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3. OMBUDSMANIN KURAMSAL VE KAVRAMSAL TEMELLERİ

3.4. Ombudsman Kurumunun Görev ve Yetkileri

O tempo, na prisão, é minuciosamente administrado, tendo como parâmetro de controle o “confere”, instrumento disciplinador pelo qual as presas são conferidas: elas ficam diante de suas celas, a inspetora as vai chamando pelos primeiros nomes e as mesmas têm de responder com seus sobrenomes; é a chamada “hora do confere”, que causa enorme constrangimento às internas, tendo sido, inclusive, tema de letra da música vencedora do I Festival da Canção da Mulher Presidiária, realizado em 2006, que apresentamos a seguir:

CONFERE

Aqui não dá pra sonhar eis a razão deste lamento, é que tenho que acordar logo no melhor momento. Tá na hora do confere Ta na hora do confere Desculpe mestre Buarque

52 O “confere” se aproxima do que, no jargão militar, se denomina de “revista da tropa”, o que,

pelo trecho de sua obra que agora vou levar Tá na hora do confere Ta na hora do confere

Todo dia ela faz tudo sempre igual, me acorda às oito horas da manhã. não sorri um sorriso sensual, e chamando meu nome em alto tom Tá na hora do confere

Tá na hora do confere Acordo com o barulho de portas e portões de ferro Ela entrando e avisando: Tá na hora do confere Tá na hora do confere Sonhei que era Big-brother jogava aquele jogão, fui anjo, fui líder, escapei do paredão. Tá na hora do confere Tá na hora do confere Agora no carnaval tudo foi fenomenal finalmente o meu sonho ia chegar ao final Tá na hora do confere Tá na hora do confere Antes da dispersão

acordo com portas e portões de ferro. Ela entrando e avisando:

Tá na hora do confere Tá na hora do confere Desisto de sonhar cansei de ilusões, perdi no carnaval, no Big-brother um milhão Tá na hora do confere Tá na hora do confere Aqui não dá pra sonhar eis a razão deste lamento é que tenho de acordar logo no melhor momento Tá na hora do confere Tá na hora do confere.

Observa-se que o repetitivo refrão é uma marca que define a importância desse instrumento de controle contínuo, que reitera a sua condição de presa; ou seja, é um instrumento de vigilância e de disciplina (FOUCAULT, 2004a; DAHMER PEREIRA, 2006). Bastante representativo desse controle é o

depoimento de uma presa sobre suas observações, no seu diário, sobre o tempo de um dia de prisão, transcrito a seguir53:

5h10 – Abro os olhos e desperto. Obrigada Deus por me permitir acordar mais um dia. Olho para um lado, olho para o outro, só parede de pano...(quietos)54. Olho para o chão e vejo dois corpos estendidos, estão com vida, são duas colegas que me cederam a cama (por causa da lotação as duas dormiam em uma cama só) de forma carinhosa por eu ter mais idade. O silêncio toma conta de todo alojamento.

5h40 – Levanto e vou ao banheiro. Quanta dificuldade passar por cima das duas amigas que ainda se encontram dormindo! No banheiro... faço minha higiene matinal.

5h45 – Retorno a minha comarca55. Ufa! Que sacrifício sem acordá- las! Deito-me e mergulho na saudade de meu marido e de minhas filhas.

A alvorada, no presídio, ocorre, invariavelmente, às 7h, momento em que as celas são abertas, sendo servido o “café da manhã”, composto de café e pão, podendo as presas circular apenas dentro de suas respectivas galerias e de seus pavilhões. Sobre isso, escreveu essa presa:

7h – Escuto o barulho das grades se abrindo, uma voz grita: “Olha o café!”. Que bom, pois estava com fome! Ai, de novo, terei que pegar o meu copo, pulando as meninas para tomar meu café. Nossa que café com leite aguado! Que saudade do café com leite da mamãe.

7h50 – Agora já somos oito colegas acordadas, umas com a fisionomia sorridente e tranqüila e outras com o semblante “bolado”.

56 Nossa, não agüento acordar vendo somente mulheres, que

saudade da figura masculina!

Todos os dias, as agentes penitenciárias realizam o primeiro “confere” às 8h, para garantir que todas as internas estejam presentes:

7h55 – As cortinas de grade se abrem e a voz da funcionária anuncia: “Confere! Confere!”. Desperto as duas colegas próximas e anuncio o confere para todo o coletivo. Todas nós, 30 mulheres, saímos para o confere e formamos uma fila aguardando o confere. Nossa, quanta cara amarrotada, quantos cabelos desalinhados, - a Globo não está

53 Jornal Só Isso! Ano 3 – Nº 11- Rio de Janeiro – Dezembro – 2006- pág.3. 54 Espaço envolvido com lençóis, parede de pano.

55 Comarca é um espaço, separado por panos, dentro da cela. 56 Mal humorado.

perdendo nada! A funcionária começa o confere, em suas mãos encontra-se um álbum com as nossas fotos. Ela chama pelo nome e completamos com o sobrenome57. Eu acho um pouco desorganizado, pois não é chamado em ordem alfabética. Após sermos conferidas, retornamos para dentro do alojamento, umas retornam para dormir e outras começam a se preparar para escola matinal ou para sua faxina. A monitora com o saco de pão grita na Medina58:”Olha o pão”. E distribui a etapa de cada uma. Eu pergunto as minhas colegas de comarca, Cristina e Elisângela: “Vocês vão para escola agora?” E Cristina responde que só irão a tarde e Elisangela diz que não vai poder ir a tarde: “Tenho que pegar uns pertences que minha mãe deixou na custódia.

8h20 – O silêncio já não existe mais, pois a maioria está acordada. No banheiro já existe fila para o banho e para higiene oral. Ouvimos a funcionária gritar: ”Escola!”. Escuto uma colega fazer um comentário: “Vai ter bolo na escola”. Outra pergunta: “É bolo de que?”. “Não sei, é aniversário da professora e ela vai cantar parabéns conosco. Porém elas não fizeram muito comentário porque senão muitas iriam para comer bolo e não para estudar.” Coitada da colega, fez um comentário em segredo, mas esqueceu que as nossas paredes são de pano. Vou tomar meu banho porque vou a Cooperativa fazer uma blusa para ver se eu passo no teste do trabalho.

8h50 – Todas estão acordadas, eu a Cristina e a Elisangela ficamos perturbadas, pois temos um espaço de 2x1m para dormir, trocar de roupa e outras coisas.

Somente a partir das 9h os portões são abertos e as presas podem circular por uma área maior, havendo a possibilidade de acesso delas aos pátios internos. Nessa hora, as presas que trabalham se dirigem aos seus locais de serviço, podendo as demais se dedicar a outras atividades. Eis o que escreveu, em seu diário, a mesma presa sobre isso:

9h – Uma colega grita: “A cadeia abriu!” E todas saem e eu vou em direção à Cooperativa. Chegando lá, pego a blusa na qual farei o teste. Não posso ficar lá porque ainda não sou classificada59. A

57 Vale registrar que, diferentemente do Talavera Bruce, nas unidades prisionais masculinas o

confere nominal é raro, somente ocorrendo quando há incidentes prisionais considerados graves. Em função do grande número de presos, o “confere” é numeral; ou seja, o inspetor chama pelo número do preso, e esse responde que se encontra presente. Aliás, esse é um método historicamente utilizado em alguns colégios internos e nos quartéis das Forças Armadas e das Polícias Militares.

58 Espaço para se transitar dentro da cela, corredor.

59 A presa, após chegar à unidade prisional onde cumprirá sua pena, tem efetuado um

cadastro com todos os seus dados, e ela passa a ser considerada “classificada”. Ser “classificada” lhe confere certo status, porque ela passa a poder circular por todas as áreas comuns permitidas para as presas e, além disso, o seu “comportamento” na unidade prisional passa a ser aferido de forma contínua, sendo que o “bom comportamento” gera remissões progressivas de parte da pena. Claro que essa remissão de pena, tanto como as concessões de diversas “regalias”, previstas por normas formais, são “incentivos seletivos”, para usarmos

pista60 está tranqüila, chegando a porta do meu alojamento encontro a Gringa e enquanto conversávamos ela me chamou para ir ao culto e pedi que ela esperasse para eu guardar essa blusa e pegar a minha Bíblia. Fomos para o culto e quando chegamos o culto já havia começado. Mesmo assim foi uma benção! A colega Daiana aceitou Jesus Cristo em sua vida.

11h30 – Saímos do culto. O almoço já havia sido pago61! Ficamos tristes porque pensamos que íamos ficar sem a nossa etapa! E cada uma se dirigiu para seu alojamento, pois a cadeia estava fechando. Quando para nossa surpresa a guarda grita: “Quem estava no culto pegue seu prato para o almoço”. Ufa! Que tranqüilidade, não iremos ficar com fome. Retornei ao meu alojamento, quanta poluição sonora! Todas conversavam e gritavam, o rádio tocando funk, rádio tocando louvores e mais a televisão.

Um pouco antes do almoço (às 11h30min), as presas, inclusive as que trabalham, retornam às suas celas, para o segundo “confere”, do meio-dia: 12h – Novamente o barulho das grades anuncia o novo confere!.

Após o almoço, as que trabalham devem retornar, às 13h20min, aos seus afazeres, realizando-os até às 17h. Sobre esse tempo, a mesma presa escreveu:

13h20 – Novamente a funcionária grita: “Escola!” E as colegas que estudam a tarde seguem para escola.

14h – As grades se abrem novamente e a cadeia está aberta. As colegas saem para a pista cada uma com seu propósito. Eu vou até a Cooperativa entregar o trabalho que fiz. A encarregada dos trabalhos avalia o que fiz, gosta! E diz: “Gostei e vou dar outras pra você confeccionar.” Saio e na pista uma colega comunica e convida: “Vai passar o filme Olga na Seção de Educação, quem quiser pode ir assistir.” Eu não quis ir, pois já tinha visto antes. Encontro com a Cristiane que já retornou da escola e vamos passear! Depois nos separamos, encontro-me com Alda e Mônica e vamos à cantina lanchar. Na quadra estava rolando um futebol das colegas. Retorno ao alojamento, a Elisangela estava deitada.

No fim do expediente, todas dirigem-se ao refeitório, para o jantar, a última refeição oficial do dia. Esse é um momento bastante triste, sendo que para as que trabalham na “área mista” o choque é ainda maior. Apesar dos aspectos uma expressão cunhada por Olson (1999), que objetivam melhorar a adequação do preso às normas vigentes, sem necessidade do uso das punições.

60 Parte externa, pátios, corredores, quadras. 61 Distribuído, servido.

mais amenos desta área, para as presas que trabalham ou realizam amiúde outras atividades há, diariamente, aquele “momento terrível”, das 16h50min, em que elas se despedem das funcionárias, porque é a “hora de a cadeia fechar”, e elas entram e uma parte dos funcionários e visitantes pode ir embora. Somente nessa hora se consegue sentir certa alteridade e compreender o valor da liberdade, para quem está preso. “Metaforicamente” falando, acredito que seja algo análogo à importância da saúde, que somente conseguimos valorizar, de forma plena, quando estamos doentes. Sobre esse horário, registrou a presa:

“16h – O chefe da cozinha anuncia o jantar e todas se dirigem em busca de sua “etapa””.

Após o jantar, as presas retornam às suas galerias ou alojamentos, para o terceiro “confere” do dia. Antes deste, as galerias, os pavilhões e os alojamentos são fechados, restringindo, sensivelmente, a circulação das internas:

16h50 – A funcionária anuncia: “Vai fechar a cadeia!” E todas se dirigem para seus alojamentos. De repente dentro do meu alojamento o kaô está formado entre duas colegas, a turma do deixa disso tenta acalmá-las. Ufa! Conseguiram! Ainda bem, pois o diretor da unidade estava de prontidão para invadir. Essas horas são as mais difíceis, pois todas falam ao mesmo tempo, vários rádios ligados mais a televisão.

17h – A grade anuncia o terceiro confere! Que tanto confere! Eu e a Cristiane expulsamos a Elisangela do quieto para fazermos uma arrumação, pois não dá pra arrumar com três pessoas dentro por ser pequeno demais! Amanhã a Elisangela vai lavar as roupas sujas.

Às 20h, é realizado o último “confere” do dia e as celas são fechadas, para serem abertas somente às 7h da manhã seguinte e, assim, sucessivamente, durante os próximos dias, semanas, meses e anos, numa rotina sem fim62:

62 Esse tipo de rotina monótona e estressante é um drama encontrado nas chamadas

“instituições totais”, como presídios, sanatórios, quartéis, colégios internos, conventos, etc.. Evidentemente, essa rotina é mais grave para aqueles que não se encontram nelas por opção e nem podem, em determinadas horas ou períodos, se ausentar das mesmas, como é o caso dos presos. Entretanto, os estresses decorrentes dessas rotinas afetam, também, fortemente, as pessoas que nelas trabalham. Para um estudo sobre os inspetores penitenciários do Estado do Rio de Janeiro, ver o interessante trabalho de Tânia Dahmer (DAHMER PEREIRA, 2006).

20h – As grades anunciam o quarto e último confere do dia. E continua dentro do alojamento a mesma poluição sonora, não vejo a hora de todas silenciarem.

20h30 – O alojamento está por demais agitado. Rádios e televisões altos e outro kaô formado, pois uma colega reclama de um sumiço de dez reais e um batom! Todas se agitam em um só kaô.

21h10 – Há uma queda de luz. Todo alojamento fica no escuro! E uma voz grita: “Funcionária a luz da tomada!”.

21h30 – Ainda no escuro! As funcionárias desta vez estão castigando o coletivo.

21h45 – Até que enfim! A funcionária liga o disjuntor do nosso coletivo.

22h – Enfim a colega acha os dez reais e o batom. Aproveitaram a falta de eletricidade e dispensaram o flagrante na lixeira do banheiro! 22h30 – O kaô rola sobre a quilingue do alojamento.

23h – A Monitora apaga a luz da Medina e pede para que abaixem os sons e as vozes, pois já é hora do silêncio. Esse é meu dia de hoje e de muitas outras.

Como se pode perceber pelas descrições acima, há um espaço de tempo em que é possível uma maior ressignificação do tempo; ou seja, entre as 9h e as 17h, dois períodos de alguma possibilidade de sociabilidade — entre as 7h e as 9h e no intervalo das 17h e às 20h — e, finalmente, um longo período que vai da 20h às 7h, de um isolamento bastante mais forte, que somente pode ser mitigado para aquelas que conseguem dormir sem problemas. Como veremos nos próximos capítulos, será nesse período de maior flexibilidade (entre as 9h e as 17h) que as presas irão, fundamentalmente, buscar a ressignificação do tempo, por meio de atividades do trabalho formalizado, mas também de um “mercado” informal não desprezível, que envolve a maioria das presas; uma parcela delas como vendedoras e prestadoras de serviço e, uma grande parte, como consumidoras. Além disso, atividades voltadas para o lazer, a espiritualidade e, especialmente, a sociabilidade afetiva serão de extrema importância para uma sobrevivência menos traumática na penitenciária.

Por fim, mesmo que esse controle do tempo seja, no Talavera Bruce, muito mais ameno do que o “modelo de Auburn” (de Nova Iorque) — cela individual

durante a noite e trabalho e refeições comuns durante o dia — e bastante “humanizador”, quando comparado com o “modelo Cherry Hill” (da Filadélfia), onde a regra é isolamento absoluto do indivíduo, ambos casos analisados anteriormente, não se pode esperar que essa rotina não cause sérios transtornos nas presas dessa penitenciária.

CAPÍTULO 2