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Para efeito de uma melhor compreensão em torno das questões relacionadas à remuneração dos docentes, é importante esclarecer a diferenciação entre os termos remuneração, vencimento e salário. Para tanto, esse estudo adotou a concepção trazida pelo CNE – Conselho Nacional de Educação, através do Parecer CNE/CEB nº 9/2009, que fixa Diretrizes para os Novos Planos de Carreira e de Remuneração para o Magistério dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Para o citado Parecer,

[…] vencimento é o termo que corresponde à remuneração básica do servidor público ocupante de cargo público ou aquele assemelhado que mantém com a administração pública relação estatutária de trabalho. Vencimentos é a remuneração do servidor público acrescida das vantagens pessoais, gratificações, adicionais, bonificações; enfim, é a totalidade de rendimento auferida pelo servidor. (BRASIL, 2009d, p.31)

O Parecer ainda esclarece que salário difere de vencimento porque, enquanto esse último se aplica ao servidor público ocupante de cargo público, o salário se aplica aquele que se liga à administração através de contrato de trabalho, que tem sua relação de trabalho regida pela CLT.

O Parecer CNE/CEB nº 9/2009 embasou a aprovação da resolução CNE/CEB nº 2/2009. Isso ocorreu após um período de muitas discussões em diversos fóruns, surgindo daí uma nova orientação referente aos planos de carreira e remuneração do

magistério da educação básica pública nacional. A orientação baseia-se, sobretudo, na legislação do FUNDEB – Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e Valorização dos Profissionais da Educação e na Lei nº 11.738 de 16 de junho de 2008 que estipulou que até 31/12/2009 todos os 26 estados e o DF, bem como os 5.570 municípios eram obrigados a igualarem os salários pagos aos professores.

Ainda que não possua força de lei, a resolução do CNE/CEB nº 2/2009 traz uma perspectiva norteadora para os processos políticos educacionais. No que concerne à remuneração, a resolução não só reafirma as disposições da lei do piso salarial, bem como enfatiza a equiparação salarial desse profissional com a de outras categorias que possuem o mesmo nível de exigência formativa inicial. Alerta, também, sobre a preferência pela jornada integral de 40 horas semanais, com ampliação das horas a serem utilizadas em atividades de planejamento educacional e outras relacionadas: a) à formação, ao ensino e à cultura; b) ao incentivo do trabalho em uma unidade escolar; c) à participação de todos os profissionais da educação no projeto de trabalho da escola, bem como sua avaliação; d) à intensificação do apoio técnico e financeiro para melhoria das condições de trabalho; e) à união das redes de ensino no tocante às políticas formativas e e) à articulação entre as esferas de gestão em vários tópicos administrativos. Propõe ainda o suprimento contínuo das vacâncias através de concursos públicos.

Apesar da exigência advinda em força de lei de que o piso salarial seja cumprido por todos os entes federativos, muitos estados e municípios brasileiros, por motivos diversos, oferecem resistência em pagar o valor estipulado pelo governo federal, mesmo contando com a complementação orçamentária da União, como determina a Lei 11.738/2008, no art. 4º. Vale destacar que o cálculo do valor do piso salarial nacional do magistério se dá com base na comparação da previsão do valor aluno-ano do FUNDEB dos dois últimos exercícios. Esse valor é o mínimo estabelecido para repasse do FUNDEB e envolve recursos decorrentes da arrecadação de estados e municípios, como, também, da União, caso seja necessária complementação financeira. Nos casos de descumprimento da Lei do Piso não existe uma penalidade específica, vindo a resultar, apenas, em um Termo de Ajuste de Conduta. A fiscalização compete aos Ministérios públicos estaduais, poderes legislativos locais e Tribunais de Contas Estaduais.

Segundo dados do MEC (2016), menos da metade dos municípios declararam conseguir pagar em 2016, ao menos, o mínimo estabelecido em lei aos professores de escolas públicas da educação básica de suas respectivas redes de ensino. Essa situação se agrava, tendo em vista que no ano de 2017 estados e municípios teriam que arcar com um valor ainda maior. Conforme publicado no Diário Oficial da União, em 13 de janeiro de 2017 o novo piso passa a ser de R$2.298,80, para uma jornada de 40 horas semanais, representando um reajuste de 7,64% em relação aos R$2.135,64 do ano anterior. Vale destacar que o reajuste deve ser anual, seguindo as regras da Lei 11.738/2008, a chamada Lei do Piso. Essa realidade acarreta a necessidade de investigar como a questão salarial é tratada enquanto política pública, sem perder de vista que a melhoria das condições do trabalho do professor perpassa por essas decisões.

Dados do IBGE (2015), levantados de acordo com a coluna de micro dados do PNAD (2014), no ano de 2015 a média salarial do professor da educação básica estava em torno de R$ 2.776 para uma jornada de 40 horas semanais de trabalho. Este valor representava, apenas, 61% dos R$ 4.538 registrados para os demais profissionais com nível superior. De 2014 para 2015, apesar da distância salarial dos professores para os demais grupos ter mostrado uma redução, os motivos desse evento só ocorreram porque as demais profissões tiveram perda salarial, quando considerada a inflação, enquanto que os professores apresentaram uma queda menor em relação aos outros profissionais.

Um fator ainda mais preocupante do que as disparidades salariais com relação a uma gama de outras profissões, trata-se das grandes diferenças de salários existentes entre os próprios professores, a depender da etapa e do nível de ensino. O salário médio de um professor da educação infantil, com nível superior, em 2015, era de R$ 2.183, ou seja, 48% do registrado para os demais profissionais em outras ocupações universitárias. Se o professor dá aula no ensino médio, onde os rendimentos médios são de R$ 3.355, a distância é menor, pois este valor representa 74% do verificado para os demais profissionais. (IBGE/PNAD, 2014).

Outros dados, desta feita, organizados pelo Observatório do PNE / Todos Pela Educação, a partir de informações da PNAD e do IBGE, referentes aos anos de 2002 a 2015, mostram, em percentagem, o rendimento médio dos docentes em relação aos demais profissionais, conforme pode ser observado no Gráfico 18.

Gráfico 18 – Comparação Rendimento Médio dos Docentes com outras Profissões.

Fonte: IBGE/PNAD/Elaboração: Todos Pela Educação.

Outros dados comparativos de evolução salarial ente os professores e os demais profissionais estão presentes no Relatório de Observação sobre as Desigualdades na Escolarização do Brasil elaborado por um comitê técnico do CDES - Conselho de Desenvolvimento de Econômico e Social (BRASIL, 2011b). O relatório registra dados de indicadores construídos a partir de informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP), como, também, de outras fontes oficiais referentes à data base de 2012.

Além do que é perceptível nos gráficos quanto à disparidade dos salários dos professores e profissionais de outras áreas, a desigualdade também reflete no valor da hora de trabalho. Segundo dados do Observatório da Educação (2012), enquanto outros profissionais com curso superior recebem, em média, R$29 por hora trabalhada, o professor recebe apenas R$18. Quando a comparação é feita por área, a situação chega a ser mais díspar, a exemplo dos profissionais da saúde que recebem em torno de R$35 por hora de trabalho.

Diante desse cenário, o parecer dos técnicos que elaboraram o Relatório de Observação sobre as Desigualdades na Escolarização do Brasil afirmam ser necessário "avançar na valorização e reconhecimento dos trabalhadores em educação, com a implantação nacional do piso mínimo e o estabelecimento de programas e ações que estabeleçam maiores oportunidades de desenvolvimento pessoal e profissional aos professores e demais trabalhadores da educação" (BRASIL, 2014, p.13).

Ao se fazer um contraponto entre essa realidade e uma educação de qualidade no país, facilmente se percebe a necessidade do recrutamento de um bom quadro de professores. Isso significa atrair para a carreira do magistério os melhores alunos egressos do Ensino Médio, fato que não ocorrerá enquanto a profissão docente estiver sob desvantagens quanto a outras carreiras mais rentáveis e de maior prestígio.

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