deste militante negro (cf. p. 60, nota de rodapé, nº. 66).
Morei quatro anos no bairro Angelim, durante os estudos teológicos, e percebia que naquele espaço urbano havia um alto índice de pobreza e as famílias negras moravam – e ainda moram – em áreas de maiores riscos e péssimas condições físico-estruturais como as grotas, as margens dos rios e lagoas, áreas alagadiças e insalubres, cabeceiras de viadutos e pontes.
Artenildes, fundadora do Grupo Cultural Afro Afoxá, há cinco anos mora no bairro Angelim. Em sua entrevista, falou:
“Existe uma área, que até eu costumo dizer: “O Angelim, que o Angelim
não conhece”. É que as pessoas moram dentro de uma grota. É um córrego que passa o ano todo com água e vai aumentando isso com os esgotos residenciais; são mais de cem famílias que moram em torno dessa grota. Ela começa na ponta aqui do Angelim I, aqui na Rua 11, e vai até lá no asfalto.”36
Segundo esta militante do movimento negro, na grota deste barrio vive a população negra e a maior parte dos analfabetos;37 os jovens cedo se envolvem com a droga. Em síntese, vinte anos depois os negros permanecem no mesmo lugar e no mesmo estado de miséria. Mas como vimos, aquilo que se percebia em meados dos anos 70, foi ganhando maior magnitude em fins dos anos de 1980 e começo dos 90, instituindo, como disse Lima, “um novo formato ao urbano que chama a atenção pela visível presença de um outro espaço e de outra cidade, que se veio construindo nos interstícios da sociedade, ao longo das últimas décadas”. (Lima, 2003, p. 46)
Na verdade, a gênese de “um outro espaço e de uma outra cidade”, que surgiu nos interstícios da cidade, foi o resultado da especulação do mercado imobiliário que passava a valorizar os espaços vazios privados, localizados em
36 Artenildes Soares da Silva, em entrevista concedida no dia 17 de julho de 2005, em sua residência, no bairro Angelim. No próximo tópico, descreverei melhor a biografia desta militante negra (cf. p. 64, nota de rodapé nº. 71).
37 Segundo o Censo Demográfico de 2000, em Teresina, existem 452.792 pardos; 204.094 brancos; 50.225 pretos. Neste ano, a sua população era de 715.360 habitantes. Percebe-se que a sociedade teresinense é acentuadamente marcada pelas pessoas pardas 63.3%; enquanto os brancos são de 28.5 % e os pretos de 7%. Com isso, constata-se que a cidade passou por processo de branqueamento de sua população. Indígenas são 0,72% e amarelos 0,48%. Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2000.
regiões privilegiadas. Moradores pobres foram pressionados, desta maneira, a vender seus terrenos para empresas imobiliárias. Neste mesmo sentido, Campos Filho (1989, p.57) afirma que o preço crescente da terra, no conjunto da cidade, derivado da retenção especulativa, é ainda maior na área central da cidade, por ser essa área a única, em geral, bem provida de serviços urbanos públicos.
Com isso, tanto crescia o déficit habitacional como surgiam inúmeras favelas nas margens da cidade. Este avanço das favelas não deixava de ser uma “estratégia a que se apegam populações pobres como forma mais barata e viável para resistirem na cidade” (Lima, 2003, p.48), mesmo em condições de acentuada miséria.
Encontrei, no jornal Meio Norte, uma reportagem que retrata a situação das vilas e favelas teresinenses:
Insetos invadem as 141 favelas de Teresina. Falta de saneamento básico na periferia aumentou a proliferação de moscas, mosquitos, grilos, muriçocas, gafanhotos e potós. As autoridades sanitárias afirmam que não têm autorização para fazer o trabalho de borrifação das residências. Os moradores dizem que as crianças são as mais prejudicadas.38
Percebe-se que a falta de saneamento básico para a população das vilas e favelas torna-se a causa básica da invasão de pragas: potós, moscas, mosquitos e muriçocas, cujas conseqüências sofrem as crianças que adoecem de pneumonia, meningite e diarréia. O jornal lista ainda cinco favelas que foram tomadas pela invasão de insetos.39
38 Jornal Meio Norte, Caderno Cidades. Teresina (PI), quarta-feira, 18 de janeiro de 1995. p. 01. 39 A situação é mais crítica na favela Carlota Freitas, próximo ao estádio Albertão, onde não existe um mínimo de infra-estrutura. As águas das chuvas escoam por entre os casebres, formando lamaçal. As poças, com o mau cheiro, atraem os insetos, vetores de vários tipos de doenças. No Loteamento Novo, no bairro Angelim, na zona Sul, o problema se repete. São mais de 1.200 famílias prejudicadas. É que o bairro também não possui nenhum tipo de condição de infra- estrutura. “Toda situação se deve ao lixo e à lama”, declarou uma dona de casa’. Na zona Norte, o drama é o mesmo. Os casabres das favelas Beira Rio e São Francisco Norte, ambas localizadas próximo ao Rio Poti, estão tomadas por moscas e mosquitos Tudo isso é por causa do acúmulo de lixo e da água empoçada na favela, disse a dona de casa, Maria do Amparo Sousa Silva, que tem dois dos filhos com diarréia. Outra favela alvejada pelos insetos, em especial o potó, foi a Vila Ciac, na zona Sul. As águas das chuvas ficaram acumuladas entre os casebres, causando mau cheiro e atraindo os insetos. Os moradores não têm como se proteger. Na Vila Padre Eduardo, na zona Norte, a lagoa formada pelas águas das chuvas chegaram a invadir os casebres, causando a proliferação de mosquitos. As famílias convivem com os insetos, contaminando principalmente as
As notícias chamam a atenção para a falta da coleta regular do lixo domiciliar, cujos efeitos resultam na proliferação de doenças (Foto 4). Ou seja, os entulhos ficam depositados nas ruas, expostos ao contato das crianças.
Lendo a referida reportagem, observa-se o grau de descaso das autoridades em relação às políticas urbanas que tenham como fim o desenvolvimento social e humano das populações carentes.
Foto 4
Favela sem infra-estrutura: casebres, lama, mato, sujeira. Ao fundo, uma criança negra, descalça pisando sobre a lama.
Fonte: Cópia da foto: Jornal Meio Norte, Caderno Cidades. Teresina (PI), quarta-feira, 18 de janeiro de 1995. P. 01. Fotografia: Frei Leandro. Teresina, Agosto, 2005.
Façanha, utilizando-se de dois censos da Prefeitura Municipal de 1993 e 1996, sobre “Vilas e Favelas de Teresina”, fez um “mapeamento das favelas na cidade”, cujos resultados estatísticos demonstraram que:
crianças. (Jornal Meio Norte, Caderno Cidades. Teresina (PI), quarta-feira, 18 de janeiro de 1995. p.01.
Entre os anos 1991 e 1993, as favelas de Teresina cresceram de 56 para 141, representando um crescimento percentual de 151,79%. Entre os anos de 1993 e 1996, por sua vez, as favelas expandiram-se para um total de 149 áreas, correspondendo a um crescimento percentual de 5,67%. (Façanha, 1998, p.11)
Porém, a Federação das Associações de Moradores e Conselho Comunitário do Piauí (FAMCC) estimava um total de 200 favelas na periferia de Teresina até o final de 1996. Segundo este órgão, estes dados estavam baseados na existência, por parte dos órgãos governamentais, de um programa de políticas públicas, voltado para a construção de moradias para as famílias de baixa renda. Neste ano, foram detectadas cerca de 168 favelas espalhadas pela periferia da cidade, de acordo com o senso realizado pela Secretaria Municipal do Trabalho e Ação Comunitária e Federações de Moradores.40
Contudo, o censo demográfico de 2000, trouxe outros dados (Tabela I).
Tabela I
REG. ADMIN. CENTRO LESTE NORTE SUDESTE SUL TOTAL
BAIRROS 23 27 23 20 20 113
VILAS/FAVELAS 4 25 14 20 22 85
Quantidade de bairros e favelas segundo o censo do IBGE de 2000
Fonte: Bairros e favelas de Teresina em 2000. Censo Demográfico do IBGE de 2000.
Segundo esses dados, percebe-se que houve uma redução do número de vilas e favelas, em relação aos dois censos da Prefeitura Municipal de 1993 e 1996. Ou seja, de 149 favelas, diminuíram para 85, correspondendo a um decrescente percentual de 57%. Seria nescessário uma maior investigação para se saber se este resultado foi devido ao desenvolvimento social e humano das favelas ou, então, se o processo de urbanização continuou expulsando moradores
para outros terrenos vazios, ou até mesmo tenha havido uma possível imigração interfavelas. Mas vejamos o que o Censo considera uma favela.
No Censo Demográfico 2000, foi considerado como sendo Favelas e similares, todo e qualquer conjunto constituído por no mínimo 51 unidades habitacionais (barracos, casas...), ocupando ou tendo ocupado até período recente, terreno de propriedade alheia (pública ou privada) dispostas, em geral, de forma desordenada e densa; e carentes, em sua maioria de serviços públicos essenciais. (Censo Demográfico do IBGE de 2000)
A explicação do IBGE sobre “favela” pode ser analisada a partir de quatro itens: 1º) quantitativo - compreende-se por favela um conjunto constituído por, no mínimo, 51 unidades habitacionais; 2º) social - o terreno deve ser de propriedade alheia (pública ou privada); 3º) urbanização - os barracos estão dispostos, em geral, de forma desordenada e densa; e 4º) sóciopolítico - é um espaço bastante carente, em sua maioria de serviços públicos essenciais.
Supõe-se que os serviços públicos sejam: água potável, esgoto, luz, calçamento, telefone, praça urbanizada, posto de atendimento médico, escola, quadra esportiva.
Porém, o Diretor de Comunicação da FAMEPI,41 Antônio Batista, afirma que o órgão tem uma outra forma político-ideológica de analisar o termo favela. Segundo ele, favela é:
Aquele grande aglomerado que não tem as condições necessárias, as condições básicas pra sobreviver, tipo calçamento, esgoto, casa de taipa e palha, e onde prevalece ali a pobreza; aonde o trabalhador trabalha no mercado informal; tem o subemprego, não tem uma renda definida. Ali pra nós é uma grande favela (...). Em Teresina, hoje, eu acredito que nós temos mais de 60 favelas, que estão em condições subhumanas de
41 A FAMEPI - Federação das Associações de Moradores do Piauí - foi criada no dia 22 de fevereiro de 1986, com o objetivo de articular e organizar as associações de moradores e os conselhos comunitários tanto de Teresina quanto do Piauí como um todo, para trabalhar as “reivindicações que eram comuns”, isto é, a falta de moradia. Segundo o Diretor de Comunicação desse órgão, Antônio Batista de Araújo, a FAMEPI surgiu também com o fim de agregar aquelas associações que lutavam, independentemente de “grupos políticos”, e pensar coletivamente alguns projetos de moradia. Entrevista concedida em 16 de janeiro de 2006, na sede do órgão, à rua Anísio de Abreu – Centro.
moradia, e que estão em situação irregular, do ponto de vista da legalização da terra, onde não há nenhuma ação do poder público.42
O critério utilizado pela FAMEPI para analisar a existência de uma favela é diferente do utilizado pelo IBGE, porque a Federação não coloca em discussão o critério quantitativo, isto é, o número de unidades habitacionais; a principal variante é a condição socioeconômica da população, não importando o número de famílias:
Agora, temos favelas pequenas e favelas grandes; têm favelas com 25, 30 famílias. Hoje, por conta do espaço, as famílias que não têm condições, ocupam qualquer tamanho de terreno. Então, pra o IBGE, o que seria um terreno, com pessoas pobres, que só cabem 10, 15 casas, como tem em Teresina? Em várias pontas de ruas, a gente encontra várias. No Planalto Ininga, por exemplo, a gente descobre 10, 15 casas dentro de um muros. Ou seja, o dono não quis tirar as famílias, mas murou o terreno dele e deixou as famílias lá, até que resolva com a justiça. O que é aquilo ali? Só porque tem um calçamento, mas não tem as condições, deixa de ser favela? Não. Pra nós não, nós não avaliamos por número, nós avaliamos por condições.43
Nas informações do representante da FAMEPI percebem-se alguns critérios considerados pela entidade para definir a existência de uma favela: 1º) sócio- econômico – por falta de condições básicas para sobreviver, pessoas pobres ocupam quaisquer espaços vazios; trabalho informal; subemprego, trabalhador não tem uma renda definida; 2º) urbanização – condições sub-humanas de