A educação brasileira passou por consideráveis transformações, principalmente a partir dos marcos legais alcançados com a Constituição Federal de 1988, a LDB, Lei 9.394/1996, o PNE (2001-2010) e o Plano de Desenvolvimento da Educação (BRASIL/MEC, 2007), que reconhecem a educação como direito social propulsor do desenvolvimento nacional.
No início do séc. XXI, a partir do governo do Presidente Lula, o PNE (2001- 2010) passa a ser visto por outro prisma educacional: mais atento às questões sociais. O destaque dessa discussão em torno da nova configuração das forças políticas do país está em compreender o confronto organizado nesse campo educacional, que tem de um lado a defesa por uma educação pública, gratuita, laica e de qualidade, observando as implicações para o seu alcance, e do outro lado, a defesa pela continuidade do modelo neoliberal de educação. Este último, com vistas na mercantilização dos espaços de formação, a exemplo daqueles destinados a formação dos docentes que atuam na educação básica.
A construção do novo PNE em um primeiro momento foi proposta para o decênio 2011-2020, mas pela longa demora de tramitação no Congresso Nacional, de dezembro de 2010 a junho de 2014, passa a vigorar no decênio de 2014-2024. Nos
espaços de discussão e debate para elaboração do plano destacam-se como principais âncoras de interlocução, de formulação de demandas, de indicação de diretrizes, bem como de monitoramento, a CONAE – Conferência Nacional de Educação; o FNE – Fórum Nacional de Educação e o CONEB – Conferência Nacional de Educação Básica. Após amplo debate em torno das proposições emanadas das demandas e diretrizes sugeridas pelas representações citadas, ocorreu o processo de tramitação do PNE (2014- 2024) nas duas casas do Congresso Nacional, sendo na Câmara dos Deputados referido pelo Projeto de Lei 8.035/2010 e no Senado Federal pelo Projeto de Lei Complementar 103/2012.
A indicação das diretrizes para um novo PNE, por meio das conferências nacionais, ocorreu articulada com os sistemas de ensino, congresso nacional, órgãos educacionais e sociedade civil. O amplo processo de interlocuções e debates se caracterizou segundo Abicalil (2013, p.17), numa perspectiva de “superação da ação política de um governo para alcançar a consolidação da ação política de Estado”.
Essa superação exigiu importantes transformações no campo político e ideológico, no que refere, principalmente, a dissociação e oposição entre Estado e sociedade, legado deixado pela ditadura militar. A respeito disso, Magalhães (2011, p.59) afirma que:
Ao restringir ao máximo a capacidade de organização de vários setores da sociedade civil – os partidos políticos, os sindicatos, as universidades, os sindicatos, as universidades, as sociedades científicas e até mesmo as instituições religiosas – neles enxergando, em conformidade om os preceitos da Doutrina de Segurança Nacional, os espaços que poderia proliferar o “inimigo interno”, a ameaça no poder do estado transformou a sociedade em ameaça ao Estado e fez estado um inimigo da sociedade. Essa dissociação – e oposição – entre Estado e sociedade, operada pelos governos militares perduram nos primeiros governos civis pós-ditadura, na medida em que as forças que apoiaram politicamente o regime militar continuaram a ocupar cargos-chaves na estrutura do Estado brasileiro. De modo que a superação da sequela da dicotomia entre Estado e sociedade vai sendo aos poucos construída, à medida que a gestão do Estado sinaliza a capacidade de organizar sua democracia, garantindo legitimidade política na construção de um projeto de nação em que haja compromisso, mobilização e engajamento da sociedade em suas múltiplas e variadas formas de organização. A proposta de um novo PNE pretende apontar para um projeto de país. Não se restringe a um plano de governo, mas estabelece metas e diretrizes que deverão ser obedecidas por quaisquer que sejam os governos. Trata-se, portanto de um projeto de Estado e também de um projeto de sociedade (MAGALHÃES, 2011, p.59).
O autor ainda destaca a explanação de motivos de nº 33 referente ao Projeto de Lei (PL 8.035/2010) encaminhado ao Congresso Nacional, que caracteriza o PNE como política de Estado e por isso não reduzida a esfera de governo. O documento infere, também, a legitimidade do cenário coletivo de discussões sobre o PNE e aponta a CONAE/2010, estruturada a partir do tema central “Construindo o Sistema Nacional de Educação: O Plano Nacional de Educação, Diretrizes e Estratégias de Ação”, como grande articuladora de todo esse processo.
De acordo com dados oficiais (BRASIL/MEC/CONAE, 2010), a etapa nacional contou com um total de 3.889 participantes, sendo 2.416 delegados e 1.473, inclusos palestrantes, observadores, coordenação, grupo de apoio e imprensa. Esta etapa foi, ainda, amparada por 27 conferências estaduais, 378 conferências municipais e 89 regionais cumpridas no ano de 2009. Ao todo, a CONAE (2010) mobilizou cerca de 3,5 milhões de pessoas, com a participação de 450 mil delegados nas etapas nacional, estadual, municipal e intermunicipal. Sem dúvida, a CONAE (2010) se constituiu como espaço mobilizador das demandas sociais em defesa da construção de um marco legal que expresse um projeto de educação democrática e emancipadora. Para Dourado (2011, p.51):
[…] a CONAE cumpriu um importante papel, construído um espaço democrático de discussão e deliberação de concepções e proposições educacionais para o Estado Brasileiro, com especial destaque para a construção do Sistema Nacional de Educação e de um Plano Nacional como política de Estado.
O documento final construído a partir da CONAE foi adotado pelo governo federal como referência para as concepções e direcionamento do plano. Segundo o documento “Projeto de Lei Nacional da Educação – PNE: 2011/2020” (BRASIL, Câmara dos Deputados, 2011), a CONAE (2010) formulou onze concepções que serviram de fundamento para a matriz conceitual do novo PNE. Dentre as concepções formuladas destaca-se, nesse estudo, a de número onze:
Com vigência decenal, deve ser entendido como uma das formas de materialização do regime de colaboração entre sistemas de cooperação federativa, tornando-se expressão de uma política de Estado que garanta a continuidade da execução e da avaliação de suas metas, frente às alternâncias governamentais e relações federativas. Deve contribuir para a maior organicidade das políticas e, consequentemente, para a superação da histórica visão fragmentada que tem marcado a organização e a gestão da educação nacional. Deve ser resultado de ampla participação e deliberação coletiva da sociedade brasileira por meio do envolvimento dos movimentos sociais e
demais segmentos da sociedade civil e da sociedade política em diversos processos de mobilização e de discussão, tais como: audiências públicas, encontros e seminários, debates e deliberações das conferências de educação. Dessa forma, as conferências municipais, intermunicipais, estaduais, distrital e as nacionais de educação devem ser consideradas como espaços de participação da sociedade na construção de novos marcos para as políticas educacionais e, nesse sentido, sejam compreendidas como loci constitutivos e constituintes dos processos de discussão, elaboração e aprovação dos PNE. O próximo PNE deve eleger a qualidade e a diversidade como parâmetro de suas diretrizes, metas, estratégias e ações, conferindo a essas, dimensão social e histórico-política (BRASIL/CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2011, p.179). No intuito de adensar os debates e proposições acerca do PNE, o Fórum Nacional de Educação (FNE), órgão responsável pela convocação, mobilização, planejamento e coordenação das conferências nacionais de educação, aprova a realização da II CONAE. Por possuir caráter deliberativo, a II CONAE (2014) apresentou, através de um Documento - Referência31, um conjunto de propostas que subsidiou a implementação do Plano Nacional de Educação, apontando atribuições concorrentes, complementares e colaborativas entre os entes federados e os sistemas de ensino. Na ideia de avançar na construção de processos democráticos e participativos, o FNE submete o Documento-Referência à avaliação e mobiliza os profissionais da educação, pais, alunos, sociedade civil, gestores e demais atores sociais para propor caminhos para a educação brasileira. A II CONAE marcada primeiramente para o mês de fevereiro de 2014 veio a se realizar no período de 19 a 23 de novembro do mesmo ano. Em entrevista dada a ANPED, Saviani (2014), afirma que a decisão de adiar a II CONAE para novembro, portanto após as eleições, se deu por decisão do governo federal. O autor crítica essa decisão, tendo em vista que:
[…] já estarão eleitos os novos governantes e a Câmara já terá aprovado o novo PNE ou, o que é mais provável, o projeto ficará para ser analisado na nova legislatura com uma nova composição à qual poderão ser encaminhados os resultados das deliberações da CONAE sem grandes desgastes políticos sendo que, mesmo havendo eventuais desgastes, serão mais facilmente absorvidos no primeiro ano da nova gestão (SAVIANI, 2014 s/p).
No dia 15 de dezembro de 2010, foi encaminhada ao Congresso Nacional a proposta do novo PNE contendo vinte metas, acompanhadas de suas respectivas estratégias, que funciona como auxílio para alcance dos objetivos traçados. Inicialmente o documento totalizou 170 estratégias. No decorrer do longo período de 1.288 dias de tramitação no Congresso, as metas passaram por modificações em suas redações.
31 Disponível em: ‹ http://conae2014.mec.gov.br/images/pdf/doc_referencia.pdf›. Acesso em: 11 de nov.
Quanto às estratégias, além de modificadas, outras foram elaboradas, totalizando 254. Segundo Saviani (2014), infelizmente o que se pôde perceber diante das mudanças do Projeto de PNE (2014-2024), foi um retrocesso ao que já tinha sido aprovado na Câmara dos Deputados. Dentre as mudanças, a principal delas diz respeito à questão do financiamento da educação nacional. A meta 20 aprovada pela Câmara de Deputados determinava no seu texto original, que pelo menos 10% do PIB, incluindo os royalties do petróleo, deveria ser destinado ao “financiamento público da educação pública”. No Senado essa meta sofre modificação na sua redação e se refere simplesmente ao “financiamento público da educação”. Ou seja, os recursos públicos poderão ser também encaminhados ao ensino privado, fato que desmerece a luta pela ampliação do acesso e melhoria da educação pública e estatal.
Quanto às determinações presentes no PNE (2014-2024), relacionadas ao desenvolvimento profissional dos professores, foco de analise desse estudo, elas se encontram referenciadas nas metas 15 e 16 que tratam da formação e 17 e 18 que se referem às condições do exercício docente. Sobre essa questão Saviani (2014) afirma que:
O financiamento compõe com o magistério os dois pontos fulcrais sem os quais as demais metas do PNE não serão atingidos. O projeto de PNE trata da questão do magistério nas metas 15 e 16 (formação) e 17 e 18 (condições de exercício). Apesar de alguns avanços o que se prevê é insuficiente, pois não assegura a formação centrada em instituições públicas e não garante as condições necessárias à carreira docente e ao exercício do magistério. Penso que caberia ao PNE fixar metas claras que permitissem no curto e médio prazo resolver de uma vez por todas a questão do magistério. Sem isso todos os discursos em prol da melhoria da qualidade da educação pública não passarão de promessas vãs. (SAVIANI, 2014, s/p).
Dessa forma, torna-se evidente que o cumprimento das metas 15, 16, 17 e 18, preconizadas pela Lei 13.005/2014, dependerá das condições materiais necessárias ao seu cumprimento, bem como do interesse e compromisso do governo e da própria sociedade. As referidas metas, relacionadas ao desenvolvimento profissional docente serão tratadas na próxima seção.
3.4. PNE (2014-2024): O Olhar no Desenvolvimento Profissional Docente